Diários

2016.

20 de março.
TODO filme brasileiro do século passado que eu assisto – como SÃO PAULO S/A dos anos 60, filme lendário com Walmor Chagas, e SÁBADO, dos anos 90, que juntou uma série de gente múltipla no elenco – possui uma frasezinha do tipo: “Esse país sempre esteve à beira do abismo” ou “sempre esteve em crise”. Estamos falando de dois filmes produzidos em dois momentos políticos diferentes: um de 65 e outro exatos trinta anos depois, em 95. A boa notícia é que, a meu ver, a arte brasileira sempre seguiu em frente – talvez Nietzsche tenha alguma razão: “todas as grandes épocas da cultura são épocas de declínio político.”

2013
29 de abril

Ter entrado na faculdade de Audiovisual em 2012 foi uma decisão e experiência interessante. A primeira semana de curso foi tão intensa pra mim que eu criei um blog sobre os primeiros dias: http://aprendercinema.wordpress.com/ Poucos meses depois, com meu grupo, nós fizemos um curta metragem diferente de todos os outros do Curta Santos. Era experimental e marcante, apesar dos nossos poucos recursos. Eu nunca quis ser ator, mas participei porque estávamos aproveitando tudo o que tínhamos em mãos, e deu certo. A repercussão entre alguns professores, entre os outros colegas e depois quando o filme foi exibido num cinema lotado, era uma coisa bem nova e excitante pra mim. Foi um ótimo começo pra um garoto de 18 anos que sempre quis ser artista.

De lá pra cá, desde que tranquei o curso e decidi me mudar pra São Paulo, houveram algumas transformações. São Paulo, cidade vibrante, com uma vida noturna, os poetas modernistas, os museus, festivais e oportunidades, o pessoal da USP… Eu ficava sonhando. Conheci o ator Guilherme Vale, que me oferecia a casa dele nos Campos Elísios, no Centro, e me senti em casa. Passei a ir toda semana. Eu me sentia adulto em São Paulo e ficava desmotivado em Santos, me sentindo a criança que nunca cresceu, sendo chamado de Fefe pelas mesmas pessoas. Eu precisava de uma ruptura e não havia hora mais certa.

Hoje vou morar com outro ator, Alessandro Molina, dessa vez em uma pensão em Pinheiros. Estou com o pé no chão, conhecendo pessoas bacanas, e a tendência é melhorar. Me lembro a primeira vez que fui em São Paulo, eu era muito pequeno e uma amiga minha (ela era bem mais velha do que eu) me levou, mas recordo de uma rua com uma multidão passando, me lembro da casa dela, e lembro que no primeiro dia, à noite, eu queria voltar e chorei de saudades da minha mãe. Isso é engraçado, porque hoje em dia, com 19 anos, é exatamente o oposto: eu quero me desgarrar.

Eu vou para São Paulo numa situação incomum. Não tenho e não quero um emprego convencional. Eu quero tentar viver da minha arte, mas não de uma forma ideológica, e sim tentando meios para fazer algo bacana. De certa forma a herança que meu pai me deixou é o que tem me sustentado e acho tão bonito esse legado financeiro dele, porque de certa forma é o que me motiva a cada vez mais seguir o meu caminho e os meus princípios.

Eu sei bem o que eu quero ser: poeta, cineasta e saxofonista.

Sei que, de certa forma, tocar saxofone e aprender música é o que mais me deixa feliz e é a coisa pela qual menos tenho ambições. Seria uma espécie de hobby. Também sei que não é difícil descolar uma grana com isso. Há, inclusive, alguns amigos pelos quais eu poderia tocar junto, profissionalmente falando…

Já meu lado poeta anda lado a lado com os momentos da minha vida assim como meu lado cineasta. São as duas coisas que mais me perturbam, porque não vivo em um mundo propício para esses dois elementos, então preciso me juntar com pessoas também associadas a isso para causar algum impacto nesse mundo.

Além disso, apesar do cinema estar sendo cada vez mais promissor no Brasil, não sei até quanto posso contribuir para a arte do cinema. Não quero fazer qualquer filme, o que é fácil. Eu quero realmente inovar a linguagem cinematográfica. Estou cansado dos filmes super caros que são esquecidos e deixados de lado, ou de filmes interessantes que continuam com a narrativa tradicional.

Eu nasci para fazer cinema. Desde pequeno eu brincava com meus amigos, inventando mundos, e eles eram atores de si mesmos, inventando personagens para os mundos que eu criava. Só vim a descobrir que eu nasci para ser cineasta quando fiquei adolescente e associei essas coisas. Não era apenas brincadeira, era coisa séria, já vinha comigo antes de eu nascer, não herdei de ninguém da família.

Eu quero fazer um curta em São Paulo. Talvez faça uma trilogia de curtas, mas estou focado nesse primeiro… Já tenho os três atores ideias para embarcarem comigo neste mundo.

Minha grande ambição seria lançar o curta aos 19 anos, mas acho que isso não será possível, por uma série de questões que me perturbam: o curta é demasiado autobiográfico e eu não quero usar o cinema, é o cinema que vai me usar, e eu preciso fazer algo inovador, e não apenas sair filmando (isso é fácil). Pra falar a verdade, é uma obra sobre essa minha ruptura, sobre a minha nova vida em São Paulo.

O protagonista é um cara 10 anos mais velho do que eu, ou seja, sou eu daqui a 10 anos, ou o que restou de mim… Imagino a cena inicial: ele deitado debaixo de uma ponte. Minha câmera de cinema russa vai estar ali jogada com ele junto ao meu saxofone alto. É um cara que não deu certo na cidade grande, ou que, pelo contrário, conseguiu tudo o que queria, mas agora se pergunta: e daí?

Levando esse tema para o todo, acho que essa é a grande questão do nosso tempo: e daí? Nós substituímos a espiritualidade pelo humanismo e com ele acreditamos que se trabalharmos muito vamos chegar a algum lugar. Estamos chegando… Estamos conseguindo… Materialmente falando, as pessoas estão comprando e conquistando as coisas mais do que nunca. Mas isso cria um vazio, porque amarramos nossa felicidade onde não devia, onde ela não está. A felicidade não depende do que temos. Esse é o grande vazio espiritual deste milênio, e talvez ainda demore bastante tempo até descobrirmos que abandonar e desacreditar das religiões pode não ter sido a coisa mais certa. (Ao menos eu sou ligado à espiritualidade, e não a uma doutrina sistemática.)

Então uma das questões do curta é justamente essa. Ainda não sei se o protagonista vai ter dado errado em São Paulo. Acho isso muito simplista. O espectador vai perceber, em alguma cena, que na verdade ele deu muito certo, mas não foi o suficiente. E ele precisa agora fazer algum sacrifício em nome de algo maior e vai queimar seus roteiros e filmes, talvez nunca antes lançados, para encontrar a felicidade. Talvez, de uma forma mágica, alguém (uma bruxa ou fada) anuncie a ele, ou ele tenha a premonição, de que todos esses filmes dariam muito certo, e ele ganharia muito dinheiro e seria tratado como gênio no planeta inteiro.

É um cara que está meio que em cima do muro: assim como eu, ele abandonou a crença dos pais de que é preciso trabalhar (e no meu caso, até mesmo estudar em alguma instituição!) para se conseguir algo, ao mesmo tempo que ele vai abdicar da fama e do prestígio de fazer justamente aquilo que gosta (no caso, o cinema!)

Em resumo, é um cara que quer o caminho do meio budista, que não quer mais ser alguma coisa, que abdica das expectativas ilusórias e até das glórias concretas para buscar algo mais total e duradouro, talvez o Nirvana…

No final das contas, o filme não deixa de ser um repúdio ao cinema comercial internacional… Mas ele não se restringe apenas como uma resposta ao cinema que vem sendo feito: é uma obra bem pessoal. O que é irônico, pois, justamente por isso, combate o cinema brasileiro, que sempre foi o “cinema do outro”: o pobre, ou o criminoso, ou o policial, ou o excluído, enfim, nunca o próprio cineasta (é impensável imaginar que Fellini pudesse ter sido brasileiro e ter criado aqui o seu ‘Oito e meio’). O cinema brasileiro, enfim, sido sempre um cinema ideológico e com um pé na política, o que é empobrecedor se tratando de arte! É preciso haver poética no cinema, e não ideologia que leve o espectador a concordar com o que está tentando ser mostrado. Acho que com esse meu curta (que tem ambição de ser longa) eu volto os olhos para o próprio criador, o próprio artista, isto é, eu mesmo, e só através disso é possível dialogar com todos os seres humanos, pois quanto mais particular é uma situação, mais geral e universal ela é na realidade.

Tenho alguns rascunhos feitos, algumas ideias soltas, e várias cenas na cabeça. Vai ser fácil filmá-lo. A grande dificuldade está em botá-lo no papel e não perder a minha motivação em fazê-lo. Cinema é uma arte como qualquer outra, e para esse tipo de filme, preciso estar constantemente observando a mim mesmo e a minha vida, para que o cinema use todos esses elementos a seu favor.

Estou cansado de cineastas que vivem de um jeito e fazem filmes completamente diferentes de suas vidas. Isso não é arte, e isso é imoral. Aprendi com meus mestres cinematográficos que é preciso encarar o cinema como qualquer outra arte!

Eu realmente queria fazer esse filme aos 19 anos. Isso conta no currículo: JOVEM DE 19 ANOS FAZ SUCESSO COM CURTA INOVADOR… Mas essa é uma grande ilusão, olhando bem… E é justamente a coisa pela qual o protagonista do filme quer fugir. Eu sei, absolutamente certo, que por detrás de toda minha animação em me mudar, que por detrás de toda minha arte e ideias, existe uma fome espiritual. Isso é o que devo alimentar: minha espiritualidade.

E, pensando por um lado ainda mais maduro, minha estadia em São Paulo vai servir para resolver muitas dessas minhas questões iniciais a respeito do filme.

SANTOS, 29 DE ABRIL DE 2013 – 09:45 da manhã

1 de julho, Santos

Já fazem mais de 2 meses que não escrevo neste diário e quanta coisa aconteceu de lá pra cá! Realmente é definitivo, estou morando em São Paulo, de uma maneira que nunca imaginei. Estou mais maduro também, com o pé no chão, como eu sabia que ficaria, mas eu não suspeitava que seria desse jeito.h

Daqui a exatos 30 dias será o meu aniversário de 20 anos. Nâo vou ficar bravo nem chateado comigo mesmo pelo fato de não ter realizado algumas coisas aos 19. Pelo contrário, minha cabeça amadureceu nesse sentido, e tudo o que eu for fazer será feito da melhor forma possível.

Preciso atualizar algumas informações. Faz já algumas semanas que não falo com o Guilherme e mais tempo ainda que não vejo ele. Numa reviravolta, fui morar com o Alessandro, fui gostar do Alessandro, fui beijar o Alessandro, e dormir com o Alessandro. Às vezes sinto o que o Guilherme deve estar sentindo (ou o que sentiu) quando soube disso tudo, sentiu-se traído e com razão, mas nunca foi minha intenção, e até posso afirmar que de uma hora para outra me vi nessa “nova” vida. E, de certa forma, foi o próprio Guilherme que pediu que eu me afastasse, não sei se realmente por causa dos pais, ou por motivos pessoais dele estar apaixonado por mim.

Só sei que, assim como cada relacionamento que tenho tido nunca se repete, o Guilherme é o oposto do Alessandro. Alessandro não me mima e até mesmo já me fez chorar falando algumas verdades para mim. O Alessandro, propositalmente, gosta de me encorajar e seguir em frente. O Guilherme sempre foi quase como uma figura materna, me cuidando, e isso de certa forma não é bom para mim.

Estando com o Alessandro, me vi em novas situações. Inclusive profissionais e artísticas. Uma delas é o fato de que a ideia do curta que eu tive inicialmente precisa ser adiada. Realmente não vejo outra pessoa protagonizando que não seja o Leonardo Santiago, ele é santista como eu e sentiu na pele o que senti, esse papel é pra ele, e também já sei mais definitivamente qual vai ser o papel do Guilherme.

Porém, o que tem me perturbado ultimamente é o meu mais novo curta. Este sim vai ser o primeiro. O outro deve ser o segundo, e haverá ainda um terceiro, em que pretendo chamar um ator famoso.

No primeiro curta que eu estava pensando em fazer, o protagonista tem 10 anos a mais do que eu, mas já que de lá pra cá algumas coisas mudaram, e o Alessandro tem vontade de trabalhar comigo, é muito mais interessante fazer um curta sobre minha situação atual, por isso este protagonista deste primeiro e novo curta terá em torno de 20 anos.

O roteiro está praticamente pronto: faltam apenas alguns retoques. Ficaria muito feliz se já começasse a gravar algumas cenas com o Alessandro essa semana.

Escrevo na madrugada chuvosa de Santos, onde vim passar 1 semana para me livrar de uma suposta crise existencial-artística. Tenho lido Jung, tenho praticado meditação, tenho visto Tarkovsky e ouvido jazz. Tudo isso me motiva por dentro. Os dois livros “He” e “She” de Robert A. Johnson (imagem mais abaixo) foram fundamentais na escrita desse novo curta. Estes dois livros junguianos, bem curtos e de linguagem muito simples, foram roubados pelo Alessandro cuidadosamente numa biblioteca no centro de Sampa. Ele adora fazer isso, às vezes, e inclusive lembrar dele me bate uma leve saudade….

Para mim é muito importante fazer esse primeiro filme antes do outro inicial, porque ele é um auto retrato do meu atual momento. O protagonista Eric pode ser um pouco mais exagerado do que eu (ao menos na minha cabeça – vamos ver como ele fica na tela). Ele é um pouco obcecado pela ideia de ser cineasta. Também quero retratá-lo quase como um maníaco, sem deixar de ser irônico e cínico, como o Guido do 8 1/2 do Fellini.

Fora a figura do protagonista, dois outros elementos estão contidos no curta: a ambientação e a segunda personagem, a Anima. A ambientação é muito clara e específica: estamos vivendo em um tempo de guerra, e aparentemente o Eric está foragido do Exército, porque ele não aceita pegar em armas, ele é artista convicto, quer pegar numa câmera. Acontece que sua câmera foi roubada pela Anima.

