Enquanto escrevo meu romance Terra i Flutuação: Brasília, tive ideia para um outro romance…

Enquanto escrevo meu romance político-realista-simbólico-revolucionário-contemporâneo Terra i Flutuação: Brasília, tive ideia para um outro romance. Em algum lugar da Amazônia, um homem desaparece. Logo, descobrem que foi canibalizado num ritual antropofágico por uma pequena tribo até então desconhecida. (A narrativa é cheia de cantos incógnitos, tentativa de trazer a percussão para a escrita – Artaud me ajudará? -, e sob a influência linguística de “Meu Tio, o Iauaretê”.) Índios de outra tribo, avessos a este costume que se julgava extinto por estudiosos e antropólogos, os denunciam para a polícia. O fato torna-se um grande choque nacional. Europeus – sobretudo alemães, ingleses e franceses – já planejam a viagem amazônica, entusiasmados pelo selvagem e pelo exótico. O delegado não sabe o que fazer. A mídia sensacionalista exulta. Artistas e filósofos do Rio de Janeiro e de São Paulo escrevem artigos a favor da tribo. Um escritor famoso fala em nova etapa da estética mundial a partir do fato, em revolução caraíba, em Bispo Sardinha e em Oswald de Andrade. Alguém diz que aquele homem era vil, que merecia morrer. Outro contesta, provando os atos benéficos do morto. Um terceiro adverte que seu caráter é irrelevante para a tribo, que é preciso considerar, acima de tudo, que “eles são capazes de comer todos nós”. A igreja católica e a evangélica brigam então para catequizar os indígenas. Grande polêmica interna e externa. Conhecidos e familiares do antropofagiado resolvem fazer justiça com as próprias mãos. Não sei ainda o que ocorrerá de fato, se há embate feio entre lanças e tiros. Sei que, dizimada ou não a tribo, o único “curumim” é capturado e catequizado. Haverá, talvez, uma longa cena impressionante (se escrito, meu livro com certeza virará filme e tal cena entrará para a história) onde uma benzedeira tenta tirar os supostos traumas e as supostas impressões da cena da antropofagia no pequeno, que, no entanto, está completamente indiferente à reza, pois para ele a carne estava deliciosa; de olhos fechados, a sábia senhora grita e quase tem um ataque súbito do coração quando o pequeno morde sua mão com o terço. O “diabinho” terá holofote durante todo seu crescimento. O livro passa então a uma nova etapa, ele já moço, formado, sabido, “civilizado”, mas ensimesmado, pois nota que os outros estão sempre desconfiosos de que, por detrás de todo aquele seu eruditismo e cultura, há ainda uma fera devoradora; criado não sei ainda se por um padre católico ou se por um homem de posses, prestes a concluir seu exame final na universidade, num longo monólogo onde se embate no seu mais íntimo tremenda crise de identidade e existencial, entre o eu antigo (ele saboreou bem aquela carne humana, e sente, apesar de às vezes discordar de si próprio, que ela lhe ofereceu forças e energias incomensuráveis que nem Política, Conhecimento, Riquezas nem Deus nenhum lhe dão) e suas convicções éticas, morais e/ou religiosas atuais (não chega agora nem perto de carne de animal), monólogo este que não sei se sou capaz de escrever…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *