Oswald de Andrade: Crônicas e Textos Jornalísticos

OSWALD DE ANDRADE
OBRAS COMPLETAS-10
TELEFONEMA
RETRATO DE UM HOMEM E DE UMA ÉPOCA.
TELEFONEMA, é uma antologia da produção jornalística de Oswald de Andrade a partir de 1909, quando re-digiu a coluna teatral do Diário Po-pular, até sua última crônica para o Correio da Manhã, divulgada no dia seguinte ao de sua morte.
A seleção e estabelecimento dos textos são de Vera Chalmers, jovem universitária e pesquisadora de altos méritos que integra a equipe de estu-diosos formada pelo Professor Antô-nio Cândido de Melo e Souza. Dela também a valiosa e esclarecedora in-trodução crítica, onde analisa, com inteligência e agudeza, o discurso jor-nalístico de Oswald de Andrade. As notas de rodapé, situando fatos e pes-soas, são igualmente de sua autoria.
Esses textos foram desentranhados das secções fixas mantidas pelo escri-tor em vários órgãos da imprensa: Teatros e Salões, Feira das Quintas, Banho de Sol, De Literatura, Feira das Sextas, Três Linhas e Quatro Verdades e Telefonema, aparecidas intermitentemente em jornais como Diário Popular, Jornal do Comércio (edição de São Paulo), Meio-Dia, Diário de São Paulo, Folha de São Paulo e Correio da Manhã.
A reunião dessas crônicas e artigos acaba por formar um “retrato” espiri-tual do polígrafo paulista, um gráfi-co febril das suas mutações intelec-tuais, os conflitos de sua índole in-conformada, as inquietações que o assoberbaram ao longo dos anos. Ne-las estão as suas paixões, iras, ind os-sincrasias, alguns momentos polêmi-cos da maior virulência, ou de sátira
Oswald de Andrade Obras Completas
X
Telefonema
2.a edição
Introdução e estabelecimento do texto de VERA CHALMERS
civilização brasileira
Copyright © by Espólio de OSWALD DE ANDRADE
Desenho de capa:
DOUNÊ
Diagramação: ciVBR Ás
Direitos desta edição reservados à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.
Rua Muniz Barreto, 91-93 RIO DE JANEIRO, RJ
1976
Impresso no Brasil Printed in Brazil
Sumário
Agradecimento XI
Critérios observados no estabelecimento dos textos XIII
Desconversa XV
TEATROS E SALÕES
14.5.909 3
11.8.910 8
6.9.910 12
FEIRA DAS QUINTAS
28.10.926 O sucessor de Rodolfo Valentfno 19
30.11.926 O abelhudo 23
10.2.927 Excertos de “Serafim Ponte Gran-de” 26
24.2.927 Antologia 32
3.3.927 Páginas do tempo de Washington
Post 35
24.3.927 Álvaro Moreyra e outras questões
que não são para todos 39
7.4.927 Um documento 43
BANHO DE SOL
9.3.939 O Ariano Oliveira 55
14.3.939 Comemorando Castro Alves 56 4.4.939 Um capítulo de educação sanitá-ria 57
21.4.939 Uma consagração urgente 58
5.5.939 Aproximação necessária 59
11.5.939 Contam os jornais 60
1.6.939 O tempo e os costumes 61
12.6.939 Uma lição de solidariedade 61
DE LITERATURA
19.5.935 Só para homens 65
20.3.939 Posição do século 69
19.4.939 Em São Paulo 73
FEIRA DAS SEXTAS
30.7.943 Carta a um professor de literatura 81
27.8.943 Salada russa 85
3.12.943 Por uma frente espiritual 90
3 LINHAS E 4 VERDADES
5.11.949 97
14.12.949 98
1.1.950 100
5.1.950 102
1.6.950 104
9.6.950 105
2.7.950 106
3.8.950 107
20.8.950 108
24.8.950 109
29.8.950 110
7.9.950 111
8.10.950 112
TELEFONEMA
2.3.944 A confidencia 117
12.3.944 Brasil agreste 119
28.5.944 O escritor popular 120
8.6.944 Carta 121
6.9.945 A Mr. Truman 122
15.1.946 Do espírito jurídico 125
1.2.946 Interurbano oficial 126
12.3.946 O albatroz 127
11.4.946 Sob a proteção de Deus 129
26.4.946 Resurrexit 130
28.4.946 O gostosão da ditadura 131
23.5.946 Memórias em forma de dicioná-rio 133
18.8.946 A princesa Radar 135
21.8.946 As máscaras de Plínio Tômbola 136
22.9.946 Legem habemus 138
23.11.946 Por Gilberto 140
10.12.946 Câmara ardente 141
8.8.947 A A.B.D.E., em São Paulo, é fas-cista 142
19.8.947 Os tempos novos 144
4.10.947 Do existencialismo 146
8.10.947 Uma carreira de romancista 147
6.11.947 Da ressurreição dos mortos 148
19.12.947 A moça das lojas americanas .. 150
3.2.948 Retorno às Belas-Artes 151
8.2.948 Serão 152
22.2.948 Música, maestro! 153
28.2.948 O cinema na Europa 154
17.3.948 A ceia 154
17.6.948 Conversa de velhos 155
7.6.949 Sobre poesia 157
28.6.949 À sombra dos cretinos em flor.. 158
24.11.949 A mulher automática 159
26.11.949 O diabo Agripino 160
2.12.949 Diário confessional 162
4.9.950 Notícias da província eleitoral .. 162 25.3.952 Sobre Emílio 164
4.4.952 Corção 165
18.4.952 166
8.6.952 O analfabeto coroado de louros .. 167
25.3.953 Fronteiras e limites 168
4.2.954 São Paulo 169
10.2.954 O Demais 170
18.4.954 Meditação n.° 3 170
18.9.954 A estralada 171
23.10.954 A inteligência no Catete 172
A gradecimento:
A organização desta antologia foi possível graças à Bolsa de Aperfeiçoa-mento dada a mim pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, com a orientação do prof. An-tonio Cândido de Mello e Souza.
VERA CHALMERS

CRITÉRIOS OBSERVADOS NO ESTABELECIMENTO DOS TEXTOS
A ortografia foi atualizada de acordo com a última lei de acentuação gráfica.
Para os nomes próprios adotei a seguinte orientação: os nomes menos conhecidos foram atualizados. (Como, por exem-plo, Penaforte Icaraí, Alírio Wanderlei e outros). Os nomes de pessoas muito conhecidas foram conservados na grafia ori-ginal ou segundo as modificações introduzidas pelos seus por-tadores. (Para enumerar alguns: Álvaro Moreyra, Villa Lobos, Gilberto Freyre, Tristão de Ataíde). Outros foram atualiza-dos, porque já estão fixados na ortografia atual. (Como nomes de: Emílio de Menezes e Rodolfo Valentino, entre outros.) Os nomes próprios de estrangeiros não foram abrasileirados. (Ci-cillo Matarazzo, Wladmir Ilitch, Dublin, etc.).
As palavras em dialeto ítalo-paulista foram conservadas na grafia original. No que diz respeito às citações de palavras estrangeiras, em francês, inglês e outras línguas, julguei im-portante o seu não abrasileiramento. Porque a sua conserva-ção é quase sempre fundamental para identificar um texto per-tencente a um momento bem marcado por um certo tipo de importação cultural. Como, por exemplo, as palavras: boite, loup, can-can, baton, rouge; jazz, fox-trot, drink glamour girl e etc.
O texto de iornal, freqüentemente, é muito menos cuida-do e mais perecível que o do livro. Por este motivo, às vezes, encontrei no original falhas de impressão e até faltas de gra-
mática, como também erros na citação de nomes ou de pala-vras vernáculas e estrangeiras. Nos casos em que a falta apa-rente era menos grave, corrigi o texto abrindo uma nota de rodapé no lugar em que se deu a modificação. Entretanto, houve casos em que corrigir o texto implicava também em banalizá-lo. Isto é, descaracterizá-lo do ponto de vista das idio-sincrasias do seu autor. Nestes casos, resolvi conservar os erros de citação, como também a pontuação peculiar, que apresenta longos períodos gramaticais não marcados por qualquer tipo de acentuação. A mesma coisa aconteceu com a sintaxe pouco “ortodoxa” da frase de Oswald. De modo que, o “mau portu-guês”, como também as “falhas de memória” aparentes foram conservadas de acordo com o original, assinalados por uma nota de rodapé, na qual se dá a versão correta.
E por fim, no que se refere às notas de rodapé, o que se fez foi um tipo de explicação sumária destinada a esclare-cer o contexto vivido por Oswald. Não foram objeto de notas os nomes de pessoas, instituições ou fatos que ficam direta ou indiretamente esclarecidos pelo texto, ou que são conheci-dos pelo leitor de hoje.
As anotações foram feitas com auxílio dos professores Antonio Cândido, Decio de Almeida Prado e Paulo Emílio Sales Gomes.
O critério adotado para a escolha do número de texto de cada coluna foi a proporção aproximada ao número total de artigos de cada uma no jornal.
(Com exceção da coluna “Teatros e Salões”, de que re-produzi apenas os artigos referidos por Oswald no livro de memórias).
V. C.
DESCONVERSA
Este livro reúne os inéditos de jornal de Oswald de An-drade. Para a sua composição selecionei os textos que julguei mais importantes das colunas fixas (os esparsos compreendem ainda uma grande quantidade de artigos avulsos e alguns jor-nais e revistas). A coleção particulariza o ponto de vista de que os escritos de jornal, por seu caráter imediatista e impro-visador, podem ajudar a compreender a personalidade literária contraditória e inquietante do seu autor (*) juntamente com os elementos que o estudo sistemático da sua obra publicada oferece.
A atividade jornalística, embora intermitente, acompanha a vida literária do escritor, que começa como redator da colu-na teatral, “Teatros e Salões”, do Diário Popular em 1909. Nessa época, a sua crítica é convencional. Ele distribui o aplau-so entre os espetáculos de óperas e operetas, segue as estréias mais importantes, noticia a exibição de filmes e anota curio-sidades a respeito do mundo um tanto sentimentalizado do teatro. Esta seção é redigida por ele desde abril de 1909, até pouco antes da fundação de O Pirralho, em agosto de 191L A coluna “Feira das Quintas” data de setembro de 1926 a
(1) Esta questão será estudada num próximo trabalho (minha tese de doutoramento) de que este livro 6 um produto lateral A anto-logia não 6 rigorosamente uma edição crítica e nem reconstitui a totalidade do discurso jornalístico de Oswald. Seu estudo, na tese, deverá compensar a arbitrariedade desta escolha.
maio de 1927 e, foi publicada no Jornal do Comércio, edição de São Paulo. As demais são produção tardia. No tempo da militância política, por ocasião do pacto germano-soviético, ele publica as colunas “Banho de Sol” e “De Literatura”, de mar-ço a junho de 1939, no jornal Meio Dia, do Rio de Janeiro. Oswald sempre manteve uma posição claramente anti-fascista, entretanto, (assim como outros intelectuais filiados ao Par-tido Comunista Brasileiro) escreveu nesse jornal, que expres-sava a linha política da esquerda do momento e aceitava cola-boração germânica. Mais tarde, quase ao fim da guerra, ele publica “Feira das Sextas”, de julho de 1943 a junho de 1944, no Diário de São Paulo. E depois, de novembro de 1949 a outubro de 1950, escreve “3 Linhas e 4 Verdades” para a Folha de São Paulo. A coluna “Telefonema”, de fevereiro de 1944 a outubro de 1954, redigida para o Correio da Manhã, do Rio, enfeixa uma grande variedade de escritos e é expres-siva do pensamento de Oswald depois de 1944 C2).
“Teatros e Salões” são, portanto, os escritos inaugurais, que escapam da neutralidade do meio tom elegante nos mo-mentos em que seu autor se entusiasma, de fato, com algum acontecimento teatral. Como, por exemplo, a estréia da com-panhia do ator Giovanni Grasso. Neste caso, as expressões co-loquiais rompem inesperadamente o discurso bem educado. O jovem escritor revela então um gosto pessoal pelos espetáculos ée grande arrebatamento dramático.
“Feira das Quintas” se inscreve no clima da Antropofagia, polemizando com o movimento da Anta. Os seus artigos acusam a experimentação técnica em que o escritor estava empenhado. São fragmentos de narrativas, excertos do Sera-fim Ponte Grande e da Estrela de Absinto e crônicas diversas.
“Banho de Sol” e “Feira das Sextas” referem-se aos acon-tecimentos da guerra e aos problemas políticos internacionais do nazismo. Combatem as idéias racistas e chamam à luta por
(2) Para completar a antologia faltaria acrescentar mais duas seções do início da carreira: “Sociais”, do Jornal do Comércio, e a crítica teatral de A Gazeta. Esse levantamento foi prejudicado por falta de informação precisa sobre as datas de início e final da cola-boração de Oswald, visto que não são matéria assinada.
uma unidade nacional para resistir ao fascismo, no país e fora dele.
“3 Linhas e 4 Verdades” faz a campanha da candidatura de Oswald a deputado federal, pelo Partido Republicano Tra-balhista, na chapa de Hugo Borghi. “Telefonema” discorre so-bre as razões do seu desligamento do Partido Comunista Bra-sileiro, depois de quinze anos de militância, de 1930 a 1945. Discute o destino mundial do comunismo estalinista, ao fim da guerra, após a dissolução da III Internacional. Oswald, alinha-do na perspectiva de Browder, líder do Partido Comunista Americano, é contra a reorganização do Partido Comunista Brasileiro pela Comissão Nacional de Organização Provisória (a “C.N.O.P.”) e contrário à liderança de Prestes. Ele lamen-ta a derrota da política pacifista da Anistia, no plano inter-nacional, como antevisão de uma terceira guerra atômica mun-dial. E encara a derrota do Brigadeiro Eduardo Gomes, nas eleições em que o Marechal Eurico Gaspar Dutra saiu vito-rioso, como derrocada dos princípios liberais, no plano da política nacional da Anistia. Acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, desde 1944 até 1954, esta coluna registra tam-bém as oscilações da opinião política do autor sobre os fatos mais importantes. Como, por exemplo, a evolução da carreira política de Getúlio Vargas, qué ele1 identifica com o fascismo em 1944-54 e, em 1950, associa a d populismo. Para voltar a acusá-lo, em 1954, por suas ligações iniciais com o fascismo e por corrupção moral e política. Após o âftfátamento da mili-tância comunista Oswald anuncia ter adotado a Antropofagia como “filosofia perene”. A guerra fria; “Inaugurada sobre as cinzas ainda quentes do nazismo, evidencia para ele a “cons-tante antropofágica do homem”, como metéfbra da ambiva-lência irreconciliável entre dois comportamentos distintos: a fraternidade e a luta. Que se constituem, por fim, numa filo^ sofia individual também capaz de exprimir a tentativa de en-contrar uma coerência teórica para a sua vida intelectual, feita de assimilação e de debate.
Os escritos sobre literatura são laudatórios ou depreciati-vos a respeito de escritores e livros. Oswald não se considera, em questões literárias, o crítico oficial dos jornais em que co-labora. O seu ponto de vista é sempre muito pessoal e intran-
sigente. A sua metalinguagem crítica é o ataque verbal por meio da ironia, da sátira, do sarcasmo e até do desaforo. O alvo desta justa é sempre contra a oficialização da mediocri-dade no meio literário. Este tipo de escritura não dissimula a sua parcialidade; por este motivo está sujeita a acertos e in-justiças declarados e a revisões periódicas. Oswald, bem ou mal, quer tomar partido nas questões do momento. Nas colu-nas de 1927 em diante analisa a política dos bastidores dos prêmios e congressos literários. Discute a situação da litera-tura brasileira vista por intelectuais estrangeiros. E critica a produção contemporânea denunciando como falsos os valores já tornados obsoletos pelo modernismo, como por exemplo, a métrica, a rima e as formas fixas em poesia. Mais tarde, “3 Linhas e 4 Verdades” conta alguma coisa a respeito dos con-cursos universitários e congressos de filosofia de que partici-pou. E “Telefonema” apresenta uma riqueza de variações so-bre todos estes assuntos em forma de: crônicas, espécies de reportagens, entrevistas, depoimentos, contos, fragmentos de narrativas, artigos polêmicos, crônica social, crítica de teatro,, de filmes, das artes plásticas e de rádio, p^ucgíricos, cartas, bilhetes, trechos de oratória, notícias e excertos das memórias e das Memórias em forma de Dicionário (estas últimas per-manecem inéditas em livro e, ao qv.3 parece, constituem um projeto interrompido com a morte do ,es(.Àu,r).
Oswald, jornalista principiante em 1919, escrevia de acor-do com as tendências tradicionais. A literatura oficial da época se cercava de uma atmosfera de marginalidade que se asso-ciava ao ambiente boêmio da redação dos jornais. (O jorna-lismo era considerado uma atividade subalterna para o escri-tor). A esta espécie de submundo literário com algumas liga-ções populares, pelo lado humorístico, juntavam-se os letrados da moda. Esses escritores, também conhecidos como os “lite-ratos de café”, produziam uma diluição “belle époque” do ro-mance do século XIX, já deformado e banalizado por um sen-timentalismo superficial. E havia, ainda, a poesia feita pela última geração parnasiana a que se prendia uma sobrevivência mais antiga de boêmia, de dandismo e de humor. Toda essa
produção alcançava, por fim, uma espécie de sucesso popular e elegante. Aplaudia-se, não somente a eloqüência, como tam-bém o gênio satírico. Oswald impregnou-se, ainda adolescente, dessa atmosfera “fin de siècle” no contato com os remanes-centes do grupo de O Minarete, pequeno jornal de Monteiro Lobato, por sua atividade como redator teatral e social e, mais tarde, na sua amizade por Emílio de Menezes no tempo de O Pirralho. A prática, nas revistas e jornais da época, dos vá-rios gêneros humorísticos à moda francesa, tais como o sone-to, o epigrama, a paródia, o pastiche, a língua macarrônica, a trepanação, o trocadilho e o chiste, entre outros, atestava o prestígio da inteligência sem compromisso. No caso de Os-wald, um certo brilho verbal e a argúcia tornaram-se conge-niais ao seu temperamento de escritor. E é sobre este emba-samento tradicional que as idéias e as técnicas do vanguardis-mo europeu vêm se articular, acusando uma espécie de con-tinuidade de atitudes por um lado, e diferenças fundamentais de outro. A permanência se verifica, entre outros aspectos, na intensificação da atitude boêmia e satírica e pela busca do efeito da palavra. Mas uma nova dimensão polêmica vem se acrescentar à tradição iconoclasta da boêmia. E ainda, a natu-reza da palavra se transforma. Ao invés do preciosismo exó-tico de colecionador procura-se, agora, o neologismo, as no-vas onomatopéias mecânicas e a ubiqüidade da frase por meio da quebra das conexões sintáticas. A expressão modernista, simultânea e sintética, se realiza sobretudo nos textos polêmi-cos, publicados nos jornais entre 1926 e 1939, aproximadamen-te. A polêmica de Oswald apresenta a particularidade de ser também satírica. Apesar de, na sua expressão mais agressiva, poder atingir uma dimensão escatológica.
Os textos posteriores a 1940 mostram a contaminação do escritor pelas teses da literatura social. A integração desse novo discurso politizado é conflitual e se faz à custa da re-pressão de qualidades supostamente inatas do escritor, como por exemplo, a sátira. A supressão desta dimensão crítica faz surgir, quase sempre, um outro lado seu — áulico e grandilo-qüente. (Que remete, em última análise, àquela modalidade de literatura subjacente que ele chamou de sua inclinação a
escrever “bem demais”. Isto é, de acordo com o “Kitsch” bur-guês sentimental). Os escritos de jornal, depois de 1940, mos-tram uma tendência cada vez mais acentuada a uma linguagem objetiva e geral, desprovida dos “achados” retóricos modernis-tas. De modo que para concluir, a dificuldade que se coloca, a partir do contato com o texto político, está em recuperar a pesquisa estética do modernismo e integrá-la numa nova ex-pressão politizada, No entanto, depois de 1945, o desligamento da militância ao final da guerra veio a interromper o aprofun-damento deste processo. A retomada da Antropofagia se faz, mais tarde, num outro nível da linguagem — para fora da criação poética e da ficção — na direção do ensaio filosófico. Os artigos de jornal acusam o seguimento desse caminho, ao se tornarem, em fins de 1950, um comentário genérico e casual sobre os fatos contemporâneos.
Os textos das colunas fixam os incidentes da ligação de Oswald com o cotidiano de seu tempo, através de duas cons-tantes temáticas: a literatura e a política. Sua relação recíproca constitui o fundamento de uma representação a respeito do desempenho do escritor, que chamarei de “atitude” antropofá-gica, cuja formação pode ser rastreada ao longo de toda a sua produção. O seu ponto de partida é a tradição de irreve-rência da boêmia parnasiana em apontar o ridículo da respei-tabilidade da elite burguesa nas suas instituições, como a polí-tica, a Academia de Letras e os costumes da “sociedade” ele-gante, como era a prática corrente do jornalismo humorístico. Sobre esta tradição iconoclasta se articulam, mais tarde, no primeiro contato com a arte moderna européia, as sugestões contidas no Manifesto Futurista de Marinetti, de que a litera-tura deve expressar o dinamismo industrial, mecânico e elétrico do homem contemporâneo, contra a arte acadêmica com seu sentimentalismo ultrapassado. As viagens que faz à Europa, depois de 22, solidificam o seu não-conformismo literário, pelo convívio direto com as idéias da vanguarda francesa da-daísta e surrealista. Ele torna-se amigo de Blaise Cendrars, de Max Jacob, de Cocteau e de Erik Satie, entre outros. De volta ao Brasil faz proselitismo estético. A campanha pela renova-
ção se realiza, no tempo inicial do modernismo, no âmbito da criação literária contra a retórica arraigada do parnasianismo Era preciso combater o ilusionismo naturalista consagrado como arte dos salões e que teve como resultado a vulgarização da arte como cópia, como imitação do que se entendia por natureza. Nesta época, a relação entre a vanguarda literária e o “Kitsch” é compreendida por Oswald como uma oposição de classe entre a elite artística e o público burguês. A imitação burguesa não era consciente do seu comportamento cultural e do atraso da sua criação artística. A construção da literatura nacional Pau Brasil, ao contrário, inscreve-se no mesmo mo-mento de construção de uma nova arte na Europa e, portanto, como parte integrante da produção moderna européia. Esta reconstrução se faz, na poesia, a favor de uma arte experimen-tal, a favor do objeto industrial e do reclame, em oposição à tradição livresca. E no caso da produção nacional, tendo ainda digerido e introjetado o binômio floresta/escola: cultura iletra-da/cultura letrada. Que são os lados bárbaro e doutor da nossa cultura. O lirismo-programa de Pau Brasil é a metáfora desta dualidade: ser natural e de nossa época.
O momento vivido por Oswald na Europa foi de rompi-mento com a perspectiva da arte ilusionista e, grosso modo, de busca de renovação nas artes primitivas, orientais e medie-vais, que teve como resultado a elaboração de teorias novas para a arte ocidental. Que estava submetida desde o Renasci-mento à lei da aparência da perspectiva euclidiana. As novas teorias, aprendidas das leis de construção da arte negra e da primitiva em geral, informavam a manipulação dos novos objetos criados pela técnica industrial. Perante os quais o ho-mem europeu contemporâneo se sentia como diante de uma nova natureza. Esta natureza não era, unicamente, um primiti-vismo exótico imitado, mas a elaboração complexa de novas formas para responder aos novos objetos e à realidade criada pela sociedade industrial.
A influência da vanguarda francesa se faz sentir no reen-contro de Oswald com o que ele chama de “sentido étnico”. Isto é, de um embasamento cultural, primitivo e popular, re-sultado da mestiçagem do índio, do negro e do branco. De
forma que, aquilo que para a vanguarda européia era importa-ção exótica, podia ser identificado no Brasil como natural. O exotismo francês era de importação; o primitivismo brasilei-ro podia ser de exportação: mandar para a Europa uma poesia de base etnográfica. Ser autenticamente brasileiro, isto é, fiel às tradições da cultura popular, era também ser atual. Essa é a explicação do que Oswald chamou de “fenômeno da coinci-dência” entre a produção Pau Brasil e a francesa, esquivan-do-se a considerar a implicação de que a coincidência apon-tada era, até certo ponto, uma formulação atualizada do fenô-meno da importação cultural.
Em seguida, o roteiro mais ambicioso da Antropofagia amplia o projeto de Pau Brasil, querendo abarcar não só a literatura, como também toda a cultura, entrando para o ter-reno da utopia. A metáfora central da Antropofagia (que é a devoração do tabu e sua transformação no totem) é expan-dida como transposição da atitude cultural do primitivo para o caso específico da produção brasileira, enquanto tomada de consciência da possibilidade de uma cultura autóctone — pela integração e transformação das inovações técnicas estrangeiras com o resultado da miscigenação nativa, a que se acrescenta a nova imigração, trazida pela expansão industrial. O confron-to da mentalidade do primitivo e do civilizado, neste processo, tem como resultado a criação de um novo modo de compreen-são mítica do mundo, O homem da sociedade industrial mo-derna expressa a síntese entre dois pontos de vista antitéticos: o primitivo e o civilizado. A mentalidade pré-lógica do pri-meiro não decompõe ou fragmenta o movimento da realidade investigando causas, mas demonstra uma dependência do sen-sível e do ilógico. A visão mítica apreende os processos como um todo, de maneira simultânea. Ela é inclusiva e participante, ao contrário da lógica racional, hipotética e dedutiva do co-nhecimento científico, cujo pragmatismo criou a máquina, que escraviza o homem. De maneira que o bárbaro não é o selva-gem mas o civilizado alienado pela máquina. O homem natural tecnizado, síntese desta equação, é o protagonista da utopia social de Oswald de Andrade. Ao reter as vantagens da técnica, rejeita a consciência analítica do civilizado. No seu lugar, pro-põe uma modalidade de experiência de retorno: o comunismo
primitivo e a língua surrealista dos tupis do Matriarcado de Pindorama (*).
Logo depois de 1929 até cerca de 1930, Oswald vai so-frendo o impacto dos acontecimentos e da fermentação de idéias que culminam na revolução de 1930, no Brasil. Em 1931 ele se define como homem de esquerda. A participação política traz, então, a contribuição da concepção marxista, ao tempo do estalinismo, a respeito da missão esclarecedora do intelec-tual e do artista. A força catalizadora da sua polêmica passa a se concentrar na representação literária da luta de classes e na teoria da obra de cunho marcadamente social. A sua pro-dução, nesta época, se dispersa no que se refere aos resultados dos experimentos estilísticos do modernismo, devido à pressão da função referencial no interior do seu discurso. O inventor de neologismos entra em conflito com o conceito de inteligi-bilidade da linguagem discursiva. Aparece, então, uma certa ambivalência nos seus escritos: ao lado da síntese polêmica surge uma prolixidade sentenciosa e persuasiva. A partir de então, uma certa ambigüidade se instala no âmago do seu texto.
Entretanto, ele retoma a Antropofagia e o tema da utopia, desenvolvendo a tese do Matriarcado como crítica à sociedade repressiva e civilizada, após o seu desligamento da militância de esquerda. A idéia da responsabilidade social do escritor é então revista nos termos de um livre compromisso, como resul-tado de suas leituras da filosofia existencialista. O desejo de participação permanece até o fim, no que pesem as acomoda-ções que o seu desejo de reconhecimento obrigava-o a fazer. Ele permanece dividido, nos últimos tempos, entre duas ima-gens: a do polemista rebelde e a do escritor festejado. A pri-meira fazendo dele um agitador incompreendido e defasado na calmaria do momento. E a segunda transformando-o no corte-jador, entre ingênuo e malicioso, das “figuras de projeção” do mecenato artístico e do meio político.
(*) Para uma informação mais desenvolvida o leitor deverá con-sultar o volume 6 — Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias — das Obras Completas, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1972.
No itinerário deste caminho percorrido, a polêmica se so-bressai como expressão, por vezes violenta, do comportamento instigador assumido por Oswald. Isto porque ela traduz muito bem a transformação dinâmica da palavra em ação. A polê-mica se apresenta, por isso, como o instrumento mais contun-dente de atualização da “atitude” antropofágica. A conserva-ção da medida pessoal neste enfoque é importante, porque a atividade de Oswald como jornalista, junto com a repercussão da sua obra literária, pôs em movimento sobretudo uma figura de modernista, cujos componentes, em linhas gerais, são os se-guintes: a irreverência agressiva que não poupava nada e nin-guém, autodidatismo e superficialidade da formação cultural, visão integradora e imaginação criativa. Esta imagem que trans-parece com grande vivacidade nestes escritos de jornal deve ser situada como uma modalidade da chamada “ação de pre-sença”, que assinala para Oswald de Andrade um lugar próprio na literatura brasileira moderna: a de dinamizador da renova-ção modernista. A que se acrescenta a reinterpretação dessa sua figura polêmica pelas tendências antropofágicas da produ-ção atual, pela poesia concreta, pelo teatro e, mais recente-mente, pelos meios de comunicação de massas como o cinema e a música popular.
30, set., 1973
VERA CHALMFRS
TEATROS E SALÕES