O papel da Anima originalmente seria a Mãe, ou alguma Atriz, mas por alguns motivos (um deles foi o fato de que uma amiga próxima do Alessandro não podia fazer o papel da Mãe, e o outro por conta das minhas leituras de Jung) troquei seu papel, e agora a personagem é apenas uma faceta de mim mesmo.

“Nômade e Sedentário” é a história de um jovem que por questões forçosas precisa deixar de lado seus impulsos e desejos para tratar da sua realidade (no caso o seu filho com a Anima). Embora no início ele tenha pego a criança para poder chantageá-la, ele acaba se afeiçoando a criança e no final sente que isso lhe motiva a continuar com seus desejos de uma forma muito mais madura.

2 de julho, Terça-Feira

Sofro da doença de Leonardo da Vinci: mal termino uma obra e já quero começar outra. Mas dessa vez tive que me conter. Terminado o roteiro do curta “Nômade e Sedentário”, bateu uma vontade de já começar outros roteiros, dessa vez para longas metragens: dois baseados em ideias que o Tarkovsky tinha, mas nunca filmou, e um terceiro baseado num poema do Álvaro de Campos:

1. Um homem que ateia fogo na mulher só porque ela não diz a verdade, porque ela mente. Eles se amam muito e se dão muito bem. Eles tem um relacionamento maravilhoso, mas ela inventa coisas. Ela sai e quando volta, ele pergunta: “Onde você estava?” “Na casa de uma amiga!” Mas ele então acaba sabendo que ela não estava na casa de uma amiga, estava em outro lugar, por exemplo, no cinema. Ele não entende porque ela mente, e ela não se dá conta. Talvez por algum instinto de auto preservação… E entao ele briga com ela, mas termina por não conseguir fazer com que ela não minta. No final ele amarra ela em uma árvore e põe fogo, como Joana D’arc.
* Posso trocar a árvore por um poste na rua pra ficar muito mais próximo do espectador brasileiro.
2. Um garoto que busca o lugar onde sua mãe foi enterrada. Ele não sabe exatamente onde está a tumba. Sai com a lápide talvez nas costas ou no carro pela cidade, buscando o lugar e perguntando para as pessoas onde sua mãe morreu para poder colocar a lápide. Nâo consegue e deixa a lápide no primeiro cemitério de pobres que encontra. E se imagina que ela……
3. Um burguês amargurado, homem moderno cansado de si e de sua vida, que se depara com um mendigo também amargurado (mas não de espírito, e sim materialmente). É baseado no poema “Cruzou Por Mim” do Álvaro de Campos.

Preciso desenvolver melhor essas 3 ideias, e quem sabe não misturo elas?

Bom, vou hoje mais tarde ou amanhã para São Paulo, com duas ou talvez três cópias do “Nômade e Sedentário”. Estou mais seguro do que estava antes. E sei que chegando lá e ficando próximo do Alessandro, ficarei ainda mais feliz e seguro, porque nossa relação já se tornou profunda e íntima, e essa leve separação de 1 semana foi importante pra mim e ele vai notar isso. Gosto quando ele diz que sou a única pessoa que ele pode confiar, que ele pode se abrir totalmente, e pode contar qualquer coisa sobre sua vida, a única pessoa com a qual ele pode ser ele mesmo sem medo. E eu sempre respondo que é porque eu tenho uma mente aberta e consigo aceitar qualquer tipo de pessoa. Posso até mesmo afirmar que sou capaz de amar qualquer um.

Tenho aula de sax agora. Aprendi a tocar And I Love her dos Beatles ontem. Minha primeira música dos Beatles no sax, e gostei muito. Me alegra muito ter aprendido a ler partitura e a tocar um instrumento de música como o saxofone esse ano. Eu não sabia nada de música, e ouvir do professor que sou seu único aluno que estuda direito e ouvir ele insinuando que sou um dos melhores dada a minha dedicação e avanço…. não tem preço. Acrescente isso ao fato de que cumpri minha missão de escrever o roteiro do meu curta essa semana, e posso me olhar no espelho e me dar os parabéns!

13 de julho, Sábado – à tarde

Entre as atualizações no Facebook que comemoram o “dia do rock” e a música e o falatório de vizinhos em festa ao som alto do pagode, relembro quando cheguei aqui depois do meu retiro de 1 semana em Santos. O Alê puxou meu tapete novamente, chorei novamente, me recuperei novamente, também incomodei ele novamente, e agora estamos bens (novamente). Gravamos uma cena, no banheiro, com velas e luz apagada, e foi muito engraçado porque um dos moradores queria entrar e eu tive que falar alguma coisa do tipo: Tem Gente!, e então tive que sair com a câmera e o tripé, e por sorte ele nem ninguém nos viu.

Gravaremos uma segunda cena amanhã, uma cena do sonho de Eric. Como escreveu Tarkovsky, é realmente difícil fazer um curta, quase mais difícil do que um longa. E tenho certeza que quando ele afirmou isso, não estava se referindo a um filme de no máximo 15 minutos, como é o caso do meu. Estou muito certo de que terei que cortar algumas coisas no final do material, porque, embora o roteiro tenha 10 páginas (nos padrões americanos, 10 minutos de filme), algumas cenas vão se estender um pouco, ainda mais porque gosto da contemplação do cinema e odeio a estética dos video clipes exaustivos e cheios de cortes paranoicos e ligeiros demais. De qualquer forma, nunca se sabe e talvez eu termine o filme nessa exigência de 15 minutos e ele fique muito bacana, do modo como eu quero.

Por mais que seja um curta, algo tratado muitas vezes como inferior, tenho algumas exigências com a obra, algumas implicâncias necessárias referentes ao meu estilo: só quero adicionar alguma música se ela for diegética. Como escrevi anteriormente, o personagem principal é um duplo meu e do momento em que vivo: ele é um salmão que nada na contramão da maré, por teimosia, insistência e, segundo alguns, até por burrice. Esse auto retrato da minha atualidade é ainda mais reforçada quando paro para pensar que preciso urgentemente de um emprego aqui em SP, não só por causa do dinheiro, mas também porque preciso me movimentar. Porém isso não deveria ser desculpa. Afinal, já estou pesquisando alguns bons cursos de cinema para fazer. A questão é: realmente devo ficar dependendo da minha pensão? No final das questões, a única questão é realmente essa: a financeira.

Seja como for, tenho aquela consciência de que eu vou me embora, mas o curta ficará aí para sempre no mundo, e vou construi-lo com toda minha vontade e capacidade.

13 de julho, Sábado – à noite

É tão interessante como as coisas são… Em Santos eu sentia tédio e queria me mudar, mudei para São Paulo e me senti vibrante e adulto, mas então com o tempo voltei a ser tedioso e vadio. Foi bom, foi bom aprender isso e mais outras coisas, foi bom dar o passo para a frente, vir por vir, com sonhos e ilusões que me colocam agora o pé no chão. Mas agora, agora está na hora de novamente mudar…de si.

