Sobre meu pai e nossa última conversa

ainda me lembro como se fosse hoje
da última conversa que tive com meu pai aqui na Terra:
ele estava sentado na sua cadeira da sala em frente à TV,
vencido pela hidrocefalia
(pancadas na cabeça de tanto jogar bola na praia?)
ou pelo Parkinson, ou seja lá o que tenha sido,
porque nem mesmo os médicos conseguiram explicar e entender
(simplesmente receitaram remédios que
ou o deixavam bem da cabeça mas imóvel no corpo
ou mal da cabeça e bem do corpo,
recebendo sempre ajudas minhas,
da enfermeira
e da minha madrasta
– aliás, uma vez ele escapou escondido dela e foi correndo que nem criança ver minha mãe, mas isso é uma outra história),

o Sol de Santos entrava forte pela janela,
ele estava todo iluminado,
ainda que eu pudesse sentir sua profunda tristeza
de não poder se mexer, levantar, logo ele, homem sempre ativo,
e então ele rompeu o silêncio daquele dia e disse:

“Eu morri, morri, estou morto”,

e eu, mesmo sem saber se ele estava falando consigo mesmo
ou comigo
ou com ambos nós dois, pois estávamos a sós, lado a lado,
mesmo assim respondi:

“Não, você está aqui comigo, eu estou te tocando, não está vendo?”,

mas tudo o que ele dizia era: “Não, eu morri, morri”

e eu respeitei sua resposta e não insisti,
porque ele sempre gostava de dizer, orgulhoso:

“Eu vivi! Eu vivi!”,

referindo-se a todos os grandes momentos de sua vida,
então achei que agora, naquela hora,
ele tinha o pleno direito de confirmar sua própria morte
e pensei que tal consciência era muito melhor
– muito mais bonita –
do que a alienação total em vida.

parece mágica e é arrepiante
pensar que talvez só faltasse esse estalo
– esse emocionante estalo de consciência –
para que ele fosse embora.

(além disso, meu pai sempre fora desprendido
nas questões materiais, e nessas situações
o corpo não passa de um mero obstáculo desnecessário
para a psique ou para a alma.)

dois ou três dias depois disso,
ele foi parar em coma na UTI,
onde todos fomos vê-lo,
e felizmente não ficou lá por muito tempo.

nas vezes que fui, eu pegava em sua mão e provavelmente
era o único a dizer:

“Papai, vá, vá…”

as pessoas não costumam entender
esse meu modo de encarar a morte.

pra mim, a morte só é ruim pra quem fica
e é um extremo egoísmo de nossa parte
querer que a pessoa não morra.

eu não quis ir no velório nem no enterro.
não encarei sua morte de maneira triste.
mas como o fim de um ciclo que deixou seu legado
e com imensa paz.

isso não quer dizer que eu não sinta sua falta
muitas vezes.

assim como minha vó – a primeira grande morte da minha vida –
quando lembro do meu pai,
às vezes acho graça, às vezes choro,
mas sempre com imenso amor.

meus mortos me fortalecem.
vivem em mim.

às vezes, sinto que ele me visita.
sinto que certas coisas que eu compro na rua
não podem ter sido compradas por mim, mas por ele!

sim, mesmo ainda tendo minhas dúvidas a respeito de vida após a morte…

minha relação com ele se estreitou muito
em seus últimos anos de vida, mesmo antes da doença,
porque eu descobri que eu tinha muito dele.

é claro que, psicologicamente,
houve também uma projeção de identidade
no garoto em formação
diante da primeira grande presença masculina,
mas eu poderia simplesmente
rejeitar as músicas que ele gostava de ouvir,
as coisas que ele fazia, o jeito dele,
mas não, eu gostava de tudo,
e compartilhamos grandes momentos.

ah, se ele ao menos pudesse saber que,
mesmo sem qualquer pretensão,
foi uma das pessoas que acabou
forjando meu caráter: a mansidão,
o aproveitar o agora, a bondade, o humor,
o espírito errante, as burradas…

meu pai vivia uma vida aposentada com certo conforto,
mas nos últimos anos voltou a trabalhar informalmente
para pagar algumas dívidas, então ele pegava seu carro
e me levava para passear por todo o litoral paulista.

é preciso lembrar que eu era o caçula,
então às vezes ele vestia o papel social do “pai”,
me orientando, falando as coisas que ele achava certo,
mas sempre entrava por um ouvido e saía no outro,
não só porque ele não tinha qualquer talento para isso,
mas também porque eu admirava o homem, a pessoa,
e não o pai,
e acho que esse é um dos sentimentos mais sinceros
que podemos ter por alguém da família.

ele passou de ilustre desconhecido
a um verdadeiro amigo.

sei que a lacuna paterna no dia a dia
(já que, quando nasci, ele já estava separado da minha mãe)
e, principalmente, a lacuna maior depois que ele morreu,
me afetou profundamente:
não há outra explicação para meu mergulho
em arte nem em inconstantes amores
senão a lacuna que me causa tantos questionamentos
sobre a vida e os homens.

quem nasce com papai e mamãe juntos em casa
tem menos questionamentos a fazer
quando se depara com o mundo.

para essas pessoas
o mundo não parece muito estranho:
as coisas estão postas e são claras.

mas quem nasce com essa lacuna,
principalmente quando os pais são muito diferentes,
se sente também diferente,
precisa se alimentar de algo, tem fome infinita,
precisa encontrar respostas,
e alguns vão para as drogas,
para a rebeldia,
outros para os livros.

o resultado não poderia ter sido outro
senão um jovem completamente criativo
e disfuncional, com inteligência acima da média,
mas inteiramente incapaz de lidar com a vida prática,
ainda que tenha coragem suficiente
para tomar decisões arrojadas
como vir morar sozinho
em São Paulo (coisas de leonino…)

um jovem que encontra na arte, filosofia, religiões e na poesia
respostas que a maior parte das pessoas ignoram
ou que simplesmente não precisam para viver,
mas que para mim são mais do que necessárias.

só sei que jamais conseguiria esquecê-lo,
porque ele está em mim sentimental, espiritual e fisicamente:
sou ele todinho, no jeito de falar, franzir a testa,
na postura diante da vida: coisas da genética…

só para terminar:
essa atitude tranquila
de continuar minha relação com ele
existe não só porque, de fato,
ele viveu muito e fez tudo o que quis,
mas também porque ficar vegetando não combinaria com meu pai
e, principalmente, porque são poucos os homens
neste mundo que, no final de suas vidas,
podem realmente dizer,
com absoluta modéstia,
com absoluta certeza,
com absoluto desprendimento, dignidade e beleza: “EU MORRI.”

“Meu pai morreu […]. Gostaria tanto que tivesse vivido mais alguns anos, e considero sua morte como o último sacrifício que seu amor fez por mim, porque não morreu para mim, mas por mim, para que eu possa, se ainda for possível, fazer qualquer coisa.” Soren Kierkegaard, Diário. Eu subscrevo.

Escrito em 31 de maio, 2016.

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