ZÉ CELSO vs. SILVIO SANTOS: ENCONTRO EMBLEMÁTICO DE UM PAÍS

Em torno da mesa, Zé Celso, João Doria, Silvio Santos, Eduardo Suplicy e assessores e arquitetos conversam. Ou tentam conversar. Mas não falam a mesma língua.

Passados os nove minutos do vídeo que registrou o encontro, minhas opiniões a respeito do senhor que enriqueceu com alienação, entretenimento barato e jogos de azar se confirmam: estreito, ignorante, mesquinho, egoísta, ranzinza, medíocre. Com expressões infelizes e preconceituosas, travestidas de brincadeiras. Que horror!… Personagem tosco, Abelardo de ”O Rei da Vela”, e símbolo patrimonialista, ou seja, responsável explícito pelo atraso de um Brasil colonial e imperial: uma elite pé na cova e prepotente que simplesmente não quer largar mão dos seus bens em troca de um projeto maior, grandioso. Nem mesmo vê que pode ser rentável. 86 anos e não aprendeu nada.

É imenso o Zé Celso, o tempo todo pensando numa cultura e num projeto urbano para além de si mesmo, para além de sua morte, pós-Zé Celso…

Leonard Cohen, em entrevista marcante de 1993, declarou: “Todas as coisas maravilhosas da nossa civilização e do homem, de Mozart a Bukowski, não passam de esmaltes nas nossas unhas, e o esmalte está saindo, e as garras estão sendo mostradas…” Ele se referia ao terrorismo; mas é uma conclusão que pode ser usada perfeitamente para qualquer ismo, para o próprio capitalismo.

Em outros países capitalistas, são os grandes empresários que financiam a cultura; se ela é subordinada à produção capitalista, se precisa nivelar e empobrecer seu repertório, se precisa fazer concessões, são coisas que podem ser discutidas. O fato é que aqui ela é vista imediatamente como inimiga, dispensável. Como mero “sonho”. Sendo assim, fica subordinada ao Estado. Mas quem é que comanda o Estado? Ah! Está ali também, no vídeo, outra figura tosca, neoliberal patrimonialista que se vale de expressões em inglês e que, na melhor das intenções, tenta conciliar ambas as partes e agradar gregos e troianos.

Como a arte e a cultura, que deveriam ser as verdadeiras norteadoras de um país civilizado e de uma cidade pulsante, podem se insurgir diante do bombardeamento econômico de ambos os lados, de capitalistas e estadistas neoliberais? Mais do que isso, como o humanismo pode resistir diante de números e algoritmos, como pode dominá-los? Que mundo estamos construindo? São as grandes questões do século, no mundo inteiro…

Vil metal, única meta de suas vidas. Sendo assim, o dinheiro deixa de ser energia possibilitadora para ser tão somente o objetivo máximo e final. Para isso, ovos precisam ser quebrados, predações precisam ser feitas, sacrifica-se tudo o que está no entorno, deixa-se de lado qualquer processo humano, desconsidera-se qualquer mentalidade urbanística inovadora, se empesta ainda mais uma cidade que já agoniza em meio às torres.

Kafka puro.

No dia seguinte ao do encontro, Zé Celso denunciou que Silvio Santos havia o procurado para lhe oferecer 5 milhões, recusados. Zé Celso — o esmalte nas nossas garras — não se vende…

Fica a pergunta principal: como derrubam o veto que não permitia a construção das torres?… Provavelmente porque Alckmin, já pensando em 2018, precisará do apoio do SBT?…

A relação promíscua e incestuosa Estado-Empresariado, além dos escândalos diários de propinas e corrupções, é questão cada vez mais séria.

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