Madrugada de 17 de julho de 2013, quarta

Estou com saudades da mamãe: falei com ela no domingo, e não tenho ido para Santos porque as aulas de sax recomeçam mês que vem. Estou pensando em entrar em um conservatório aqui e abandonar os estudos lá em Santos. Mas volto pra lá daqui a pouco, quase no fim do mês, por causa do meu aniversário… Durante esses 2 meses ou mais morando aqui em São Paulo, tem me acontecido de tudo: alegrias, tristezas, decepções, sorrisos e choros. Pensei em desistir e voltar pra Santos, mas a palavra de alguém, ou o meu real e sincero desejo de crescer e fazer cinema, e também as milhares de oportunidades que essa cidade grande oferece, me fizeram persistir, e seguir, sempre renovado, com novo olhares, e também mais maduro. Tem sido uma alegria filmar o curta com o Alessandro, e até sinto uma pena de que não tenhamos mais tempo do que temos para filmar quase todos os dias. Sei que tenho potencial, e por isso sigo em frente. Sei também que tenho algo a dizer com este filme. Esses dias, acho que ontem, o Alessandro me disse que eu sempre preciso querer mais de mim mesmo, e isso me lembra a mensagem de Rilke para aquele jovem poeta: “Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente.”

21 de julho de 2013

Mudança de planos: o “Nômade e Sedentário” precisa ser esquecido porque participaremos de um concurso de curtas na Tela Brasil com tema específico: road movie. A coisa toda ficou ainda mais interessante quando o Alessandro, por conta de seus estudos junguianos, relacionou a estrada como um caminho rumo ao Self. Parece que ficará muito mais condensado, e trabalhar com prazo é muito mais excitante e nos deixa mais responsáveis e profissionais. Eu topei!

23 de julho de 2013

Jesus deixando sua mãe e sua casa rumo à sua missão, à sua entrega e sacrifício, espirituoso, melancólico, um pouco nostálgico, arte pura e quase impessoal, ascetismo, rumo ao desconhecido e à espiritualidade, ao encontro de si mesmo e da totalidade de tudo e de todos. Morte e renascimento. Terra e flutuação. Sacrifício e missão artística em prol de tudo e de todos.

O diabo em seu riso perverso, sentado em chamas e exibindo seu lado negro e infernal. A individualidade do indivíduo, rejeição ao todo, fortalecimento da própria vontade; Ego. Lúcifer humanizado, com seus motivos e ritos, achando graça e prazer na matéria e na terra. Na sua missão, não é ele que se sacrifica em prol dos outros: é o outro que oferta a alma para o demônio.

26 de julho

Delacroix: Ovídio entre os citas: um dos quadros que me
transportam no tempo e no espaço

Toda pessoa tem pelo menos umas 10 pessoas dentro de si, por isso nunca se pode julgar alguém na sua totalidade. Temos ao menos 2 personalidades fortes com as quais convivemos. Gosto de praticar essa observação comparando o Alessandro comigo. As suas duas personalidades mais latentes são parecidas com a minha, mas seu lado mais prático parece estar dominando a fase atual da sua vida. O meu lado nº1 fala com um vendedor, compra alguma coisa, beija, vai fazer a comida quando sente fome. Ele é mais imediato, correto, simples, se preocupa quando o dindim tá acabando e guarda algumas memórias. Mas meu nº 2 é diferente. Ele é um ancião, ouve Beethoven, lê Hamlet e sente-se muitas vezes deslocado do mundo, como um alien ou uma pessoa do século 19 ou mesmo do Renascimento. O número 1 diz que o número 2 é megalomaníaco, e o número 2 responde dizendo que ele é pobre de espírito: vai morrer e não vai deixar nada para a eternidade. O número 2 se transporta no tempo quando assiste um filme antigo ou quando olha um quadro de 5 séculos atrás, por isso acho que ele é atemporal, está fora do tempo e do espaço. Não é ele quem escreve esse texto… Não sei se é o número 1, ou o número 3, ou a Consciência. Sei que me sinto menos Nando quando estou agindo como o número 2, me sinto mais antigo, um cadáver ambulante que já viveu neste mundo tempos atrás. Esse meu eu nº 2 realmente é interessante, é ele que me puxa para as artes e me faz atravessar as madrugadas, mas ao mesmo tempo ele é levemente preguiçoso e tem pouca atitude na vida. Um momento. Quem é que acha isso dele? Com certeza o nº 1. O nº 1 é quem acha isso do nº 2. O nº 2, como se vê, é propenso ao ócio, e não tem uma opinião formada sobre o nº 1. Pra dizer a verdade, ele é quase indiferente a tudo e a todos: sua única interação com outro ser exterior a ele é olhar nos olhos fundos de um gato qualquer que posso encontrar na rua… O nº 1, por sua vez, sente afeto pelo gato e quer levá-lo pra casa e, além disso, se incomoda com o número 2 e se desespera quando ele domina minha totalidade. Isso acontece com frequência. Não sei se sou feliz dando mais forças ao número 2 que ao número 1, mas sei que quando estou com este último sinto a vida pulsar mais forte dentro das minhas veias, enquanto que os dias se tornam mais monótonos, cinzas e atemporais quando assumo mais o número 2.

Na minha imagem mental, surgiu o Empire State sendo demolido,
porém minha consciência, provavelmente de forma errônea,
associou a fantasia ao filme do King Kong, como parte
das minhas preocupações cinematográficas.

Sei que estou morando em São Paulo, no número 444 da Cardeal Arcoverde, que meu nome é Fernando, que estou estudando saxofone e que desejo fazer cinema, e tenho consciência dos outros membros da pensão e da minha família em Santos, onde nasci, mas às vezes sou apenas uma folha varrida pelos ventos do espírito. Sei que me impus que devo terminar o roteiro do meu curta hoje mesmo, para começar a filmá-lo amanhã, mas neste instante vejo certo interesse em me afundar no meu próprio inconsciente e ver que imagens ele me traz. Obviamente, já que meu processo é influenciado por Jung, preciso inicialmente de um(a) mediador(a), um(a) mensageiro(a), uma vez que não estou preparado tampouco maduro o suficiente para interceder diretamente com as fantasias que possam surgir. Agora pouco pedi que a anima me enviasse alguma imagem, fechei os olhos e não obtive sucesso algum: me surgiu uma imagem disforme, pouco nítida. Eu não quis ir mais fundo para enxergar melhor a imagem e preferi pedir que um outro mediador, talvez o animus, me dissesse algo. E surgiu a imagem do Empire State entre diversos outros prédios. A princípio pensei que fosse uma das Torres Gêmeas, e nessa fantasia o enorme prédio caía depois de uma nuvem de fumaça como uma explosão envolvesse o seu topo. Pensei no filme do King Kong, mas principalmente no fato de que esse prédio pode significar a minha força e como me sinto fraco em determinados momentos. É de se considerar que eu adentrei nessa fantasia pedindo alguma resposta ou imagem sobre o atual momento que estou vivendo e toda a sorte de dúvidas e incertezas pelas quais passo estando nessa cidade.

Madrugada de terça-quarta feira, 14 de agosto

São quase 5 da manhã, acabei de assistir o Martirologia no DVD da sala em Santos. Devo ir dormir, acordar cedo e entregá-lo para o Curta Santos. Sim, terminei. Missão comprida? Ainda existem outras coisas (várias outras coisas) para escrever sobre o processo de criação – algumas delas diz respeito a mim e ao Alessandro e estão gravadas em alguns vídeos, erros de gravação, “bastidores” (coisas engraçadas, até mesmo quando é sério, fica engraçado, e a gente se mata de rir vendo). O filme tem 7 minutos e pouco – já escrevi antes que a intenção era ter uns 15? Não deu, por causa do concurso do Tela Brasil. Mas ao mesmo tempo, revendo o curta, sinto que ele se sustenta, ao menos dentro de mim, e que ele dá o seu recado em poucos minutos: penso que este é o grande desafio de todo curta. Sem contar as imagens pelas quais me orgulho de ter feito e que, ao menos na minha cabeça, são memoráveis:

2012. Santos. Faculdade de Cinema e Audiovisual.

27 de outubro.
Ual! Quanto tempo! Muita coisa aconteceu desde o último post, dentro e fora da universidade. Mas vim aqui deixar um simples recado para mim mesmo (a título de memória, quando um belo dia eu resolver voltar a essa página para ver o que escrevi no passado) e até para quem for lê-lo: por motivos pessoais (depois de muito pensar), e um pouco por motivos financeiros (pretendo investir meu dinheiro em outras coisas), tranquei a faculdade nas férias de julho 2012. Bom, Kubrick dizia que o melhor ensino de cinema é simplesmente pegar uma câmera e fazê-lo. Mas não foi somente por isso. Se você quer fazer uma faculdade de cinema ou audiovisual, faça. Ela vai abrir seus horizontes, te deixar próximo de pessoas com sonhos e desejos parecidos com o seu, e oferecer muitas possibilidades de carreira, profissão, de contatos importantes. Possibilidades bem bacanas. Eu que o diga. Em um semestre de faculdade, participei de duas produções audiovisuais, uma delas exibida em uma video instalação. Foi muito bom, aprendi bastante. A outra foi um curta em que eu participei como ator, embora não tenha nenhuma pretensão de vir a ser um. Nosso curta foi exibido no Roxy 5, durante o Curta Santos. Portanto, saio de forma satisfatória, talvez eu volte, quando me sentir mais preparado. No momento estou com outros projetos, que envolvem criação de jogos e histórias em quadrinhos. E livros, claro… Mas o cinema é minha paixão. Por isso, além de ter comprado vários livros e coleções de filmes durante esse tempo pós-julho, comprei a trilogia d’O Poderoso Chefão, do mestre Coppola, que eu (pasmem) nunca tinha visto. Inclusive, ainda hoje, no momento em que escrevo essas palavras, não assisti os três filmes, pois pretendo ver os três num mesmo dia (uma refeição de manhã, outra à tarde e a última à noite) ou em três dias seguidos. Atrás da luva que abriga os três volumes, vem escrito, por alguém da Revista Veja: “VALE POR PELO MENOS UM SEMESTRE NA FACULDADE DE CINEMA.”

Depois dessas considerações, estou quites com o universo. Amém. E viva o cinema!

17 de fevereiro.
Hoje é sexta feira!!

Não teve aula no Santa, então a rua ficou vazia, e livre pra mim passar. Até estranhei, os bares também não estavam cheios, foi menos gente até na minha sala. Normal… E teve só 2 na Unimonte, de Sociedade e Cultura. Rolou um debate entre eu, o Josynaldo e o Fabrício, colegas do meu grupo de TIDIR, e ainda mais uma menina, a Ana Cátia, que quis fazer com a gente. Foi muito bom conversar com eles, e ela é super espontanea, simpática e sempre traz boas ideias. Gostei dela e ela gostou de mim. A prof. pediu algumas questões (talvez no futuro eu ponha aqui), mas que, resumidamente, pretendia que falássemos algumas características da sociedade, pontos positivos, negativos.

Nosso grupo, ao contrário dos outros, focou em características mais primitivas, mais gerais, mais básicas, e instintivas: a necessidade de um líder, de política, e que toda sociedade tem atividade (seja um trabalho remunerado ou não, que beneficie um individuo e/ou o grupo inteiro). Os outros grupos da sala focaram-se na sociedade atual, e foram muito mais superficiais. Meu grupo tentou mapear características que estivessem presentes nas sociedades mais primitivas e que ainda existe na nossa sociedade, independente de sua cultura.

Mas o que realmente quero deixar marcado aqui é que uma hora estavam discutindo se a educação deveria ser entrada no meio das características e, para tirar um pouco a ideia do grupo de educação intelectual, escola, sala de aula, eu falei: um bebê é nada, é uma coisinha fofinha, mas aí é preciso da educação dessa sociedade (que inclui os pais, claro, pois eles são transmissores da cultura). Educação pra que? Educação para ser. Ponto final. Mesmo sendo uma educação intelectual, religiosa, é sempre para que aquele ser seja alguma coisa, geralmente alinhado às propostas daquela sociedade. Ás vezes eu tenho esses momentos de iluminação. A Ana pegou o caderninho dela, adorou minha frase, anotou e colocou meu nome, dizendo que eu era poeta. Também sugeri que a reprodução é uma das características da sociedade, ela garante a continuidade da sociedade, e todo mundo riu quando eu disse que a própria natureza apoia a reprodução, caso contrário não faria com que o sexo fosse tão gostoso…

Depois da segunda aula, enrolamos um pouco no recreio (fiquei conversando com o Josynaldo sobre nosso TIDIR), e acabei indo embora depois que soube que não ia ter o André (afinal ele só é orientador, não professor, não tem matéria).

Então, voltei pra casa, comi pizza, amanhã vou ver e comprar minha(s) bolsa(s) que levarei pra faculdade… E ai vem o Carnaval!! Ainda tô pensando se vou ir pra facul quinta e sexta. Possivelmente sim, pois parece que alguns do meu grupo vão. Veremos… até mais!

16 de fevereiro.
putz, combinei que hoje eu iria comer uma pizza com a tia marlene depois da aula e só voltei às 2 da manhã (agora são 3 e meia da manhã), então estou com sono, tô indo dormir, amanhã posto sobre a aula de hoje… (só pra registrar: voltei da tia marlene com uma máquina de escrever do meu pai e ela se mostrou muito feliz pela minha felicidade de estar fazendo faculdade).

mas pensando bem posso adiantar algumas cositas bem resumidamente. teve a primeira aula de sociedade e cultura,com a prof giselle soares, que não gostei muito, uma pena, porque a matéria me interessa bastante, mas ela (a professora) é lerda e brochante… teve outras 2 aulas do godoy (ou melhor, Godoi, mas agora vai ser difícil me livrar do y), de teorias da comunicação, e o cara falou sem parar pra respirar (uma hora ele abriu a porta e foi tomar um pouco de água — senão não dava….) mas eu tenho pensamento rápido e acompanhei tudo. tudo o que ele disse, sobre senso crítico e religião, eu já sabia, tirando uma ou duas coisas. postarei amanhã…

ele também forneceu uma boa bibliografia que eu vou pesquisar quando a biblioteca abrir depois do carnaval.

até lá….

Pós-edição do dia 17 de fev.: na aula do godoi (muito agitada, diga-se de passagem), ele escreveu na louza que o início da modernidade começa em 1456 com a Bíblia de Gutemberg (inclusive disse que a disseminação de conhecimento e informação proposta pela tecnologia de Gutemberg naquela época iria simplesmente contra os princípios da Igreja, então ele também empreendeu a primeira grande estratégia de marketing da humanidade, disseminando a própria palavra dessa Igreja, a Bíblia, assim não seria enforcado, nem queimado, nem julgado — que cara mais sacana e esperto!). A modernidade, segundo ele, também se inicia em 1517, com as 92 teses de Lutero, que mudaram bastante o pensamento social e religioso até então.

O godoi meteu o pau na religião do Cristianismo ou, pra ser mais específico e menos geral (pois eu já sei de antemão que sempre houve muitos grupos distintos dentro do Catolicismo), na Igreja Católica que reinava naquele tempo, com seu sistema de detenção do saber, e etc… Mas o prof não disse nada do que eu já não sabia, que a castração e a censura de todos os prazeres fizeram o homem se inibir e servir a outro, e que somente o SENSO CRÍTICO pôde barrar isso. Um dos alunos ali presentes disse algo extremamente novo pra mim: parece que as universidades nasceram apoiadas e construídas pela própria Igreja, então, de certa forma, ela própria contribuiu para o seu próprio declínio ao passo que abria meios de debates, ensino e crítica (embora, e essas são minhas palavras, as primeiras Universidades tinham a simples função de doutrinar segundo aquela visão estreita dos católicos — nunca me esquecerei dessa imagem medieval: http://www.csupomona.edu/~plin/ls201/images/god_geometry_big.jpg — parece que tenta nos ensinar geometria dizendo que, acima de tudo, Deus, ou uma imagem à nossa semelhança, é quem utilizou do compasso pra fazer nosso mundo).

Eu já tinha esse SENSO CRÍTICO antes de entrar na faculdade. Pra mim, por exemplo, não existe “culpa”. É um conceito que é tido como natural ou moralmente correto, mas que não existe no ser humano. E, pensando melhor agora, essa minha ideia se alinha com a ideia do godoi, segundo a qual o instinto humano é o de não pensar duas vezes, fazer e pronto. Não gostar de alguém, desembainhar a espada e degolar. Sem culpa, sentindo-se aliviado e feliz por isso (por mais que nos doa saber como funcionava a vida dos nossos antepassados bárbaros). Então a moral religiosa bloqueou muito essas coisas e nos censurou muito (e não com palavras de paz ou zen, mas com a figura de um Deus demoníaco que pode te castigar muito se você for contra ele), então nossa felicidade foi ficando cada vez mais reprimida.

E é aí que ele vai dizer que, segundo a antropologia, a cultura é a oposição do natural. Faz sentido. Por outro lado, não sei se alguns antropólogos concordariam comigo, mas se pegarmos alguma tribo indígena muito alinhada e que respeita muito seus instintos, não deixa de ter uma cultura que apoie esses instintos, então cultura e instinto andariam lado a lado. São coisas que fico pensando depois da aula…

Aí o godoi nem terminou onde ele queria, que era na revolução industrial e na revolução francesa. Mas terminou dizendo que houve uma virada e aí a Razão passou a ter soberania e o teológico caiu bastante por terra. Isso é verdade, mas a censura faz parte do ser humano. Hoje a ciência castra muita gente também, e quantas vezes nós deixamos de comer um belo prato delicioso porque podemos engordar? Isso barra muito a nossa felicidade, então essas coisas nos fazem concluir que o ser humano pode usar meios diferentes pra transmitir sempre as mesmas mensagens..

De qualquer forma, a ciência trouxe com ela coisas maravilhosas, o próprio debate e a busca. O ser humano praticamente se reinventou, antes ou era iluminado ou era pecador, agora ele pode ser várias coisas e ainda está vazio, precisa se encontrar, precisa debater.

Mas no início da aula gostei de um desenho que o godoi esboçou na lousa, era mais ou menos assim:

+ º

, em que + seria nós e º uma ideia de nós. Então existe essa dualidade no ser humano. Nas palavras sábias do godoi, “somos o que está fora da gente”, por isso o segundo símbolo está fora do primeiro. Tanto que, usando um belo exemplo dele, se estamos morto, nossa família olha nosso corpo mas ainda nos vê ali (um desconhecido viria somente um corpo). E esse desconhecido vê a realidade, enquanto os familiares vêem somente uma ideia do corpo, mas na realidade não há mais consciência, espírito, mente, ali. Então existe essa individualidade e um significado dessa individualidade. Tudo no mundo tem um nome (minha prof Margareth da 3ª série já dizia isso) e mesmo que não tenha, o ser humano atribui um na hora (como a letra feia do godoi na lousa: a gente olha e diz: “que garrancho”, “que feio”, “parece uma minhoca”, enfim…)

É aí que ele diz: a grande maldição do ser humano é atribuir significado às coisas.

Isso é inerente a qualquer pessoa e faz parte do ser humano. Já li muito sobre isso e, nos meus estudos de ideologia, também aprendi bastante sobre interpretação, ou seja, uma coisa pode ser isso pra aquela pessoa, enquanto que pra outra pessoa significa aquilo, enquanto que para uma terceira não significa nada, enfim, até o infinito (inclusive já escrevi um conto ainda sem título sobre isso, e que cita uma região fictícia chamada Hiperião)

Outra ideia: pro Godoi, já não estamos mais numa era tecnológica, mas na Era da Simulação, ou do simulacro, embora a tecnologia sirva de meio pra isso… Esse conceito é interessante, e tem tudo a ver com o que li sobre Jean Baudrillard (que inclusive é um dos pensadores prediletos do professor).

Ele também terminou com esse curioso esquema:

Outras anotações no caderno: a palavra mídia, que só é usada com esse significado no português brasileiro; mass mídia, mídia de massa, medium, que vai fazer surgir a famosa palavra no Brasil médium, ou seja, aquele que serve de meio entre o espírito e o papel. Ou seja, de toda a aula, esses termos foram as únicas coisas que aproximaram as palavras do godoi com o curso de Audiovisual ahahaha. De qualquer forma tudo serve como base pra gente.

A Bibliografia Básica que ele colocou:

* WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação
* MATTELART, s. & M. História das teorias da Comunicação
* LIMA, Luiz Costa. Teorias da Cultura de Massa
* Etiéne de la Botié. Discurso da Servidão Voluntária (diferente dos 3 anteriores, este é mais social, e fala sobre o assunto que o prof desenvolveu, e por que existe uma falta de SENSO CRÍTICO por parte de algumas pessoas na sociedade que seguem o rebanho)

e… pra finalizar… o próprio livro do godoi: GODOI, C. Os sentidos da violência: TV, celular, e novas mídias

15 de fevereiro.
Nossa, cheguei em casa felicíssimo. Até a comida da mamãe ficou mais saborosa. Mais feliz que os dois dias anteriores. O sentimento nem é tanto pelas aulas ou pelos professores (hoje nos foram apresentados dois outros — o André, que será orientador do nosso TIDIR – trabalho interdisciplinar, e a Helena Gomes, de Interpretação de textos, língua portuguesa, literatura, criação de história, gramática, enfim…)

Os dois professores não me animaram tanto quanto os outros dois dos dias passados (eles parecem mais rígidos, enquanto os outros dois eram mais liberais e malucões). o André, no entanto, tem boas sacadas e rende boas conversas. Mas o que realmente me deixou feliz é que na aula do André formei meu grupo para o TIDIR e só o fato de já ter me enturmado me deixou bastante feliz. E muitas coisas engraçadas rolaram. Por exemplo. Embora eu tenha sido nomeado o líder do grupo (aquele que irá representar o grupo diante do professor), quem realmente nos deu uma base, um planejamento e uma segurança foi o Josinaldo. Ele é uma figura, tem uns 43 anos, é baixinho, quase careca, e conversa muito. Dá pra ver que ele ama o que faz e no intervalo de ontem (segundo dia) tive um ótimo papo com ele (ele ama o Boni — diz ter todas as entrevistas dele e que ele foi quem revolucionou a tv brasileira — e também ama cinema.) Além disso temos no grupo o Fabrício e o Murilo (odavirp e oan golb etste euqrop ,oan ?sol-agep oreuq euq e sohnisotsog meb siod so iehca euq rezid osicerp).

Nosso grupo teve boas ideias logo de cara. Isso é o máximo. Ninguém do grupo eu tinha conhecido antes pelo Facebook (com excessão do Alessandro, que no entanto não foi hoje). Isso é legal, porque não gostei de nenhuma das pessoas que eu tinha conhecido antes no Facebook, me decepcionou porque também criei expectativas (senti que ocorreu o mesmo em relação a elas comigo), então fiz amizades com pessoas que gostei no grupo.

Anotações no caderno: foram muitas, não foi digitar aqui não… mas posso adiantar que fiz anotações do TIDIR, que será uma vídeo-instalação sem usarmos nenhum equipamento da universidade, apenas o nosso (meus companheiros do grupo parecem ter alguns bons equipamentos, o que já me deixa mais seguro). A vídeo-instalação precisa ser interativa. O tema vai ser “O Homem Contemporâneo” e o prof. deu duas dicas bem legais pro meu grupo: talvez esse homem contemporaneo consiga fazer hoje 2 coisas ao mesmo tempo e isso está ligado a internet; ao mesmo tempo, esse homem contemporaneo talvez não seja tão original, pois costuma copiar e colar informações. Nos próximos dias vou postando o que temos pensado e criado (agora preciso criar um grupo no Yahoo para armazenarmos toda a pesquisa preliminar do que seria esse homem contemporâneo), pois ainda dá tempo: a apresentação do trabalho é só pra primeira semana de Junho e ainda vai rolar muita orientação. De qualquer forma, é bom lembrar que o primeiro papo e impressão do grupo já foi demais, todos tem ótimas ideias e o Josinaldo tem uma suíte de programas que, segundo ele, é maravilhoso pra edição, HD, etc. e etc…

Também vou deixar uma lista dos livros indicados pela prof. Helena Gomes (e que quando a biblioteca da facul estiver criada, vou lá dar uma pesquisada):

* O Poder do Clímax – Luiz Carlos Maciel
* Manual do Roteiro (embora tenhamos no segundo ciclo, se não me engano, uma aula só de Roteiro) – Leandro Saraiva/Newton Canito, Editora Conrad
* A Jornada do Escritor – Chritopher Vuller, Ed. Nova Fronteira

Outra coisa legal que precisa ser registrada: o legal de fazer um curso desse é que voce encontra uma galera legal de mente aberta, que AMA o que faz (ninguém lá, na hora de se apresentar, disse que nao gostava — apenas uma disse que tava lá porque os amigos falaram que tinha tudo a ver com ela) e tem gente que como eu sonha ser diretor de cinema, tem ator, atriz, então voce já entra em contato com pessoas legais com que posso trabalhar no futuro… Sem falar que esse TIDIR aí é muito mais do que um trabalho de faculdade: ele é um trabalho que vai fazer parte do meu portfólio (como todos os próximos trabalhos).

Vamos em frente… Faltam poucos dias pra semana de carnaval e tô querendo muito viajar pra voltar com pique total.

E pra terminar… fui ouvir o “Low” do Bowie inteiro (http://www.youtube.com/watch?v=j3LykrFs8C0) com o novo fone de ouvido poderosíssimo que comprei na barraquinha aqui em frente e que usarei pra escutar musica alta à noite. Uhull!

14 de fevereiro.
Hoje foi meu segundo dia de aula (14 de fevereiro, 2012 — mas estou escrevendo o post depois da meia noite). Foram nada menos do que 4 aulas de Linguagem Audiovisual, com a prof Raquel Pellegrini. Cansativo, mas valeu a pena. Reforçando o que o Prof godoi disse no dia anterior, ela nos instigou dizendo que precisamos fazer a diferença, que precisamos ir na contra mão, fazer algo diferente do que está se fazendo na televisão, no cinema, em todos os meios, atuais, embora (ela deixou isso claro) utilizemos as mesmas linguagens.

Ela também nos mostrou alguns vídeos de alunos dela. Um deles (prefiro eliminar esse logo de cara) era de um aluno que foi pra Moçambique com uma câmera da própria Unimonte e fez praticamente tudo sozinho. Não vimos o filme todo, pois é longo. Outro vídeo era institucional (os alunos não quiseram cobrar nada da empresa, mas o vídeo é usado oficialmente por ela), outro bem documentário mesmo, sobre uma inversão de tarefas maravilhosa (talvez tenha sido meu preferido): foi proposto a um grafiteiro pintar um quadro e a um pintor grafitar um muro. O mais legal é o conceito desse ultimo. Não era video, era foto. Então as fotos iam passando tipo slide enquanto as vozes dos dois “personagens” ficava de fundo. Outro video era como se fosse um programa de culinária (bem engraçado por final, e que me deixou com fome…)

Todos, enfim, tinham essa característica: retratavam a realidade, ou certo ângulo dela, não era ficção; todos eram muito diferentes, mas usavam a mesma linguagem. Porém, penso que o que fica de mais importante, no momento, é o novo ponto de vista que adquiri hoje. Contarei mais detalhadamente:

Eu tinha preconceito com reality shows e alguns programas jornalísticos, entretanto, contando a experiência de ter assistido o reality “Mulheres Ricas” da Band, a prof disse que nos primeiros momentos achou aquilo horrível, observando a vida idiota daqueles mulheres, mas depois de algum tempo passou a prester atenção na forma como aquilo era sendo mostrado, a linha narrativa, a técnica, e achou fantástico. “É preciso assistir coisas boas e coisas ruins”, ela disse, “até para se criar um espírito crítico e desprezar aquilo que você não gostar.”

É preciso sair da superficialidade do conteúdo daquilo que está sendo mostrado. É apenas o conteúdo. E este conteúdo, é verdade, pode ser bastante desprezível, mas a forma como ele é passado pode ser maravilhosa. Essa forma inclui diversos elementos, como o corte, a edição (principalmente), a direção, a cronologia narrativa. E, partindo desse princípio, o reality “Mulheres Ricas” realmente é ótimo, apesar das protagonistas serem fúteis, maçantes, vazias.

Esse raciocínio abriu minha mente. Nunca mais assistirei uma produção audiovisual (seja na televisão — um simples comercial, até um grande filme) sem pensar nisso. Isso também tem a ver com outra coisa que a Raquel também disse, um videoclipe musical pode ser ótimo apesar da canção divulgada por ele ser péssima, e o contrário também é muito possível: um clipe horrível suportando uma canção ótima.

Mais uma vez, repito: esse raciocínio abriu minha mente e jogou no lixo vários preconceitos meus. A partir de agora irei assistir tudo aquilo que antes eu não assistiria. Deixarei me levar pelo conteúdo, mas se ele não me agradar, tentarei focar nas partes técnicas em que ele me é mostrado. Não vou ignorar aquilo que dentro de mim simplesmente não gosta de assistir, mas a partir de hoje minha mente está aberta para entender a estrutura em que aquilo é mostrado. Pode ser genial apesar do conteúdo.

Isso me faz pensar em algo que não foi discutido, mas ok, a faculdade não fornece tudo, apenas fornece insights, você tem que correr atrás de mais coisas, e que é o seguinte: a estrutura e a técnica de uma produção audiovisual muito possivelmente se difere de seu conteúdo porque são pessoas diferentes que lidam com cada uma dessas responsabilidades. Isso vai de encontro com outra coisa fundamental dita pela prof: é uma profissão em que dificilmente você fará tudo sozinho.

Inclusive ouvi algo que nunca tinha escutado antes: sem falar o incrível número de pessoas que se envolvem em construir algo, desde a parte técnica até a artística, nem mesmo o público, ou o espectador, de qualquer produção audiovisual, pode ser um só. Tem que ser mais de um, para haver debate e troca de interpretações sobre aquele produto.

Por fim, deixo um conselho da prof Raquel: para se produzir algo (como em tudo que os profs falam, eu penso em cinema) é preciso pensar e planejar.

As minhas anotações no caderno:
Trilha sonora -> não é somente a música de uma produção audiovisual, mas qualquer som que não for fala. Embora não faça parte da trilha sonora, o silêncio pode ser arrebatador numa cena e dizer mais do que mil palavras ou sons, ao mesmo tempo que uma simples e clássica tela negra possa significar muito.
Edição -> ela não é puramente técnica, precisa de uma sensibilidade; de um senso que compreenda começo, meio e fim.
Cinema mudo -> em geral os planos eram apenas abertos, como se assistíssemos teatro.
“stop motion”, “arca russa” (filme), “assistir o filme ‘o artista’”, “menino do mamilo”, “santos finish”

13 de fevereiro.
primeiro dia de aula: segunda, 13 de fevereiro de 2012; escrevi o post depois da meia noite

Como estou escrevendo no dia seguinte (comecei o blog hoje), deixarei de forma bem resumida o que ficou nesse primeiro dia de aula com o prof godoi de Teoria da Comunicação. Como assim, preciso falar do trote? Tenho certeza que não!!! Esse não é o blog mais indicado. Mas então, por incrível que pareça eu gosto de teoria. Talvez as pessoas não percebam, mas a teoria se debruça sempre sobre a prática, então é como se ela fosse a alma, o espírito, e a prática é o esqueleto — ou talvez seja o contrário.

Bom, o godoi deixou bem claro que seu século predileto é o XIX, até porque foi onde começou a surgir a comunicação como conhecemos hoje: foi onde inventaram o telefone, o cinema, e diversos modos de comunicação. Entretanto, ele não deixou de dizer que, de certa forma, somos homens melhores que os homens daquele tempo: mais saudáveis, com uma vida mais prolongada também.

Sobre debate, ele deixou bem claro que, quando formos debater, é importante que se foque em certa escola ou linha de pensamento. Por exemplo, um debate sairá de foco e será desvirtuado se um dos interlocutores estiver falando de determinado assunto com um ponto de vista religioso e o outro, por sua vez, sob um ponto de vista social ou antropológico. Não será um debate muito produtivo, não haverá troca de ideias, a menos que um aceite o ponto de vista de outro sem rebatê-lo como se fosse falso.

Ele também discorreu um pouco sobre liberdade, dizendo que não é possível ser totalmente livre: estamos presos pelas línguas, Mas é a partir disso que me questiono: mesmo estando encaixado em certos padrões ou formatos já existentes e reproduzidos antes por outros dentro do espaço e do tempo, não é possível experimentar liberdade? Seja criando uma nova palavra… Embora essa nova palavra derive de uma antiga e já usada, o que por si só já seria reduzir certa parcela da sua liberdade.

Também falou sobre SENTIDO, ou SENTIDO DE VIDA. Nós, seres humanos, temos isso e somos os únicos animais que temos isso. Por que? Segundo ele, porque sabemos que vamos morrer. Um cachorro não sabe que vai morrer, então vive por sua subsistência. O ser humano, ao contrário (essas palavras são minhas), pode passar um dia inteiro sem comer apenas por causa de uma super ideia que acabou de ter (para desenvolvê-la ainda mais). Então, disse o godoi, você faz tatuagem para ter sentido de vida, ingressa na facul pra ter sentido de vida, coloca brinco (lembrei do meu nessa hora) pra ter sentido de vida.

Não quis participar do trote, embora insistissem. Minha escolha (de ir pra casa) não deixa de ter sido uma forma (entre tantas outras) de também acrescentar sentido à vida. Aff, que nerd….!! ou não.

Obs.: uma coisa que o godoi falou que vale a pena ser lembrada. que lá não estão criando peões. não estão criando técnicos. nem máquinas. ao contrário de qualquer curso técnico do assunto (eu já pensei em fazer um), querem criar cidadãos, pessoas críticas, livres, com vontade e ideias.

15 de fevereiro: hoje, chegando da facul, falei à beça com minha mãe e me veio a ideia de criar o blog. estou entusiasmado. espero que sirva para outros internautas. em poucas palavras: criei esse blog com o intuito de relatar o que estou extraindo de cada dia de aula do curso de Audiovisual da facul (quero ver se levarei a frente depois dessa primeira semana — inda mais porque é seguida de carnaval ahahaha), mas o principal objetivo mesmo é que estou criando esse blog pro futuro. sério. mesmo. quero daqui a uns 6 anos, 20 anos, 1 mês, voltar a ler essas palavras, igual a li um blog que eu tinha criado em 2004 (tendo então uns 10 anos) e me espantei. quero me espantar novamente. é divertido ver como mudamos. então nem precisa de divulgação nem popularidade, é algo mais pessoal — se alguém puder tirar proveito disso, legal. anyway, é uma forma de registrar o que estou aprendendo. e não é pouco (ainda mais por hoje ter sido o segundo dia de aula — quanta coisa aprendi e desaprendi em tão pouco tempo! esse ano promete.)