SANT’ANA (3) — Com a primeira récita extraordinária, a com-panhia Ferenczy deu-nos ontem o Vendedor de Pássaros.
A peça tem sido uma das mais exploradas nos nossos pal-cos; no entanto, além da esperança de se ouvir uma opereta de valor interpretada com valor havia o atrativo de uma estréia, e, assim, o teatro estava quase cheio.
Mia Weber apresentava-se pela primeira vez a uma pla-téia brasileira e grande parte de nosso público esperava uma mulher alta e bem fornida, com gesticulaçao calculada e ares de boneca, quando surge em cena uma figura deliciosa de vida e de graça: mignon, cabelos negros, num adorável desembara-ço de movimentos; o seu tipo imediatamente subjugou os mais frios circunstantes.
Seguiu-se logo outra deliciosa impressão: — Mia Weber sabia cantar, e não somente sentia que cantava, mas a sua voz fácil e meiga alcançava com segurança os tons agudos e tinha a expressão encantadora de um gorgeio.
Revelando-se uma artista notável desde a sua aparição no palco, Mia Weber soube conservar com rara beleza de linha o porte que lhe conquistara tão prontamente a geral simpatia.
No último ato os aplausos subiram ao frenesi, tendo a jo-vem atriz de bisar um trecho onde se revelou uma superior artista de canto.
Mas o que mais nos impressionou em Mia Weber foi a vivacidade intensa de sua arte, a desenvoltura gaulesa dos seus gestos, a graça das atitudes que posava, a inteligência das con-
(3) Trata-se do primeiro Teatro Santana, nome dado depois de uma reforma do antigo Teatro Provisório Paulistano, inaugurado em 1873. Demolido em 1911 para a abertura do Viaduto Boa Vista.
trações do rosto, enfim, a vida que ela possui na cena e que tão bem desmentiu o temperamento frio e calmo da raça ger-mânica.
Erna Feibiger deu-nos uma magnífica princesa Maria, re-petindo o triunfo da estréia. O mesmo diremos do tenor Sieg-fried Adler, que estava à vontade no conde Stanislaus.
Franz Rauch e Julius Richwald apresentaram uma carica-tura correta e sábia dos professores e a impagável Roldy Pietsch fez rir a valer.
Enfim, estaria tudo perfeito se não fosse o ator Fritz Welt-fried, que se encarregou da parte de Ádamo com uma infelici-dade única.
A orquestra, bravamente dirigida pela competência do maestro Peisker, não destoou do conjunto e os coros estiveram bons.
— Hoje, em segunda récita de assinatura, Der Bettelstu-dent, o estudante mendigo ou guitarreiro. Mia Weber fará a parte de Bronislawa e Erna Feibiger a de Laura.
— Amanhã será representada pela primeira vez, em récita extraordinária, a linda opereta em 3 atos Ein Walzertraum (Sonho de Valsa).
POLITEAMA (4) — A viúva alegre levou ainda ontem grande con-corrência a esse teatro.
Como nas noites anteriores, muitos aplausos às sras. (5) Morosini e Lina Lahoz e aos srs. Acconci, Piraccini e Colombo.
Continuam a agradar imensamente ao público a beleza dos cenários e o luxo do guarda-roupa apresentado.
— Hoje repete-se A viúva alegre.
MOULIN-ROUGE — Está de sorte o alegre teatro do largo Pais-sandu. Ontem, apesar da concorrência que lhe estão fazendo
(4) O Teatro Politeama era situado na Praça do Correio, no local em que se abriu a passagem subterrânea.
(5) sr.s, no original.
as companhias Ferenczy e Lahoz, o Moulin teve uma excelente casa, com aplausos sem conta aos artistas da simpática troupe. Estrearam os cômicos parodistas Les Clements, que cons-tituíram o sucesso da noite, registrando-se ainda o destaque com que figuram no programa Lilyan, Dugny, Jeanne Rein-ville e o silhuetista Delvard. — Hoje, espetáculo variado.
BI J OU-THEATRE (6) — Grande concorrência, muita animação e belas fitas, ontem, no Bijou.
— Hoje, entre outras, será exibida uma fita de grande sucesso — A eterna romanza.
I.ÍRICO-CINEMA — Inaugurou-se ontem, à Rua São Bento, 33, o Lírico-Cinema, isosincronizador Pierini, da empresa Silvério Silvino, tendo sido extraordinária a afluência às sessões. Estas continuarão hoje, revestindo-se provavelmente do mesmo in-teresse despertado ontem.
CIRCO SPINELLI — Está dando espetáculos, com sucesso, na Avenida Brigadeiro Luís Antonio, a Companhia Spinelli, no gênero uma das melhores que tem vindo a esta capital.
BRASiL-ciNEMA — À Rua dos Andradas, 53, inaugura-se amanhã um novo cinematógrafo, intitulado Brasil-Cinema.
O novo estabelecimento acha-se confortavelmente monta-do, e dispõe de um material excelente.
SALÃO CARLOS GOMES — Realiza-se hoje, às oito horas e meia de noite, no Salão Carlos Gomes, uma audição musical de alu-
(6) O Bijou-Theatre ficava na antiga Rua de São João, mais tarde alargada e transformada na Avenida do mesmo nome.
nas da professora Adélia Damiani de Falco, com o concurso de artistas e amadores.
Será executado o seguinte programa:
I PARTE — 1. Weber Hiller — Gran duo a dois pianos (Caça selvagem Lutzone) stas. A. Seppi e I. Ermínio.
2. a) Dancla — Mysotis para violino;
b) Lagye — Bolero para violino, S. da Sil-veira Brito.
3. a) Ole Olsert — Mazurca;
b) Papillons, Sta. I. Ermínio.
4. Motor t — Sonata para piano e violino — AH»-gro molto; andante; allegro vivace, Srta. A. Sepp e Prof. A. Arcolani.
5. A. Damiani De Falco — L’ultimo giorno — Melodia sentimentale para canto com acompanhamento de orquestra, Srta. C. Ghirelli.
6. a) Thomé — Escosseise;
b) Martucci, Improviso; Srta. A. Seppi.
II PARTE — 7. Lisbero — Duo a dois pianos da ópera D. Gío-vanni, Srta. Seppi e Demaniani De Falco. (7)
8. F. Doppler — Fantasie pastorali hongroise para flauta, T. Barros Camargo.
9. Schubert — Sonata para piano e violino, Alle-gro vivace; andante sostenuto; rondó; Srta. I. Ermínio e Prof. Alcolani.
10. Mendelsson — Barcarola em sol min.; Chopin — Walzer Op. n.° 1; De Crescenzo — Papillons en route (8): Srta. A. Seppi.
11. Dionesi — a) Vieni Vieni-Walzer cantabile; Srta. C. Ghirelli; b) Serenata (art noveau) para piano e orquestra.
12. Grieg —: Sonata 8a. para piano e violino. Alle-gro con brio; quasi andantino; molto vivace; Damiani De Falco e Prof. Arcolani.
REPRESENTAÇÕES DA COMÉDIA FRANÇAISE — Já está marcada para julho próximo a estréia, no Teatro Lírico do Rio, da compa-nhia dramática da Comédie Française, em que se destaca como figura principal o notável artista Le Bargy.
(7) No original há discrepância na citação do nome da prof. de Falco.
(8) Papollons en route, no original.
A companhia traz um repertório de primeira ordem, con tando com elementos de valor, como sejam: Mlles. Gabrielle Dorriat, Sylvie, Marcelle, Julienne e Mrs. Henri Burgnet, Man-teaux, Lembas Wille, artistas dos principais teatros de Paris.
Também visitará o Brasil este ano o grande ator Lambert Fils, da Comédie, que dará na Capital Federal seis récitas de assinatura.
Estas companhias são trazidas pela empresa teatral ítalo-Argentina.
UMA CARTA DE LISZT — O Temps, de Paris, recebeu comu-nicação de uma carta inédita de Liszt e que nos dá mais uma prova do grande coração do cantor das Rapsódias Húngaras.
O fato a que se refere a carta de Liszt deu-se em 1845, quando César Franck era ajnda muito jovem, pois tinha apenas vinte e três anos, fazia os seus ensaios na composição. Liszt, tendo ocasião de ouvir César Franck tocar órgão, ficou entu-siasmado com o seu talento e resolveu vir em seu auxílio, a fim de que fosse conhecido o oratório de Ruth, que o compo-sitor belga acabava de escrever. César Franck tinha necessi-dade de uma sala para organizar um concerto com orquestra e coros, e foi para obter o salão do Conservatório, que Liszt di-rigiu uma carta ao pintor Ary Scheffer, da qual extraímos os seguintes trechos:
” O que interessa para este homem é fazer-se conhecido. Se pudesse haver para as produções musicais, como para a pin-tura, exposições anuais ou decenais, não haveria dúvida que o meu recomendado se distinguiria do modo mais honroso, porque entre os jovens que suam o topete para chegar a tra-çar algumas idéias sobre um papel de música, eu não conheço três na França que o igualem. Mas, não é suficiente valer al-guma coisa; é preciso ainda, e principalmente, que se saiba valer”.
Era assim, de um modo tão nobre e generoso, que o gran-de Liszt se referia a um colega que começava, e que hoje é colocado ao lado dos maiores gênios da arte musical.
14-5-1909
POLITEAMA — Estreou ontem nesse teatro Giovanni Grasso com a sua companhia siciliana.
Foi um espetáculo forte que deixou uma sensação pro-funda na sala.
Representou-se o drama catalão Feudalismo, de Guimara.
É uma tragédia curta na evolução do seu assunto, um caso passional intenso da realidade, maravilhoso como observação, robusto como drama de ensinamento social.
Don Carluccio, poderoso e arrogante feudatário, violentou Rosa, uma linda rapariga que viera um dia mendigar à sua porta. Agora, ele, arruinado, vai salvar a situação dos seus domínios casando rico. E, para se desfazer da ligação imperti-nente, chama da montanha bruta, Vanni, o pastor dos seus re-banhos para que a espose.
Rosa casa num momento de desgosto, mas responde às primeiras carícias do selvagem pastor com a acusação violenta de que ele a tomara por mulher, comprado, sabendo da sua desgraça.
Vanni desperta numa fúria de bruto e, extenuado pelo ímpeto da cena, agarra-se desesperadamente às roupas dela, impondo-lhe a que passe a noite ali, sentada, junto dele, que se estira a seus pés, vigiando.
No segundo ato cresceu um amor imenso entre os dois.
Vanni quer saber o nome do sedutor, ela guarda segredo; ele agarra-a pelos cabelos e ergue a faca, mas, quebrado pela resignação que ela ostenta, atira a arma e rola pelo chão, cho-rando num desespero de criança.
— Não posso te matar porque te quero bem.
Reconciliam-se e vão fugir para a montanha.
Entra Don Carluccio, maltrata Rosa; Vanni intervém com rudeza, o patrão chicoteia-o e manda-o prender, enquanto Rosa se tranca no quarto.
Vanni conseguiu escapar, vem e desafoga com Rosa toda a paixão que o oprime. Chega Don Carluccio, Vanni se escon-de num quarto vizinho. O patrão investe para Rosa e tenta violentá-la de novo, mas o rude pastor se atira, terrificante, enorme, e, tomando o miserável pelos cabelos, estraçalha-lhe a garganta com uma dentada feroz.
Depois, evocando uma cena da montanha em que roubara ao grande lobo a melhor ovelha do rebanho, ergue a desgra-çada e desaparece numa corrida, levando-a nos ombros.
Para falar da arte inquietante de Giovaoni Grasso, não viremos com trocadilhos abomináveis, de um cômico fora de propósito.
A arte dele é de uma potência mágica de expressão.
Surpreende e arrebata, domina e assusta.
Na cena final, o teatro despertou num delírio fremente, comunicativo, arrebatador.
As outras figuras da troupe acompanham o grande artista nas expansões livres das maneiras, na intensidade brutal dos sentimentos que interpretam.
E toda a cena palpita, sofre, se move numa visão ardente de vida.
O modo de sentir da companhia siciliana é a mais robusta e a mais viva manifestação de arte teatral que se possa imaginar.
Destacaremos, portanto, os nomes de Marinella Bragaglia, J. Campagna, Rosa Spadaro, G. Campagna, Viscuso, Ângelo Musco e Florio.
Foram todos de uma vibratilidade incomparável.
J. Campagna e Marinella Bragaglia produziram figuras magistrais.
Para hoje, o drama em 3 atos Malia, de L. Capuana, e uma peça cômica interpretada pelo cav. Ângelo Musco.
SÃO JOSÊ (9) — A Zazá, que ontem foi representada pela com-panhia do teatro D. Amélia, de Lisboa, alcançou boa concor-rência e muitos aplausos.
Angela Pinto, na protagonista, deu um bom trabalho.
Henrique Alves na parte de Dufresne, Azevedo no Cas-cará e Chaby, bem como as atrizes Elvira, Sarmento e Santos acompanharam-na com boa vontade.
(9) O Teatro Sâo José, que existiu desde 1876, era o mais im-portante de São Paulo, antes da inauguração do Municipal, em 1911. Ficava onde é hoje o prédio da Light.
— Hoje, em primeira apresentação, a comédia em 4 atos de Gavautt e Chavay, tradução de Melo Barreto Minha mulher noiva de outro.
SANT ANA — A terceira récita extraordinária que deu no Sant” Ana a companhia dramática alemã teve boa concorrência.
Foi representada a espirituosa comédia Im weissem Roessl (O Homem das Mangas) já aqui conhecida em português.
A interpretação foi correta, sendo muito apreciados todos os artistas.
Gustav Bluhm, na parte de Arthur, Lessing que fez IVai-thert Erika Brunow e Hansi von Schõenbeck tiveram os me-lhores aplausos do espetáculo.
Também alcançaram muitas palmas Grube, Schur, Moeller, Flessa e Lehndorf.
Os cenários agradaram.
— Para hoje, em récita de assinatura, um espetáculo de grande interesse com Os Espectros, de Ibsen.
CASINO (10) — O Casino teve ontem a habitual concorrência.
Muito aplaudidas Little Yette, Louisette, Lili e Lina Landi.
— Hoje, espetáculo interessante.
— O grande festival de sábado, em homenagem ao exce-lente Saldanha, vai pondo em reboliço o Casino.
Esse espetáculo será honrado com a presença do Dr. Wash-ington Luís, Secretário da Justiça.
Tomarão parte os atores nacionais Brandão e Colás, bem como o número de Les 6 diablettes, formado pelas principais artistas da troupe do Casino.
O Saldanha deve estar satisfeitíssimo.
Bi J OU-THEATRE — Hoje serão exibidas neste salão, entre outras, a fita científica É urgente ferver a água, cinetografia do mi-cróbio. e a de arte Estrelinha, que ontem fizeram sucesso, e
(10) O Cassino ficava na rua 24 de Maio.
pela primeira vez será apresentada O castigo do Samurai, es-plêndida fita de arte tirada do japonês e que é representada pelos artistas do teatro imperial de Tóquio.
ÍRIS-THEATRE (3I) — Como prevíamos, foi um verdadeiro su-cesso nas sessões de ontem a exibição da fita norte-americana Johnson, o célebre campeão mundial do boxeur,
— No programa para as sessões de hoje figuram as fitas A lenda de Roberto, O Diabo, Tontolini, Acrobata (12) e ou-tras, algumas das quais ainda ontem fizeram sucesso.
COMPANHIA ALEMÃ DE OPERI:TAS — O maestro Arthur Peisker, já conhecido nesta capital, trazendo-nos o ano passado a notá-vel artista de opereta Mia Weber, prepara para este ano uma nova temporada.
Desiá vez não teremos Mia Weber, na sua troupe, pois que, ligada à companhia Papke, ela nos visitou em junho últi-mo e agora trabalha em Porto Alegre com extraordinário su-cesso.
Mas virá com o maestro Peisker um outro elemento de valor, uma das melhores figuras do teatro alemão que nos costuma visitar — Erna Feibiger.
Além da distinta atriz cantora fazem parte do elenco da companhia Peisker, que deve estrear em novembro próximo no Politeama: (13) os tenores Karl Grünwald e Alfred Lieder, a soubrette Lúcia Gõrgi, a característica Martha Brede, o cô-mico Rudolf Ander, as triples Káthe Dietrich e Mizzi Schnei-der, o tenor cômico Paul Lene, o barítono Alfred Peters, o baixo Rudolf Steiner.
Como elementos secundários vêm: Lissie Müller, Gisa Dl-biem, Friede Reisinger, Lotte Reuter, Ida Opermann, Else von Burger, além de outros artistas.
(11) O íris Theatre era situado na rua 15 de Novembro.
(12) Minúscula, no original.
(13) Depois da pontuação segue-se parágrafo e inicial em maiús-cula, no original.
Acompanham um corpo de coro de 34 pessoas e uma or-questra de 35 professores.
O repertório que traz a companhia Peisker é escohlido.
Consta de diversas óperas como: Marta, Terra baixa, O acampamento de Granada, Alexandre Stradella, Contos de Hof-fmann, Cavalaria Rusticana, etc.
Traz operetas novas, como a última produção de Leo Fali — Brüderlein Fem, O filho de príncipe, Waldmeister, Miss Du-delsack, Os vagabundos, além da Viúva Alegre, Sonho de Valsa, Conde de Luxemburgo, Princeza dos Dollars, Divorciada, San-gue Vienense, Morcego, Barão Cigano, Bocaccio, Jueheirat, Ares da Primavera, etc., etc.
Como curiosidade, há também os contos de fadas musi-cados: Ascenção de Goldhãrehen e Sneevittchen.
VÁRIAS NOTÍCIAS — Enviaram-nos delicados cartões, agradecen-do as muito justas referências que delas fizemos, as distintas atrizes Angela Pinto e Zulmira Ramos, da companhia portu-guesa que, com grande sucesso, está trabalhando no Teatro São José.
11-8-1910
POLITEAMA — Tivemos ontem o Otelo por Giovanni Grasso.
O teatro estava repleto, e foi ao delírio o entusiasmo do povo diante do esforço colossal do artista siciliano.
Ele viveu todas as cenas com o sentimento arrebatado a que o impele o seu temperamento, não há expressões que di-gam a verdade do sofrimento que ele expandiu, da vingança que ele tirou.
Foi gigantesco, e basta.
Marinella Bragaglia deu muita beleza ao tipo de Desde-mona.
Foi esse para nós o seu melhor trabalho, tal a gentileza de emoção com que ela graduou as situações.
Campagna se fez odiar no lago.
Rocco Spadaro, Florio e Marazzi produziram figuras bem acabadas.
Enfim o Otelo, de ontem, foi um triunfo de palco, como poucas vezes se terá visto.
A morte do mouro arrepiou a sala, subjugou todo o mun-do, assustou como se por uma circunstância inesperada, Grasso tivesse cortado a carótidas deveras.
— Para hoje anuncia-se o espetáculo em honra de Grasso,. o ator colosso que agora nos visita.
Representa-se o belo drama ln nome delia legge, de Leoni, onde ele tem uma das suas criações imponentes.
Já ontem era reduzido o número de bilhetes para a festa de hoje. Promete, pois, uma enchente absoluta para o Poli-teama.
SANT’ANA — Vai muito bem a temporada atual no Sant’Ana.
Ontem, muito público e muitos aplausos para o programa divertido que ali se exibe.
O elefante Topsy, os Mabelle Fonda, o» Zaretsky, as dan-ças escocesas e a parte das cançonetas tiveram o agrado mani-festo dos habituées, quo já vão em bom número.
— Hoje, função atraente.
— Amanhã mais uma interessante matinée.
CASINO — Ontem reapareceu no Casino a tirolesa Blanche Bella, que passou a constituir mais um elemento de sucesso no pro-grama.
Estreou também com muito êxito a cançonetista Alice Balda.
Continuam agradando Luize Lami, Flora Europa, Didi e Perlita.
— Hoje, espetáculo variado.
— Amanhã, com todas as estréias da semana, haverá ma-tinée.
BI I OU-THEATRE — Belíssimas as fitas ontem exibidas. Festa das águas, na Indochina, Os bastidores do animatógrafo e Ume inocente donzela, que hoje serão repetidas.
Além desses e de outros, será exibida hoje pela primeira vez a fita de arte Ignez Visconti, da casa Itália,
ÍRIS-THEATRE — Neste elegante salão da Rua 15 de Novembro serão exibidos hoje, entre outras, as fitas O sonho do mendigo, da casa Gaumont, e As lágrimas de Aquiléia, natural, de Cines, que ontem agradaram bastante.
RAPIUM (“) — Este salão, que todas as noites registra enchen-tes colossais, terá hoje um programa escolhido.
Dele consta, entre outras, as fitas dramáticas Irmã das Dores e a natural reproduzindo O terceiro encontro dos Co-rintians com os estrangeiros, que foi o sucesso de ontem.
AUDIÇÃO MUSICAL — No belíssimo salão do Clube Germânia (l3), um brilhante auditório deliciou-se ontem à noite com a exe-cução do programa de concerto organizado pelos professores Diaz Albertini e Agostinho Cantú e a que demos publicidade.
Dentre todas as intérpretes do “recital”, salientou-se ex-traordinariamente, impondo-se aos aplausos crescentes da sala, a menina Ivone Hildebrand, discípula do prof. Albertini, e uma das mais belas promessas que tinham surgido nas aulas de violino desta capital.
Nos oito números que executou, com a arcada segura de uma intérprete consciente, a pequena violinista evidenciou um temperamento precioso, que sabe traduzir à maravilha a mú-sica meio selvagem da dansa húngara de Brahms e da mazurka de Vieniawski, sem que lhe faltem explêndidas qualidades para nos dar uma interpretação encantadora do encantador con-certo romântico de Godard, interrompido duas vezes por vi-brantes aplausos.
<14) O Cinema Radium era na rua de São Bento. <15) Club, no original. A arcada graciosa nas insistências de um romantismo in-fantil do primeiro tempo do concerto, maravilharam a assis-tência, bem como na deliciosa canzonetta. A senhorita Germaine Weill patenteou dotes de técnica brilhante na Morte de Isolda. A senhorita Antonieta Penteado cantou com muitos aplau-sos alguns trechos de música brasileira, italiana e francesa. A senhorita Garcia Arantes tocou muito bem uma valsa de Chopin e o minueto de Zanella, e a senhorita Lacaz Machi-do conquistou fartos aplausos no impromptu, op. 66 de Chopin, e no belo estudo de concerto de Martucci. VÁRIAS NOTÍCIAS — Seguiu hoje, a bordo do paquete Amazon, com destino à Lisboa, a companhia dramática portuguesa do teatro D. Amélia e da qual faz parte o festejado ator Augusto Rosa. Os espetáculos que a mesma companhia deu em Santos tiveram sempre grande concorrência. 6-9-1910 FEIRA DAS QUINTAS O sucessor de Rodolfo Valentino Chamava-se Champoglione Vespa. Tintureiro de profissão. Parecidíssimo com o filho do Sheik, a família do Sheik. Pa-rente na certa. Quando o Dr. Carlos Pimenta Jamegão, sobraçando um embrulho, entrava na tinturaria a fim de, confiante em Deus e na química, fazer uniformizar o arco-íris do fraque, Cham-poglione media-o de cima a baixo, dava um tapa na precoci-dade do Nícola — dez anos, cabeça raspada, calças compridas e gritava: — Abra o gabineto! O "gabineto" era a sala das revelações. Ali, entre aneste-sias de terebentina, quanta gente boa tinha aberto o coração c a bolsa para a esperteza complexa e serviçal do tintureiro! * — No posso, Dona Querubina. Ma no posso! Mi parte o coraçó! Mi sobe o sangue na a gara! Ma no posso. A crise está dura! — Dez mil réis. . . — No posso. Inutile! Dona Querubina tinha ido ver se empenhava com o tintu-reiro o último castiçal das pratas da família. Coisas do mundo. O filho dera de bebor. Hipotecara a fazenda. Perdera no jogo. O tintureiro talvez pagasse mais que o Monte de Socorro. — No posso. Inda fosse un ojeto utile. per exempio una bixicleta. Si a sinhora té una bixicleta pode levar aqui! Deiz mireis. Duas nota de cincô! Dona Querubina lá se ia na bicicleta quebrada das pernas de 63 anos, com o castiçal evocador de baixelas e capelas, not áureos tempos escravos, em que a sua família medievara por latifúndios e cafezais, Pequenas lágrimas sem força. — Diacho de italiano! — Dotori Jamegó, si io fusse o sinhori, vendia ista cala-midade di fraco! No agüenta né mais una escovada! — Oh! Sr. Vespa! Não diga barbaridades! Como poderei ir ao vesperal da Sociedade íntima, sem ser de fraque! — Ma nó agüenta! Parece un gobertore da a Santa Casai O Dr. Jamegão acabava trocando o fraque secular por um jaquetão de zuarte. — O sinhori é muito bé disprupursiunado. Fica o suque emzima do jaquetó. O espelho fanado da tinturaria revelava um chouriço em verde confuso. Champoglione dissimulava pregas, imperfeições. — Agora si usa a zintura emzima! O suque! E quando o Dr. Jamegão saía, levando aquele destroço da cidade que trocara pelo fraque fidelíssimo, Champoglione batia as mãos, pregava um pontapé amável no Nicola e tele-fonava para o Mercado, compartimento 29, perguntando pela "basa do bacato". * A "basa do bacato" era o segredo de resistência da fortuna florescente do tintureiro. Ele comprava tudo — ferros de en-gomar, abotoaduras, pneumáticos. E vendia abacates por conta do Capitão Melo, lavrador em Cabreúva. Adquiria as árvores. Cada pé, cem mil réis. Tirava no Mercado conto e pico livres, segundo a base diária. Uma tarde fechou a tinturaria. Blefou o Capitão e o Mer-cado, onde sacava por conta da "basa do bacato". Reapareceu em Nápoles, de cartolinha, pé quadrado, atra-vessando o golfo no vaporeto que o conduzia agora à sua cida-de natal: Sorrento. Miss Barbara Battlefield nascera torta. Desde que se in-ventou a ortopedia, por uma fatalidade de equilíbrio cósmico, cresceu assustadoramente a estatística dos nascidos tortos. Além disso, Miss Barbara Battlefield nasceu nos Estados Unidos, depois de um desastre de automóvel da mama. Devia nascer amassada. Nasceu torta. Podia nascer torta, mesmo para provar a capacidade inigualável dos grandes médicos america-nos e dos grandes ortopedas da mesma nação. Puseram-na numa forma complicada. Todas as manhãs e tardes passavam-lhe na barriguinha pontuda um rolo que era afinal de contas uma miniatura graciosa desses rolos de asfal-tar ruas e praças. Miss Barbara Battlefield começou a por os ossos no lugar. Guindastes com pesos na ponta foram-lhe adaptados aos om-brinhos. Miss Barbara começou a mexer nos alicerces. Estica dali, empurra daqui, torce d'acolá — em três meses, Miss Bar-bara ganhou o prêmio de boas cores no quinto concurso de crianças tortas do seu estado. Daí a um ano, engatinhava, daí a dois, andava, puxava as toalhas, quebrava os copos e atroava a nursery, como se nada tivesse havido em seu passado, nem mesmo aquele famoso de-sastre de automóvel donde resultara tanta tortura. Cresceu, aprendeu a guiar e a ler. Foi muitas vezes ao ci-nema e ao campo de tênis. Um dia, conseguiu uns cobres do avô, que, por sinal era Rei do óleo de Fígado de Bacalhau. E chispou num transa-tlântico sozinha, para a Europa, a fim de gozar a vida antes de casar-se. Mãe e pai continuavam a ter desastres de automóvel e outros. * No terraço preguiçoso e quase sideral do Bertolinis Pa-lace, em Nápoles, Miss Barbara Battlefield, tendo vinte anos, sonhou com um napolitano. Consultou o baedecker (16). Pro- (16) Baedecker — nome genérico dado aos diversos guias de turismo feitos pela firma Baedecker. Usado também como sinônimo de guia, em geral. curou o capítulo "napolitanos". Inutilmente. Não havia. Pen-sou em telefonar ao Cook. Mas aquele sol de Nápoles matava na cabeça qualquer iniciativa. Um sol caradura. Cheio de facilidades. Espreguiçou- sc. Dormiu com um número do "Vogue", aberto nas pernas. * Na manhã seguinte, atravessou o golfo no vaporeto. Iria a Capri. Súbito teve um enjôo e deu de cara, no banco fron-teiro com Rodolfo Valentino. O enjôo passara, mas vinha de novo, Rodolfo Valentino fitava-a. Aquele olhar fixo de Sheik, debaixo da cartolinha arrepiada. Ela estava pálida, transfigurada. Era ele! Não mor-rera. Revirou os olhos. Ia desfalecendo em cima de uma in-glesa de óculos e chapéu de palha. Rodolfo levantou-se, am-parou-a. * Quando Miss Barbara Battlefield abriu os olhos de nova, estava deitada de comprido num banco da popa. Ao seu lado, só, de cartolinha, Rodolfo Valentino. * O diálogo que houve foi numa língua sem dicionário pos-sível, mas facilmente traduzida pela fotogenia de ambos. — Por que o senhor está aqui? — Chi! Io sá? — O senhor é médico? Gesto afirmativo, categórico. — Especialista de que? Gesto indicando o estomago. Ela sorriu. — Já passou... Silêncio. Olhar de sheik. Ela sorriu de novo. Perguntou: — Quantos médicos há (17>?
— Chi lo sá!
Silêncio. Olhar de sheik. Ela contou.
(17) O texto original apresenta uma falha de impressão tipo-gráfica.
— Eu nasci torta…
Conversaram a tarde toda, depois do desembarque azul, em Capri. De vez em quando, o sheik dizia:
— Chi lo sá!
E foi assim que Champoglione Vespa conquistou dum tiro a alma, o corpo e a fortuna da neta do Rei do Óleo de Fígado de Bacalhau.
28.10.26
O abeihudo
Zeferino Paulificante, tendo atingido a idade de quarenta anos, foi ver a Semana da Galinha e descobriu que tinha nas-cido apicultor. Logo na entrada, um sujeito magro e nervoso, de olhos puxados para fora dos bolsos das órbitas, pos-se a contar-lhe o que era a vida das abelhas. Que nem um jogo! A rainha, o zangão. O tablado era a colméia. O gol era o vôo. O vôo nupcial!
Zeferino Paulificante, primeiro escriturário de uma repar-tição pública, tivera sempre horas de lazer. E nas horas de lazer tentara teimosamente fazer um pomar. Está claro que era um modesto pomar no quintalejo da sua casa, à Rua Tenente Pena. Quando as crianças berravam, Zeferino Paulificante pu-nha um chapéu de cow-boy e dizia:
— Ih! Vida apertada! Sumia no pomar.
O pomar ameaçara dar resultados brilhantíssimos. Uma laranjeira nasceu impávida, folhuda e tesa. Zeferino plantou ao lado um pé de cana e outro de chicória. A chicória repre-sentava as leguminosas.
Zeferino matutava: — Acabo pondo uma engenhoca para fazer garapa. Imagina garapa com calor!
Mas Madame Zeferino que, enquanto as crianças se desen-volviam no colo desconjuntado de uma pretinha, ia ao cinema no Santa Helena e na vida — Madame Zeferino tinha mau olhado. Um dia descobriu a laranjeira. Nasceram imediata-mente laranjas enormes e azedas.
Zeferino, tendo cuidadosamente plantado uma muda de ‘seleta branca especial” ou seja em latim “selectas àlvinitentis gigantea”, não compreendeu o fenômeno. Comeu duas laran-jas, convencido de que, com os anos, perdera o paladar.
Mas quando, no dia seguinte, ofereceu um dos esplêndi-dos frutos ao seu amigo e confidente Dr. Penaforte Icaraí, dizendo-lhe: Este está ótimo! foi uma catástrofe. O Dr. Pena-forte quebrando uma tradição que tinha quarenta anos de po-lidez e outros quarenta de higiene, cuspiu e babou no chão lustroso e encerado da repartição, na mesa, nos tapetes e até na cadeira em que sentava. Cortou relações com Zeferino e no dia seguinte faleceu.
Aguilhoado de remorsos, Zeferino cortou a laranjeira, o pé de cana e a chicória.
Suas horas de lazer, porém, continuavam a bater no re-lógio da sala de jantar. Passou a preocupar-se com os estudos de Zeferino Paulificante Júnior, que a esse tempo já tinha crescido, mudado de voz, bem como brotejado espinhas caro-centas na cara peluda. Pediu-lhe que se dedicasse à botânica, pois um dia, mais tarde, poderiam adquirir um terreno a pres-tações e aí então, realizar triunfalmente o plano de um pomar modelo, sem perigo de surpresas desmoralizantes.
Zeferino Paulificante Júnior comprou um tratado de bo-tânica mas subitamente apaixonou-se pelas coníferas e propôs ao pai plantarem junto ao muro um renque de ciprestes que daria grandes resultados financeiros dentro de alguns anos.
Madame Zeferino que ouvira a conversa, da cadeira de balanço, alarmou-se com aquele projeto de cemitério e mandou a cozinheira pôr o livro no sebo.
Foi aí que coincidiu a Semana da Galinha, a visita de Zeferino e o encontro com o sujeito psicastênico que lhe reve-lou o mundo das abelhas.
Zeferino Paulificante assinou uma letra e comprou uma colméia.
Passava agora manhãs e tardes, ao sol do Bom Retiro, estudando de visu aquele ajuntamento urbanizado de moscas ativas que, negavam, a inconsciência da natureza e a ausência de alma nos animais. Fazendo essas reflexões à família, depois
Jo jantar, Madame Zeferino declarou violentamente que abe-lhas não eram animais, no que foi apoiada pelo filho, nos se-guintes termos:
— Animal é burro, papai!
Para evitar essa e outras dúvidas Zeferino Paulificante comprou um livro.
Enquanto isso, a colméia progredia sozinha. Zeferino de vez em quando levava uma ferroada inocente e refletia:
— Elas devem me tomar por um zangão de outra col-méia.
Não era isso. As abelhas conheciam Zeferino de longe. Quando ele se aproximava diziam: — Lá vem o meloso! E decidiram pregar uma peça monstra no seu paciente possuidor.
Zeferino lia jornais e acompanhava com ardor a questão dos ditaduras.
Para distinguir na colméia, a rainha das operárias, em vez de cortar as asas — o que achava desumano — inventou o engenhoso processo de pintar uma coroa na cabeça da pri-meira.
Fez cuidadosamente o trabalho e batizou-a de Maria An-tonieta. Estava ajudando as abelhas.
Em alguns dias de ardoroso trabalho elas fabricaram uma bastilhazinha de cera e prenderam lá dentro Maria Antonieta.
Quando Zeferino Paulificante se aproximou da colméia elas inventaram de tomar a Bastilha. Chefiadas pelos zangões que zumbiam como corneteiros, atiraram-se ferozes contra a fortaleza e derrubaram-na de um tranco.
Maria Antonieta saiu voando, com a coroa na cabeça e quis acolher-se, atordoada, à sombra do chapéu cow-boy de seu amo.
As abelhas, então, num vôo nupcial coletivo e insano fer-raram na cara do Zeferino Paulificante e fecundaram-na num glorioso suicídio.
Desde essa tarde Zeferino Paulificante ficou convencido de que tinha uma colméia no lugar da cabeça. Faleceu no Ju-queri com quarenta e dois anos e sete meses de idade.
Os jornais fizeram-lhe efusivos necrológios.
30.11.26
Excertos do “Serafim Ponte Grande”
RECITATIVO
Apareço ao leitor. Personagens.
A paisagem desta Capital apodrece através de uma vidra-ça, capa de borracha e galochas. Foram alguns militares que transformaram minha vida e ilusões. Glória dos batizados! Lá fora quando secar a chuva, haverá o sol. Depois a chuva.
A professora da Escola Berlitz — Ach!
SOUVENIR DO GUARUJÁ
Uns montão de conchas.
MIGRAÇÃO
O carro plecpléca nà rua e a estação da estrela d’alva.
FOLHINHA CONJUGAL
30 de novembro
Partida de bilhar com o Manso da Repartição. Joguei mal. Pequena emoção guerreira.
*
Lalá quer passar c inverno em Santos. Já fiz as contas e vi que o ordenado, mesmo com os biscates, não dá.
No entanto, deve ser muito bom mudar de casa e de vida, de objetos de uso familiar e de paisagem diária. Seria para mim — homem de sensibilidade que sou — um presente do céu. E quem sabe se também quiçá, mudar de paisagem ma-trimonial. Sed non possumus.
16 de junho
Súbita e inesperada enfermidade de Lalá. Cheguei a con-verter-me de novo ao catolicismo. As três crianças choravam em torno do leito materno. Que quadro!
2 de setembro
Chove. Verdadeira neurastenia da natureza.
21 de setembro
Dieta de cachorro. Causa-o vinho Chianti que bebi ontem
—festa dos italianos — em companhia do Pinto Calçudo.
*
Lalá e o Pombinho — o caçula — invadem o repouso contemplativo de minha sala de visitas. Estou convencido de que as seis cadeiras enfronhadas em branco, o espelho, a gôn-dola de Veneza, o retrato do Marechal Deodoro, tudo tem vontade de disparar. Piano.
Mais piano. Os Sinos de Corneville.
*
Resposta de Lalá à minha queixa: — Precisa pagar a prestação, do mês passado. Senão o homem vem buscar o Stradivarius.
Mais Stradivarius.
12 de janeiro
Vou tomar chá às 9 horas em casa do Comendador Sale* É o Manso que me reboca. Enfio o fraque.
7 de abril
Dia de anos de Pinto Calçudo.
7 de julho
Volto de novo a preocupar-me com o romance que ima-ginei escrever há um ano e meio. Tenho alguns apontamentos tomados sobre o tipo principal a Marquesa de Y. Quando o seu sedutor, o invencível Álvaro Velasco inicia a sua ofensiva na sala de jantar, ela retira bruscamente o pesinho. Nota hu-morística: a Marquesa tem um caio.
2 de novembro
Ontem chá chic, à noite, na residência bem mobiliada (no gracioso estilo Luís XV) do Comendador Sales. Discute-se muito sobre a gravidade das aventuras amorosas. Como são perigosos os Dom Juans!
4 de dezembro
Almocei em casa do Manso. Ele mora com uma tia. Boa cerveja.
5 de dezembro
Lalá comprou um kimono japonês.
17 de junho
Comprei um bilhete de loteria, de sociedade com o Zé Maria, amanuense do Banco Sulista. É um bom camarada que há anos eu não via.
£ de fevereiro
Ontem, último dia de Carnaval, fizemos o Corso na Ave-nida. Vaca com o Manso para pagar automóvel. Além disso, ele ofereceu gentilmente serpentinas.
20 de fevereiro
Comprei meia dúzia de copos inquebráveis.
O TERREMOTO DOROTEU
Dorotéia recitando os Elefantes é um verdadeiro gênio. Eu fico aniquilado.
*
Posso dizer que hoje, segunda-feira, 4 de abril, penetrei no âmago da alma da Mulher! Dorotéia’ confessou-me cínica-
mente que ama o Birimba, tomando por pretexto do fora que
somos primos e que além de tudo, eu sou casado.
*
Isolo-me para meditar sobre os acontecimentos. Nesta ve-lha sala de visitas, onde me sento, fitando na parede fronteira, o retrato do Marechal Deodoro, revejo o meu passado: o in-fame sogro Benevides que mudou-se para Rocinha, o Carlin-doga, o Manso. Que será o futuro se a vida crescer de inten-sidade como sinto que cresce! O meu futuro! O meu, o de Dorotéia, o do Birimba, o do Pinto Calçudo, o de Lalá e meus filhos!!??
Oh Deus que salvastes Fausto e perdoastes São Pedro, tende caridade!
*
Durante vinte dias falam as metralhadoras na cidade natal de nosso herói.
— A vida parou
— Parou.
— Para ser fotografada
— Para ser
— À bala
— Ave Maria cheia de graça!
— Pló! Pló! Pló! Pló! Pló!
— Bendito é o fruto de vosso ventre
— Dom Bão
— Pá! Pá! Pá! Pá! Pá! Pá! Pá!
— Crianças mortas
— Nas camisas de dormir
— Bendito é o fruto…
— Luares
— Remédios
— Ambulâncias
— Tiraram o homem
— Da trincheira
— Com a cabeça desfolhada
— Como uma rosa
— Vermelha.
O LARGO DA SÉ
Ensaio de apreciação urbanista, pelo Sr. Serafim Ponte Grande, novo rico,
candidato à edilidade *
O largo da Sé está se modificando muito. Nem parece mais o largo da Sé de dantes. Dantes era menor. Tinha (18) casas com telhados para fora do alinhamento e tinha a santa madre igreja com uma porção de carros.
O largo da Sé começou a ficar diferente por causa das Companhias de Mútuas que são umas verdadeiras roubalhei-ras mas que em compensação aí construíram os primeiros ar-ranha-céus qoe nem chegam à metade dos últimos arranha–céus que nem chegarão decerto à metade dos futuros arranha-£éus.
De como Pinto Calçudo querendo fazer esporte, enfia no óculo da cabina um pau comprido e rema, produzindo um grave desvio na rota do transatlântico que aporta inesperada-mente no Congo Belga.
O padre sentado em uma cadeira de vime e lona relê o Sermão de S. Pacômio. Capitão Leão insiste junto à desejada Mariquinha para que veja a linha do Equador, oferecendo-lhe binóculos.
Alhures, discute-se a Ilíada, Canto 3.
— É o que lhe digo, Coronel. A Guerra de Tróia durou dez anos, por causa das descomposturas antes dos combates.
Quando do alto do mastaréu, o vigilante descobre de subi-tas um trecho de costa amarela boiando no mar.
A notícia se espalha comovidamente.
— Onde?
— Ali!
(18) A inicial é minúscula, no original.
— Terra! É Jerusalém! É México!
Então, o dono do navio, tomando de um altifalante, ex-plica que por uma pane da nova bússola, estão à vista de um continente desconhecido nos mapas. E acrescenta aos berros:
— Sús, ladies and gentlemen! Não haja aqui um que desmaie ou desanime. A fé salvará deste temeroso engano e nos levará a salvo a terras de Marselha, onde a nossa chegada fará notório o esforço que obrarmos!
SERAFIM NOS LAGOS
Pedregulhos vadios do Lemano dão numa sociedade se-minua limpa de poliglota, dir-se-ia as férias de Belitz nos Pa-lácios escorregadios e verdura de chalets.
A floresta desce sobe densa recenseada (18) escorvada da neve. Entra nas casas, ageita-se nos tetos e madeiramentos es-talantes, polida, torneada, florindo em rosas mikifones e livros.
Naquela higiene de céu e lago os micróbios se afogam ds pura dor. A Villa des Abeflles frigorífica carnes castas do Canadá e da Escócia,
E por quatr’horas da avalanche que do dia tomba, de maillot com Mister Bob Serafim em candura e atletismo, mas os seus ouvidos são dicionários.
Os dezesete anos da alemã d’aprés guerre abre balcão na barca do porto do jardim. Feia levantada de pé plástica, sai mais nua do Lemano prá toalha da paisagem.
Uma finura na outra inglesa sardenta a quem Mister Bob lembra a conveniência de um binóculo, de um gramofone e de um salva-vidas.
SAUDADE
Rios, caudais, pontes, advogados, fordes pretos, caminhos vermelhos, porteiras, sequilhos, músicas, mangas.
10.2.27
(19) A palavra “recenseada” é quase ilegível no original por causa d* falha de impressão tipográfica.
Antologia (20)
Pois vou-vos contar cie pedanta grei, da qual recebi dois agravos durante a semana, que por certo esfalfaram as víceras agravantas, demonstrativos porém ambos de espírito antanho e garganta que não sacode pedras mui longe do antro em que se antola.
Antigamente os homens que nasciam sob o signo da es-trela Antares só bebiam cerveja Antártica. Hoje os antólogos bebem da água vasanta e caçam moscas por papagaios. Por isso decidiram fundar a Escola Purganta e trinchanta em mão fin-gir de tribu sacripanta. Ora vai que se empalaram na figura de retórica chamada de nome antanagoge que dá ganho de causa ao adversário utilizanta dos meios primeiro empregados pela inicial litiganta.
Os tais deram de brincar que isto aqui é o país da Ata-lanta mas tal a anta tal o caçador e o venatório encontrando tanta anta não pode a sério tomar uma Antar Tonanta, que que-rendo ser giganta não passa de axinomântica. Assim foi que a tal ruminanta tomada de antopodose jornalística antirou-se desastradamente no cerrado antiroteio que a guarda da alfan-taga mantém nesta antanaclássica clã.
E fusilada na antamanhã ao som do “lucevam le stelle antares” a Anta que era galicista disfarçada em tupiniquim gritou tantamente pela sua tanta que era uma santa Bacanta t Júpiter indignado da pretensão de ver uma falsa tonanta, mandou que uma tunda na funda se lhe desse da referida que era rendida e foi de tagante. (21)
Foi aí que intervieram as neves d’antanho de há muito derretidas mas perfeitamente conservadas por antanaclase na
(20) Esta crônica sátírica se baseia em jogo à volta da palavra anta e visa o grupo modernista Verde-amarelo, de tendência nacionalista (Cassiano Ricardo, Menotti dei Picchia, Plínio Salgado, etc.), que publicou um manifesto em 1929, qualificando-se de “Escola da Anta”
(21) O texto publicado pela revista Clima n.° 4 traz a palavra íaganta.
frigideira das cabeças antálgidas as quais por bem houveram de dizer que isso de letras verdamarelas era a antítese da an-tese, coisa solenemente confirmada pelo professor Antero Dantas.
Resultou a anta encurralar-se num trocadilho e peran-te í22) o público declarar que era só tunante, pelo que se acalmaram os Imortais em conselho na antacâmara e manda-ram recolher o vingador antecamis í23) que prometia frigir ovos e maníeigas de todos os literatos da Tabanta.
Visto ov acontecido que foi isso no céu das antiguas letras pátrias na terra repercutiu o anterior berreiro antal que tam-bém sendo por virtudes morais marisco arisco, fez enjoar Sua Majestade, Rei Antão, o qual apressadamente pediu um chá de antemis.
Antimidades com tanta antevéspera constantada em seu espírito antacanho, os infantes da antrasada Anta declararam tratar-se de uma antiparístese sobremodo antipática.
Antepondo anterioridades anterlocutórias disse a suplican-ta, que antequanto desejava purgar as reconhecidas culpas e Júpiter, tomando do tridante, disse: — Purga Anta! Donde todos sorriram amainados pelo tonante trocadilho. E como surgisse das águas Posseidon trazendo na anavalhanta mão erguida a cabeluda Atlanta, propuseram trocar d’ilha o que fizeram de Mamãe-Me-Leva e João Francisco, respeitantas as direitas pois que a grilada vigilanta antegozava derrapages derrapantas.
O recurso da Anta foi recorrer a certo Pantaleão da Pan-tagonia que costumava se empanturrar de panstéis, o qual a levou perante o tribunal de Rei Antão e de dizer:
— Esta bichana que se diz anta chamar, trás um antrás no rabo, o qual literatura cheyra, mas da boa porque anti-qualha é.
Ao que Rei Antão que era surdo e antaclássico tomou por coalhada de anta e berrou que a lhe dizer desrespeitosamente estavam muitas antolices. Antolharam-se os fidalgos e as fi-
(22) peranía, no texto citado de Clima.
(23) antacamis, no texto de Clima.
gurantas por saberquanta rabiosa eta a nervosa de sua Majes-tanta, gestanta às vezes de corridas embargantas de vida e bens. Entrementes a farsanta apresentava-se de almiranta flu-vial em bote rio acima, afirmando li haver muitas antas e elas ofertando e prometendo ao Rei com muy apetitosas promessas para a janta.
As outras porém que verídicas eram laçaram a birbanta a barbanta e disseram-lhe:
— De hoje por diante levarás pantapés em tantas partes que plantarás em teu corpo a planta dos quatro pés que te mar-caram ao nascer!
Então, Rei Antão perante Júpiter se dirigiu em lu dian-te (24> procissão, com besantas, bargantas, brochantas e outras tagantas. Ao que Posseidon tirando da estante C28) um sextan-te, reconheceu a futurista indígena originária de Antuérpia, bem como possuinte de novanta anos formulante de fór-mulas e papéis carbonos e enfincou-lhe o chuço marinho na serelepa.
Reconhecidos os antônimos como perigosos parasitos fo-ram também chuçados a secante (27> guardando-se-lhes as ex-galantas peles na sacrossanta melananta da Antecalva, pelo que viraram todos fantasmas e condenados que foram a escre-ver mal com angu e anquinhas. Pelo que inda hoje nos irri-tariam se não possuíramos mágicos e imunizadores antaclifos antagônicos e bufos de antambas mortas de seculice e cheiran-do antontem pelo que a antigalho dão nome à peça com que se seguram as vergas, quando a enxarcia está desbaratada, que tanto a Anta se assemelha e é dela semelhanta.
Todos os direitos reservados.
JOÃO MIRAMAR 24.2.1927
(24) lucilanta, no texto de Clima.
(25) estanta, nò texto citado.
(26) formulanía, no texto citado.
(27) secanta, no texto citado.
Páginas do tempo de Washington Post (2S)
Tá-tá-tá! Tátáritátátátá!
Num clarão lento de fachos, entreviam-se na distância confusas alegorias. O povo coalhava-se nas calçadas: famílias defendendo crianças, mulatas contendo negrinhos espevitados. Por trás do escultor, um sujeito alto, de fraque, nariz grande e pince-nez, tinha um jornal aberto na mão e lia para duas filhas, altas também, com paletós vermelhos:
— “O Carnaval. Estupendo carro-chefe. Carro que osten-ta no meio de magnífica projeção de luzes e de radiante au-réola luminosa, o símbolo da folia, do gozo esfusiante, da ine-briante loucura carnavalesca”.
Os clarins haviam cessado. Agora chegavam até ali sons rachados de um maxixe de banda, sinuoso, repinicado, com uma zoada miúda de pratos, de caracaxás e de bombos. Apro-ximavam-se mais e mais. O préstito parou. Distinguia-se já a comissão de frente, toda de branco sobre cavalos brancos. A música requebrou num súbito frenesi de trombones rebolantes como ancas e cessou. Da multidão, das janelas entrelaçadas de fios coloridos que se partiam ao vento, gritavam:
— Bis! Bis!
Jorgé disse consigo: — As grandes coisas não se bisam.
O préstito continuava a sua marcha pomposa. O escultor fora fortemente empurrado para trás por um magote de pes-soas que tomavam o passeio de assalto.
E sorridentes, discretos, barbeados e belos, tirando o cha-péu num meneio gentil para agradecer as aclamações que es-pocavam, os diretores da carnavalada passaram.
Vieram os músicos, enrolados de instrumentos, com cabe-ças monstruosas de papelão, jogadas às costas, montando bur-ros ordeiros, burros capazes de pedir perdão para passar.
De novo. numa síncope, o cortejo parara. Acendiam-se fachos estridentes em tomo do primeiro carro. Tomando o ho-rizonte, num enleamento de cores, dragões mantinham até o alto, corpos juvenis de bacanteâ. Bem em frente a Jorge, os
(28) Washington Post-trocadilho feito com o nome de Washington
Luis.
clarins impacientes esperavam: eram nove figuras trajando de arautos, mulatos sem dentes, italianos gordos — a escória fi-larmônica da cidade. Ouviu-se um apito: e parados ainda, os três da frente, num movimento igual, puseram as trombetas à boca:
Tá-tá-tá! Tatariratarirá!
As vibrações cantavam metálicas, marciais.
Agora, os seis outros empunhavam os instrumentos cur-tos, direitos, para cima. E de novo um sopro sonoro inundou de epopéia o quadro rumoroso, possante e estático. Naquela dezena de notas, cortantes e claras, passavam evocações de ba-talhas. Clarins do Marne, clarins de Waterloo… Os cavalos tinham olhos tristes, olhos suplicantes como se temessem car-gas heróicas.
E rolando por entre gritos e êxtases, enlaçados de serpen-tinas, coloridos de luzes maravilhosas, conduzindo nus morfé-
ticos de papelão e nus radiosos de carne, os carros desfilaram.
*
Espezinhado mas imortal! Criminoso mas imortal! Igno-rado mas imortal! Numa última ofensiva de otimismo, o seu otimismo secular e amazônico, Jorge d’Alvelos procurou uma casa de máscaras. Entrou.
*
Já era tarde. Pôs-se de novo a caminhar. Bateram-lhe às costas com força. Ele teve medo.
Um sujeito de nariz enorme chalaceava com senhoras contentes à porta de uma charutaria.
Chegaram automaticamente ao largo de S. Francisco. Um acampamento bárbaro ocupava-o. Ao lado da estátua no fun-do, com as engrenagens fantásticas paradas, as boléias nuas, um imenso carro desdobrava-se na feérica composição da sua montagem. Pares de mulas adornadas esperavam, atadas às rédeas. Gente passava retirando-se. Táxis com Colombinas de gaze nos toldos, faziam voltas suaves; pierrots ‘ornamentais em adaga que se abria no tufo do pescoço, corriam falantemen-te; cavaleiros do préstito morto trotavam pelas pedras. Atrás do grande carro, outros carros destacavam-se, abandonados na
desorganização final, processionais e enormes. Os últimos fo-liões desciam para a rua.
*
Parou no Piques. Bondes seguiam apinhados. Subiu. Vol-teou. No Centro, a festa colorida terminava. Préstitos desciam ainda as ruas, devagar, na desorganização suada do fim, com boléias vazias, cavaleiros a pé, a caminho dos Avernos. A banda montada de um remexeu um maxixe pulado, picadinho, bem marcado de sons.
Uma mulher maltrapilha, que ia conduzindo à cabeça, um molho monstruoso de serpentinas juntadas do chão, gingou. Riram ao redor. Empurraram as serpentinas de cá, de lá. O maço enorme vacilou, caiu. E ela ficou apatetada, olhando Jorge d’Alvelos que passava.
— Bruto destino! Ruídos surdos dentro d’alma! São os últimos desaterros que estrondam… Mas por que me doem tanto os olhos? Parece que querem sair fora das órbitas…
Ele ia ao seu atelier do Palácio das Indústrias,. Parou na ponte de pedra sobre o Tamanduateí, que transbordava em lago, depois dormia em canal para as bandas da Luz. Havia olhos vigilantes de torres, fixos, longe, e lampiões e a cidade e estrelas no céu. E a correnteza embaixo, redobrada e mur-murante.
O incubo disse-lhe ao ouvido:
— Se te atirares, ias sair na excrementeira da cidade…
*
Ao atravessar a palissada, pela primeira vez o escultor leu numa tábua sobre o portão, çm letras pretas: Palácio das Indústrias. Contornou a imensa e muda construção em acaba-mento. Num corredor impreciso erguiam-se maquettes bran-cas como monumentos fúnebres alinhados.
Jorge d’Alvelos, no seu pierrot preto, subiu as escadas tateante. Entrou no atelier. Procurou a caixa de fósforos que deixara no chão. Riscou.
Ao clarão vacilante, as estátuas tiveram gestos recuados dí ameaça. Era a sua obra, desconhecida da cidade indifereq-
te, que aplaudia lá em cima, os monstrengos trepidantes de papelão pintado nos carros grotescos.
À cabeceira do diva, levantava-se uma velha lanterna. Acendeu. E a luz pôs sombras por trás das estátuas crescidas no quarto.
Houve uma expectativa de gestos.
O artista sentou-se. Não temia o incubo escorregadio que não ousava enfrentá-lo senão nos momentos de via-sacra vo-luntária, pelo calvário que Deus lhe instituíra. Nada o levaria ao suicídio. Mas num desânimo resignado, sentia que ia mor-rer, hoje talvez, amanhã… debaixo das rodas de uma carro-ça de rua, perdido nas suas locubrações de predestinado ou então na fatalidade de uma súbita paragem do estafado ma-quinário interior. Morreria, devia morrer…
Olhou o atelier que palpitava à noite, nas horas de silên-cio, de uma vida inspirada de relevos que falavam, de sombras que se moviam. As estátuas, à luz morta da lâmpada, descupli-cavam de ação misteriosa, de sublime amor próprio. O homem deixara de existir naquela oficina de criaturas alvas e grandes.
Lá fora, S. Paulo rumorejava nos últimos instantes do Carnaval. Tomou um livro. A lembrança de Alma voltou-lhe como uma queimadura.
Apagou a luz. E desceu uma paz de cemitério sobre as estátuas.
Deitara-se ao divã. Tinha o revólver gelado na mão t pensou que seria fácil acabar com a vida. Apenas puxar o gatilho.
— Se o quisesse…
Encostou o cano ao corpo, como a ensaiar, e divagava.
— Se o fizesse… que diriam? que haviam de pensar?
Habituado ao escuro da sala, viu o braço de seda recurvo
contra o peito. E fatalizada, imóvel, a mão dobrada sobre a arma, de dedos encarquilhados. Parecia de cera. Mão de ca-dáver …
Houve uma luz e um baque mecânico na noite.
Da “Estrela de Absinto”
2.3.27
Álvaro Moreyra e outras questões que não são para todos
Só vejo um meio da literatura brasileira contemporânea não acabar morrendo das recíprocas taponas dos literatos. Esse meio seria acreditar na paciência irônica de Álvaro Mo-reyra. Seria todos os que escrevem nos vinte e tantos Estados do Brasil, se submeterem ao apaziguamento atencioso do seu sorriso feito para tudo. E havíamos de prosperar como a Liga das Nações, o Congresso de Higiene e a Academia de corte de D. Chiquinha DelFOsso. (»)
No Brasil só há um Briand para figurar em todos os mi-nistérios: é esse poeta sedutor e escritor admirável — capaz de entender e amar o que a gente faz e que também entende o Edward Carmillo (30), o Leopoldo Fróes (31) e o Paulo Babão (sa).
Todos nós estivemos em sua conferência, todos nós gos-tamos e fomos todos ao seu embarque no Brás.
Álvaro faz isso sem cuidados de diplomacia, sem sacrifí-cio. Gosta, gosta de nós todos. Álvaro acaba entrando na Aca-demia e tentando um congraçamento.

Entanto, desde logo vejo a impossibilidade de união e con-córdia em matéria literária nestas terras salvajes.
Em finanças por exemplo a gente sabe com segurança, que o Dr. Witaker (3S) é um bicho e que a revelação dos
(29) A Academia de Corte e Costura Chiquinha delPOsso, deno-minada conforme sua diretora, era muito conhecida em S5o Paulo e servia de pretexto para brincadeiras.
(30) Edward Carmillo (1889-1963), poeta paulista conhecido so-bretudo pelos seus poemas em prosa.
(31) Leopoldo Fróis (1882-1932) foi o mais famoso ator brasileiro do seu tempo.
(32) Paulo Babão era o apelido do teatrólogo carioca Paulo de Magalhães (n.1900). Não deve ser confundido com seu homônimo paulista, muito ligado aos modernistas e Diretor do Teatro Municipal de São Paulo no decênio de 1930, quando Mário de Andrade dirigia’ o Departamento de Cultura.
(33) José Maria Whitaker (1878-1970), banqueiro e financista,
um dos diretores do Banco Comercial.
últimos tempos foi Carlos Inglês de Sousa (S4), não falando do Didi.
Em agricultura, pomologia e outras questões frutíferas, anos atrás era o Dr. Barreto (35). Errava em tudo que dizia. Quem seguisse os seus conselhos estava frito, plantava uva e colhia banana ou vice-versa. Mas tinha uma deslumbrante autoridade. Era um sábio e ao mesmo tempo um santo e um dicionário.
Depois do seu desaparecimento, as questões com que ele se ocupava inclusive a filosofia, prosperaram diabolicamente. Mas quem começou a escrever nos jornais sobre abacates foi ele.
Em Política o Partido Democrático (36) constitui uma dis-sidência amável, apesar dos assassinatos. Não soubessemos nós quanto os meus ilustres amigos Marrey Júnior (“) e Paulo Nogueira Filho compreendem que política não é botânica.
Em literatura, não! Ninguém se entende e todos se atra-palham .
Quando eu supunha que o Sr. Francisco Patti (88> tivesse pintado por dentro o crânio de verde e de amarelo para se fazer passar por naciomodernalista (última escola) vejo-o de-saforadíssimo para com os paneleiros dessa taba.
O Sr. Patti por sua vez faz parte de outra taba, essa pior! É tapuia. O grupo a que se ligou desaparecerá sem deixar ves-tígio algum nem de vida nem de arte nem sequer de balística.
(34) Carlos Inglês de Sousa (1853-1918), economista, autor de um livro importante do decênio de 1920: A anarquia monetária. Seu pai, o romancista e magistrado Herculano .Marcos Inglês, de Sousa, era irmão da mfie de Oswald de Andrade.
(35) Luís Pereira Barreto (1840-1923), médico, publicista e agricultor, divulgador da filosofia positivista, inventor do guaraná espu-mante, promotor de campanhas pela criação do gado caracu, a cultura da vinha. etc….
(36) P.D., sigla do Partido Democrático, fundado em São Paulo no ano de 1.926 por elementos dissidentes do Partido Republicano Paulista, que monopolizava o governo.
(37) José Adriano Marrey Júnior, famoso advogado de São Paulo, membro do PD, caracterizado pelas suas tendências populistas.
(38) Francisco Pati (n. 1898), escritor paulista, sucessor de Mário de Andrade na direção do Departamento de Cultura da Pre-feitura.
É verdade que enquanto vive promove festins de tristeza
z vaia os que passam nas esquinas. Que diga o meu querido Mário de Andrade.
*
A propósito, Sr. Patti, por que é que o senhor que anda corretamente trajado não faz crítica em vez de dizer malcria-ções?
Diga-me uma coisa serenamente, por que o senhor não gostou de “Amar Verbo Intransitivo”, romance excelente e das mais boas coisas que tem honrado as brasílicas letras? Por que?
Conle o porquê aos seus inumeráveis leitores, dos quais por acaso eu fui um.
Conte qual é a situação desse livro perante o que se faz no mundo e o que se faz no Brasil. Não sabe? Então… Des-culpe, não me convém ser grosseiro.

Apareceram ultimamente certos livros que têm feito o Brasil avançar alguns passos na estrada chucra em que andra-java. “Paulística”, do nosso melhor escritor. “Um Homem na Multidão” de Ribeiro Couto. O estudo sobre o pensamento brasileiro de Mota Filho, que apenas precisava ser mais desen-volvido mesmo como introdução. “Lanterna Verde” onde Fe-lipe de Oliveira se lançou nas correntes atuais com a fortuna da sua sensibilidade.
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Ao lado de Ribeiro Couto, trabalhador inteligentíssimo e grande poeta, vem agora a contribuição de Mário. Deu dois livros. “Primeiro Andar”. Não li e não gostei. “Amar Verbo Intransitivo”. Passadista com as minhas “Memórias Sentimen-tais” e seu filho “O Estrangeiro”. Mas que avanço ao lado dos dois “Dois Irmãos Siameses” de Veiga Miranda! Que cor-rida longe das peludas asneiras de Afrânio Peixoto!!

“Amar” é um livro parecidinho com a vida. Como fixa-ção de ambiente paulista, chega a possuir as extraordinárias qualidades jogadas em “Brás, Bexiga e Barra Funda”, por esse
menino milionário que aqui neste rodapé eu já chamei de An-tônio de Alcântara Machado de Assis.
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Se estivéssemos ainda no tempo da contribuição documen-tal (mesmo no campo do espírito) que grande livro seria esse “Amar Verbo Intransitivo”! Mário o entrelaça de duas partes — ambas naturalistas: o enredo, Carlos, Fraulein, etc., com o profundo interesse que podem despertar os livros inocente-mente pornográficos, e as confissões.
As confissões são de certo o melhor pedaço. O autor inter-vém, pula de urso, conta que sabe alemão, que não entendeu Nietzsche. Um pouquinho de Max Jacob. Um Max Jacob do Bairro do Limão, Apenas Max Jacob é fotogênico, Mário não é. Não serve nem para Carlito nem para Rodolfo Valentino. Fica dali apenas um gosto de humanidade salgado, duro, per-sistente, que dá vontade de escancarar janelas surrealistas. Se dá!
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Como pode ser ainda uma vez constatado, nós literatos no Brasil, havemos de viver nos comendo vivos. Mas, de que ma-neira estar de acordo por exemplo com o Plínio Salgado (que é dos mais espertos) se ele, confunde tudo nas suas paulifi-cantes preleções? Em sua última crônica ei-lo que declara que vivemos numa época de materialismo e procuramos ressuscitar as torres de marfim. O leitor compreendeu? Eu compreendi: Plínio não tinha assunto, quis fazer uma palinódia sobre um poeta qualquer sem maior interesse literário e fabricou aquele coquetel.
Enfim de contradições vivemos nós. Quanto ao nosso tem-po, sem que o Plínio perceba, ele anda entretido com uma profunda e gostosa febre espiritualista. Sem determinada base antropológica, sem revelação fixada, sem revelação outra que a própria poesia. Sem moral outra que a do Arco da Velha. Espiritualismo portanto, e libertado mesmo das liberdades co-nhecidas e das loucuras catalogadas.
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í:ato é que nossa gente está melhorando. Entendeu a soi-rée Álvaro Moreyra. Gostou. Aplaudiu. Estou quase conven-cido de que se Bilac ressurgisse com um calhamaço berrante e patriótico na mão, o público disparava.
Não. Não disparava. Acabo de saber que ainda ontem, , é um pobre diabo, detinha a chave da arca, onde guar-
(74) William Berrien, professor norte-americano muito ligado aos intelectuais brasileiros, dedicou-se ao ihtercâmbio cultural Brasil-Estados Unidos.
(75) Sérgio Milliet (1898-1966), critico, poeta, ficcionista e so-ciólogo que teve em São Paulo uma posição de excepcional prestígio
damos a nossa milionária contribuição de povo ficcionista. Só ele, o sr. Putnam (™) sabia o português, entre os cento e tan-tos milhões de ianques alfabetizados. E que fez ele? Durante anos manteve discretamente a sua atuação. Citava, cá e lá, as nossas coisas, enumerava nomes e obras e chamava a aten-ção da crítica para a literatura que continuávamos na alta tradição que vem de Castro Alves e Machado de Assis. Mas um belo dia o editor Otales Ferreira (77) que tende a ser um tipo, resolveu lançar mais um livro da ala franciscana da sua produção. Voto de pobreza a muque, pois é uma ala que por mais que surrupie processos e realize poncifs, — não sai à rua senão de bordão e pires, sandália de pau e baeta de estôpa. Escolheu um livro que apesar dos trejeitos sentimentais do nosso inteligente Edgard Cavalheiro (78), não conseguiu uma só linha de apoio da crítica séria. Nem do sr. Sérgio Milliet, nem do sr. Carlos Lacerda, nem do sr. Álvaro Lins. Um livro que trazia uma interrogação na capa: “Agora que fazer?” À qual, depois de percorrido só uma resposta acudia: — Não escrever mais! Pois o autor que é a simpatia em pessoa, mas de literatura entende como eu de colombofilia, continuou a escrever, sempre açulado, pelos préstimos difusos do editor milionário cuja responsabilidade será decerto, um dia apurada, quando se desfizer a perniciosa inflação da nossa literatura.
E que faz o tal Putnam? Citando duas ou três opiniões de alguns açodados pernas-de-pau da nossa cozinha jornalística declarou o homem do tamanho de Tolstoi e o seu bestíssimo livro “o maior romance brasileiro!”
Êrico, a sua missão, vai ser de alto sentido. Você leva a res-ponsabilidade do seu nome, e com ela vai ensinar literatura brasileira na América. Ninguém tem mais positiva autoridade
na vida literária. Foi Diretor da Biblioteca Municipal e por mais de uma vez Presidente da Associação Brasileira de Escritores, Secção de São Paulo.
(76) Samuel Putnam, crítico norte-americano, tradutor de livros “brasileiros e grande divulgador da nossa literatura em seu país.
(77) Octales Marcondes Ferreira, editor, chefe da Companhia Editora Nacional, onde começou como auxiliar de Monteiro Lobato.
(78) Edgard Cavalheiro (1912-1958), escritor paulista conhecido pelas suas biografias.
que você, autor avançado de bons romances, iniciador entre nós de uma constante técnica que faltava ao nosso ficcionista. Vítima de mais de uma missa negra e também do carinho abafante de todas as fãs vocacionais do Brasil, Érico, o sr. Put-nam revelou-se. É um homem que entende tanto de nossa lín-gua como o personagem de Lima Barreto entendia de javanês. Não o deixe prosseguir nesse desvio prejudicial ao nosso bom nome de povo culto. E explique-lhe se ele ignora, que para se escrever é preciso ter-se o material — língua, como para se construir é necessário cimento. Fora outras habilidades, como admiravelmente falou o sr. Antonio Cândido na sua úl-tima crônica.

O sr. Tito Batini que eu acharia o mais respeitável dos mortais, se não se metesse a balão, já atravessa o Via-duto de nuvem. Criou um complexo que o seu livro exprime bem. Anda “por entre o chão e as estrelas”. O seu tombo vai ser do alto do Martinelli de papelão levantado pelo faro comercial do editor Otales Ferreira. Este sim, ficará rindo e esfregando as áureas mãos com mais essa brincadeira de mag-nata que fez. Depois do sr. Tito Batini, já lançou a sra. Lean-dro Dupré que também vai ser traduzida. E ao que consta, a sra. Tetra Teffé. Irá depois para a América, graças à propa-ganda sem limites, representar o espírito brasileiro, quem mais? O cônsul A. J. de Magalhães.
Êrico, eu indiquei, em cartas aos editores americanos, al-guns dos nossos bons autores. Ninguém me acusará de fazer política literária, apontando entre os antigos, Castro Alves ou Euclides da Cunha, o próprio Bilac, como sucesso para dati-lógrafas histéricas, e entre os modernos o sociólogo da gula brasileira, Gilberto Freyre. Este, um representativo, um gran-de tropical Indiquei também você e Jorge Amado. Não se es-queça mais de revelar o nosso admirável Graciliano Ramos, primeiro prêmio de modéstia e não menor da arte de roman-cear. Os nossos grandes poetas: Carlos Drummond, Manoel, o Vinícius, o Bopp, os mais.
(79) Tito Batini (n. 1904), escritor paulista, autor de romances cujos temas sfio tomados à vida do povo.
Da sua missão espero muito. Sei que você dará lições vi-vas e explicará aos interessados de última hora pela nossa literatura, que o Brasil não tem Tolstoi do tamanho do sr. Tito
Batini, mas tem Machado de Assis e Mário de Andrade.
*
Érico, não sei se sua experiência mimada, de grande pro-duto daquele simpático Bertaso, da Livraria do Globo, que você me apresentou no Hotel Cinelândia, já lhe deu o conhe-cimento de uma coisa: não há homem de negócios que não traga no bolso, nem banqueiro que não tenha na gaveta, um sonetão ou um livro, pelo menos, de trezentas páginas. Daí a nossa importância, que esses managers da sociedade sabiamente dissimulam nos contatos comerciais conosco. Mas vão levar para casa nas páginas melancólicas, um insofismável complexo da sua inferioridade invencível. Nós somos as vozes da socie-dade. Eles são as molas, possantes talvez, mas instáveis e mu-das. Por isso é que a cumplicidade de um editor facilita, com o mais ingênuo dos ares, a aparição nas vitrines do nome de uma senhora da sociedade ou de um ferroviário distinto, dis-tintíssimo, mas, cuja grande virtude é sem dúvida a coragem. Trata-se no fundo de uma dissimulada e tenaz campanha con-tra nós, os detentores da criação, que eles renovam ferozmen-te, ajudados pelo ambiente primário de nosso público, emba-lado ainda ao “O vento levou” e em “Rebeca”… A crítica… Salve a coragem do sr. Antonio Cândido!
A propósito de banqueiros, acabo de ter uma surpresa notável que confirma o que lhe digo. O sr. Lawrie Reid í80), o homem do câmbio, ali da rua Álvares Penteado, o Luís, com quem tenho uma amarga mas simpática convivência de negó-cios, acaba de me atirar às mãos, um volume seu, de 488 pá-ginas, “narrativa à guisa de romance”, com o título Assim é a vida… E saiba você que é um livro mais bem escrito que o do sr. Cecílio Carneiro (81), por exemplo, Sentimental e
(80) Lawrie Reid, homem de negócios e romancista amador, amigo de Oswald de Andrade.
(81) Cecílio J. Carneiro (n. 1911), médico e escritor mineiro, que obteve êxito com o romance Fogueira (1942).
alegórico como o dele. Adjetivado como o dele, vendo a socie-dade do lado rico, mas pelo menos trazendo esta frase cora-josa e admirável: “loira como o trigo maduro que nunca vi”.
*
Na Califórnia, você terá o trabalho de lidar com os uni-versitários ansiosos de conhecer também a vida dos escritores brasileiros. Diga-lhes que o dólar substituiu de há muito, nas nossas noites de insônia e saudade, o Cruzeiro do Sul. Que da sua luz dependemos, até que, cá e lá, o white-collar haja tam-bém conquistado o seu lugar ao sol. Num mundo melhor e mais justo.
30.7.43
Salada tussa
— Veja você, eu que pensava que o Bastidão (m) era o rajado da turma, o patrono dos chato-boys C8®), tive outra noite uma revelação. Fui assistir à conferência que ele fez so-bre “Juventude e Guerra” e o transformado, eloqüente, to-mado de uma flama inequívoca, dizendo coisas do arco da velha…
— Sob as cinzas da sociologia de gaveta, a velha França perdura. Mariana é sempre Mariana, uma camponesa mal edu-cada que foi amante de reis, depois guilhotinou-os e agora no século XX tinha propriedades e não queria ser aborrecida… Olhe. pior é a sociologia americana… Quando é boa, vai-se ver é russa, espanhola, alemã. Não nos deu ainda um Augusto Comte, pelo menos um chato místico…
— Bem. os Estados Unidos não têm ainda suficiência para se estabelecer em sociologia. È o país mais primitivo do mun-do. As suas experiências políticas foram iniciais e edênicas,
(82) Basttdfio era o apelido afetuoso dado pelos alunos a Paul Arbousse-Bastide, professor de Sociologia na Universidade de São Paulo (1934-1943). NSo deve ser confundido com Roger Bastide, seu colega na mesma matéria e instituição (1938-1954), chamado pelos alunos de Bastidinho.
(83) “Chato-boys”, apelido sarcástico posto por Oswald de An-drade nos moços do chamado “grupo de Clima”.
uma independência canja, uma guerrinha entre escravagistas e Matarazzos… uns tiros na Europa para liquidar o alemão es-touvado de 18… Olhe, o Brasil é muito mais importante, e sabe você por que? O enxerto do hormônio bragantino na nossa vida política.
— Que história é essa?
— Ora, Dom João VI! Você nunca pensou no que foi essa transplantação violenta dum pedaço da Europa para cá! Politicamente, era como se Petain tivesse ido para a África do Norte… Um sucesso! O monarca português podia ser até pa-rente do Jean Sablon (84) mas politicamente era homem. E nos troux? um clima novo, o clima da Europa…
— Um clima horrendo! Que Europa podia nos trazer Dom João VI, com as filhinhas do Taunay, Dona Carlota Joaquina, a Santa Aliança…
— Não importa, vinha também Napoleão de contrabando. A América teve tudo frigorificado, sem tumulto nem contra-dição. A liquidação fria, metodizada e metodista das tribos nativas, feita por quem? Pelo puritano! Você quer coisa mais pavorosa que o puritano? uma espécie de polícia secreta do espírito… Ao contrário disso, que nos trouxe o Bragança? A melhor Europa, a Europa portuguesa!
— A melhor Europa!!!
— Você esqueça Portugal de uns tempos para cá, mas olhe para o passado. Os personagens de Shakespeare são dimi-nutos diante das casas reais lusitanas. Percorri Portugal mui-tas vezes. Meu caro, entre o vinho, a paisagem e as luas, nessa coisa onde a Europa termina para dar lugar ao oceano o povo luso teve no seu palco as monarquias mais trágicas da terra, pelo menos uma dúzia de Hamletos, duas de Macbeths, cestas de Otelos, jacás de Romeus… Olhe para Portugal monumen-tal: Thomar! A Pena! A Peninha! Chalbregas!… A Bata-lha! Alcobaça!
— Mafra!
— Não. Mafra já é o novo-rico. É o espírito do vendeiro que enriqueceu no Brasil. Falo do Portugal que veio para cá…
(84) Jean Sablon, cantor francês residente no Brasil a partir de 1938 e extremamente popular durante alguns anos.
Não do que foi daqui… Esse é sempre suspeito como qualquer toraa-viagem.
— E o que Portugal nos mandou?
— A Inconfidência, o Aleijadinho, o macho João Rama-lho, o Gilberto Freyre… o Fidelino…
— Prefiro o Bastidão!
— O Bastidão é um empréstimo que fizemos ao Banco da França.
— Então o Sérgio Milliet…
— Bem, aí você coloca perfeitamente a questão. São dois polos, o Gilberto Freyre e o Sérgio Milliet. São dois valores sizudos, vamos evitar a palavra “sério”, privilégio intocável dos meninos que possuem o monopólio da honestidade, numa pla-taforma sem trem… C8®)
— Deixe de ser perverso! Passou nela agora mesmo um trem, o do Jamil Almansur Hadad…
— Esse é o Oriente-Express… Deixemo-lo procurando a Pérsia na rua de São Bento…
— Apesar do aspecto aéreo que o poeta mantém, ele sou-be dizer certas “banalidades” essenciais…
— Não nego, e por que? Porque nunca estudou sociolo-gia nas escolas… Só por isso. Se ele estivesse fazendo pesqui-sa, não achava…
—• Procurando a Pérsia, a gente encontra Zaratrusta, e por trocadilho, vem a Nietzsche, ao professor Maugüé (8e)… Olhe, deste eu gosto! Como ele interpreta e ehsina! É o eter-no noivo da filosofia… Não pesquisa, namora…
— Deixemos os estrangeiros… Nós paramos na dupla Gilberto-Sérgio… A vantagem que o Gilberto leva sobre o paulista é a do assunto. Ainda o português… que marcou o nordeste, ensinou a cozinhar e comer lambuzado, a amar…
(85) Plataforma. Oswald se refere ao inquérito organizado entre os jovens intelectuais por Mário Neme; em 1943-1944, sob o título geral de “Plataforma da Nova Geração”. As respostas saíram semanal-mente no jornal O Estado de São Paulo e foram reunidas depois em volume com o mesmo título pela Livraria do Globo (1945).
(86) Jean Maugüé, professor de Filosofia na Universidade de São Paulo (1935-1944), que exerceu grande influência sobre seus alu-nos, notadamente os do “grupo de Clima”.
lambuzado também… O paulista ficou alinhado aqui, nesta secura do planalto, que só produzia em matéria de doce, mar-melada… Daí a sua vocação para a indústria… e sua ter-nura pela Europa não portuguesa…
— O Sérgio ficou marginal como o paulista… é isso o que você quer dizer?
— Talvez seja isso. Daí o seu complexo de marginalida-de, expresso nos seus estudos sobre certa pintura, que eu cha-maria de “pintura infeliz” e que foi afinal um grande protes-to secular de Cézanne aos surrealistas… Eu ia dizer protesto, calado… mas prefiro aceitar aquele pórtico de “Marco Zero” que diz: “O romance participa da pintura, do cinema e do de-bate público. Ao contrário da música, que é silêncio, é reco-lhimento”.
— Esse negócio de dizer que a música é silêncio já pro-vocou discussões terríveis com a intervenção gesticulante do cultivadíssimo Occhialini (87) e da turma do “Clima” (88).
— A afirmação de que Bacii e Beethoven são silêncio, é curiosa com todo o seu arrojo… Mas é certo. Como é certís-simo dizer que o romance e a pintura participam do comício. Não há nada mais parecido com a Bolsa de Mercadorias, na hora do pregão do que a pintura… daí as verdadeiras justas que se travam por causa de Anita Malfatti, a irritação que causam as telas de Portinari e de Segall… o P.R.P. que se fundou em torno daquele e a vitoriosa coligação que vai se formando ante a maravilha emocional e política que são “Os imigrantes” realizados, na maior técnica que o Brasil possui, por Segall…
— Não vamos falar de pintura senão sai briga. O Luís Martins com uma pequena coluna de “Artes Plásticas” já oca-sionou suicídios, falências, fugas…
(87) Giuseppe Occhialini, ilustre físico italiano, professor da Uni-versidade de São Paulo de 1935 a 1942, amigo de Oswald de Andrade.
(88) O “grupo de Clima” era constituído pelos moços reunidos em torno da revista deste nome (1941-1944), fundada por inspiração de Alfredo Mesquita. Notadamente: Antonio Branco Lefrève, Antonio Cândido, Decio de Almeida Prado, Gilda de Morais Rocha, Lourival Gomes Machado, Paulo Emílio Sales Gomes, Ruy Coelho.
— Não. Eu quero apenas lembrar o que o Sérgio Milliet disse a propósito de um belíssimo livro, aliás francês, de Roger Caillois… “Sociologia da Novela” com uma conclusão vaga € falsa, ia dizer sociológica… mas contendo magníficos acha-dos…
— Como são quase sempre os achados de Caillois que, por infelicidade nossa, se refugiou na Argentina, em vez de vir para cá.
— Diz o Sérgio: “creio que na atualidade, romance e pin-tura se apresentam como representativos de dois públicos opos-tos, de duas classes antagônicas de nossa sociedade”. O roman-ce interessaria à massa, e a pintura, com a música e a poesia, interessariam à elite. Felizmente o Sérgio adjetivou adiante “pintura expressiva”. Porque existe outra espécie de pintura e esta, triunfante, basta ver entre nós o êxito de Segall e Por-tinari e o êxito dos mexicanos. É a pintura mural. Ela pode se exprimir numa tela, mas deixa de ser pintura de ca valete, /quando pelo asunto e pela técnica, toma o seu aspecto, peda-gógico e deixa de ser marginal…
— O livro de Caillois que foi apontado aqui pela curio-sidade sempre vigilante do professor Roger Bastide, conclui sinistramente — o romance desaparecerá na sociedade futura. Seria dizer que a pintura também. O Sérgio, aliás, é contra essas conclusões…
— Com toda razão. O escritor persistirá enquanto a so-ciedade falar… E o romancista é o escritor por excelência. Haverá sempre o debate entre o indivíduo e o social, dentro dele mesmo. O conflito pode assumir formas menos crucian-tes que as atuais, está claro… Mas, já dizia o velho Hegel, donde todos nós saímos, que a contradição está na raiz do próprio movimento. O homem, desde que se desvegetalizou, tomou a si u’a missão antropofágica que persistirá, atenuada ou transferida, enquanto ele for homem… Roger Caillois e o Sérgio participam de um erro fundamental… ver no roman-ce um apaziguamento por transferência… O leitor não po-dendo realizar-se, realiza-se no plano imaginário de seu ape-tite, nos heróis… Como se não viesse desmentir isso toda a ativa e direta missão do romance no debate atual, do romance e da pintura. Cito dois casos espetaculares. Ilya Ehrenburg, de-
tentor do Prêmio Stalin de romance com “A queda de Paris” e Picasso…
— Que Picasso?
— O Picasso de “Guernica”. Não há transferência era “Guernica”. Há o mesmo ardor participante da história do mundo, que nos combates de rua de Orei e Kharkov. O mesmo ódio plástico na vitória da justiça social. Há em “Guernica”, um clamor e uma anunciação terrificantes. Como há n'”A queda de Paris” a análise, o corte histórico, a explicação anti-sentimental da derrota… seguida de uma anunciação também, a anunciação de Stalingrado…
— Bem, mas o que Caillois teme é que, o homem deixe de ser interessante e novelesco, envolvido no “Catedralismo” que se exprime na atual “refundição das formas coletivas”.
— Exato! O escritor francês pensa que o monumental de nossa época, matará o romance… e portanto, o homem…
— Matará o romance fino, individualista, marginal. Mas esse já está morto há muito tempo.
27.8.1943
Por uma frente espiritual
(Para o “Diário de S. Paulo”)
Em 1928, creio, um vendeiro italiano do interior pergun-tou-me se Júlio Prestes, então presidente do Estado era bra-sileiro. Essa pergunta que pareceria oscilar entre a piada e o desaforo, não passava no entanto de uma larga emissão de confiança feita a São Paulo por um imigrante. Na sua cabeça analfabeta havia uma convicção de que aqui o poder não era racista. E também não era regionalista. De fato, das minhas memórias de ginásio, guardo bem viva a do dia em que o pai de um colega meu, nascido no Norte do país, era indicado para presidente do Estado. Tratava-se do alagoano Albuquer-que Lins. Mais tarde repetia-se o caso — o fluminense Wash-ington Luís — paulista de Macaé — era guindado ao poder numa adesão unânime das forças eleitorais do Estado. E vía-mos florescer, ao lado das fortunas latifundiárias que a tradi-ção paulista concentrava ainda em mãos nativas, as primeiras cidadelas industriais criadas pela iniciativa de italianos, sírios
e outros recém-vindos. É verdade que um ou outro paulista emergia também da agricultura para a fábrica, enquanto tam-bém o ádvena se lançava ao café. Se essa mistura de funções econômicas, refletindo-se no plano social e político, criava ou antes continuava a alma pioneira de São Paulo, ao povo ela se fazia sentir também, tanto no trabalho das colônias ativas como nos bairros e nas oficinas e mesmo na administração geral, nas prefeituras do interior, nas secretarias da capitai e nos serviços gerais da coletividade. Solidificou-se assim, pro-tegida pela ascensão das forças econômicas, uma unidade do aglomerado planaltino, na mesma laboriosa marmita, ganha com iniciativa e pertinácia. São Paulo cresceu, vendo unidos os seus filhos de quatro séculos aos que haviam desembarcado na velha casa de Imigração. Com a independência política do país, tinham vindo para cá os cursos jurídicos. E desde então, criada a Faculdade de Direito, São Paulo teve uma expressão cultural vitalizadora no panorama brasileiro. Para cá vinham os estudantes de todo o país. E o antigo casarão do Largo de São Francisco forneceu ao Brasil a linhagem progressista que deu José Bonifácio, Nabuco e Rui Barbosa. Que deu também os grandes nomes na poesia que foram Castro Alves, Álvares de Azevedo e Fagundes Varela.
Um grave desentendido abalou, porém, o mundo faqui-rizado pela prosperidade burguesa, no ano crucial de 1929. Sobre São Paulo, que era o eixo da comunidade trabalhadora do país, havia de cair o peso da crise. E aconteceu o que toda gente sabe. De fato, não correspondiam mais às condições do mundo em transformação as fórmulas arcaizadas do liberalis-mo vigente, que haviam acentuado na sua imprevidência o poderio dominador de” uma classe sobre o desleixo em que iam ficando as populações laboriosas da capital e do interior. Além disso, no gongo de Wall Street, soara uma hora terrível. Con-vulsões demagógicas agitavam os países retardados na sua evo-lução política e social, como a Alemanha e a Itália, o desem-prego, doença do capitalismo, pôs nas ruas das grandes me-trópoles industriaisrímassas ameaçadoras e exigentes. E aqui, uma flexuosidade de transição tinha que se impor e vencer a rigidez dos princípios políticos estabelecidos. Acentuaram-se, porém, imediatamente as contradições levantadas pela solução
que pareceu logo, na sua unilateralidade, ferir os interesses da comunhão paulista. Por melancólica e saudosista que fosse a reação armada de 32, continham-se dentro dela princípios idealistas que, depois de dez anos de balbúrdia internacional, haviam de ressurgir programas de vitória liberal anglo-ameri-cana. Eis como no volume inicial de meu romance “Marco Zero”, agora publicado, São Paulo se exprime pela sua velha Escola de Direito: “O estandarte da Faculdade saíra para a rua. Circundavam-no peitos atléticos, rostos adolescentes, vozes ativas. Haviam estacado no território livre de São Francisco, o largo da Faculdade. Rodeado pelos colegas, o moço de óculos sem aro, orava no silêncio. Era o Direito que passava, o Direito trazido para a bruteza da América de homens nus, pela censura longínqua nascida na cidade grega, florida no Império Romano, onde se enlaçara na cruz de Cristo. Aquele estandarte, elevado sobre as cabeças ao vento das ruas, era a Europa da descoberta. Ela significava o homem vestido para as relações da sociedade, nutrido pela higiene, desenvolvido pela máquina. A velha Faculdade do planalto tinha um século de florões que haviam ligado suas lianas à construção do Brasil legal. Nela se ajustava o bandeirismo pioneiro. Dele saíra a pátria independente e viril. Era a lei que passava, a lei amea-çada pelos tempos irrequietos e movediços. Às senhas de mor-te que a revolução prenunciava, uma resposta adesiva, calcada de martirológios, respondia, ecoava nas aclamações, no ruído estrepitoso das passeatas cívicas. Era um século de Direito que a Ditadura ameaçava!”
*
Se dez anos atrás, a razão histórica se contrapunha a quaisquer resíduos de saudosismo feudal e de exploração man-donista, hoje isso desapareceu e a balança pende visivelmente para as ações liberais. São Paulo está longe da suspeita de regionalismo que contra ele se levantara. Hoje. São Paulo é uma célula unida do Brasil e do mundo em transformação. Uma frente idealista une aqui todos os que não mais supor-tam que permaneça na terra o absolutismo favorável à divisão monstruosa entre felás esfomeados e tubarões insultantes, entre classes quilometralmente opostas e que só a força bruta man-tém num instante cada vez mais próximo do colapso e do fim.
Wladimir Ilitch (8Ô) disse admiravelmente que as classes condenadas pela História procedem assim — com o argumen-to da força para manter as tiranias superadas.
Wendell Wilkie trinta anos depois, exaltou no seu livro com argumentos concretos, os climas de liberdade que nasceram sob a mensagem do grande condutor — os da Rús-sia, da China, da Turquia…
E o Líbano?

O Líbano vem pôr uma interrogação na Carta do Atlân-tico, que foi a primeira tentativa de codificar a vitória. O Lí-bano vem demonstrar quanto é necessária a lealdade e a união em torno do espírito da paz, que se anuncia com as derrotas estrondosas de Hitler na Rússia.
As contradições entre a atitude para o exterior e a atitude para o interior não podem prevalecer num momento em que a humanidade ajusta velhas contas com a insídia e a mentira, a intolerância e o mando. Que não sirva, porém, o caso de Beirute para resolver a questão somente contra uma potência que sofre ainda as conseqüências do seu colapso militar. Que seja resolvido como paradigma de atitudes e soluções futuras, a fim de que se forme e consolide a frente espiritual que se prometeu em torno dos princípios de liberdade, anunciados nos. propósitos da luta. Liberdade para o Líbano deve significar liberdade para o mundo.
*
O mundo afinal está farto de tolerar as permanências equívocas aue a reação se esforça em manter na frente mobi-lizada e una do momento. Ouço com prazer a voz da geração que me sucede no depoimento inteligente, corajoso e rico de Luís Saia, neste momento publicado. Enfim, passou um gran-
(89) W. Ilitch. Devido à censura imposta pela ditadura do Estado Novo (1937-1945), Oswald se refere deste modo a Lenin, cujo verdadeiro nome era Vladimir Ilitch Ulianov.
(90) Wendell Willkie (1892-1944), candidato republicano à presi-dência da República dos Estados Unidos, derrotado em 1940 por Roosevelt. Dedicou-se à idéia de um mundo unificado fraternalmente, acima das divisões raciais, ideológicas, etc…
de trem na plataforma vazia onde o sr. Neme exerce as fun-ções de chefe de estação. Assim fala o diretor do S.P.H.A.N. (ei), na urgente denúncia do espírito caviloso que entre nós a reação anima e prolonga:
“As minhas experiências políticas me ensinaram que não é uma ficha de inscrição num partido que define um ser como reacionário ou revolucionário. Essa ficha, quando não há de-sorientação ou simplesmente falta de escrúpulos, pode apenas oficializar os sentimentos e as idéias que cada um traz consigo. Quantos indivíduos conheço, que jamais inscritos no integralis-mo são até hoje protótipos de integralistas, fascistas de forma-ção. E quantos conheço que, abjurando o dito integralismo apenas por conveniências políticas permaneceram de uma in-teiriça estrutura mental e moral integralista. Aliás são facil-mente reconhecíveis: são aqueles que alimentam todos os pre-conceitos de raça e de crença, são aqueles que defendem as instituições burguesas nos seus mais variados e sutis aspectos, são aqueles eternos partidários das soluções acomodatícias, são aqueles afinal, que defendem tudo aquilo que sentimos neces-sário destruir ou revisar para que o mundo possa organizar-se em bases de justiça e de harmonia”.
3.12.43
(91) SPHAN, sigla do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cuja Divisão de São Paulo era dirigida pelo Arquiteto Luís Saia.
3 LINHAS E 4 VERDADES

A recuperação de Alberto Cavalcanti pelo Brasil é o fato do dia. A sua vinda da Inglaterra, onde fez do melhor filme, a fim de produzir em São Paulo, bastou para que se concre-tizasse a velha esperança de termos cinema nacional. Afirma-va Max Glass quando aqui esteve durante a guerra, que dizer que um país não produz cinema é como dizer que um povo não tem eletricidade. De fato, nada há para que se nã& faça entre nós, grandes consumidores do gênero, uma indús-tria do filme.
Nesse período conturbado da guerra, justamente Max Glass tentou comigo convencer os governantes de que deviam auxiliar a produção nacional do cinema. Ele era um velho dura e falante, dizendo-se grande escritor, grande diretor e grande produtor. — Moi mondial connu! —afirmava dos seus óculos parados e brilhantes. De fato tinha feito uma espécie de do-cumentário pacifista sobre a “Entente Cordiale” realçando a figura de Eduardo VII da Inglaterra, o querido príncipe de Gales dos parisienses no começo do século. O seu filme sobre Rasputin também tivera êxito e público.
Mas, depois de apoiado por Gabriel Monteiro da Silva (®3), a quem o interventor Fernando Costa entregara o caso, o projeto veio morrer nas mãos do Departamento Adminis-trativo do Estado. Uma tarde Marrey Júnior me comunicou o fracasso.
(92) Max Glass, produtor cinematográfico francês refugiado no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, que freqüentou a casa de Oswald de Andrade.
(93) Gabriel Monteiro da Silva, político de São Paulo, colaborador do Interventor Federal Fernando Costa, mencionado adiante no texto, com quem morreu num desastre de automóvel em 1945.
Talvez tenha sido melhor assim. Contamos agora com um diretor nacional, que pela sua mocidade e pelo seu talento abre todas as experiências para a quinta arte.
Quando cheguei ao Museu de Arte Moderna, no coquetel da inauguração da Companhia Vera Cruz, me pareceu ouvir .soluços em meio do ajuntamento de pessoas, focalizado pelos holofotes da filmagem. Era o industrial Paulo Assunção que lia de charuto e monóculo, um enorme discurso. Ao seu lado a figura sadia e risonha de Cavalcanti que intelectuais e pes-soas da sociedade rodeavam.
Deve-se a Cicillo Matarazzo a iniciativa de fazer cinema em São Paulo. Mais um ponto bom para esse fino e desinte-ressado rebento dos Matarazzo, sempre apoiado por Iolanda Penteado Matarazzo que decidiu retomar o mecenato de d. Olívia (94), animadora dos novos de 22.
Depois da festa, foi um grande grupo comer fucile e be-ber vinho de Verona na “Nossa Cantina”, no Bexiga.
*
Tomou posse do cargo de diretor da Caixa Econômica Fe-deral, que agora tem a presidência do Dr. Alcides da Costa Vidigal, o Dr. Caio Monteiro da Silva. Não é só irmão do Ga-briel. É civil, paulista, banqueiro, advogado, moço e amigo do peito do General Presidente.
5.11.49
*
Cicillo Matarazzo diz que eu erro querendo invadir o se-tor da vida social em que é privilegiada a escritora Helena Silveira. Quer ele na sua discreção, evitar que eu conte que jantamos em sua casa em companhia de um brasileiro ilustre, o sr. Dioclécio Campos (95), que exerce há muitos anos um posto técnico e cultural no Museu do Vaticano. Iolanda nos
(94) D. OUvia Guedes Penteado, senhora da alta sociedade de São Paulo, cujo salão foi um centro importante das atividades moder-nistas.
(95) Dioclécio Redig de Campos, crítico de arte brasileira, atual Diretor da Galeria do Vaticano, em Roma.
recebeu como sempre com aquela intimidade inteligente em que ela sabe somar mulheres bonitas e homens de espírito para se deliciarem com os pratos do irreprochable Galiberti. Cam-pos é um número. Inteligente e observador, fez uma larga cul-tura no comércio intelectual com as obras de arte do passado italiano. Traz toda uma teoria sobre a “morte aparente” da arte clássica nos primórdios do cristianismo, quando a primei-ra iconografia de Jesus, a das catacumbas, ainda reproduzia toscamente Hermes e Orfeu na simbolização inicial do Mes-sias. Fala da primeira Renascença, a carolíngia, que abandona a estilização bizantina e depois de produzir formas frustradas, se robustece em Giotto, Cimabue e sobretudo em Cavalini, para esplender depois a triade clássica de Leonardo, Rafael e Miguel Ângelo.
Trouxe-o para ver, em meu apartamento, uma das gran-des telas de Giorgio de Chirico que guardo, a qual ele qualifi-cou de autêntico tesouro do modernismo. Trata-se de uma das Piazze d’Halia, de sua primeira época, não as que hoje o ar-tista contrafaz e rifa.
*
Virei de fato mexeriqueiro social. Tenho que assinalar outra faceta, a do aniversário de Helena Silveira. O orgulho de Assis Chateaubriand é ser repórter. O meu é mais modesto. É topar tudo que dá letra de forma seja filosofia, ficção, crô-nica, ou mesmo, justamente na casa da minha venenosa amiga Helen, via-se a nata da literatura, do jornalismo e da arte, desde o poeta de “Praia Oculta”, o vibrante Domingos (96>, até o técnocrata Luís Washington : Os casais felizes, Nel-son (M) e Pola, Maria de Lurdes e José Geraldo, leda e Na-bantino. Festejamos com champanha o triunfo dos punhos de Jamil Almansur Hadad sobre o vilão Neme, abatido em um
(96) Domingos Carvalho da Silva (n. 1915), poeta da chamada “geração de 45”, amigo de Oswald e freqüentador de sua casa.
(97) Luís Washington Vita (1921-1968), filósofo brasileiro, em quem Oswald viu, a certa altura, uma revelação de crítico.
(98) Nelson Ottoni de Rezende, engenheiro, e sua esposa Pola Rezende, escultora de origem russa; Maria de Lourdes Teixeira e José Geraldo Vieira, o conhecido casal de escritores; José Nabantino Ramos, Diretor da Empresa Folhas, e sua esposa.
round, no que Mário da Silva Brito chamou de Guerra dos Mascates.

Sobre a alta espetacular do café que agora de novo oscila, lembrava-se numa roda, o que foi a tragédia paulista do lon-gínquo ano de 29. O nosso grande produto desabou vertical-mente, levando muita gente à ruína e até ao suicídio. Foi pre-ciso a vitória das armas revolucionárias em 30 para que se reajustasse a situação. Em São Lourenço, onde se achava o sr. Getúlio Vargas, pleitearam as medidas salvadoras o inter-ventor João Alberto, o secretário Marcos de Souza Dantas e esse escondido homem público que é Armando de Alcântara. Obtiveram eles então, entre outras providências, a criação do D.N.C. que terminaria tão mal a sua carreira, iniciada
a favor dos interesses nacionais.
*
Almeida Sales, essa simpatia viva, contava em casa de Cicillo terem-lhe assegurado que o livro tão discutido, sobre “O Estado Moderno”, fora psicografado e por isso não trazia nome do autor. Seja como for, é um volume que está cha-mando a atenção de amigos e inimigos, políticos, estudiosos e conversadores. O intelectual e cineasta apontava como dos melhores capítulos o que se intitula “Sentido Administrativo”.
14.12.49
Encontrei no trem que me levava a Bauru, o velho jor-nalista carioca que eu perdera de vista há muitos anos. E ele me disse:
— Você vai ver o que vem por aí! Este ano de 50 ouvirá o estrondo da bomba atômica. A nossa precária indústria fali-rá! A produção agrícola não vai dar para nada. O cruzeiro levará a breca, atrás da libra… Os preços subirão!
— Escuta, Cassandra, e a política? O que vai se passar na política?
(99) DNC, sigla do extinto Departamento Nacional do Café,
O homenzinho enrugado, pálido e gordo, Derrou mais alto que os barulhos do carro restaurante.
— Não me fale nisso! Vem golpe, golpe do Chico Ciên-cia! (10°).
— Outra vez? Mas não há ambiente, meu caro, não se pode forjar mais nenhum documento Cohen (101). O Prestes está reduzido a uma quarta-feira de cinzas! Não serve nem de pretexto para uma surra!
— Você verá, insistiu ele.
— Mas o general Dutra tem uma única preocupação, que se diga que ele foi imparcial e honesto. Tem sido essa a sua linha…
— Mas os outros forçam. Vem golpe! Vem golpe…
— Estudemos o caso. Você acredita que o Getúlio topa o golpe? Não se armaria um contragolpe do Sul? Não seria acender a guerra civil, cultivar o germe latente de separatis-mo que está aí, ao longo de toda a História do Brasil? Fazer mártires, num momento deste é fazer heróis amanhã.
— O Chico Ciência! Você vai ver!
— Quererá ficar ele, o ilustre político mineiro, que tem uma cultura jurídica invulgar, como o sinistro empreiteiro de golpes de cheiro e sabor totalitário? Por outro lado permane-cerá quieta a U.D.N., que ergueu o penacho liberal do Bri-gadeiro? (102) Não vê você que o momento é o mais infeliz possível para uma solução de força? E que a força gera a força?
(100) Chico Ciência. Apelido de Francisco Campos (1891-1968), jurista mineiro, Ministro da Educação em 1930 e em 1937 Ministro da Justiça do Estado Novo, cuja constituição autoritária e anti-demo-crática é de sua autoria.
(101) Documento Cohen. Falso documento forjado em 1937, relativo a um plano imaginário e fantástico de tomada do poder pelos comunistas. Serviu para a política repressiva de Getúlio Vargas e foi um dos pretextos para a instauração do Estado Novo.
(102) Brigadeiro Eduardo Gomes, candidato de oposição ao Es-tado Novo em 1945, identificado sobretudo com o pensamento da Unifio Democrática Nacional (UDN). Oswald lançou publicamente o seu nome para a presidência da República na sessão de encerramento do 1.° Congresso Brasileiro de Escritores, em janeiro de 1945, ainda na vigência da ditadura.
— Não. Será um golpe branco! Eleição indireta! Prorro-gação do mandato. Só haverá eleição para deputados…
— É você acredita que o povo brasileiro, que nestes pou-cos anos chegou à maturidade política, que já sabe utilizar o voto secreto, vai nessa onda?
— Veremos, veremos…
O trem chegava a uma estação onde o’ agoureiro ia des-cer. Gritou já na plataforma:
— O Chico Ciência resolve. É um crâniol Ele e o Góis Monteiro. Você vai ver!
— Tesconjuro! gritei.
1.1.50
*
Sou insuspeito para falar do sr. Getúlio Vargas. Enquanto ele gozava uma ditadura mais ou menos fascistóide, pelo curto prazo de quinze anos, eu sofria quinze demorados anos de mi-litância idealista, no seio confuso e hostil do comunismo bra-sileiro. As suas melhores mágicas de anão subversivo não me atraíram, apesar do apostolado que dele e de suas virtude» fazia o meu amigo Queiroz Lima. Hoje estou quase entregan-do os pontos. Não podia haver maior oportunidade para um líder se esborrachar ou se impor do que a da abertura deste santo ano de lutas eleitorais, que vai decidir os destinos bra-sileiros. O sr. Getúlio .Vargas falou e falou direitinho. Nada tenho com as críticas que ele alinha ao seu sucessor e destro-nador, o eeneral Dutra. São brancos, que se entendam! Mas o ex-presidente lançou um grande “slogan”: “O Brasil precisa de uma reforma de base para salvar-se”.
Não há mais penosa evolução do que a evolução do pron-to que vive de recursos potenciais. O Brasil tem sido assim. Com o bolso furado, senta-se à mesa dos grandes que o adu-lam para fins inconfessáveis. Arrota grandezas. Não está sa-tisfeito com o hino. Seu cartaz é o ufanismo. Mas sua de sol a sol para sobreviver. Enquanto ostenta o verniz asfaltado de suas avenidas, traz berne nas costas e calosidade portinarescas nos pés descalcos. Enquanto a alguns eleitos sobra a farta messe dos lucros extraordinários, o povo se debate nos orça-
mentos rasos c espera os prometidos milagres do dia seguinte. Assim não pode continuar. A nossa economia precisa ser rea-justada. E não mais na pauta da esmola, da loteria, da hipo-teca e do abono.
*
Os adeptos do governador Ademar de Barros mostram-se satisfeitos com outro discurso do fim do ano — o do general Dutra. Julgam eles que, num ambiente de acordo, o presidente
não desceria a lenha no Parlamento.
*
Jorge Amado pode ser o mais ímprobo sujeito de nossa literatura. É o impostor mais deslavado que conheço. Mas é dono de um envolvente lirismo, que marca todas as suas obras. Essa reminiscência me veio a propósito do clima poético que ele soube dar ao “ABC de Castro Alves”. Aliás, Castro Alves não pode ser biografado com indiferença. O próprio negativis-mo militante de Agripino Grieco estaca diante do poeta da Abolição. Lopes Rodrigues acaba de me oferecer sua alentada obra em três volumes, sobre o grande baiano. O mesmo clima lírico envolve aqui o homem de ciência. Mais uma pedra la-vrada para o pedestal de Castro Alves.
*
Com o retorno de Gladstone Jafet a um cargo público, acentua-se a colaboração da boa estirpe sírio-libanesa nos nos-sos rumos políticos. Gladstone vai prestar serviços no Banco do Estado, onde já serviu seu irmão Nagib, ao lado de Arlinda Maia Leio e Armando de Alcântara. Este paraninfou com uma
bela oração, os economandos de Santos.
*
A um senhor idoso, pregado na cadeira, mas namorando de longe uma “glamour girl”, no primeiro pileque do Ano San-to, um espírito de porco sussurrou:
— Não se iluda! Quem gosta de velho é reumatismo!
5.1.50
Parece haver uma grave sabotagem, interessada em trans-formar o concurso (103) aberto na Universidade para a cátedra de Filosofia, numa simples nomeação de professor. Não creio que a isso se preste o nosso querido Cruz Costa, beneficiário da tese estranha de que só ele poderia concorrer, ficando os outros a ver navios e entre eles a melhor vocação de filósofo que temos, que é Vicente Ferreira da Silva. Talvez eu, na minha qualidade de livre-docente, pudesse ser o único a con-correr com o emérito professor que há longos anos detém a cadeira.
Evidentemente, nada disso está certo e principalmente outra notícia que corre, a de que serão afastados da banca examinadora dois professores que convidados, já aceitaram o encargo — os Srs. Alexandre Correia e Versiani Veloso. Todo mundo sabe que não morro de amores pelas idéias desses mes-tres do passado. Mas daqui lanço o meu protesto contra qual-quer golpe de “jiu-jitsu” regimental que invalide a indicação legítima de ambos. Isso ficaria na história da Universidade como uma tristeza que viria tornar suspeito o resultado do concurso. Não é só uma questão de ética é também de bom senso. Vamos esperar.
*
Muita gente dizia que Flávio de Carvalho tinha uma telha de menos. Pois agora vai se ver e ele tem telhas demais. Flávio, ao lado do seu solar modernista de Capuava, em Valinhos, está movimentando enormes fornos de cerâmica. Ali naquela casa que os passadistas chamam de estonteante, ele produz e controla .não só tijolo e a telha, mas o mel, a manteiga, o frango e a geléia. E ali mesmo, vai levantar um Templo a Dio-nisos. onde se fará do melhor teatro moderno. Tudo isso torna Flávio de Carvalho uma figura ímpar no cenário das artes plásticas e da vida social americana.
(103) Concurso. Trata-se do concurso para provimento da Ca-deira de Filosofia da Universidade de São Paulo, para o qual Oswald •escreveu a tese Crise da filosofia messiânica, não podendo afinal se inscrever, como outros candidatos, por lhes faltar título acadêmico específico na matéria, segundo decisão do Conselho Nacional de Educação.
Um indiscreto me afirmou que haverá sete candidatos à governança de São Paulo — Brasílio Machado Neto, Cirilo Júnior, José Abdala, Prestes Maia, Erlindo Salzano, Miguel Reale e Hugo Borghi.
*
Para a deputação federal apresentam-se novas figuras, já bastante conhecidas fora da política, entre elas Carmelo D’Agostino e Lima Figueiredo. Cogita-se de lembrar também para a Câmara Federal, o nome de Armando de Alcântara, perito em finanças. Para a sua representação estadual o Par-tido Socialista adotou a candidatura da Jornalista Patrícia Galvão (1M).
1.6.50
*
—A bagunça não interessa a ninguém…
— Não interessa.,..
— O que interessa a todos é conservar esse fio de legali-dade em que vivemos. Porque não é nenhum mistério que a vocação política da América Latina é o golpe…
— Mas que vai acontecer?
— Vamos por partes. Um historiador fixou em duas cons-tantes toda a história da nossa América hispano-lusa: a cidade fortim e o homem-lei. Com o desenvolvimento histórico e de-mográfico e o acesso tornado fácil pelas vias de comunicação a cidade-fortim desapareceu, mas o homem-lei ficou. Ouça: Pedro I, Feijó, os escravocratas do 2.° Império, Deodoro, Floriano…
— Mas depois com a República, tivemos a liberdade.
— Tivemos quarenta anos de P.R.P., depois quinze de Getúlio…
— E agora?
— A posição de Feijó se repete — o ditador vira liberal. Mas como o nosso homem foi também um professor de golpes,
(104) Patrícia Galvão (1910-1962), jornalista e escritora paulista, militante política de esquerda, que foi esposa de Oswald de Andrade.
deixou uma porção de discípulos que agora poderiam aplicar contra ele as suas próprias invenções.
— De modo que…
— Devemos todos trabalhar para que haja eleições e para
que o homem-lei não volte na forma deste ou daquele.
*
No repertório que Jean Louis Barrault trouxe ao Brasil, figura “O Processo” de Kafka, posto em teatro por André Gide.
A importância de Kafka, esse modesto cidadão de Praga, cresce desmesuradamente no panorama da literatura mundial. Quanto foi desconhecida a sua existência, hoje o seu renome ultrapassa o de qualquer contemporâneo. É que ele e Luigi Pirandello são os dois pólos de mesma filosofia que anda nas coisas, nas ruas, na gente e tanto nos jornais como nos livros. Não se trata do existencialismo oficial. É alguma coisa de mais amargo e mais profundo. Talvez o fim de um ciclo que dura há dois milênios e meio e que veio produzir como flor de civi-lização, os campos de concentração da última guerra.
Pirandello, ao contrário de Kafka, gozou sardonicamente de todas as honras que lhe prodigaram. Mas na hora de morrer pediu para ser enterrado sem nenhum acompanhamento, no silêncio de uma madrugada de Roma. Como se estivesse crian-do um conto seu, fez pela primeira vez, um cemitério funcionar à noite.
9.6.50
*
Quanta gente estará exultando por causa dos primeiros arreganhos da guerra! Quanta gente estará chorando! O ho-mem continua dentro da sua constante antropofágica. E se fosse escolhido um epitáfio para este vale de lágrimas, devia ser aquela fabulosa fábula de La Fontaine “O lobo e o cordeiro”. Quem foi que começou? Foi você! Foi você! E os dois se pe-gam de gosto, hoje ou amanhã. O cordeiro de hoje será o loba de amanhã. Serajevo, Dantzig ou Seul são apenas estopins. E assim vai o mundo. Para onde? Uma teoria do astrônoma Lemaitre, que por sinal é padre, afirma que o mundo está em expansão e que, mais tarde ou mais cedo, seu fim é estourar
como uma bola de sabão no horizonte sem fim das galáxias. Esta teoria é confirmada pelas maiores capacidades da astro-física, entre as quais Einstein.
Antes porém de irmos para o inferno ou para o nada, peguemos bem as nossas taponas atômicas no inimigo visível e gritemos alto que a razão está conosco e a justiça e todos os demais argumentos morais de nosso arsenal ideológico.
Nessa confusão há uma luz que ilumina o futuro humano. É a força da História. Os que se colocarem a favor da História serão vencedores, mesmo que fiquem vencidos nos campos de batalha. É o sentido de “Marco Zero”. O dominicano Duca-tillon já escreveu um livro intitulado “A guerra, esta revolu-ção”. O que importa é a transformação do mundo. Porque não pode continuar como notava, já no século 16, aquele índio de Rouen esta civilização onde existem porões, casebres, feudos e palácios.
De que modo se transformará o mundo? Pelo trabalhismo inglês? Pelo sovietismo russo? Pela “Revolução dos Gerentes”? Pelo liberalismo progressista?
De qualquer maneira, chegou o momento de se gritar pela paz. Chega de doidice armada! Uma velha caricatura inglesa faz ver dois trogloditas numa corrida, empunhando suas maças na direção do conflito que estourou na vizinhança: Vamost Esta vai ser a última guerra!
A Coréia nos afirma que ainda e sempre estamos na ca-verna ancestral.
2.7.50
*
De há muito que o marmiteiro (106) está se intelectuali-zando e o intelectual está se proletarizando (se quiserem, se marmitalizando). Isso indica a ligação do escritor com o povo no sentido de suas comuns reivindicações de vida cotidiana.
(105) Marmiteiro. Designação demagógica assumida pelos parti-
dários populares de Getúlio Vargas depois da sua deposição em ou-tubro de 1955. Atribuída falsamente a Eduardo Gomes, que a teria usado em sentido pejorativo e anti-populista, foi utilizada habilmente pelo líder trabalhista Hugo Borghi como identificação e slogan.
Pois se alguém existe que mergulhe profundamente com suas antenas no âmago da sociedade é quem escreve. Veja-se o caso de Molière, e de Dostoievski e entre nós, o de Machado de As-sis. Carlos Marx afirmava que de Balzac saíra mais numeroso e certo documentário sociológico que de todos os pensadores sociais de sua época.
No entanto, o escritor, talvez por escrúpulo ou por ceti-cismo sempre procurou ser um marginal, isolando-se de lutas e de partidos no correr de sua vida. Isso culminou nas “torres de marfim” do século passado. Enquanto poetas e literatos se afastavam orgulhosamente do povo, um movimento inverso se processava. Os grandes lutadores sociais dessa época foram es-critores — Marx, Engels, Proudhon e o próprio Vitor Hugo participou. Qual seria o destino do socialismo sem a cabeça operários. Conheci-os de perto, penetrei em seus problemas e sem necessidade de nenhuma literatura política, tornei-me extremamente sensível às suas reivindicações e ao$ seus direitos postergados. Sou amiga deles porque sou proletária. Não pre-cisei ler nem Marx, nem Preudten, nem Kautski nem Lenine para sentir na pele o que se consagrou pelo nome de luta de classe. Agora é que andei tomando umas fumaças, isso tudo porque me fizeram candidata a deputado. Foram eles que me escolheram em escrutínio interno e secreto da fábrica. Não me recuso a freqüentar a sociedade onde nasci e, às vezes, me transfiguro à noite para ir a festas e coquetéis. Mas prefiro estar nos bailes operários no meio da simplicidade e da lisura dos homens que trabalham com as mãos e que carregam a so-ciedade nas costas. Seria demagogia se não fosse a expressão da verdade. Não pensei ainda em me casar, apesar da vontade de meus pais e creio que estou destinada, pelas circunstâncias, a seguir a carreira política…
Parou sorrindo, vestiu a «apa. Saímos do bar pela noite paulista.
7.9.50
*
O jantar prosseguiu em plena efusão. O casal anfitrião fazia passar um velho “Château-Neuf-du-Pape” com um assado róseo de lembrar a época gulosa de Eça de Queiroz.
— O teste está feito. Em vinte anos foram realizadas todas as experiências e tentativas de experiência sobre o corpo polí-tico do Brasil. Desde o fascismo do Plínio ao comunismo de Prestes. Desde a carrancuda governança do general Dutra à mobilidade do tenentismo. E o resultado está aí — em pleito livre, o Baixinho ganhou!
O Getúlio tinha todas as virtudes para ganhar. Em pri-meiro lugar o seu corte de caudilho. As nossas massas são sul-
C106) Kaustik, no original.
americanas e não politizadas. Gostam ainda de mágica. Ado-ram o homem que sabe passar rasteira. O que as impressiona é ainda o feiticeiro que vela dentro do Sr. Getúlio Vargas. Já se sussurra que ele está negociando com Borghi a cabeça do governador Ademar de Barros. É isso que o povo adora…
— Nada disso. O que o povo quer é assegurar a vitória de seus interesses reais. Ninguém atendeu melhor o povo do que o Getúlio. O povo brasileiro desta vez pôde traçar o seu destino que é o trabalhismo. Foi de fato, uma revolução branca. O enterro dos partidos carcomidos. A vitória do socialismo.
— E como é que você explica a força com que a oposição cavalheiresca enfrentou o pleito em todo o país?
— Visita da saúde. Os cadetes do czar diante dos bolche-vistas de 17. Querem morrer “en beauté”!
8.10.50

TELEFONEMA

A Confidencia
(De São Paulo) — Marchas e sambas barulhavam ainda no salão enfeitado e berrante. Cordões serpenteavam subindo, descendo, varando os compartimentos do hotel. Como eu, outros se recostavam às paredes onde o Carnaval resistia, pin-tado em manchas enormes que representavam máscaras mons-truosas. Súbito, o cordão de marinheiros apossou-se de um sujeito baixinho, vestido de segunda-feira, que procurava deli-cadamente atravessar o salão. O homem trazia sob a pastinha engomada, que uma risca geométrica dividia, um loup (10T) negro de veludo. Por sob a meia máscara vinha um sorriso varado de encabulamento e contrariedade. A princípio o ho-menzinho procurou resistir. Mas o }azz de classe enfileirou os pistons, cantou mais alto, as serpentinas bailaram, as moças envolveram-no de apertos, braços musculosos o puxaram. E lá se foi o homem entre uma tiroleza e um mexicano, a cabeça baixa como criança obrigada pela mãe a cumprimentar as visitas.
Não demorou muito o martírio do mascarado contrafeito. Obstinado e duro, ele quebrara de tal modo o ritmo do cordão que o deixaram tonto, volteando na sala, em meio de garga-lhadas, gritos e sons de trombeta. O acaso trouxe o homem para perto de mim. Sua testa brilhava de suor. Enxugou-se com um lenço preto.
— O senhor está de luto? — perguntei.
(107) Loup. Meia máscara de veludo ou rendas, escondendo a parte superior do rosto.
— Estou e não estou…
Sua voz era mole e respeitosa.
— Perdeu algum parente próximo?
O homem recusava-se a falar. Sorria sob o loup. Meus olhos se distrairam um instante na farândola que procurava reanimar-se. O homem sussurrou:
— Eu vim aqui pelo hábito…
— Vamos tomar um chope?
Ele aceitou. O bar estava deserto. Sentamo-nos sós nas. cadeiras espigadas e metálicas, diante do zinco. E depois de um duplo escuro que o garçon velho serviu, o meu conviva des-travou a língua.
— Estou de luto por mim mesmo… Olhe esta matrícula. É do sindicato dos pintores de taboleta. Eu me sindicalizei já há dois anos… Prevendo… Prevendo a’decadência da baca-nal heróica que era o Carnaval de outrora… Quando o Morro descia sobre a cidade, com seus sambas, suas inconfundíveis canções, suas bahianas monumentais, seus porta-estandartes. e balisas. Era a Grécia, a Grécia no seu grande sentido nietzs^ cheano. O senhor conhece Nietzsche? É um filósofo alemão que descobriu a outra Grécia, não a de Renan e a de Bilac… A Grécia de Baco, pai do Rei Momo…
Nesse momento o homem foi tomado de um choro con-vulso que procurou abafar no lenço preto. Eu fiquei olhando espantado, para aquela estranha exibição de cultura e de sen-timentalismo.
— Mas o senhor não perdeu ninguém?
— Perdi… Foi quando as sereias das cidades mecânicas anunciaram de novo que Pan tinha morrido… Pan morreu!
— Mas que ligação pode haver?
— Entre Baco, Pan, Rei Momo e eu… Pois, nós somos a mesma pessoa, meu caro senhor. Eu não posso mais de recal-ques! Preciso lhe dizer. Estou sofrendo minha última metem-psicose. O senhor não sabe o que é mudar de pele, sofrer ampu-tações e próteses psicológicas… O que é se transformar, se adaptar… Só me foi permitido conservar a velha casa de lata que habito…
— Onde?
— No Morro… Porque o Morro descerá de novo sobre a cidade. Mas em civil. Eu usarei esse traje preto que já estou acostumado a vestir. E terei a caderneta do sindicato no bolso. Olhe, já estou pintando a taboleta que abrirá o cortejo nesse dia… Ê assim: “O proletariado saúda o povo e pede licença para passar”.
2.3.44
Brasil Agreste
(De São Paulo) — Se o panegírico e a adulação bem paga são o vidro cor de rosa e o realejo habitual que alimentam-o otimismo dos poderosos, fazendo-os acreditar na longevidade de suas farturas, alguma coisa existe no Brasil que, se fosse tomada a sério, provocaria um retiro espiritual coletivo e obri-garia muito responsável a uma séria penitência. É o nosso romance social, começado aí por 30, talvez pelas mãos do Sr. José Américo de Almeida, e que deu a mestria de Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins e outros. Agora é o sul, que nos manda um desses quadros flagelatórios que fazem-clamor e põem na alma dos homens honrados o terror da ver-dade. Quero me referir ao livro de Ivan Pedro de Martins, intitulado “Fronteira Agreste”. Ele anuncia simplesmente um-novo senhor do romance brasileiro. É um grande, honesto e belo livro!
Os gaúchos têm dado um recente brilho a esse gênero que se tornou principal em nossa literatura. Além de Érico que nos havia oferecido um Rio Grande urbanizado, policiado, numa técnica correspondentel, tivemos a revelação de “Os Ratos” de Dionélio Machado e aquelas torturantes páginas de “Almas Penadas” de Pedro Wayne. Agora, o autor de “Fron-teira Agreste”, dentro de um naturalismo colorido e minucioso, nos revela a vida fronteiriça do Brasil, primitiva e trágica, suando a dor nua dos deserdados, a frieza dos sicários e a in-consciência dos senhores.
Tenho a impressão de que todo o material sociológico oferecido pelos narradores do Norte como o que colhi em São Paulo para “Marco Zero”, não são mais importantes que
esse imparcial depoimento sulino, feito pelas mãos de um mi-neiro. É dessas contribuições ardentes e honestas que se forma o patrimônio espiritual de um povo e o seu direito de viver perante a posteridade.
12.3.44
O escritor popular
(De São Paulo) — Toda vez que Jorge Amado chega a São Paulo é um alvoroço. Se há alguém, que na literatura nacional, obteve a cidadania bandeirante, foi esse menino de dez anos atrás, quando aqui apareceu com um pequeno grande livro que se chamava “Suor”.
Era a época em que penetrava no Brasil toda uma litera-tura renovada e anti-burguesa vinda tanto da França de Mal-raux como da Rússia de Gladkov, como da América de Michael Gold.
E o Brasil não dera ainda o seu depoimento. Daí o valor -desse pequeno grande livro que ia focalizar os cortiços azedos da Bahia e pô-los ao lado dos cenários convulsos da China e da América. Logo depois, Jorge Amado firmava para sempre o seu nome de mestre com “Jubiabá”. Essa história de trabalhadores avulsos, de vagabundos e anônimos conseguiria o que até aí não fora conseguido — a tradução para uma grande editora estrangeira de um romance do Brasil. A Nouvelle Revue Fran-çaise, cuja autoridade intelectual emanava de seus grandes editados, os Proust, os Gide, os Romains, lançou “Jubiabá” ao mundo das letras internacionais. E houve um pasmo ante esse livro logo considerado o maior romance de negros que se conhecia.
Depois de lutas graves em que sua obra se enriqueceu de gloriosos abecês, Jorge deu um livro da Bahia em dois volumes: “Terra do Sem Fim” e “São Jorge dos Ilhéus”. O editor Martins conseguiu um verdadeiro record com as edições e tiragens sucessivas desse repositório magnífico das lutas sociais bahianas.
Jorge foi a Rio Preto fazer uma conferência. Estará de volta ao Rio e à Bahia em breve tempo.
28.5.44
Carta (i08)
(Da Cinelândia) — Deixando Belo Horizonte, entreguei a um redator do “Diário” a seguinte carta, dirigida aos moços que tomaram posição nos debates que se seguiram à minha conferência na Biblioteca Municipal:
“Se eu quisesse falar como o grupo católico, moço de Minas, diria para começar que a agressividade é um sinal de Deus. Mas o que não é sinal nenhum de Deus é interpretar mal as palavras de um adversário positivo. Eu não disse que o móvel da minha ofensiva contra o Sr. Tristão de Athayde era uma questão pessoal. Não pode haver questão pessoal com o Sr. Tristão de Athayde. Com ele tudo corre para o terreno ideológico. Afirmei, sim que dada a sua inesperada desele-gância para comigo, entregando à publicidade inoportuna a xin-gação de um companheiro morto contra mim — xingação que só me honra — eu retomava diante dele uma integral liber-dade de crítica. O que não me privará de aceitar a sua útil colaboração deste momento de anistia, desde que ele desça e se afaste da árvore genealógica de Baldrich.
Agora, esse Nietzsche camponês convertido que achou a grande solução de Minas — George Bernanos. Se transpusés-semos para cá o saudosismo do autor da “Lettre aux Anglais”, teríamos que adotar o Conde d’Eu como ideal político brasi-leiro. Carregar para as transformações que se operam no mundo toda a lataria concernente ao direito divino dos reis, acho um esforço excessivo e inútil.
Quanto a vocês, que me fizeram redescobrir a adolescên-cia com suas ferozes virtudes que são a fé e”o combate, e que
(108) Carta. Oswald se refere às discussões que teve em Belo Horizonte com jovens escritores mineiros, àquele tempo de orientação católica e muito ligados a Georges Bernanos, durante uma visita de intelectuais paulistas, convidados pelo então Prefeito Juscelino Kubits» chek para verem as obras de Oscar Niemeyer (1944). Houve diversas manifestações culturais, que foram um acontecimento decisivo para aqueles jovens escritores, entre os quais Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, etc. Entre eles, a visita de Oswald e demais escritores de São Paulo (na maioria do “grupo de Clima”) ficou conhecida como “semana de arte moderna”.
tão energicamente recusaram a posição ocasional de direita em que se haviam colocado frente a mim, na conferência, con-tinuem a crer e a lutar. E precavenham-se contra os equívocos que têm conduzido muita gente de boa fé a uma terceira ala — a canhota — que confunde esquerda com direita. Vocês são merecedores dos graves destinos que o Brasil autoriza”.
P. procuração de OSWALD DE ANDRADE
8.6.44
A Mc. Truman
Senhor Presidente
Fui dos que tiveram o privilégio de ouvir a palavra de V. Excia. na sessão final da histórica conferência da Quitan-dinha. E dos que notaram o desembaraço esportivo com que o Presidente dos Estados Unidos fala, afirma, anda e sorri. Primeiro é a impressão física que marca, depois que a gente fixa, lendo e relendo o documento que foi o apogeu e o fim dessa oportuna reunião das nações americanas. Oportuna por-que o mundo marcha para um desentendimento ciclópico e de-finidamente já se formam os grupos que se vão defrontar, convindo portanto a cada um esse prévio exame de consciên-cia e de munição que precede a todo sururu. Até a Argentina que parecia refugar, compreendeu sua posição geo-política na vertente democrática que, por coincidência é também a da bomba atômica.
Do outro lado do globo, a U.R.S.S. se levanta, granítica, sibilina e temerosa. São duas concepções do mundo que se de-frontam, dois sistemas de vida, portanto não somente dois campos de interesse e de negócio. E é por isso mesmo que foi pena não se ter prolongado na paz a linha de síntese que pre-sidiu ao acordo de Teerã (109) e fez a U.R.S.S. e os Estados Unidos ganharem juntos a guerra.
(109) A Conferência de TeerS teve lugar em 1943 na capital da Pérsia, entre Churchill, Roosevelt e Stálin, para acertar a conduta da guerra contra Hitler, notadamente o desembarque das tropas anglo-
Mas era essa uma solução idealista, uma solução no papel. Um só homem de boa vontade, tentou tomar a sério a disso-lução da Terceira Internacional e acreditar no apaziguamento da gula imperialista americana. Earl Browder, que foi por quinze anos o porta-voz de Stalin na América. Do meu peque-no setor o segui e acreditei em bons termos marxistas que, depois da tese (Burguesia) e da antítese (Proletariado) devia vir a síntese (Teerã). Mas nada disso se deu e robusteci-dos (uo) os termos da contenda, defrontam-se hoje os arcanjos rivais para que depois de uma guerra pior, sobrevenha mais uma vez, um mundo melhor.
Conheço as acusações que prevalecem contra a posição atual da U.R.S.S. E muitas delas me afligem profundamente. Sei que a militância comunista se enquistou na certeza de que todas as injustiças, todas as deformações éticas, todos os erros do Partido e de seus homens nada pesam no prato da balança que sobe para fazer conter o do êxito de uma revolução que melhore a existência de todos os homens. Assim, Stalingrado e a derrota do fascismo justificariam os infernos de Koes-tler (in), mesmo verdadeiros. Mas isso não pode prevalecer, quando uma vez feito o teste, os resultados se mostram suspei-tos ou negativos.
Aqui, no Brasil, por exemplo, esteve ligada ao cerne das melhores esperanças nacionais a figurá do capitão Luis Carlos
americanas na Normandia. No acordo resultante predominou um es-pírito tático de tolerância ideológica e concessões mútuas entre a União Soviética e as Democracias Ocidentais, que levou muitos liberais e comunistas a pensarem numa nova era de colaboração entre capi-talismo e socialismo, para a solução gradual e pacífica dos problemas sociais. Foi a posição do chefe do Partido Comunista Americano, Earl Browder, exposta em seu livro Teerã e a América que teve in-fluência decisiva na última fase política de Oswald, “browderiano” convicto.
filo1» robustecido, no original.
(111; Koestler. Oswald faz referência ao romance de Arthui Koestler O Zero e o infinito (1940) que propõe uma interpretação interessante para o comportamento dos líderes soviéticos, que confes-saram crimes fantásticos e foram condenados nos famosos Processo* de Moscou, entre 1936 e 1938.
Prestes. A sua posição e a do seu partido em 1945 era até do imperialismo lhes tirar a cartola. Pois bem, em dois anos ape-nas, o clima caiu a tal ponto, que os assovios encomendados para a chegada de V. Excia. não deslustraram um segundo a manifestação livre com que o próprio povo do Brasil recebeu o Presidente americano.
E correspondendo a tantos augúrios, anunciou V. Excia. na Quitandinha que os Estados Unidos com o seu gigantesco poderio econômico e técnico, estão dispostos a prestar auxílio aos homens de boa vontade tanto americanos como europeus. Será isso possível e viável dentro da linha de privilégios grupais que macula o sistema capitalista? Abdicarão de boa vontade os detentores da fortuna de suas baronias bancárias e eco-nômicas para dar passagem, como quer V. Excia., aos “direitos fundamentais de que deve desfrutar toda a humanidade”?
Eis o que desejamos. Que esses direitos, que são os mes-mos que nos cafés existencialistas de Paris ou nos comícios políticos de todo o mundo se pleiteiam, não sejam mais objeto de mistificações ou descasos. E que com o progresso social que anunciam, o progresso técnico tantas vezes tolhido pelo interesse privado americano, leve às últimas conseqüências â humana liberdade.
Excelência, o progresso técnico foi o que pôs em cheque AS previsões catastróficas do marxismo romântico. O progresso técnico foi que fez o proletariado crescer na América, não numa expansão vegetativa, horizontal e revolucionária, mas numa seleção hierárquica de especializados e de managers. -Graças a ele pode a minoria de magnatas do Senado de Wash-ington enfrentar a potência teórica dos sindicatos operários. E pode também hoje o ilustre Sr. Snyder mostrar-se mais ami-go da onça de ouro do que do bem-estar da humanidade. Eu disse da onça e não do bezerro. Pois não é mais possível que os Estados Unidos se enclausurem num sistema fechado de finan-ciamento e de lucro, quando o seu Presidente declara sagrado o direito de todos os homens “compartüharem dos benefícios da civüizaçao presente” que são os “direitos à própria vida”. As palavras de V. Excia. seguidas de atos, conseguirão quem sabe? afastar ainda as ameaças torvas da guerra e trazer com
a técnica atômica o anúncio feliz dos tempos novos. E desmen tirão, com certeza, as suspeitas e os presságios maus que não faltam aos melhores momentos de efusão e de confiança.
OSWALD DE ANDRADE 6.9.45
Do espírito jurídico
(De São Paulo) — Creio que foi o alemão Burckhardt quem profetizou: “No amável século XX, a Autoridade ergue-rá a cabeça, uma cabeça espantosa”.
Essa cabeça está aí, erguida, erecta, apesar de toda a des-moralização do totalitarismo fascista. É que ela nada tem que ver de essencial com o fascismo, que foi a sua máscara rija, primitivamente sangrenta. Ê que o mundo entrou num ciclo coletivista, dialeticamente gerado do ciclo liberal que o prece-deu. Antes a Autoridade construirá a sua economia espiritual na Idade gótica, e na Judéia dos patriarcas.
Hoje, depois do liberalismo, volta-se à economia dirigida e aos laços apertados da união política. Um caráter novo, na entanto, assinala que no ciclo atual pode entrar o elemento oposto ao autoritarismo — o elemento de individuação.
Essa “oportunidade única” que os homens têm de bem: viver, assinalada por Attlee (U2) em seu último discurso, ex-prime a síntese em que estão presentes os dois elementos con-trários, o coletivista e o individualista. É o sistema de Teerã em que se deram lealmente as mãos as democracias e a Rússia-Soviética.
De forma que, aliminando o ranço universitário de suas origens, as experiências liberais ensaiadas pelo atual interregno têm um sentido nobre e útil. Pode ser chamado o homem da estratosfera o ministro-professor que tentou reviver Ruy Bar-bosa nos tempos atuais. Pode ser que o seu fim seja mesmo
(112) Clement Attlee (1883-1967), líder do Partido Trabalhista, era então o Primeiro-Ministro Britânico, em substituição a Winsto» Churchill.
um copo melancólico de cicuta mineral na solidão de uma esta-ção de águas. Não deixa de ficar esse aceno de que também a lembrança da liberdade deve amainar os tempos conturbados de hoje. O governo do General Dutra nada perderá com o avi-so um pouco bisonho, mas sincero e oportuno, do jurisdicismo.
15.1.46
Interurbano oficial
(De São Paulo) — General, quem fala aqui é um escritor, pracinha da democracia, que durante largo tempo perdeu bens, saúde e vida nas trincheiras da liberdade. Inicialmente peço-lhe desculpas por um plebeu utilizar a oportunidade única que tem de se erguer até o recinto dos fastos nacionais. De longa data aproveitam os poetas momentos como este — coroações, casa-mentos ou batizados de princesas para aderir e adular. O meu caso é diverso. Se bem que por temperamento e profissão, viva eu sempre um pouco aéreo, ando a par do que se passa no mundo, pois leio mais ou menos jornais, vou às vezes ao cine-ma, ouço rádio de quando em quando. Além disso freqüento maus lugares como casas bancárias, igrejas e repartições pú-blicas. Excelência, há em torno de sua magnífica posse uma atmosfera apoteótica que celebra a volta da nossa terra a sua normalidade legal. O Brasil é um país de escravos que teimam em ser homens livres. É essa toda a nossa tragédia. Viemos da Europa nesses quatrocentos anos para fugir à escravidão eco-nômica. O índio aqui nunca deixou de morrer pela sua liber-dade. E o negro se libertou, antes mesmo do decreto isabelino, nas veias mestiças do serenatista e dos barões. Contra esse imperativo da liberdade, existe outro — o da mania de mandar e oprimir — que é oriundo da nossa equação nacional. Nós temos infra população e muita terra, pouca técnica e excesso de imaginativa, daí ser o caudrlhismo um fenômeno americano que ao norte do Continente se atenuou com a rápida industria-lização, mas aqui dos pampas ao Panamá e às serranias goia-nas enche de Iodo e de lágrimas a história e a estatística. Não
muito longe estamos desse glorioso 29 de outubro (113), em que marchando mais depressa para a democracia as lagartixas dos tanks que os sorrisos liberais do Sr. Getúlio Vargas, mos-trou o soldado brasileiro ter dignidade e palavra para o cum-primento das eleições livres e honestas que deram a V. Excia. esse dia, em que o Brasil assumiu um compromisso de luta contra as permanências tiranas e contra os desvios do poder para os algodoais da negociata e para o terror dos pequenos Belsens (U4) policiais que nos macularam. Neste mundo con-vulso, residimos na vertente democrática que é por sinal, a da bomba atômica. Não podemos de modo algum, deixar de tomar para nós o conselho de Lenine que morrendo, disse aos russos — Americanizai-vos! Sob o governo de V. Excia. ame-ricanizemo-nos. Organizemos enfim, a nossa vida nacional. Estamos cansados de viver entre a loteria e a esmola. Criemos a técnica da lavoura e a técnica da indústria, sem esquecer nunca porém, que elas de nada valem sem as normas efetivas da liberdade.
OSWALD DE ANDRADE 1.2.1946
O albatroz
(De São Paulo) — As árvores desfilavam em roxo na chu-va do outono precoce. O filósofo amador recostou-se na pol-trona, atirou longe o cigarro.
— Estou certo de que o General Dutra não se recusou a receber o Senador Prestes no Catete. Este é que não procurou levar a cabo a sua intenção de entregar ao presidente da Repú-blica uma mensagem trabalhista. Afobou. E deu o documento ao primeiro contínuo. Até hoje, ninguém procurou identificar
(113) 29 de outubro de 1945. Data do movimento das Forças Armadas que depôs o Presidente Getúlio Vargas, ditador desde 1937, depois de ter sido Chefe do Governo Provisório (1930-1934) e Presi-dente eleito (1934-1937).
(114) Belsen foi um dos mais famosos e sinistros campos na-zistas de concentração.
a alma do Cavaleiro da Esperança. Existe’dele uma biografia cantarolada pelo bardo nazi-baiano Jorge Amado. Trata-se de uma adulação que justificou uma cadeira de deputado. Mas ninguém fez ainda a psicologia de Prestes. Lembre-se daqueles versos do “Albatroz”, de Baudelaire:
A peine les ont-ils déposés sur les planches Que ces róis de Vazur maladroits et honteux, Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches Comme des avirons trainer à coté d’eux
Estou certo de que Prestes é um grande inibido. Esse pam-peiro sans peur et sans reproche só tem medo duma coisa — o êxito. Você quer vê-lo em pânico — é dar-lhe chance, Como a procelária, só se realiza no tôpo da tempestade. Veja conto por três vezes ele embatucou na hora de dar dentro. Êm 30, foi convidado para comandar o exército da revolução que ia trans-formar o Brasil. No dia seguinte da vitória, que seria o anão Vargas ao lado do Cavaleiro da Esperança? Mas ele inventou um pretexto ideológico, de caráter irrealista, para ficar sozinho c amargo em Montevidéu, Cinco anos depois, tudo lfye cai nás mãos. Está- no Rio dirigindo um movimento deflagrado pelo fechamento da Aliança Nacional Libertadora. Uma tropa de escol quer marchar sobre o Rio. O seu comandante está deci-dido a aderir mas reclama uma “berada” do poder. Ele recusa. — Nunca! Onde ficaria o esquema idealista dum governo in-ternacional? E Ghioldi? (115> E Berger? (lie) A tropa perma-nece onde está, o levante é vencido e a enxovia o engole por nove anos. Sai na auréola das armas democráticas onde fulge Stalin. O clima entre os dois comícios — o de São Januário e o do Pacaembu — é passional (m). A burguesia está no osso. Vargas fala sozinho no palácio de Petrópolis. Todas as
(115) Rodolfo Ghioldi, líder do Partido Comunista Argentino.
(116) Harry Berger, representante da III Internacional no Brasil, preso depois do fechamento da Aliança Nacional Libertadora em 1935.
(117) Comícios realizados em 1945 nos Estádios de São Januário (Rio) e Pacaembu (São Paulo), nos quais se apresentou ao povo e traçou a sua linha política Luís Carlos Prestes, chefe do Partido Co-munista Brasileiro, que tinha passado cerca de dez anos preso.
forças que lutaram contra o fascismo estão de pc ao seu lado. Um empurrão o ligará ao brigadeiro Eduardo Gomes, símbolo de lealdade na luta contra a ditadura. Ele diz não. — Não e não! Que seria o dia seguinte no Catete, nesse mesmo Catete, onde ele comparece alarmado, sem ousar sequer enfrentar amis-tosamente o presidente Dutra? Prestes diante da vitória mais uma vez desconversa e vai apoiar o seu carcereiro sádico, Ge-túlio Vargas, que agora, é necessário desmascarar. O caráter hamlélico de Prestes talvez dê grandes temas para a nossa lei-tura (11S) de amanhã. Por hoje só serve para atrapalhar o seu próprio ideal e a sua própria política. Enquanto a Constituinte navega sur les gouffres amers, ele permanece como o albatroz.
Exile sur le sol au milieu d es huées
Ses ailes de géant 1’empêchent de marcher
12.3.46
Sob a proteção de Deus
(De São Paulo) — O meu amigo filósofo tomou-me pelo braço e exclamou: Deus é o nada puro. Veja como é fecunda essa afirmação que não é minha. Está nos compêndios de reli-gião, nos livros de mística. Como ela destroi todo resíduo do materialismo que se possa insinuar na fé. A velha concepção aristotélica torna-se mesquinha e se pulveriza diante da gran-deza ao mesmo tempo nirvânica e criadora desse conceito de Deus. Aristóteles com o seu “primeiro motor imóvel” lançou o mecanicismo, isto é, uma filosofia da tristeza, uma idéia es-crava, de classe subjugada, sem ao menos o mito do Anjo flamejante nos defendendo às portas do paraíso perdido. Agora você traduza o intróito da nossa Constituição em andamento e veja como fica. Você sabe que a fórmula vitoriosa é a do líder Nereu. Veja: “Sob a proteção do nada puro, etc… etc… etc…” E aí virão enfileirados os artigos destinados a camu-flar os lucros tubaronais. a defender os privilégios das classes
(118) liteura, no original, que apresenta erro de impressão tipo-gráfica.
dominantes, a amarrar o marido à mulher detestada como um cadáver a outro cadáver, e a garantir no papel todas as liber-dades para o povo. Sob a proteção de Deus, será consumado mais um documento da nossa secular servidão. E por isso é que apesar de todas as burradas de Prestes, o seu partido cresce e comove as classes afastadas da riqueza e do poder. Sob a pro-teção de Deus, continuará a rica família indissolúvel em torno do pif-paf e as crianças pobres sem leite, sem calçado e sem escola. De remédio, nem falemos. Olhe, foi realmente uma pena a mancada de Prestes apoiando o anão Vargas. E ele estaria no poder ao lado do Brigadeiro e muita coisa de fato mudaria neste Brasil solar e pascaio. Todos nós, intelectuais findos da burguesia, formaríamos ao lado dos comunistas, lu-tando como lutamos anos e anos, com cadeia e censura, contra essa droga sinistra que se perpetua através dos governos reacio-nários. Prestes nos atirou para fora de suas hostes sectárias e obreiristas. No entanto, ninguém mais capaz de dar a sua vida pela transformação social do país do que nós. Vínhamos de um problema mal colocado — o da religião. Nossa infância fora seqüestrada pelo materialismo católico, cheio de obriga-ções, recalques e martírios. E às novenas, às procissões, e a toda fantasmagoria cristã, nossa adolescência substituiu outro materialismo, também teológico, de origem também semita, católico também porque universal — o marxismo. Caímos na Imaginária das greves, da propaganda e dos comícios. Estáva-mos maduros para a boa luta que Prestes estragou, sob a pro-teção do nada puro.
11.4.1946
Resurrexit…
(De São Paulo) — Ninguém notou que os despojos de Mussolini sumiram na Páscoa. O sepulcro infamado de Milão deve ter aparecido vazio na própria madrugada de domingo.
A propósito de violações de sepulcro, das mais curiosas que conheço é a versão atribuída a um romancista inglês que assegura não ter Cristo tido a morte na cruz. Uma conspiração teria cercado o Messias para salvá-lo vivo do suplício do Cal-vário. Tanto o soldado romano como os condutores do corpo,
teriam dela participado sob a direção do simpatizante rico Ari-matéia. Dessas coisas estranhas que dão à História curso di-verso, criam o enigmático e alimentam o interpretativo.
Desse modo, quando as mulheres de Jerusalém foram en-contrar o sepulcro vazio e gritaram pelo milagre, Jesus estaria no ortopedista que também era “linha justa” (119). Assegura o imaginoso ter o Rabi um mês depois (12C>) aparecido à vontade no Lago de Teberíades, comendo peixe frito. E São Tomé ficou sendo o patrono dos incrédulos porque recorreu ao toque para constatar que estava mesmo diante do crucificado.
Desta vez em Milão, o caso se passou com o Anti-Cristo. Mas a mesma fé, tocada agora de fúria necrófila, presidiu à no-turna cerimônia do sumiço do corpo. Apenas um detalhe fica-rá testemunhando que de fato o Duce estava morto. Os faná-ticos esqueceram no caixão uma perna podre. Ficou o ates-tado de óbito pela prova das pernas quebradas, a que foram submetidos no Calvário o Bom e o Mau Ladrão e da qual mis-teriosamente escapou Jesus.
De forma que, ante as massas medievais da velha e da nova Itália, o que se poderá agitar redivivo é um fantasma perneta. Muito para ilustrar o que se passa no mundo — da Grécia arquiepiscopal (121) de Damaskinos à Espanha católica e falangista — a ressurreição de um fascismo sem pé nem cabeça, mas que cresce dos rescaldos do após-guerra para os horizontes sibilinos do futuro.
26.4.46
O gostosão da ditadura
(De São Paulo) — Nada tenho contra o Partido Traba-lhista. Algumas das suas personalidades me são caras, entre elas a desse iniciador do socialismo jurídico no Brasil que é Alexandre Marcondes Filho. E teria muito prazer em ver
(119) Linha Justa. Nome (que se tornou algo pejorativo) por que era conhecida a linha política seguida pelo Partido Comunista Brasileiro, de estrita obediência stalinista.
(120) vírgula no original.
(121) arguipiscopal, no original.
brotar da demagogia de Vargas um coeso setor de transfor-mação social do Brasil. Nada me anima também contra essa movimentada figura de bolsa que é o deputado do algodão. Se o Sr. Hugo Borghi é publicamente responsabilizado pelos es-cândalos que o favoreceram, o inquérito que contra ele se abriu devia esvaziar o saco de negociatas em que foi fértil e produtivo o regime passado. Então veríamos atrás do aven-tureiro paulista, roliças figuras de proa despir os sobretudos finos e os casacos bem cortados e trocá-los pelo pijama lista-do dos grilhetas. Se fosse possível! Se a corrupção que atinge o Brasil não o desfibrasse, tornando-o uma espécie de Irã ame-ricano, incapaz de reagir contra qualquer bote de fora, ou fa-vorecer qualquer saneamento interno, porque lá como aqui, pululam os sultanés da gorgeta e da farra.
Seria preciso que o general Dutra se tornasse um asceta para pôr na cadeia os nababos do Estado Novo que ainda maculam o seu governo. Enquanto isso não acontece, o Brasil se transforma numa fábula política — a fábula do Sucuri e do Boi. Um boi imenso, tardo e selvagem que é o país mal acor-dado e procurando enrolar-se nele um Sucuri de mama, ainda frágil, mas já tendo em seus nós o animal inconsciente e obeso. O Sucuri é o partido de Prestes que cresce e se robustece-a olhos vistos apesar da cominternite trotskista de seus chefes. O povo raciocina com as filas de pão e de transporte. E mesmo sem nenhuma politização, ingressa no partido que é contra. Contra tudo que está aí — desde o escândalo da falta de fari-nha de trigo até os abacaxis humanos do transporte coletivo que nos legaram os imensos Prestes Maia do governo ido.
Muito bem viu isso, o deputado Hugo Borghi, que numa entrevista declarou que o Brasil de hoje se divide entre duas influências absorventes — o comunismo de Prestes e o traba-Ihismo. (Naturalmente ele atribui a seu partido todas as vita-minas do socialismo em marcha.)
De fato, só uma transformação de regime para o lado do povo, isto é, para a esquerda, poderá salvar o Brasil do obrei-rismo visionário de Prestes, que é profundamente irrealista e anti-histórico. De contrário, mergulharemos na incerteza sangrenta duma guerra civil e os donos do boi esganado pelo sucuri que cresce, virão atirar uma bombinha atômica em cima
de ambos, evidentemente sem aquela cuidadosa mira que tor-nou famosos Guilherme Tell, o índio Peri e outros recordistas da pontaria. E o Partido e o Brasil levarão o destino infernal que merecem juntos.
Muito sensata, pois, a advertência do deputado Borghi, alarmado com o êxito popular do comício que Prestes aqui realizou.
Mas, pergunto eu, que autoridade tem o deputado clas-sista para acusar o capitalismo como autor dos males que nos acusam, quando na própria Constituinte, ele disse textual-mente que o dinheiro que tinha era dele e dele fazia o que queria? Essa declaração de princípios laiesserferistas ficou de pé e sem muita dificuldade despe do burel do socialismo o de-magogo que nele se escondeu. Para todos os efeitos permanece o Sr. Hugo Borghi, como os olhos da cara satisfeita do Sr. Souza Costa (122) e o tubarão-odalisca do harém financeiro do Sr. Getúlio Vargas.
28.4.46
Memórias em forma de dicionário
(De São Paulo) — Abacate — ofereci uma vez num almo-ço, “abacate americano” a uma criatura de grandes cabelos e acentuado pedigree, pensando que isso a abalasse, pois o aba-cate deixava de ser fruta e com sal, pimenjta e molho inglês, retomava o seu papel funcional de aperitivo. Mas foi ela quem me abafou contando que conhecia dez maneiras de se preparar assim o abacate e também me referiu proezas e acro-bacias tais, dos seus amores com o ex-marido, sem abacate nenhum, que o almoço ficou estragado e nunca mais a vi. De modo que para mim não valeu o sortilégio do abacate e apenas essa história me levou a priscas eras, onde entra o Conde Key-serling. Estávamos em pleno modernismo em São Paulo e tudo eram alegrias entre os anos de 20 e 30, quando os jornais noti-ciaram que se achava hospedado no Esplanada Hotel o filósofo
(122) Artur de Souza Costa, Ministro da Fazenda durante o Estado Novo.
báltico, Conde Hermann Keyserling. — Vamos lá! Vamos! Ele é futurista! Não é! É antropófago!
Não sei quais dos rapazes da Semana que comigo se acha-ram no salão do hotel, rodeando um velho sátiro gordo, que se exprimia num excelente francês e ria por dentes amarelos e fortes, agitando uma barbicha grisalha de satanás. Tinha a cara grande e uma calvice mongol. Imediatamente nos movi-mentamos para arranjar cinco contos a fim de ouvir o Conde no Teatro Municipal. A conferência custava cinco contos que obtivemos com o governo. (Não me lembro mais que benemé-rito era esse). E a primeira encrenca que surgiu foi porque o Conde queria falar de um púlpito o que foi considerado muito original, correndo mesmo na cidade que ele ia aparecer vestido de frade. Mandaram imediatamente construir um púl-pito de tijolo no centro do palco o qual, na hora, quando o teatro já estava cheio, o conferencista fez desmanchar indig-nado, pois, o que ele tinha pedido para pôr a sua papelada, era simplesmente uma estante de música que em francês se chama pupitre.
Ninguém entendeu a palestra, mas todo mundo aplaudiu e gostou, e o conferencista se reconciliou com o tradutor que não me lembro mais quem era.
Daí a minha intimidade com o Conde filósofo, recebendo dele livros e fotografias autografadas e hospedando-o na fa-zenda Santa Teresa do Alto. No pequeno terraço, vendo a mata que circundava o pomar, o Conde me perguntou que árvores eram aquelas, ao que eu respondi serem abacateiros, não escondendo as virtudes afrodisíacas atribuídas à fruta tro-pical. E ele tomou logo nota a fim de lançar ao mundo a no-tícia de que os fazendeiros do Brasil, utilizavam um meio cômodo e ornamental de expansão demográfica. Depois disso, de trem e automóvel, o Conde procurava identificar com entu-siasmo a folhagem lanciforme da laurácia. — Voilà un avocatl
Parentes do tradutor de pupitre pensavam que era piada do Conde e riam muito. Porque de fato avocat em francês, não é só advogado e é também, abacate. E aqui entra uma promessa de codicílo para o verbete (m). Advogado, deste
(123) verbtdete, no original.
meu Dicionário de Memórias, a fim de tranqüilizar Sobral Pinto que insiste em fazer justiça, aos advogados obscuros que defendem os fracos e os vendidos. Por enquanto, direi apenas ao meu generoso missivista que esses denodados praticantes do Foro não são advogados e sim anjos e dos anjos trata Deus melhor do que os homens.
Voltando ao Conde dos abacates, ele me disse haver uma progressista, aliás muito bonita, de nosso meio renovado com ele a passagem que Isadora Duncan teve com Maeterlinck e que a dançarina me referira, anos idos, no seu francês de ame-ricana: — Xe lui ai dit; Xe veux afoir un eifant afec fous! Mas isso fica para as recordações pessoais que tenho de Isa-dora e que vai na palavra Ceia. Como ficam outras coisas do Conde Keyseriing para novos trechos das Memórias.
23.5.46
A princesa Radar
(De um argumento de ballet) 1.® quadro — Os trópicos — Nascimento da princesa. A rainha morreu. De um lado da cena o berço real e do outro um ataúde cristalino onde jaz a rainha. Ao centro um altar barroco entre grandes janelas. A música evoca os acontecimentos e as emoções contraditó-rias. Ao fundo está de pé a ama negra. Ao lado do berço dei-tadas em fila moças de luto. Ao lado do ataúde, deitadas tam-bém, moças de branco. As moças levantam-se vagarosamente. Dança coletiva da Morte e da Vida. Esses coros opostos mu-dam de lugar. Entrada do rei. Cortejo composto de árvores, animais, flores e frutos da floresta tropical que se misturam e dançam na cena. Dança do Riso e das Lágrimas. O rei de-bate-se entre o nascimento da filha e o desespero da viuvez. Bailado coletivo. Emoção geral. Entrada do regicida. O rei foge para o lado do ataúde. Dança do assassino e do rei. Morte do rei. Todos os dançarinos caem com ele. O regicida aproxi-ma se do berço. A ama o defende. Dança do assassino e da negra. Ela salva a princesa. A uma janela a lua surge.
2.° quadro — A cidade mecânica — Escritório numa grande capital. Extensa sacada ao fundo, por onde se avistam
arranha-céus sob a lua. A princesa vestida de máquina de es-crever dorme sobre um diva. Ela é agora datilógrafa. Em tor-no dela a dança da disputa entre o Anjo-Cego e o Espírito-de-Porco. O Bem e o Mal. A princesa levanta-se. Dança da hesitação. O Anjo-Cego quer raptá-la numa bicicleta. Os obje-tos do escritório tomam parte no bailado. O telefone, o cofre e a folhinha que indica o fim do mês. Entrada do advogado perseguido por credores. Aproxima-se da folhinha e do cofre que está vazio. Dança do advogado, da folhinha e do cofre. O advogado declara-se apaixonado pela princesa que é sua se-cretária. Dança do amor absurdo. O Espírito-de-Porco apoia o advogado enquanto o Anjo-Cego defende a princesa. Apito de sereia. Chegada do Foguete Interplanetário. A princesa dança com ele. Para e quer se atirar pela janela, O Foguete agarra-a e rapta-a para a lua.
18.8.46
As máscaras de Plínio Tômbola (w)
(De São Paulo) — Se não há dinheiro para o povo co-mer, há de sobra para os fascistas nacionais foguetearem nos apoiados à discurseira com que o Hitler de Sapucaí (12S) se despediu de Portugal, a fim de novamente trazer para cá a esmola — “de uma obra civilizadora”. Foi como o político covarde e o mau literato que é o sr. Plínio Salgado (m) en-cerrou o seu speech de Lisboa, no qual sucessivamente se en-carnou de cristão e se vestiu de integralista, num dos seus renovados avatares de fundo falso, onde apenas até hoje se petrificou o ódio à liberdade o desprêzo pela democracia.
Não podia deixar ele de lastimar sinceramente e explicar a nódoa com que a história contemporânea o marcou para sempre por ter aleiloado ao estrangeiro a própria pátria. O
(124) Plínio Tômbola. Apelido posto por Oswald em Plínio Sal-gado, líder integralista, como alusio polêmica a sua atuação numa tômbola em benefício da Cruz Vermelha.
(125) Hitler de Sapucaí. Trata-se de um cognome posto por Oswald em Plínio Salgado, natural de São Bento de Sapucaí, SP.
(126) vírgula no original.
“chefe-nacional” do fascismo foi simplesmente caluniado e de-turpado por adversários imbuídos de conceitos originários de falsas democracias. Esses conceitos são, no entanto, os que levaram à vitória as forças conjugadas da liberdade humana ofendida. São os que movimentaram os batalhões crianças do Brasil em Monte Castelo (m) e Castelnuovo.
É pois, com o pé cheirando a sangue dos nossos soldados mortos na luta contra o fascismo, que ele desce em terras bra-sileiras, aclamado pela arraia de imbecis ou sabidos, de ingê-nuos ou tarados que nele avista o Messias da turbada hora presente. E foi numa “nota-fraternal” que fez estalar em Lis-boa o seu beijo público de Judas, afirmando que “os integra-listas lusitanos representam o mais notável movimento de idéias destes últimos tempos da história do Pensamento Portu-guês”. Felonia para com o Brasil secularmente democrático e popular, acolhedora pátria de todos os sonhadores de liberdade e de todos os cansados da Europa escolástica e disciplinar. Traição ao próprio Portugal marinheiro e plebeu, inconfor-mado e regicida que deu Antero e Herculano, Teófilo Braga e Eça de Queiroz.
E é com a máscara estafada do cristianismo que ele pre-tende recobrir a matula de mentiras com que lá fora encheu o seu peco embornal ideológico.
Ninguém ignora como se vívifica hoje o pensamento cris-tão de Jacques Maritain. Como em seu estuário formam não só os dominicanos esclarecidos, mas todos os que desejam uma super-estrutura política capaz de fazer a Igreja Católica se conjugar, sob o velho signo social do tomismo, com o mundo novo que se constrói. Não é possível conciliação ou pacto entre essa ala vanguardeira e consciente do cristianismo e o resíduo fascista com que Plínio Tômbola atendeu em Portugal aos exasperados apelos do salazarismo provinciano e a festança re-acionária com que o regalaram em Lisboa os saudosistas da fogueira de Antônio José.
(127) Monte Castelío. Nome de uma batalha da Segunda Guerra Mundial, ganha na Itália pela Força Expedicionária Brasileira contra as tropas alemãs.
No entanto, depois de beatamente falar em “recolhimento e meditação” e exibir uma licorosa e inútil “Vida de Cristo” com que pretendeu passaporte para o evangelho, na hora em que se anunciava a expiação de Nuremberg, volta ele ao Bra-sil constitucional e justiceiro, a fim de novamente acender o facho da loucura irracionalista que sempre o animou a ele e aos seus bandos rasputinianos e sorelescos. A sua “espiritua-lidade” traz as mãos sangrentas dos carrascos da Gestapo e o pedaço de corda com que amarraram Matteoti para matar.
Lembre-se, porém, Plínio Tômbola, como acabou Musso-lini e como na terra livre da América, recentemente subiu num poste o tirano fracassado da Bolívia, Villarroel C128). — Já passou o tempo em que, segundo Fialho, tínhamos, brasi-leiros e portugueses, “a miséria fatalista” e só pedíamos “conta dela a Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Hoje o povo existe e age como corpo social e o povo sabe a que abismais convulsões o quer conduzir o fascismo agônico e sinistro que traz na sua evangélica valisa o sr. Plínio Salgado.
21.8.46
Legem habemus
(De São Paulo) — Dobrou-se afinal a página nefanda. E o Brasil continua. No momento em que o democrata Wallace denuncia a gula imperialista que cerca a URSS, nossa gente emerge da noite da ditadura e não sabe o que fazer da liber-dade. Como um detido que se sente solto por engano e apressa os passos sem destino para evitar que o venham buscar de novo e de novo o enterrem nas enxovias que não mereceu. Apenas uma coisa seu coração constata — que a detenção ter-minou. Nem outro sentido têm as explosões e os sorrisos de toda a gente ante a Constituição promulgada, numa data que longinquamente lembre a Feb, a expedição guerreira e as lutas pela liberdade. O que faz o Brasil exultar assim é a sua su-perstição pela lei escrita — um velho complexo de inferiori-
(128) Gualberto Villarroel. Presidente da Bolívia de tendências pro-nazistas, deposto e linchado.
i!aae, oriundo do caos político social em que se plasma. Onde soam fundo as obras totêmicas e justificadoras de seu cami-nho — “Os Sertões”, “Casa Grande e Senzala”. Somos o país do Homem Cordial de Sérgio Buarque e da Cobra Grande de Bopp. Fomos arrastados para o Colégio pelo jesuíta. Péssimos alunos, gostando de birimbau e de olhar pela janela o trilo dos pássaros, em vez de decorar as declinações. E agora, de-pois de muita surra, ganhamos um bom ponto, onde está es-crito em letras de ouro: Honra ao Mérito.
O bedel foi posto para fora. O segundo, o terceiro ou o vigésimo quinto… O primeiro bedel recente foi o sr. Artur Bernardes. Caso de fixação profissional. Depois, o anão que vale por sete anões e mais o gigante Golias, machucando à vontade a Bela Adormecida, que era a Pátria.
Afinal, a reconciliação, a paz, a alegria de quèm recon-quista uma maioridade negada. E em torno, pelo alto-falante do “Mundo Ünico”, o democrata Wallace denuncia o preparo da guerra atômica. E Winston Churchill propõe que se forme a coligação dos Estados ocidentais. Para que? Para unificar a guerra atômica.
Malta Cardoso, chegado da Conferência da Paz, onde foi delegado, não esconde o seu pessimismo. Há cinco milhões de soldados vermelhos a duas horas de Paris, onde brigam já Mo-lotov e Byrnes (121)). E a greve dos marítimos americanos re-vela a ascenção revolucionária do proletariado mais acomoda-tício do mundo. E adverte que não é só com canhões que se faz a guerra. A guerra, esta revolução… já disse o padre Ducatillon.
Sombrio tudo, sombrio e desesperante. O homem reside no conflito. E o conflito reside no homem. Mas que importa tudo, se temos lei?
— Foi a fila mais longa que fizemos, dizia-me alguém. É justo que a gente se rejubile.
22.9.46
(129) Viacheslav Molotov e James Byrnes eram, ao tempo, os Ministros de Relações Exteriores respectivamente da União Soviética e dos Estados Unidos e, como tais, protagonistas importantes da po-lítica internacional.
Por Gilberto
(De São Paulo) — Anuncia-se um movimento pela can-didatura de Gilberto Freyre ao prêmio Nobel de literatura, Não faltam opositores a essa reivindicação que pretende colocar o Brasil oficialmente entre os países de alto nível intelectual. Dizem esses homens de má vontade que Gilberto não é ficrío-nista e que o prêmio visado se destina somente aos criadores da literatura. Será no entanto, outra coisa do que uma cria-ção, “Casa Grande e Senzala”, esse marco da nossa avançada posição mental tão distante da posição econômica, moral e política em que vegetamos?
Se há ainda alguma coisa que salva este país, é a litera-tura. E a obra prima de Gilberto transcende da sociologia e da crítica para explender nisso que se pode moderna e real-mente chamar de literatura.
Quando eu era comunista de varal, fiz todas as restrições canônicas ao livro de Gilberto. Achei-o hesitante, não conclu-dente, semi-visionário, semi-reacionário e classifiquei-o de jóia da sociologia afetiva. Minha experiência pessoal me conduziu agora a crer, com o admirável Camus, que nada há de mais odioso que o pensamento satisfeito e a obra que prova. Nada mais odioso do que a tese na obra de arte.
Mas se a literatura dirigida, a literatura de tese, anuncia o apodrecimento do espírito de um povo, de uma classe, de um sistema ou de um grupo social, não se infere daí que o escritor tenha de se abster ou de não participar das lutas de seu tempo. O existencialismo que conclui pelo absurdo e no absurdo, não deixa de proclamar os direitos à fé e à convic-ção. E o próprio Sartre se engajou na “resistência”. Por não ser dirigida a literatura não deixa de ser interessada no mais alto grau. Atitude inútil, diriam os existencialistas, mas neces-sária.
“Casa Grande e Senzala” retoma com a sua nobreza de pesquisa e nova autoridade, o ponto morto em que haviam ficado os deslumbramentos dos primeiros cronistas diante da terra natural, afastando-se da ingenuidade dos relatórios ron-
dônicos que também infirma a etnologia de barba dos Von den Steinen (130) e dos Schmidt (13fl) .
Em todos os sentidos é um grande livro. É um livro que marca a nacionalidade, um livro totêmico e raro. Some-se a ele a atividade literária que posteriormente Gilberto desenvol-veu e a sua brava atuação pessoal na luta pelas liberdades brasileiras.
Se há alguém que se possa apresentar de mãos cheias e cabeça erguida diante do alto júri, é o líder do Nordeste.
À sua candidatura os intelectuais brasileiros devem dar um apoio caloroso e sincero.
23.11.46
Câmara ardente
(Da Cinelândia) — O homem de preto tomou-me pelo braço e conduziu-me para fora da tribuna da Imprensa. — Deixemos isso! Não interessa o que eles dizem… Todos esses discursos trazem a marca convencional dos cartões de pêsa-mes. Ninguém lamenta aí a morte do velho Andrada (13a). Mas você reparou como a Constituinte, por uma circunstância ocasional, se tornou hoje a morgue de uma época? Terá com-preendido você, como essas caras de enterro, esses ternos pre-tos que parecem guardar no sebo demagógico das mangas um resto de cera das velas fúnebres e esses gestos de condolência com que se abraçam os deputados — como tudo isso é o ne-crológio do velho Brasil? Está claro que ninguém mais pode gozar o nosso parlamento. Ele chora, protesta e urra como uma viúva sincera e recente. E sobre ele paira a astúcia dos
(130) Karl von den Steinen (1886-1970), etnólogo alemão, autor de importantes obras sobre os nossos índios, baseados em doas expe-dições científicas ao Brasil Central.
(131) Max Schmidt, etnólogo alemão fixado no Paraguai, autor de uma obra sobre tribos do Brasil Central (1900).
(132) Velho Andrada. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (1870-1945), famoso político da Primeira República, quando foi Presidente de Minas e um dos chefes da Revolução de 1930. Era Presidente da Câmara dos Deputados em 1937, tendo-se retirado da vida política no momento da instauração do Estado Novo.
corvos e a solenidade dos gatos-pingados. Esse moço que você viu berrando desconexo e petulante, é o coveiro de um regi-me. Não importa a sua modesta gramática e a sua gravata de comício. O que importa é a sua aparição. Porque os tem-pos são outros. O velho Brasil morreu. Um Brasil que vinha •de João do Rio à Semana de Arte Moderna. Do Império a Bilac e ao cidadão Pingô (1SS). Depois, granadas estouraram sobre casas e campos. Colunas de fogo abriram brechas no corpo patriarcal das cidades bem dormidas, dos cafezais nutri-dos pelas enxadas de sol a sol. Os camelos do Estado Novo e os elefantes da Ditadura atravessaram demoradamente o de-serto anunciado de homens e de idéias. E hoje o que você vê é isto. A vocação mortuária deste corpo legislativo que reza em vez de resolver e só persigna apavorado com o próprio des-tino necropular, procurando ajeitar-se no epitáfio da liberdade que é a Carta de 37. Se você somar esses discursos, só obtém silêncio. É o silêncio noturno que exclui a presença das auro-ras. Lá fora, o sol pode brincar nas árvores festivas. Há o mar e as montanhas azuis. Aqui só vejo luto. O velho Brasil morreu.
10.12.46
A ABDE, em São Paulo, é fascista
(Da Glória) — Encontro aqui o sempre jovem morubi-xaba Osório Borba (1M) desmascarando as manobras que, no pacífico bocejo do momento nacional, tendem a pôr no index a Associação Brasileira de Escritores. A acusação que se vai buscar no dicionário resumido mas fecundo dos tabus policies-cos, é de que a ABDE (m) é comunista. A situação com que
(133) Cidad&o Pingô. Tipo pitoresco do Rio entre as duas guerras mundiais, cabo eleitoral e orador popular.
(134) Osório Borba (1900-1960), jornalista pernambucano, conhe-cido pela sua firme atitude oposicionista durante o Estado Novo.
(135) ABDE, sígla da Associação Brasileira de Escritores, fun-dada em 1942, que se tornou um centro de oposição ao Estado Nova e promoveu em janeiro de 1945 o Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, cujo manifesto foi a primeira manifestação pública contra
o partido de Prestes empolgava o Brasil, em 45, tornou-se uma espécie de má companhia ecumênica, fichada como total per-dição — para adultos de todas as idades. De várias dúzias de pessoas gradas tenho ouvido que lutar pela democracia é ser comunista. E ser comunista, já se sabe, é ser petroleiro, ladrão e pau-d’água.
Chego a tempo de depor sobre o caso, pois acabo de man-dar ao sr. Sérgio Buarque de Holanda, que preside aos desti-nos da seção de São Paulo da ABDE, uma carta pública, na qual me retiro daquele setor de nossa vida literária, por não concordar com os métodos fascistas que manipulam as suas eleições. Acontece que, se o Brasil inteiro tem uma dúzia de escritores, só São Paulo conseguiu fichar quatrocentos. É que o conceito de “escritor”, para fins gremiais, passou de quali-tativo a quantitativo. O que interessa é a quantidade de nu-merário que entra nos cofres sociais, a dez cruzeiros por cabe-ça. Se essa extensão favorece a vida financeira da sociedade, incluindo no rol dos escritores a todos os que escrevem arti-gos com remuneração, traz o perigo de, como acontece em São Paulo, fazer ingressar em seus quadros qualquer espécie de aventureiro, mesmo analfabeto, que tenha conseguido assi-nar um artigo, seu ou não, publicado no mais afastado inte-rior. Além disso, essas centúrias de escritores de carteirinha depositam nas mãos de um funcionário da sociedade procura-ções irrestritas, entregando-lhe o destino de suas diretorias e delegações. O escândalo agora culminou na escolha dos depu-tados ao Congresso Nacional de Belo Horizonte a se realizar, se Deus quiser, em outubro. Fui aí diretamente visado pelas alergias do funcionário referido, que é o sr. Mário Neme, jor-nalista e teatrólogo muito conhecido. Depois de vinte e cinco nomes eleitos, encontrei-me votado para terceiro suplente, vin-do em seguida o sociólogo Caio Prado Júnior como quinto suplente. Não inferissem no pleito as circunstâncias denuncia-das, eu aceitaria com humildade e boa paz o meu posto. Mas
a Ditadura. Oswald participou da fundação da secção paulista, mas em seguida se desaveio, tornando-se um crítico acerbo da sua orien-tação, encarnada para ele no Secretário-Geral da Secção de São Paulo, Mário Neme, ao qual há diversas referências nestas crônicas.
é que também tenho alergias e essas são contra o fascismo, sob qualquer disfarce. O dono da ABDE de São Paulo foi secre-tário do jornalista Abner Mourão e teve diversos negocinhos com o Dip (136) durante a ditadura, o que não impediu de excluir da sociedade, por escrúpulos democráticos, o grande poeta Cassiano Ricardo e um dos mais dinâmicos participantes da Semana de 22, Menotti dei Picchia. À maneirosa covardia do sr. Sérgio Milliet, que dirigiu a ABDE em São Paulo, cabe a responsabilidade dessa desvirtuadora inflação do poder nas mãos do procurador Neme, “porque ele traz dinheiro para a Sociedade”, porque “no Brasil as eleições são assim mesmo”, frases textuais ouvidas por mim do poeta de “Oh valsa Iate-jante”. Ao sr. Milliet sucedeu na presidência do grêmio outro Sérgio, o meu velho amigo Buarque, que é agora, mais do que nunca, um homem da Holanda, capaz, como foi, de calabari-zar, por abstinência de controle, os destinos da Associação. Digo isso em sã consciência, pois que entre os vinte e cinco delegados natos ou eleitos, além de alguns nomes de projeção, seguem para representar os escritores de São Paulo vários fun-cionários, comerciantes e industriais das relações do sr. Mário Neme. Todos de carteirinha.
Fica pois desmoralizada a acusação salafrária de que a Associação Brasileira de Escritores é comunista. Num dos seus vivos setores, é ela controlada pelo mais puro e eficiente fas-cismo eleitoral.
8.8.47
Os tempos novos
(De São Paulo) — O jantar terminara no apartamento do grande artista, em Copacabana. E o antropófago do salão falou:
(136) DIP local. DIP era a sigla do Departamento de Imprensa e Propaganda, principal responsável pela política cultural do Estado Novo. Cada Estado tinha o seu DEIP, ou Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, com a mesma finalidade. Oswald refere-se ao de Sáo Paulo como “DIP local”.
— Vamos longe dos saudosos tempos de “nú artístico”! A erótica da selva já foi atingida através do esporte e da praia. A polierótica que Havelock Ellis assinala como condição de monogamia, exacerbou-se até a compreensão e o aplauso de um conceito matrimonial da família. Isso. mais que na Rús-sia, nos Estados Unidos é um fato. As mulheres é que regem as grandes fortunas. Voltamos às amazonas de tipo bancário…
— E que vantagens nos oferecem essas formas novas da civilização? indaga interessada a visita bonita.
— Crê a senhora que seja uma desvantagem o filho de direito materno, que volta lenta mas inflexivelmente a ser o filho tribal, o filho da coletividade, em vez de ficar o pequeno bandido de rua, o “anjo de cara suja” ou o aristocrata vomi-tivo que ainda explende com suas usurpações na constelação da família burguesa? No mais, que desejamos? Algumas ve-lhas e invencíveis reivindicações libertárias, isto é, a supressão da guerra e do Estado. A guerra já não existe, é uma opera-ção matemática de estado-maior: tantos tiros de canhão terão como resultado a tomada da cota 2,197. Custarão tantas vidas. Tantos bombardeios darão o resultado X. O homem no meio dessas equações da devoração tecnizada, desaparece. É apenas um número, uma carteira de identidade à disposição dos acon-tecimentos. Entra antes de morto na categoria do “irreconhe-cível” dos desastres de aviação. A guerra perdeu a sua imensa sedução que era o espetáculo. Acabou em Delacroix e Pedro Américo, É uma porca carnificina a serviço duma porca polí-tica. Tem que acabar!
— E o Estado?
— O Estado existe demais. Os lambaris do armamentis-mo juntam-se em torno de dois colossos, os Estados Unidos e a Rússia. Ora, nos Estados Unidos já desapareceu essa con-cepção de chefe autoritário e estranho, que é uma sobrevivên-cia dos mandatos renascentistas, legitimamente outorgados no nascimento dos governos nacionais sob o modelo do manual de tirania de Machiavel. E a Rússia é um Super-Estado a ser-viço do próprio Estado. Quem negará isso?
— Ora, a Rússia é uma ditadura…
— No entanto, alguns líderes marxistas, como Dimitrof (137) e Thorez C138), já declararam, ao que estou informado, que não é necessariamente através da ditadura do proletariado que se realizará hoje o socialismo. A ditadura do proletariado é uma etapa ultrapassada, graças à técnica, o governo da téc-nica… que, na América, já fez do proletariado atual, a ne-gação do proletário inglês que inspirou, há cem anos, o Mani-festo de Marx e Engels. O proletariado com exceção do dos países atrasados, vai sendo o contrário da classe que cresceria em miséria revolucionária e expansão horizontal pelo mundo de um capitalismo sem freios nem entranhas. Uma enteníe obscura mas teimosa, vai-se elaborando nas relações sociais. As melhores famílias vicentinas de São Paulo acharam um meio de se regenerar, fornecendo aero-girls aos aviões da carreira…
O poeta cristão suspirou longamente.
— Eu também suspiro, concluiu o adepto do primitivis-mo tecnizado. Pois que sofro em minha pele a transição. E na transição são as formas espúrias que tomam a frente — a erótica, a rapina…
— E na literatura?
— O dramalhão. O dramalhão fino. Também vomitivo. Charles Morgan…
19.8.47
Do existencialismo
(De Copacabana) — Quando se supunha que a razão cartesiana e o Espírito de Hegel iam dominar a terra e poli-ciá-la, eis que nas ruas desconhecidas de Copenhague passa um pequeno louco clamando contra o Absoluto.
(137) Georgi Dimitrov (1882-1949), famoso militante comunista búlgaro, protagonista do processo instaurado pelos nazistas em 1934 para apurar os autores do incêndio do edifício do Parlamento alemão. Foi o último presidente da Internacional Comunista (III), extinta em 1944.
(138) Maurice Thorez (1900-1964), Secretário Geral e principal líder do Partido Comunista Francês, conhecido pelo seu stalinismo estrito.
Os livros de Soren Kirkegaard são monólogos sombrios íaiscando repentmas pedrarias e procuram interpretar a pri-meira queda e a primeira culpa como um fenômeno ontoló-gico. Não é o pecado que reside no homem e sim a pecami-nosidade.
O homem é imperfeição em si. E daí a sua sede de tota-lidade e de absoluto. Só o indivíduo é capaz de absoluto. Es-tava criada a filosofia existencial. Pouco depois, na Alemanha litográfica dos reis, onde longamente a Teologia se dissimulou na filosofia, Frederico Nietzsche atacava a mediocridade euro-péia e o reino da virtude e da lógica, repondo no destino do super-homem a Idade de Ouro anunciada pela saudade das eras primitivas.
O vitalismo de Nietzsche tinha como contraponto a an-gústia de Kirkegaard. E como a condução espiritual do mundo tivesse fracassado com o desgaste nos métodos do marxismo e nos postulados do cristianismo, é na filosofia existencial que o homem contemporâneo busca seu livre compromisso. Para os epígonos de Kirkegaard a vida é absurda. E no absurdo eles se decidem ou se enforcam. Como no começo, acontece ao homem encontrar-se ante o “nada”. No “nada” ele se engaja ou contra ele luta. Carlos Jaspers, com a sua extraordinária acuidade, vê tornar-se possível uma volta à natureza na paz do atemporal.
4.10.47
Uma carreira de romancista
(De Copacabana) — Gostei muito da falação que o ve-lho José Lins do Rêgo deitou ao público e a seus amigos. Uma coisa simples e sincera, brotada do fundo da alma, como são brotadas do fundo da memória os seus romances. Se Zé Lins andasse hipertenso como eu, e tivesse fugas de memória, seus Tomances talvez saíssem superrealistas, e então eu gostaria muito mais. Mas isso não pode acontecer com um carioca civi-lizado e sadio que vive fingindo de caboclo. É a sua força e a sua glória. Todo mundo sabe que eu sou contra a “litera-tura cie tração animal”, pois creio que à época veloz de hoje
não podem mais corresponder as formas de expressão lentas e monótonas de criação literária passada. Não digo que erre, como faz habitualmente Tristão de Athayde. Mas não devo ^;er completa razão. Ou melhor às minhas razões opõem-se ou-tras muito fortes. O Brasil precisa de carne na sua literatura em crescimento. Há um Brasil marcado pela carne do flagelis-mo. É o que eu chamo de ciclo da Bagaceira, onde a obra de José Lins do Rego fulge como um látego social. Mas basta de explorar o nosso filão trágico do campo. Ele já nos deu algumas jóias.
Esse jecacentrismo, iniciado por Lobato, mesmo antes da Semana, esgotou as suas possibilidades. E só pode interessar quando no terno novo de um Guimarães Rosa, por exemplo.
Aliás, o próprio José Lins vai-se convencendo disso e abandona a pública promotoria que tão bem exerceu contra os latifundiários do açúcar. Outros nordestinos, como Alírio Vanderlei e Ledo Ivo também já se destacaram dos temas do engenho ou da seca. Basta de flagelados físicos ou sociais. Agora o problema já está no Congresso.
Não li ainda Eurídice. Mas o testemunho de seu valor, dado por Lúcia Miguel Pereira, Otávio Tarquinio e Aurélio Buarque de Holanda, enquadram a sua aparição nas livrarias.
Que continue a depor José Lins, com esse outro grande naturalista Otávio de Faria. “Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo. Mas escândalo que é igual àquele das Escrituras, que vale como poder da verdade contra o silêncio e o medo dos pusilânimes”. Essas palavras do autor de Bangüê são de primeira ordem.
8.10.47
Da ressurreição dos mortos
(De São Paulo) — Sobe do pequeno aparelho de rádio um rumor confuso e crescente. Um ah ah ah ah! estrume, en-volve o quarto, onde venho visitar um amieo que perdeu a memória. Como a noite está fria e borrascosa, resolvo não correr mais sob as patas sonoras dos cavalos e a voz dos bur-ros de comício, como tantas vezes fiz. Estou ali, diante daque-
le homem deitado que, por ter assistido ao desenrolar deste meio século, tomou uma indigestão de fatos, de nomes e de datas e agora pouco se lembra das coisas. Indaga com a voz morna:
— Quem foi que chegou ao palanque?
— O Getúlio.
— E agora?
— O Prestes.
O aparelho extravasava de aclamações.
— É um combate de box ou um duelo?
— Não! Os dois estão-se abraçando.
— Mas esse Prestes é aquele que o Getúlio prendeu? Aquele da mulher morta num campo de concentração?
— Exatamente.
— E o Filinto Müller também está no palanque?
— Ainda não.
— E o Plínio Salgado?
— Deve estar por detrás do palanque…
— Explique o que eles querem…
— Derrubar o general Dutra.
— E o Ademar?…
— É contra eles.
— Mas não foi o general Dutra que deu força ao Getúlio para acabar com o Prestes?
— Foi.
— O Marcondes e o Borghi estão pertinho do Getúlio no palanque?
— Não. Estão com o Ademar.
— E aqueles homens que o Getúlio derrubou em 30, exi-lou em 32, massacrou em 37?
— Esses é que estão pertinho dele. ..
— O Pedro de Toledo também está?
— Quase.
Nesse instante uma voz forte escapa do microfone, sobe à estratosfera, desce e berra dentro do quarto: — “O maior dos brasileiros, o Sr. Getúlio Vargas!”
— Quem foi que disse isso?
— O César Costa.
— Ê aquele do P.R.P.?
— Perfeitamente.
O velho ergue dos lençóis a mão descarnada, fecha o rádio e murmura:
— O culpado disso tudo foi o Washington Luís porqut acabou com a chácara do Barão… (139)
Penso que meu amigo está delirando, mas ele conclui:
— O Washington, quando foi prefeito, mandou abrir o Vale do Anhangabaú na Chácara do Barão de Tatuí… Mal ele sabia que era o Vale de Josafá que ele ia inaugurar…
Persignou-se.
Estamos no Juízo Final, o único que resta ao mundo!
6.11.47
A moça das Lojas Americanas
(De São Paulo) — Chamava-se Terra. Qualquer coisa Terra. Vinte e um anos. Morando numa pensão modesta. So na Metrópole. Os pais pequenos lavradores do interior. Menina da Casa dos Dois Mil Réis.
São Paulo este ano tivera vinte dias de sol. O ano inteiro. Até dezembro. E nenhuma noite estrelada senão aquela. E nessa noite o industrial telefonou. Todo mundo saía para ver a noite estrelada. Ela afofou os cabelos, definiu melhor o baton nos lábios grossos e partiu. O carro do industrial rodou.
O guarda de obras, moço, forte e solteiro, dormia no seu rancho de Santo Amaro. No começo da madrugada ouviu gri-tos. Levantou-se num pulo. Tomou uma barra de ferro. Um automóvel passou veloz levando os faróis vermelhos. Um vulto agitava-se no campo. Ele correu para ela. Havia estrelas no céu.
Se José Alencar mandasse no destino, haveria naquele ins-tante um começo de romance. Mas não. Foi o fim. Pela manhã estava a moça degolada no chão. Com uma gilete. E o moço
(139) Chácara do Barão. Trata-se da Chácara do Barão de Tatuí, na rua Libero Badaró, com o terreno descendo pelo vale do Anhangabaú. Quando foi preciso demolí-la, para abrir o Viaduto do Chá, no decênio de 1890, o proprietário quis se opor, o que deu lugar a um motim popular.
preso. Aqueles dois seres que antes do encontro sob as estrelas não se conheciam. Nem poderiam nunca se conhecer. Ele dor-mia. Era um guarda. E o industrial a trouxera no seu carro para o amor e para a morte, diria um soneto de Heredia. Foi também o que disseram as autoridades policiais. Menina de dois mil réis.
19.12.47
Retorno às Belas Artes
(De São Paulo) — Toda São Paulo esteve representada na festa que foi a primeira reunião oferecida pelo casal Matarazzo Sobrinho, para início das atividades da Fundação de Arte Mo-derna, instituída por este industrial, amigo da pintura e da escultura. Desde o Governador Ademar de Barros até o sepa-ratista Paulo Duarte, estavam nos salões da Rua Estados Uni-dos as gamas mais variadas do paulistanismo, da cronista escri-tora Helena Silveira a Eurico Sodré, ao paisagista Volpi, ao má língua Quirino, ao crítico editor francês René Drouin, ao jovem poeta Geraldo Vidigal, ao diretor do Museu Bardi, ao senador Roberto Simonsen. Iolanda Penteado Matarazzo que retomou a missão de sua tia sempre lembrada, Dona Olívia Guedes Pen-teado, abriu a estação expondo nos muros enfolhados de seus salões uma amostra do que vai ser a galeria de arte moderna oferecida à Fundação por Francisco Matarazzo Sobrinho. Viam-se ali Mirós, Légers e Chiricos, ao lado de abstratos Magnelis e dum Arp impressionante.
Da coleção particular do casal que recebia, destacavam-se um auto retrato de Modigliani e um dos melhores Braques que têm vindo ao Brasil. O choque dessa apresentação modernista atenuou-se por muitas horas no melhor e mais animado con-vívio social. São Paulo retoma o caminho vanguardista que iniciou em 22. Desta vez terá as áreas conquistadas de três museus — o de Assis Chateaubriand, o de Matarazzo Sobrinho e o da Fundação legada por Armando Penteado. Fundação e Escola de Belas Artes, orçadas para mais de setenta milhões de cruzeiros e cuio prédio já foi iniciado num grande quadri-látero do Pacaembu.
E terá também um Clube — o Clube dos Artistas e dos Amigos da Arte. Como se vê, grandes coisas se aprumam.
3.2.48
Seta o
(De São Paulo) — A grã-fina de cabelos luzidios, berrava com a boca pintada e grande, um copo enorme de uísque na mão.
— O Neruda traiu o Ganges! Vocês vão ver! Agora a In-glaterra segura outra vez a índia…
A roda de homens sorria na penumbra daquele terraço noturno do Jardim América. O marido da locutora, vexado, interveio:
— Não é Neruda! É Nehru! E o Ganges é o rio…
— Eu sei, ora essa! Ninguém me dá lição.
O político desiludido falou:
— O Gandhi era o que restava da Idade Média no mundo. O golpe desferido contra ele foi de fato um golpe contra as potências que gozavam o atraso da Índia. A índia tecnizada é um perigo. Uma equação cujos termos são a densidade demo-gráfica e a ausência de técnica guiou até agora o estágio agrá-rio em que a índia permanecia…
— Mas a índia se libertou…
— Até o Brasil se libertou. São os tempos novos. Há uma consciência coletiva que vigia e contém as velhas garras impe-rialistas… Veja o Panamá!
— Ora! Ora! — gritou um linha justa que se dissimulava na sombra gozando um velho Porto.
O político prosseguiu:
— A equação brasileira é — muita terra, pouca gente, nenhuma técnica. A hindu é — muita terra, muita gente…
— E muita fome…
— Aqui também há fome!
— Ora fome! Passe aquele caviar!
— Ê bolchevista…
— Excelente!
A confusão estabelecera-se. Então, entre gritos e risos uma voz berrou:
— Hoje no mundo inteiro o que se quer é jejuar… O ma-hatma comia demais…
— Passe o patê que está muito bom… Viva De Gaulle!
— Quem não trabalha não come, dizia São Paulo…
— Comamos em São Paulo.
Um avião iluminado roncou sonoro no céu que se estrelava depois da chuva.
— Gandhi foi o último jejuador num mundo que só pensa em comer. Precisava ser eliminado!
8.2.48
Música, Maestro!
(De São Paulo) — A quinquilharia estética e o mau gosto assustadoramente tomam conta do mundo. Se a Rússia Sovié-tica baixa o nível das Belas Artes e castiga os seus maiores gênios musicais (não falemos da pintura!), pelo menos explica e defende o seu ponto de vista. Trata-se de um recuo intelec-tual, mas de um regresso dialético e político. É um regresso a fim de atender ao retardamento das massas.
A produção americana faz o mesmo, apenas com o fito de lucro, utilizando métodos sinuosos que acabam atentando contra a nossa vida espiritual. Como o perfume caviloso do resedá do cura era enxofre do inferno, o rádio que ronrona nas nossas casas e o pisca-pisca colorido que nos impingem obrigatoriamente, trazem em si a degenerescência de toda a nossa formação já por si tíbia e sem defesa. Indago daqui se existe uma censura cinematográfica para permitir que nossas crianças menores de dez anos vão se contaminar no swing im-becil e nos trejeitos cretinizantes e imoralíssimos dos atuais desenhos animados.
Urge revigorar a campanha tradicionalista de Gilberto Freyre em contra-ofensiva aos monopólios americanos que ago-ra já mastigam na sua saliva os nossos pobres e medíocres artistas, com o deslumbramento dos seus cachês doirados.
James Burnham que deu um dos livros mais importantes da nossa época, “A Revolução Gerencial”, aponta na sua re
cente “Luta pelo mundo”, uma solução que talvez salvasse o próprio mundo — ver baqueados depois de uma guerra — os dois colossos que estão, pela música, pela teia ou pela pro-paganda, pesteando o mundo de burrice e de graves e promis-soras psicoses.
22.2.48
O cinema na Europa
(De São Paulo) — A morte de Einsenstein vem produzir possivelmente um vácuo na grande .produção que a tela russa inaugurou há muitos anos com o Couraçado Potenkim e outras grandes composições soviéticas. Em compensação surge, num aspecto diverso, menos político e mais dramático e humano o novo cinema da Itália. Poucas vezes se tem assistido a um êxito tão pronto, ocasionado sobretudo pela . ualidade inespe-rada dos artistas, ontem completamente desconhecidos e anô-nimos. O nome de Aldo Fabrizi — o padre de “Roma, cidade aberta” — está hoje colocado entre os dos melhores artistas da tela mundial.
Depois, justamente, desse documento da resistência popu-lar italiana, aparece ele numa página do campo peninsular, entre fugitivos aliados e nazistas tremendos, com sua cara bonachona e larga, evocando essa gente secular que Silone fixou em páginas imortais. Uma idéia — por que ao lado de Dario Nicodemi, que se anuncia, não se filma outra jóia anti-fascista que é Fontamara?
28.2.48
A Ceia
(De São Paulo) — O meu amigo sabido me puxou para o canto via varanda florida.
— É engano seu. Hoje ninguém mais se enforca por es-crúpulos e muito menos vai para a cruz por compromissos ideológicos com o céu…
— Mas leia os iornais…
— Tudo se arranja, acredito…
— A traição anda no ar…
— Mas não anda mais nas ceias. Traição de quem? Quem foi que falou nessa palavra feia? Se fulano trair sicrano e bel-trano trair fulano, então sicrano arranja com beltrano o meio de trair fulano. E este e sicrano de novo anunciam que vão trair beltrano. E fulano apavorado se alia com beltrano… para trair…
— E beltrano e sicrano e fulano mandam você tomar banho…
— É possível porque eu sou fichinha e não sou político. Mas hoje não há mais a palavra “irremediável” no Brasil. As raposas se farejam e dão botes simbólicos que não matam ninguém. Você verá dentro de pouco tempo, de braços dados, beltrano, sicrano e fulano traindo fulano, sicrano e beltrano…
17.3.48
Conversa de velhos
(De São Paulo) — Alô! Tristão de Athayde! Recebi com agrado e surpresa a sua dedicatória no primeiro volume com que a Editora Agir inicia as suas Obras Completas. “Depois de trinta anos de atritos”, tenho o prazer em constatar a sua generosidade, afirmando que muito do que aí está veio por minhas mãos. E sei prezar a franciscana resistência que tem oposto às brabezas sempre leais com que defronto os seus caminhos.
Já me disseram, e acredito, que houve um momento em que você hesitou entre seguir os rumos libertários que trilho e os que lhe apontou a sombra cesarista de Jackson de Figuei-redo. Decidiu-se por este, num culto ativo e dominicano, bem diverso daquele no qual em tão boa cera se derrete e gasta o ismaelita Murilo, na canonização de outro reacionário, este mais ou menos um débil mental!
Muito bem você afirma, na orelha do seu volume, que viemos a público “no rumor da luta, no clamor das tormentas próximas ou longínquas, no meio de um mundo de guerras e revoluções, de uma sociedade às voltas sempre com o sofri-mento, o desespero e a morte”. Ao contrário do que disse Mário
de Andrade no Itamarati, nessa grande querela soubemos sem-pre nos engajar e comprometer. Por isso mesmo, tínhamos que nos aliar ou brigar. Brigamos.
Atribuo hoje tão dura divergência em grande parte às origens sociológicas que nos separam, você no Rio, eu em São Paulo. Veja como os grandes primários, Graciliano inclu-sive, tinham que sair do Norte feudal e revoltado. A exceção de Gilberto Freyre confirma, pois, se suas raízes são nordesti-nas, uma esplêndida cultura universitária diversamente o mar-cou. Daí ter ele os seus maiores e mais numerosos admiradores cm São Paulo.
O Rio, meu caro, é a mão-morta por detrás de Copacabana. Talentos como o seu ou como o de Otávio de Faria — o ouvido que melhor escuta através das paredes do Brasil — são vítimas da clerezia que usucape as consciências da velha metrópole lusa, numa tradição de sossego solar que nem a geometria dos arranha-céus e o ronco dos Douglas acordam. Foi preciso que Bernanos deixasse Barbacena (uo) para ir constatar em Gene-bra, nos célebres “encontros” de 45, a descristianização do mundo.
Nós, aqui em São Paulo, fizemos a revolução modernista muito mais por causa do Matarazzo e dos sírios do que de Graça Aranha ou de D. Júlia Lopes. Infelizmente vocês vivem aí entre anjos e bênçãos que aqui só aparecem em segredo, para o Guilherme de Almeida. É o pif-paf e a promissória que tocam a música dos dias úteis e das noites inúteis na Ban-derândfa.
Em seu longo caminho, uma coisa você retificou — foi a sua posição em face da questão social. E sua atitude política de hoje c comovente. Mas claro que está errada, como a de Wallace na América, pois faz sem querer o jogo do sectarismo policial que se criou contra o mundo ignóbil dos banqueiros.
Por nova conversa, sou o
OSWALD DE ANDRADE 17.6.48
(140) Barbacena. George Bernanos (1888-1948), refugiado da Segunda Guerra Mundial, morou no Paraguai, depois em Pirapora, MG, e finalmente em Barbacena, no mesmo Estado.
Sobre Poesia
(De uma conferência) — O vocábulo oculta o ser e sobre o ser, trânsfuga do conhecimento, a poesia joga um rendado manto de palavras. Com que fim? Diz William Blake que o co-nhecimento poético limpa as vidraças da percepção para tornar as coisas infinitas.
De modo que se apresenta logo essa função antitética da poesia — obscurecer clareando.
É o Dante quem nos fala da horribilidade das coisas.
Perche nascosse Questi il vocabol di quella riviera Pur com’uom fá delVorribili cose?
Comentando esses versos diz Ortega y Gasset, que se dese-nha aí toda uma poética: “Devem-se esconder os vocábulos porque assim se ocultam, se contornam as coisas, que como tais são horríveis”.
E Mallarmé, evitando identificar-se, dizia de si mesmo: “Aquele a quem os meus amigos têm o costume de chamar pelo meu nome”.
Vou oferecer-vos o recorde da perífrase arrancado de D Luiz de Gôngora, em uma de suas Soledadas:
Aves
Cujo lascivo esposo vigilante Doméstico é do sol núncio canoro E — de coral barbado — não de ouro Cinge — mas de púrpura turbante.
Isso tudo para dizer — galo!
Seria o jogo a constante expressional da poesia?* Ou é o poeta apenas um demente, um parafrênico que abomina a uti-lidade do vocábulo, empregando a palavra como valor plástica e musical para seus delírios?
Confirmam este último conceito algumas opiniões auto-rizadas.
Se Plotino diz que a fantasia continua a atividade criadora da natureza, ao contrário, o pensamento clássico faz fila para condenar o poeta, já expulso da República de Platão.
Demócrito afirmou não ser possível um poeta sem certa loucura divina. Aristóteles disse que não há engenho sem mis-tura de demência. Horácio chamou a poesia de amável insânia.
No entanto, com o doido Hõlderlin, o poeta assume a res-ponsabilidade angélica de dar nome às coisas. E um século depois, Rainer Maria Rilke dizia também que estamos aqui para nomear as coisas.
“Fonte. Portal. Ânfora”.
7.6.1949
À sombra dos cretinos em flor
(De São Paulo) — O sabido gagá da crítica heb-drome-dária Djalma Viana (141), floriu em adulagem. Evidentemente não é cômodo atacar jovencitos truculentos, mal educados e geralmente geniais. Além do que, estando-se em junho não fica de estranhar essa festa joanina de luzentes pistolões, estre-linhas fagueiras, chuveiros de prata, com alguns traques de permeio, em benefício de uma geração caauética, tirada a ferros das entranhas do Modernismo. Trata-se logo dum “triunfo es-magador”, o que é justíssimo, pois ela sem fazer nada já con-quistou os sensacionais suplementos e isso é que é bom! Mas como o inconsciente não trai mesmo, o escrivão assinala na rasa, a sua (dela) “responsabilidade de patriarca” e a sua (também dela) “nobreza de pároco”. Trata-se pois, de uma súcia de patriarcas do soneto, de párocos do inefável, sisudos e auto-persuadidos de que estão fazendo a “verdadeira revolu-ção”, não a que se processa no amargo âmago das ruas, das oficinas e dos conclaves sociais, mas aquele que se fecunda à sombra espichada da propina e do abraço, entre redação, cafezinho e noturnas manipulações de sonho de solteiro.
Esqueceu-se porém, o freudiano turibulário de qualificar o caso de certo líder órfico que quer por força ser e nem isso
(141) Djalma Viana, pseudônimo jornalístico do escritor Adoniaa Filho (n. 1915).
consegue, o Fernando Pessoa, de Luanda (142). Trata-se de um complexo de Édipo torto, pois o rapazinho tentou matar o pai que é o Sr. Carlos Drummond de Andrade, para se casar não com a mãe que seria a poesia — e essa o vento levou — mas com a madrasta que é a metrificação. Afinal a colônia de Luanda tem para conosco grandes responsabilidades. Manda-mos para lá Tomás Antônio Gonzaga e ela nos devolve esse gajo íiozado!
28.6.49
A mulher automática
(De São Paulo) — Qual é o seu cargo?
— Esteno-dactilo-serpente-contralto-secr etária…
— Isso é novidade. Eu ouvi no rádio, naquele debate sobre a mulher moderna: esteno-dáctilo-serpente-secretária — A mu-lher atual!
— Ainda tem mais! Ponha glamourf
— Que é isso?
— Glamour é assim como eu sou. De concurso!
O homem pálido que esperava há duas horas, examinou com os olhos a morena iodada no coral solto do vestido, san-dálias de purpurina, cabelo lustroso, brincos, balangandãs e pul-seiras, um beiço em ciclamen por Salvador Dali.
— O senhor sabe? Comprei ontem um leque que cheira. É formidável! Da América!
A voz grossa trauteou “La vie en rose”.
— Dei o fora no meu darling porque ele não me levou à boite ver o Charles Trenet (143). Fui com Mister Ubirajara.
— Quem é Mister Ubirajara?
— Acho que é canadense. Um gordo do anúncio. Tem gaita e possui um guarda-roupa perfeito. Dois ternos por dia!
(142) Fernando Pessoa de Loanda. Brincadeira com o nome do poeta Fernando Ferreira de Loanda, nascido em São Pauto de Loanda, Angola, em 1924, e residente no Brasil, onde fez parte da chamada “geração de 45”.
(143) Charles Trenet, cançonetista francês que teve grande êxito no Brasil àquele tempo.
Me levou a Santo Amaro num 1950 formidável. Tomamos muitos drinJcs.
Na ante-sala de móveis mecânicos o telefone ressoou.
— Aposto que é o turco! Deixa tocar… Ele fala “negó-cio”. Quer saber do “negócio” dele. Como se eu estivesse aqui para dar informações!
O telefone insiste.
— O senhor sabe? Um marinheiro contrabandista foi ao meu apartamento levar uns cortes de tropical e uns relógios suíços. Não falava nenhuma língua. Disse por gestos que era marinheiro, da Suíça. Enquanto ele se distraiu bati um relógio-pulseira e pus ele pra fora. Começou gesticulando que faltava alguma coisa. Banquei a boba. O homem falou baiano: — Deixe de besteira moça! Não gosto disso não! Me dá o relógio!
O telefone continuava. Ela arrancou num gesto o fone e berrou:
— Não me encha! Não é aqui!
Desligou violentamente. A voz do outro lado ficou dizendo humildemente:
— Esbéra, mucinha!
— Que esbéra, nada! Se ele ligar outra vez dou o telefone do Cemitério do Araçá. Vou fazer ele falar com defunto!
Houve um silêncio rápido. O homem pálido perguntou:
— A senhora é contralto?
— Sou. O que a mulher tem de melhor é a voz! — gritou desaparecendo numa porta volante. — A voz e a saliva!
24.II.1949
O diabo Agripino
(De São Paulo) — O Teatro Municipal ficou repleto com mais uma conferência de Agripino Grieco promovida pelo “gauleiter” Martins (144), do Departamento de Cultura. Não
(144) Gauleiter Martins. Brincadeira amistosa com o editor José de Barros Martins, então Diretor do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo.
sei se isso aconteceria no Rio de Janeiro. Diz ele, aliás, que aí ele só tem um ouvinte — um surdo. São Paulo recebe sem-pre de braços abertos esse Gregório de Matos impiedoso e ro-mântico, que passeia pelos palcos a sua figura satírica, pondo na fogueira com a mesma verve, santos e fariseus, cretinos, aventureiros e oportunistas pacíficos.
Ele confessou que deve a sua casa no Méier, a São Paulo. Foi uma curiosa aventura essa, de um intelectual pobre que vai pelo mundo falando mal da sociedade que o não acolhe nem defende, a fim de ganhar a vida. Problema que envolve uma grave acusação ao ambiente cultural em que vivemos.
Dir-se-ia que Agripino nasceu para satirizar. É a face ofensiva e polêmica da sua alma franciscana. Pois creio que, no fundo, ele não passa de um bom cidadão, machucado pela vida, que resolve publicamente se desrecalcar.
Desta vez, desenhou a habitual galeria de imortais do Si-logeu (14C), onde diz que com o Sr. Carneiro Leão (1W), excep-cionalmente entraram, em vez de um, dois animais. Denunciou o “academismo sincero” do poeta Manuel Bandeira. Descom-pôs os que escrevem corretamente mal. E durante mais de uma hora encantou a assistência sensível. Diz Agripino que prefere falar a escrever porque assim diz tudo.’ É a feição esotérica da sua obra de crítico, muito mais sóbria e moderada em seus livros. Está agora ele escrevendo uma história da nossa litera-tura. Será um Deus nos acuda! Agripino é um dos mais cultos expoentes da nossa geração. Atravessou incólume o Modernis-mo sem dele participar ou. divergir.
É uma posição ímpar que, liquidados os exageros, ficará como exemplo de independência e probidade.
26.11.49
(145) Silogeu. Referência à Academia Brasileira de Letras, que durante muitos anos funcionou, com outras instituições, no edifício do Silogeu Brasileiro, ao lado do Passeio Público, no Rio de Janeiro.
(146) Antonio Carneiro Leão (1887-1966), sociólogo e educador pernambucano, autor da reforma que modernizou o ensino do seu Estado no decênio de 1920.
Diário Confessional
(De São Paulo) — O mundo moderno se debate entre Kafka e Pirandello. São os nossos clássicos, são os anjos som-brios que dominam este intérmino período da História. Tão curto, nascido apenas ontem mas que pela tensão e pela gravi-dade, estourou todas as dimensões do tempo, foi além de todas as eras humanas, as mais compactas de acontecimentos. Um dia de hoje eqüivale a um século antigo. 24 horas de Dublin produziram na sensibilidade de James Joyce o maior romance dos tempos novos. Terminando no único otimismo possível — o otimismo animal.
Somos todos mais ou menos personagens d'”0 Processo” de Kafka. Não sabemos nunca se quem bate à nossa porta é o vendedor de enceradeira — uma solução Cocteau — ou, o que é mais certo, o capucho que nos vai levar à guilhotina.
Sob o signo da intranqüilidade e da desavença, o mundo muda. Não para o otimismo cretino anunciado por Leibnitz. Para o otimismo sanguinário das fogueiras soviéticas que que-rem de novo salvar a nossa alma. Para que tenhamos sempre à vista um confessor e um carrasco. Enquanto não se esfacelar em sangue a espinha dorsal das certezas messiânicas, sob o as-pecto do salvacionismo ou do “melhor dos mundos”, pagaremos caro nossas infantis ilusões, nossa crença e nosso amor. E sere-mos devorados na dialética do absurdo.
2.12.49
Notícias da Província Eleitoral
(De São Paulo) — Não é possível. Vá para o inferno!
— É o que eu lhe digo. Se a coligação do P.T.B. e do P.C.B. se concretizar, arrastando uma ala do P.R. e elementos da U.D.N. a fim de ameaçar com o nome do Prestes Maia a vitória do governo, virá uma outra coligação — do P.S.D., da U.D.N., do Ê.R.P., de uma ala do P.R. ou de todo ele, do P.D.C. e dos elementos que seguem a liderança de Marrei Jú-nior. E a Liga Eleitoral Católica em peso. Vai ser uma parada
dos diabos. E o Ademar adere a um dos lados no fim, com todas as suas forças…
— O Ademar não adere porque Dona Alzira disse que ele vai voltar de charola para os Campos Elíseos…
— Dona Alzira Valgas?
— Não. Dona Alzira Saltapedras…
— Que história é essa?
— A Dona Alzira que eu conheço é uma iluminada, mé-dium juramento, ouvinte, escrevente, falante, que disse tam-bém ao Rolim Telles que ele iria para o Catete…
— E o Ademar acredita?
— Mexe a cabeça e vai continuando a propaganda de um modo infernal… Com mil votos ou mais ele já arrancou dos outros partidos. Quer ser o fiel da balança…
— Não IO fiel será a U.D.N….
— Quem sabe? Entre ela e o P.S.D. há uma ponte nobre — o embaixador Macedo Soares, Será então um grande em-bate entre as “forças conservadoras… da liberdade” e as “for-ças progressistas… da ditadura”.
— Não acontece nada disso… O niebelungue Vargas não soube dar a tacada…
— Como?
— Atirou no capital mais colonizador e acertou nas Forças Armadas… Em política, você sabe, não se pode errar. O anão mágico desta vez errou. Quem erra em política, vira o que viraram os maiores dominadores e caciques — César, Napoleão, Mussolini, Hitler. A política é a mais ingrata das profissões… Quem escorregou perdeu… E do primeiro degrau vai ao abis-mo, sem apelo…
— Você não pode negar que o jogo do Getúlio foi bem armado. Mas o Borghi atrapalhou. Ninguém mais o convenceu de que ele era o gostosão e não o esperado. Um emissário do ex-ditador levou-lhe um recado decisivo fazendo-lhe ver que ainda seria cedo para se candidatar à governança de São Paulo. E ele, replicou: — Não sou eu que quero! É o povo!
— Mas afinal, quem ganha?
— A lógica…
— Ora. Não há lógica no futebol, quanto mais em política…
— Pegue o lápis e some, o P.S.D. reúne cm torno do Máric Tavares 457.000 votos, a coligação P.T.B.-P.C.B. dá a soma de 424.000 votos… se o candidato for o Prestes Maia…
— Donde você tirou esses números?
— Do “Diário Oficial”. É o resultado das eleições de le-genda partidária para deputados. Esses números são quase fixos para o P.S.D., enquanto que o P.T.B. só pode aumentar o seu eleitorado à custa do P.C.B. e vice-versa… As combinações com outros grupos não vão alterar muito…
— Mas na eleição para senador o P.T.B. venceu.
— Foi o Getúlio! Mas o ditador de 37 hoje está fraco e desmemoriado. Esquece por exemplo que em 30, o capital mais colonizador que assistiu à saída do presidente Washington Luís, permaneceu na mesma sala e nas mesmas poltronas para aplaudir a entrada do presidente Vargas…
— Isso foi em 30.
— E nesse curto espaço de quinze anos, ocupou as mesmas poltronas, dando as mesmas cartas…
— Mas o Getúlio não sabia que era o capital mais colo-nizador. Foi o Prestes quem explicou…
— Ahn!
4.9.50
Sobre Emílio
(De São Paulo) — O escritor Francisco Leite, que está fazendo uma biografia de Emílio de Menezes, pede-me dados sobre o grande satírico, sabendo que com ele privei alguns anos.
Está amplamente divulgada a “piadística” de Emílio, cha-memos assim. Guardo dele apenas uma ou duas anedotas pouco conhecidas. Mas posso informar sobre o caráter pessoal do poe-ta. Assim, pouca gente sabe que ele era não só moralizado mas moralizante. Não admitia patifaria mesmo de amor. E era iracundo nas suas críticas e investidas.
Não há quem desconheça a oposição que lhe fez Machado de Assis quanto à sua candidatura à Academia. Considerava-o um boêmio e um beberrão. Evidente que entrava nisso um complexo de linha, muito do mestiço cumulado de honras que
foi o grande autor de “Dom Casmurro”. Emílio, no entanto, era um pacífico burguês em sua vida íntima e não admitia des-vios conjugais.
Uma vez encontrou-se comigo na Avenida Rio Branco. Eu ia em companhia de um velhote de monóculo, sobrecasaca e cartola. Era o célebre Barão Ergonte, que se chamava simples-mente Múcio Teixeira, mas que com qualquer dos nomes Emí-lio abominava. Investiu contra nós de bengala erguida e fez o velhote sumir na multidão. Passou-me então um pito monu-mental, por eu freqüentar aquele “cafetão”. Talvez ele suspei-tasse que eu estava combinando com o Barão Ergonte o rapto de uma linda menina, justamente da casa de Coelho Neto, à Rua do Roso… Fosse isso ou não, eu passei a ver essa figura de um extraordinário pitoresco hierofante, mágico e aventu-reiro — na sua casa do Encantado. E o caso agravou-se com Emílio, de quem fui obrigado, nos últimos anos, a me separar porque me chateava com velhas e absurdas lições de moral. Por hoje só.
25.3.52
Corçã o
(Do Flamengo) — Não me lembro em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão im-pressionante como a de Gustavo Corção.
Privei com Inglês de Sousa, que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Yilla-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Léger, a Cocteau e Cendrars, a esse original e magnífico Valéry Larbaud, a Supervielle e Ro-mains, enfim, a toda a geração revolucionária do começo do século. E apenas, com outro tom, mas a mesma doçura sar-cástica, alguém me lembra o autor excelso de “Lições de Abis-mo”. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente aban-donado por todos os seus amigos, quando o encontrei no Quar-tier Latin. Chamou-se Eric Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX.
O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste, é o que há nelas de inquebrável. Gus-tavo Corção é um inquebrável — faca de dois gumes. E isso muito se liga às virtudes intelectuais que o fazem sem dúvida, o nosso maior romancista vivo.
Nas “Lições de Abismo”, como também na “Descoberta do Outro”, não vejo concessões.
O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor, de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis, aparece agora um mestre no ro-mance brasileiro,
4.4.52
*
(De São Paulo) — Evidentes e inúmeras são as vantagens do mundo socialista em ascenção sobre o mundo capitalista em declínio. Ê o que diz o nosso patrício Jorge Amado num livro que ora se espalha por todo o Brasil com um título pacifista.
Ressalta disso, porém, uma inegável vantagem para o mun-do capitalista, setor Brasil. É que sendo um livro de caráter proselitista e, violento contra o regime nacional, nada impede que ele aqui se edite e circule. Que aconteceria na U.R.S.S. com um livro idêntico escrito contra o regime soviético? Pelo menos, não se podendo por a mão no autor, o editor seria fuzilado em fila com todos os livreiros que o vendessem.
Procurei com tristeza nessas páginas aquele menino de gênio que 20 anos atrás aparecia no Rio com uma obra-prima na mão — “Jubiabá”. Está seco e reduzido a um alto-falante que mecanicamente repete as lições do D.I.P. vermelho do Kremlin. Raramente, uma ou outra vez perpassa ali aquele vento de paixão que fazia a glória e a beleza do autor de “Terras do Sem Fim”.
Em 1945, José Maria Crispin presidiu a uma reunião de intelectuais militantes, onde, na cara de Jorge Amado, eu de-nunciei que no começo da guerra ele tentara me fazer subor-nar por um nazista oferecendo-me 30 contos a troco de um livro de impressões de viagem à Europa, favoráveis à Alema-
nha. Jorge quis sair, pelo buraco da fechadura, da sala cerrada onde nos encontrávamos aqui, na redação do “Hoje”.
Daí para cá, o mal moral progrediu. Da traição e da sub-serviência, Jorge passou ao badalo e à morte intelectual pela mediocridade. Não há dúvida que merece o Prêmio Stalin.
18.4.52
O analfabeto coroado de louros
(Da Cinelândia) — As ferraduras mentais do Sr. Nelson Rodrigues trotaram longamente pelo “asfalto nosso” de uma revista que desde a capa traz um tom laranja que não engana. Trata-se evidentemente de um comício laranja, onde só ele zurra os seus maus sucessos e enche de invectivas as páginas mornas daquele repositório comportado de opiniões parlamen-tares, tímidas conversas moles sobre a Rússia e história do namoro de Bemard Shaw com Sara Bernhardt (147).
Nunca em minha vida li um documento de insânia tão descosido intempestivo e bravio. Não há lógica de louco que consiga acompanhar esse disco voador de besteira pelos cor-covos, carambolas e girândolas em que se desagrega e pulveriza.
É melhor documentar que comentar.
O alarve que escreveu “Álbum de Família” declara-se “espiritualista” e “antidivorcista”. Raciocina ele assim: “— Se a gente tem um pai só, por que não há de ter uma mulher só?”
Depois, num assomo de reacionarismo, diz que o homem de Marx é um homem inexistente. Está claro, a Rússia não existe.
Certo como está de que não atingirá a imortalidade aqui na terra, com sua coleção de torvas tolices espetaculares, opta sabiamente pela imortalidade da alma. Só assim poderá ele sobreviver.
O caso Nélson Rodrigues demonstra simplesmente os abis-mos de nossa incultura. Num país medianamente civilizado, a polícia literária impediria que a sua melhor obra passasse de um folhetim de iornalão de 5.8 classe. Mas não temos nem
Í147) Sarah Bernhard, no origina!.
crítica nem críticos. E o caos trazido peia revolução mundial qut se processa sob todas as formas, permitiu que qualquer fístula aparecesse em cena vestida de noiva. A alta costura de Ziembinski-Santa Rosa conseguiu que se consumasse a façanha teratológica.
Daí por diante, o insano ficou impossível. Veio “Álbum de Família” e agora, num bom acesso de sã consciência, ele confessou que há mau gosto em seu teatro. Como se outra coisa houvesse! Guiado pela mão caridosa do Sr. Tristão de Athayde, vamos ver o monstro contrito subir para o céu como num fim de mágico. Já crê em Deus e nos conventos e declara que “a única solução para o problema sexual é a castidade”. Patetamente declama: “O homem que não compreende a gran-deza de um convento não compreende nada!”
Se o Sr. Nélson Rodrigues não fosse um taradão ilustre, mas de poucas letras, pensaríamos que se pudesse tratar de um convento do Aretino. Mas estamos certos de que nem dessa piada ele é capaz. Quem foi Aretino, seu Nélson?
8.6.52
Fronteiras e limites
(De São Paulo) — O jornalista Darwin Brandão, repro-duzindo em “Manchete”, coisa que desprevenidamente lhe disse, esqueceu de citar entre o que considero as quatro obras-primas do romance brasileiro atual, “Os Ratos” de Dionélio Machado. Com esta jóia do Sul, equiparam-se “Jubiabá” de Jorge Amado, “Marafa” de Marques Rebelo e “São Bernardo” de Graciliano Ramos. São todos anteriores ao aparecimento de “Lições de Abismo” de Gustavo Corção. Para mim, este ressuscita nesse romance magistral, o próprio Machado de Assis.
E o caso Corcão vem confirmar o que iá disse — temos romances mas não temos romancistas. Homens que escrevem maravilhas são muitas vezes no convívio verdadeiro desarmados intelectuais. Geralmente inconscientes e mesmo incultos. A essa fatalidade que pesa sobre a nossa literatura, não escapa o pró-prio Gustavo Corção que acaba de publicar um triste livro de polêmica ideológica, confirmando-se num pequeno catoli-
cismo de Laranjeiras e Centro Dom Vidal. Para o grande Cor-ção, só existe uma revelação — a do Sinal, repetida em Jeru-salém e mais paragens judaicas. Não existiu ou existe o mesmo fenômeno em Elêusis, em Meca, em El Amarna, em Benares ou nas mesas modestas do Além espírita e nas macumbas da cidade santa de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Pessoalmente, o autor de “Lições de Abismo” é um primor de homem. Mas ele se esquece de que toda revelação é subje-tiva e nunca objetiva.
25.3.53
São Paulo
(De São Paulo) — Mais do que o padre Anchieta ou Nó-brega, foram as duas guerras mundiais que fizeram a São Paulo de hoje. Quando a gente penetra à tarde numa confeitaria da Rua Barão de Itapetininga, vê uma Sociedade das Nações d2 mulheres gordas e pintadas, falantes e seguras de si, tomando chá e despejando todos os matizes das línguas balcânicas e ger-mânicas. Foi o despejo produzido pela fuga às invasões da téc-nica militar que preferiu nos trópicos o clima inconstante mas ameno de Piratininga, para chupitar tranqüilo um resto de vida capitalista, que as transformações sociais tratou (U8) de expulsar do planeta.
Aqui há um clima que lembra os namoros de Adam Smith com a riqueza das nações. Falar em três por cento no Triân-gulo é falar língua de branco. Foi-se o tempo em que o Sr. Ge-túlio Vargas mandava por na cadeia os usurários. E mandava mesmo!
Os longínquos jesuítas do século XVI, cujo erro foi obe-decer ao ucasse de Clemente XIV que os dissolveu, se tivessem fundado uma religião autônoma compreenderiam a sombra ga-nanciosa dos arranha-céus, onde se movimentam agentes e clientes de 1.300 bancos e casas bancárias. Como compreende-ram os ritos malabares e as macumbas primitivas.
4.2.54
(148) A concordância normal seria trataram.
O Demais
(De São Paulo) — Aproximei-me do largo da igreja de Santo Amaro, essa igreja simples que é encimada por quatro velhas estátuas que deviam ser tombadas, tal a expressão que exprimem. Estátuas anônimas de santos anônimos.
Aproximei-me de uma fila de táxis e perguntei ao primeiro chofer:
— Onde está o Demais?
— No cemitério. Levamos ele para lá o mês passado!
O Demais. Esse apelido evoca para mim qualquer coisa de santo. Trata-se de um velho chofer de praça em Santo Amaro.
Muitos anos atrás, um perseguido político que sc escondia numa casa desocupada, fez chamar um táxi. O carro chegou guiado por um velho cafuso.
— Você pode me levar?
— Às ordens.
— Mas quero lhe dizer que estou fugindo da polícia.
— Não tem importância, pode subir.
— Bem, está certo. Só que não sei para onde ir. Sou co-munista. Querem me prender.
— Não tem importância. Suba! –
— Mas para onde o senhor vai me levar?
— Para minha casa. Eu trabalho de noite. O senhor dorme em minha cama. Eu durmo de dia…
Foi assim que Demais salvou numa hora dura, um homem que militava nas fileiras de um partido ilegal.
Soube no ano passado que ele estava vivo e trabalhando ainda. Procurei duas vezes inutilmente…
Agora ele partiu sem me dar um abraço de despedida.
10.2.54
Meditação n.° 3
(Do Hospital Santa Edwiges — São Paulo) — A quebra do ritmo da vida, por uma doença, muda os aspectos habituais. O demorado silêncio do quarto, a inatividade, a enfermagem.
o ambiente hospitalar abrem as comportas do ser combalido a todas as cargas emocionais da infância.
É evidentemente uma recuperação que se procura. E a ida-de de ouro de cada um volta pela memória a afagar o homem que se prepara para o fim ou para a volta triunfal da saúde.
Como o clima é de vago desespero, ocorre muitas vezes que o primeiro plano é ocupado pela reflexologia de salvação que lhe incutiram nas horas infantis diante dos oratórios, das lamparinas das celebrações dos templos.
Romano Guardini, esse católico alemão excepcional, já disse que a liturgia é mais importante do que a ética. E é no compasso litúrgico das novenas da infância que a alma mergu-lha. Mesmo sem compromisso confessional algum. Compreen-de-se assim um ateu que reza. Sem conversão. A reflexologia tem a força do instinto, pois a ele se substitui.
E todas as esperanças denodadas que as promessas mater-nas contraíram, despejam-se sobre a alma sedenta de apoio. A um namoro inevitável com as miragens messiânicas.
Vem a contrapartida. O exame lúcido da situação que pode ocasionar um desenlace. E o mudo e sofrido desespero de quem vê a própria impotência em deter isso que os gregos chamavam de “Ananké”, ou seja, a fria necessidade. Como será. Os filhos? A mulher? A situação.
Tudo se escora na ânsia de salvar, na esperança inútil de
18.4.54
salvar.
A estralada
(De São Paulo) — Evidentemente pouca gente supunha que as coisas atingissem esse auge e que tudo se escancarasse, pondo a nu o que o estilo folhetim chama de “porões dos Bórgia”.
As novidades pululam, trazendo à tona e fazendo descer para o olvido, personalidades, fatos, circunstâncias. Ficou a cer-teza de que o país atravessou uma crise duríssima do cresci-mento.
A mocidade porém tem em si forças e vitaminas. O país se recompõe e busca o futuro. As virtudes difíceis — a ponde-ração, a reflexão, o equilíbrio — são raras de se encontrarem num momento como esse. Razão porque todos precisamos bai-xar à realidade e trabalhar com afinco para a construção dum Brasil renovado.
Ouçamos a primeira oração do novo chefe do governo como um apelo que toca todos os corações. Evidentemente, precisamos cooperar. E cooperar com um homem como Café Filho é um dever fácil.
18.9.54
A inteligência no Catete (149)
(De São Paulo) — Pode-se marcar uma nova era. As por-tas do Palácio Presidencial do Catete foram abertas à inteli-gência nacional. Sabe-se vagamente que no tempo do Império, o governo chamou para as suas fileiras alguns homens de inte-1’gência e de cultura. E mais do que os outros, eles deram conta do recado que lhes foi proposto. Foram os Nabuco, os Alencar, etc. Na República, o que prevaleceu foi geralmente o raso coronelato. Agora, porém, com a surpresa do governo Café Filho há uma mutação de comércio. O novo presidente, intelectual também, abriu as portas do Palácio do Catete para os homens que escrevem e que pensam.
Foi uma festa notável essa em que se viram rodeando o presidente os homens de pena e os homens de livro. O presi-dente Café Filho deve levar avante o seu gesto. Por que não aproveitar também a inteligência para altos cargos e represen-tações do país? Que nos dizem se tivéssemos como embaixa-dor em Paris um Rubem Braga e um Aníbal Machado em Londres?
Já que pela primeira vez, um governo deu atenção aos homens que escrevem, que examine também as suas possibili-dades de servir.
23.10.54
(149) Esta é a última crônica escrita por Oswald de Andrade, publicada no dia seguinte à sua morte.
Obras Completas de Oswald de Andrade
1. Os CONDENADOS (Alma/ A Estrela de Absinto/ A Escada)
— Romances.
2. MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR / SERAFIM PONTE GRANDE — Romances.
3. MARCO ZERO: I — A Revolução Melancólica — Romance.
4. MARCO ZERO: II — Chão — Romance.
5. PONTA DE LANÇA — Polêmica.
6. Do PAU-BRASIL À ANTROPOFAGIA E ÀS UTOPIAS (Manifes-to da Poesia Pau-Brasil/ Manifesto Antropófago/ Meu Testamento/ A Arcádia e a Inconfidência/ A Crise da Filosofia Messiânica/ Um Aspecto Antropofágico da Cul-tura Brasileira: O Homem Cordial/ A Marcha das Uto-pias) Manifestos, teses de concursos e ensaios.
7. POESIAS REUNIDAS O. ANDRADE (Pau-Brasil/ Caderno do Aluno de Poesia/ e outras) — Poesias.
8. TEATRO (A Morta j O Rei da Velai O Homem e o Cavaloi
— Teatro.
9. UM HOMEM SEM PROFISSÃO: Sob as Ordens de Mamãe
— Memórias e Confissões.
10. TELEFONEMA — Crônicas e polêmica.
11. ESPARSOS.

Impresso nos Estab. Grá-ficos Borsoi S.A. Indústria e Comércio, à Rua Francis-co Manuel, 55 — ZC-15, Benfica, Rio de Janeiro
Exemplar

candente ou jocosa, como, por exem-plo, a página que dedica ao movi-mento da Anta, com certeza uma das mais inventivas, esfuziantes e de-molidoras do nosso idioma. Mas tam-bém se exibe nelas o Oswald terno, preocupado permanentemente com os destinos do homem e do mundo, ou com a sua própria ‘sorte, quando se vê às voltas com a doença e invadido pelo pressentimento da morte.
Política, literatura, artes plásticas, música, teatro, vida social e até mun-dana, o quotidiano, fatos marcantes, personalidades nacionais ou interna-cionais — são os principais assuntos de Oswald, os pontos de partida para suas visões ou revisões de temas e problemas. Tudo é visto do seu Ângu-lo pessoal, interpretativo, nem sempre justo, caracterizado por inesgotável fluir de vivacidade, pelo estilo de constante brilho verbal, onde repon-tam o epigrama, o trocadilho inespe-rado e fulgurante, o chiste que con-tagia, o neologismo, a palavra des-mantelada na sua grafia ou no seu conceito originais para explodir em novo significado de lucilante efeito.
Ao reler esta obra, que também é o retrato de uma época conturbada — e onde se reencontra Oswald em muitas das suas metamorfoses, com suas afirmativas ousadas e veementes e suas quinadas e recuos dialéticos — senti-o presente ao meu lado. Lem-brei-me de um dito de Walt Whit-man: “Quem toca neste livro, toca num homem”. É isso aí. TELEFONEMA é espírito e também a carne viva, palpitante, de um homem.
Mário da Silva Brito
TELEFONEMA
é uma antologia da colaboração jornalística de
Oswald de Andrade
que vai de 1909 até o fim de sua vida em 1954.
Vera Chalmers
pesquisou em diferentes jornais a produção oswaldiana, selecionou e estabeleceu os textos dessas crônicas e artigos que tratam de política, de literatura, do quotidiano, da vida intelectual e artística da época.
Precedeu-os de arguta e esclarecedora introdução. A obra resulta num retrato de Oswald e do seu tempo.
Mais um lançamento de categoria da CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

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