INTELIGÊNCIA E SOLIDÃO.

É um tema complexo que tenho pensado demais, que tem crescido dentro de mim, mas que só agora começo a escrever e sondar corajosamente. Esse texto irregular está longe de ser definitivo.

Um indivíduo de extrema inteligência e cultura parece experimentar uma solidão proporcional ao nível do seu repertório. Quanto mais acima da mediocridade, mais solitário. Pode se rebelar contra seu meio, como um romântico, e viver em paz, se esse meio não for tão inconcebível quanto o próprio universo.

As maiores religiões do mundo nascem da solidão. O Cristianismo com Jesus pelo deserto, sozinho ou rodeado de gente, solitário em ambos os contextos, o Islamismo com o solitário Maomé, também pelos desertos, e o Budismo com o solitário e apartado Buda pelos bosques.

Entre os diversos tipos de solidão, a mais assombrosa talvez seja a falta de interlocução; o homem de gênio tem dificuldade em encontrar alguém que fale a sua língua, absolutamente fora do comum: muitas vezes somente os mortos e os livros são suas companhias. Sua solidão é tão imensurável que ele precisa corrigi-la sendo professor.

O professor é um explícito solitário. Porém, ao disseminar seu conhecimento e despejar tudo aquilo que acumula dentro de si, acaba recebendo prazer de volta, se a oratória e o exibicionismo não lhe são dolorosos. Ele opera através do debulhar e do depurar, em níveis íntimos, transmutados então para o coletivo, supostamente abaixo e menores do que ele.

A própria palavra aluno, como se sabe, significa “sem luz”.

Quando, portanto, lhe é dada a oportunidade de iluminar, ensinar, ele se enche e se realiza, diante do outro ávido em absorver. Mas não importa se é educador sincero, humilde, ou narcisista arrogante: seu nível de carência costuma ser o mesmo e é na troca que ele se realiza.

O personagem do aluno não é o único necessário como anti-depressivo para o ser de invulgar inteligência. Existe outro, que é o do indivíduo de repertório igual ou acima do dele, isto é, aquele com quem ele possa estabelecer um nível de linguagem equivalente, de boa ou nenhuma importância, no primeiro caso, ou, no segundo caso, aquele que ele ama, deseja, admira, aprende, ou simplesmente renega, preguiçoso ou ofendido, e se afasta.

Essa minha sondagem pode parecer elitista hoje em dia, mas tem menos a ver com classe social do que com o próprio desejo de um indivíduo se sobressair, independentemente de sua origem. (Um boia-fria certa vez acessou esse meu blog, naquele longo texto onde escrevo sobre repertórios e formas precisas de julgar o valor e a qualidade de uma obra de arte; escreveu que concordava comigo quando eu argumentava que existem níveis de repertórios, baixos, médios, altos, e artes para cada tipo desses repertórios, porque seus patrões, mesmo numa classe diferente da dele, isto é, com mais dinheiro e mais oportunidades, eram bem menos cultos.)

Ora, acredito que já escrevi muito sobre o tema de repertórios, em textos que estão por aí para serem lidos. O objetivo dessa nota apressada é outro, apenas traçar uma analogia entre a inteligência e a solidão.

Preciso dizer que o que motiva essa minha escrita são acontecimentos pessoais que me ocorreram e ocorrem em relação aos outros. Isto é, em matéria de relacionamentos, o indivíduo que tem conhecimento uma hora ou outra entrará em crise com a discrepância de sua vida com a dos outros.

É nesse contato, ou “descontato”, que se dá a solidão. Numa sala de aula, ela tende a ser menos dolorosa do que na vida real. Uma classe medíocre não vai necessariamente importunar ou entristecer um professor a níveis amorosos.

Pois é no amor que a inteligência se revela como abismo.

Comigo aconteceu em relacionamentos de pouca duração. Não assim com outros. Um colega, que não vejo há tempos, mais ou menos conhecido em círculos artísticos, me contou, meses atrás, num restaurante no centro escuro de São Paulo, que, em cerca de 10 anos de relacionamento, nunca tinha vivido a seguinte cena: seu ex-namorado, vivendo ainda com ele, um dia levou um novo pretendente. Ele não viu problemas na visita; estavam bastante maduros em relação à convivência e ao fim.

O que realmente o importunou foi o fato de que o novo pretendente, na sua mesma faixa etária, isto é, passando dos 50 anos de idade, era praticamente um semi-analfabeto, homem da maior simplicidade. O seu ex, no entanto, parecia realmente apaixonado ou interessado. Na mesa de jantar, o ex e o pretendente conversaram entusiasmados sobre qualquer coisa rústica e manual, que só gente da roça é capaz de conhecer, e que eu nem mesmo me lembro. Passaram horas falando sobre aquele assunto, nos mínimos detalhes.

Meu colega, professor, escritor, crítico de arte (essas denominações soam tão elitistas!), se retirou da mesa num momento, alegando qualquer coisa, e foi chorar no banheiro. “Naquele momento, Fernando, eu percebi que ele nunca me viu de verdade, nunca conversamos sobre os assuntos que me interessam, ele nunca foi num único lançamento dos meus livros, mesmo juntos, porque nunca teve interesse, ele nunca participou de fato da minha vida! E só percebi isso agora, mais ou menos 10 anos depois, quando ele levou aquele homem recentemente, sabendo tudo daquela conversa, imenso contraste em relação à minha pessoa…”

Qualquer psicologismo identificaria no meu colega a baixa estima, o orgulho, o complexo de inferioridade ou de superioridade, a falta de consideração. Uma análise social à esquerda identificaria elitismo e mesmo preconceito em sua atitude e discurso.

Não cabe a mim cavar nessa direção, ainda que pertinente, plausível, porque muito já se escreve e pensa a respeito. Nietzsche, por exemplo, com certa dose de aristocracia, via no marxismo e no comunismo um ataque indevido contra a individualidade ou a singularidade do homem, o que me faz pensar na seguinte frase, tentando resolver e fechar a questão: Os homens são iguais em direitos, mas não em qualidades. E toda prática de si é imediatamente coletiva.

O fato inquestionável é que a anedota contada é exemplo clássico da distância com que o ser de invulgar cultura e inteligência – independentemente da sua classe social, pois basta lembrar do “boia-fria” supracitado – experimenta em relação aos outros.

“Ele te viu e te vê de outra forma, ama outro aspecto teu”, eu disse para o meu colega, não sem razão, e tentando consertar sua tristeza. Mas eu ria, tentando esconder o riso, enquanto ele me contava isso, um riso totalmente inconveniente e cruel, sem saber que eu mesmo me vejo às vezes na mesmíssima posição que ele.

O estudo, a escrita e a leitura tendem a ser projetos solitários, o que agrava ainda mais o assunto. Não que a solidão não tenha seus momentos gloriosos e bons, mas é justamente a falta de interlocução que é espinhosa, quando o indivíduo se posiciona diante da vida e veste sua persona social.

No problema central da questão está sem sombras de dúvidas a sensibilidade. O quanto se distancia da sensibilidade, gerando, portanto, solidão. A inteligência não tem a ver com o toque, embora eu concorde que o toque tenha uma inteligência própria. Mas falo da intelectualidade. O inteligente continuará solitário se tiver sexo e amor com quem não compartilha das suas flutuações. Uma hora ou outra entrará em crise. Não é insensível, ao contrário: tem bruta sensibilidade. Falta, para ele, o exercício dessa sensibilidade.

O ser seletivo, munido de toda a sua acumulação que surpreende, que foge do óbvio e da redundância, tende a violentar pela frente tudo o que lhe parece pedestre e efêmero, fútil, superficial. Sua sensibilidade, no entanto, como a de qualquer um, está sedenta e, quanto mais ele percebe a distância, mais faminta ela fica. Como preencher?

Simplesmente resistir e criar a sua própria realidade paralela a toda cacofonia?

Talvez a solidão seja uma puta liberdade, onde se tem ao menos a si mesmo para cuidar e tomar conta. Onde a prática de si contempla os próprios processos de singularização de si e dos outros, onde se produz e se amplifica o comum.

Que preço amargo, às vezes!…

Na sua busca ou espera daquele com quem sensibilidade, afeto e inteligência andem juntos, não se cria riqueza interior, qualidade de vida interna nem mesmo externa no aqui e no agora. Abre-se espaço para expectativas e desilusões.

Solidão é falta do exercício da sensibilidade. Como exercê-la em alto nível em comunhão com a inteligência?

Mesmo o professor, isto é, o aparente solucionador da solidão da inteligência por meio da troca com o(s) outro(s), pode, fora da sala de aula (que não consome todos os aspectos da sua vida), se perceber solitário, iludido, como o artista que, diante de um mar de gente que o idolatra no palco, se retira acabado num quarto de hotel.

Porque nem sempre aquilo que o inteligente oferece, doa e dá lhe retorna em termos humanos palpáveis.

É preciso agir.

Como?

Se eu soubesse não escrevia.

Mistério.

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