LULA, CIRO, SUPLICY… E DELEUZE?

Diante do consumismo popular do governo Lula e da promessa de uma democratização do producionismo do possível governo Ciro Gomes, superficialmente eu declararia preferir a segunda opção, pois, para lá de qualquer característica pessoal condenável, ele promete reformas profundas, sócio-políticas, que nem mesmo Lula empreendeu.

Acontece que tenho terrível pulga atrás da minha orelha, que é a pulga rebelde, anárquica, artística: sinceramente, para mim, no fundo, no fundo, nada disso importa, porque ad maiora natus sum: sou poeta, essencial e inútil, nasci para coisas grandes. Nem mesmo esse socialismo que está aí ajuda: só quer fortalecer as instituições, só sabe falar em empregar desempregados, quando seria muito mais justo saber o que é que eles mesmos querem fazer da própria vida como seres humanos e fornecer as condições para isso, independentemente da condição arbitrária dos empregos… Estou, portanto, ao lado dos artistas, dos nômades, dos pensadores, dos estudiosos, dos professores independentes, dos autônomos e dos filósofos, não do lado dos empregos obrigatórios, do escravismo do salário, dos trabalhos maquinais, dos funcionalismos, da subserviência infeliz cotidiana, das consessões inglórias, dos sonhos adiados e guardados na gaveta em troca de uma vida medíocre nas manhãs de segunda.

A rotina aliena o homem, escreveu Heidegger com outras palavras em alguma página de sua obra hermética… Dirão que sou sonhador; passei dessa fase — sou realista, até mesmo aristocrático (uma aristocracia PARA TODOS) e, de fora dos papéis superficiais, enxergo o que a maioria prefere não ver. Para mim tudo isso está ultrapassado. A maioria me parece morta.

Falando português claro, as pessoas, dentro desse sistema capitalista/trabalhista de mais de 1 século, estão cada vez mais burras, insatisfeitas, ignorantes, rasas, apenas buscam satisfazer mesquinharias, e sem tempo para as coisas grandes e essenciais; quando finalmente têm tempo, querem simplesmente descansar de tanta energia desperdiçada em seus trabalhos sem sentido e ocupam seu espaço livre com bobagens reais ou virtuais. Estão embrutecendo… Todos os repertórios — intelectuais e humanos — desceram o nível. (Que imensurável prazer é o de encontrar, como Robinson Crusoe, uma pegada rara como a sua na ilha deserta…)

Faço de tudo para não construir minha vida nesse sentido alienado, para criar de mim mesmo uma obra de arte significativa onde o tempo seja o de Kairós, não o de Cronos. Não há um resultado fixo nem promessas idealizadas: há um contentamento íntimo (assim diria Espinosa) justamente no durante, no enquanto, no processo onde sou realmente co-autor.

Muito antes de conhecer Deleuze, eu sempre pratiquei o corpo sem órgãos, mesmo sem saber, como um Artaud (dando um fim no juízo de Deus) ou um Kafka (se defendendo contra todos os poderes, contra o matrimônio, a família medíocre, a vida conjugal aprisionadora, se defendendo contra o trabalho funcional e alienado no escritório, contra o capitalismo americano, o nazismo europeu e a burocracia soviética: ele só queria escrever, construir sua Literatura, esta era sua necessidade vital, esta era sua Vocação legítima)…

Isto é, também sempre me defendi, sempre desconfiei, nunca gostei de nada que me capturasse, nada que capture meu desejo para além de mim e de sua imanência, e dentro desse nada se encontram também as regras dos empreendedorismos ativos.

Sempre foi muito estranho para mim esse cerceamento geral das nossas liberdades: e elas nos atacam a todo momento, em todas as ideologias, e muitas vezes no estômago. Com a minha formação gradual, amadureci a ideia; por exemplo, trocar a palavra trabalho por obra (artística ou não) dá uma grande noção do que é que estou falando. Se apoderar de vez da nossa própria vida.

Sim, é isso: sou potente e criativo dentro dessa zona outsider, paralela, na terceira margem do rio. Onde tento ser senhor do dinheiro e não o contrário. Onde rejeito muitos corpos – o capitalista, o trabalhista, o consumista… Eis a minha grande política, capaz de pôr em xeque qualquer estrutura social ou mecanismo de poder.

Não, não me abstenho totalmente da política com p minúsculo; como os mais próximos e meus leitores sabem, também sou entusiasta de um projeto grandioso para o Brasil e para o mundo, totalmente inovador e concretizável e que começa a ser discutido e estudado (e implantado, em alguns países) globalmente.

Continuarei então sendo suplysta, ou suplicista: é preciso um salário incondicional para cada ser humano suprir o seu básico — moradia, alimentação, vida material digna — e poder desempenhar livremente a sua Vocação, num recrudescimento do Humano sobre instituições públicas e privadas. Pode complementar sua renda incondicional com emprego opcional, pode gastar seu tempo estudando, ou tirando todos os seus sonhos da gaveta sem se preocupar com a barriga e com o teto, pode tudo, não importa, o que importa mesmo é seu direito humano imanente e legítimo de tomar para si a sua própria Vida: meus caros, é Espinosa puro…

Se não me engano, deixando de lado promessa e esperança, isto me parece quase uma junção sofisticada e realmente Democrática das duas coisas que antes descartei…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *