Por que ninguém compra livros de poesia? Por que poesia não vende?

1. Poetas não faltam, mas ninguém compra poesia. Carlos Drummond de Andrade, quando estava no auge de sua fama, não vendia mais do que três mil exemplares por ano. Estamos falando de um nome conhecido até mesmo para quem não está por dentro da literatura brasileira. Isso demonstra a hipocrisia das pessoas que dizem amar poesia (tem alguém que diz que não gosta?), mas que, em termos reais, não compram poesia, não leem poesia. Só os poetas leem os poetas.

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2. Tal desolação poética não é apenas verde-amarela. É certo que brasileiro gosta de escritor, de livro, mais do que de lê-los, haja vista tantos eventos literários, festivais, debates, e tão pouco hábito de leitura. “Só a literatura me interessa, odeio até mesmo as conversações sobre literatura”, escreveu Kafka em seu diário, mas ele era da prosa. Lembremos então de Décio Pignatari, que dizia que poesia é a arte do anticonsumo. De fato, o mercado editorial poético é parco no mundo todo; a busca por poesia é mínima no mundo todo. Mínima? Nula. Não à toa Pessoa trabalhava em escritórios (ele nunca publicou livros poéticos em vida, só em jornais e periódicos) e Rimbaud largou tudo para traficar arma na África. Poesia cai do céu, chama o poeta pela inspiração: se desse grana, como qualquer uma das outras artes, os poetas se desesperariam para escrever um poema por dia. Assim, parece que Rilke e Valéry (mas não só eles) passavam anos sem escrever um único verso. Não à toa, bem antes de Cristo, o latino Ovídio já dizia que os louros dos poetas só servem mesmo pra temperar o assado.

3. Voltando à pergunta do título. Vamos respondê-la em termos práticos e certeiros neste parágrafo imenso, apenas para os fortes que se julgarem dignos de ultrapassá-lo. A função desse pequeno ensaio não é apenas mostrar o dedo em riste, mas servir de análise. Por que ninguém compra livros de poesia? Por que poesia não vende? O pai da semiótica, o norte-americano Charles Pierce, morto em 1914, nos fornece algumas pistas. Pierce escreve que o pensamento ocidental é puramente dedutivo, extremamente lógico, exige conclusões, em grande parte por conta da nossa herança linguística e filosófica vinda dos gregos: a todo momento estamos procurando entender ou deduzir para que as coisas servem, o que as pessoas querem dizer, etc. Nossas línguas ocidentais, surgidas daqueles povos, nos levam à dedução constante: uma sina infernal que remonta mais de 21 séculos! Trata-se de um problema ocidental, pois o pensamento oriental tradicional sempre trabalhou no nível da sensação, da contemplação, da imanência, daí toda a tradição poética maravilhosa do antigo Oriente, seja na China ou no Japão da antiguidade, onde surgiu a essência básica da poesia, que é o texto não-discursivo. Entretanto, preciso constatar que a mentalidade moderna, bombardeada com instauração universal e global de sistemas consumistas, industriais e capitalistas, tem levado o ser humano em geral, independentemente de seu lugar de origem, a pensar somente na funcionalidade das coisas. De forma ainda mais ampliada do que isso, ou seja, não apenas por fatores sócio-históricos, mas também linguísticos, as línguas ocidentais, não só as latinas como o nosso português, estão sempre nos levando a conclusões, e a língua não é coisa morta em dicionário, é instrumento vivo a forjar nosso caráter existencial e cultural a todo momento. Assim, a prosa, por sua própria estrutura interna, acaba levando a conclusões. Essa questão, portanto, não é apenas de repertório, porque mesmo a chamada “prosa poética”, “prosa experimental”, pós-moderna, hermética, inovadora – que descentralizou enredo e personagem -, por não abdicar totalmente da narrativa, que é ferramenta da lógica, parece ser preferida pelos consumidores de livros do que a poesia. Ela, a poesia, por sua vez, não é lógica; ela acaba com a conclusão: seu começo, meio e fim estão sempre ligados à área da sensibilidade humana. Poesia não precisa de narrativa, mas de ritmo. Ao terminar de ler um poema, ele não se conclui no seu fim. É um ciclo infinito.

4. Esse talvez seja um dos motivos principais, além de vários outros de naturezas diversas e infindáveis, pelos quais as pessoas comprem prosa, não poesia. Não é estranho que, apesar disso tudo, as pessoas ainda digam que gostam de poesia, sentem-se admiradas e maravilhadas quando dizemos que somos poetas? Não é estranho que, apesar de tudo, ainda haja fome e sede de experiências poéticas e de obras de arte ditas “poéticas”? Mas em termos estatísticos e reais, a realidade é outra. Até mesmo os escritores de prosa que eu conheço compram pouco ou nada. Pegue qualquer lista de best-sellers de qualquer época: sempre prosa, nunca poesia. Os concretistas costumavam dizer que poetas jamais são best-sellers, mas pest-sellers. Essa sina da poesia e dos poetas, de ser outsider, marginal, maldito, eterno exilado, repercute num caráter vantajoso e noutro negativo: vantajoso porque, justamente por estar desapegada de qualquer expectativa, perspectiva, pressão, a poesia é capaz de em tempos em tempos estar à frente de qualquer uma das outras artes em termos de inovação estética: o poeta é livre; e negativo porque, além de ter que depender de outra fonte de renda para não ser um miserável vagabundo, justamente por ser livre, costumeiramente qualquer um acha que pode escrever poesia e faz trabalhos meramente espontâneos e medíocres.

5. Portanto, concluímos que a prosa, por mais hermética que seja, principalmente quando apresenta estrutura narrativa, acaba levando a conclusões, enquanto a poesia não leva a lugar algum e – que contradição – sem Camões, sem João Cabral, sem Maiakovski, sem Pessoa, sem Rimbaud, não se alarga os limites existenciais humanos, não se eleva o nível de inteligência, de linguagem, de pensamento, de repertório e de visão de mundo do sujeito… Azar de quem não lê poesia: principalmente os “poetas” que escrevem tanto e leem nada. Azar de quem não compra poesia!

30/07/2016 – reescrito em 09/10/2016

Comments

  • É isso aí.Eu sempre digo que adoro poesia,mas tenho pouquíssimos livros de poemas,e leio muito pouco.A poesia é uma arte muito elitista e difícil de entender, – exige concentração,e o ser humano tem pressa… de chegar sabe Deus onde!

    Ademar Amancio 15 de outubro de 2016
    • Acha mesmo que a elite desse país e desse mundo lêem poesia?! “Elitista” não é a palavra mais correta. Poesia não tem nada de elitista. Poetas jamais ganham dinheiro com seus poemas.

      Fernando Graça 15 de outubro de 2016
  • Eu não leio poesia para não não ter referências no momento da inspiração.
    Não sei se faz sentido para você, mas acho que tudo que tem valor fica de alguma forma guardada na mente.

    Enfim gostaria muito de publicar meus poemas não só para que as pessoas leiam, mas por um motivo mais egoísta: Para ficar registrado minha passagem por este planeta. Livro é filho.

    Luiz 5 de fevereiro de 2017
    • ?! Inspiração requer formação.

      Desprezo quem não lê poesia.

      Desprezo mais ainda quem se diz escritor, escreve livro, mas não lê poesia.

      É um absurdo.

      Típico dos tempos atuais…

      Fernando Graça 5 de fevereiro de 2017

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