CONVERSA NA MADRUGADA SOBRE O FIM DO CAPITALISMO

– O que você acha, Fernando, o capitalismo vai acabar algum dia?

– Você quer que eu diga sim, você intui o sim, você quer o sim. Se a sua própria pessoa tem este Desejo tangente na cara e no inconsciente, por que perguntar? Só porque eu escrevo e estudo muito, sei bastante? A resposta está estampada até na cara dos meninos americanos com quem me relacionei, melancólicos, depressivos e impotentes, concretizando para mim aquela letra do Caetano: “Americanos sentem que algo se perdeu/Algo se quebrou, está se quebrando”… Se bem que aquele inglês – e então estamos falando, portanto, dos princípios do liberalismo, etc. – era jovial e vigoroso… Mas vou te responder com outra pergunta: você acha que os romanos pensavam que um dia o Império Romano acabaria? Não estou falando de qualquer império. É o Império Romano, o grande Império Romano, o complexo Império Romano, com todos seus imperadores, guerreiros, paganismos, vitórias, poetas, cidadãos, domínios, arquitetura e sociedade própria! O modelo ideal de império, regularidade e força. Acha que eles achavam que um dia acabaria?

– Não.

– E acabou. De uma forma patética, aliás. Vexatória – tal qual o vexame dos Estados Unidos no Vietnã. E isto para não falarmos sobre vários outros impérios que viraram pó, dinastias encobertas, períodos enterrados, mesmo toda a cultura helênica. Tudo acaba, até os dinossauros, meu Deus, os enormes dinossauros! Até Deus acabou, o judaico-cristão, e virou outra coisa. Dos gregos antigos restou a Obra, o Espírito da coisa, a arte, a filosofia, o pensamento. Stálin matou, perseguiu, prendeu muitos, mas Maiakóvski continua vivo e toda a vanguarda revolucionária. Os Estados Unidos, malgrado todo seu radicalismo nacionalista, todas suas atrocidades em guerras e nas direções econômicas, quando cair, vai nos legar Melville, Walt Whitman, Poe, Lou Reed, Patti Smith, entre outras coisas, e, como Machado de Assis já sentenciou, acabado o Império Britânico, restará Shakespeare, sempre.

– E quando ele, o capitalismo, vai acabar?

– Pudera saber! Dura mais 1 século ou 1 década. Não sei. Mas sei mais ou menos como pode acabar.

– Como?

– Primeiro, não existe capitalismo sem Estado, não fosse a intervenção estatal, o capitalismo por si só entra em colapso em qualquer lugar – equívoco falar em feudalismo, pois o Estado é tanto macroestruturas quanto microestruturas, e isto tanto Foucault quanto Gramsci viram bem… Nada parece apontar para uma revolução que substitua o capitalismo por um socialismo, e nem eu sei se isso seria bom, pois depende muito do socialismo. Se bem que o terrorismo, que tomou o lugar do comunismo depois da Guerra Fria, é uma espécie de revolução – as “potências”, as fronteiras imperialistas e capitalistas dos “desenvolvidos” e “superdesenvolvidos” não estão tão seguras… De endoginia, autofagia! O capitalismo é autofágico. Os bancos estão o sugando, nada pode ser feito. Além do mais, uma hora a vida pode se tornar insuportável no planeta – esta foi a aposta cósmica, ecológica, terráquea, do Hawking: comecem a procurar vida em outros planetas, logicamente ele não pensou que só a elite tem condições para tanto, e que estará salva lá no espaço nos escravizando aqui, enquanto restauramos o planeta que ela destruiu… Sinceramente, a própria Terra pode acabar com toda essa merda e continuar livre, leve e forte sem nós… Sinceramente, mais do que o fim, o que me preocupa é o que virá depois… Chomsky reivindica um “anarquismo” onde cada trabalhador possa gerir sua própria empresa, coisa que se cogitou fazer depois da abolição, mas os dirigentes das grandes empresas e do setor privado não permitiram. Se um modelo comunitário global, como pensam muitos socialistas, anarquistas, pacifistas, David Graeber, Paul Mason, Eduardo Supliucy e os defensores da Renda Básica Universal e Incondicional, ou uma atrocidade, uma oligarquia neofascista, como declarou Gunter Grass…

– E o que nos resta, enquanto isso?

– Para os otários, a alienação heideggeriana do cotidiano, a neurose, a vidinha, a lógica do rebanho, a superficialidade, a liquidez, a falta de espírito crítico; para os necessitados, a subserviência, a luta pela sobrevivência… Para nós, as microrrevoluções e as resistências, resistência como negação, dizer não, e como transformação de um status e de um zeitgeist. Aqueles versos do Drummond…

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não pode, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

…são mitigados por esses outros, que me animam:

“O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.”

– Bonitos.

– A axiomática do capitalismo, não só por conta de suas constantes crises, cria buracos, linhas de fuga deleuzianas, alternativas o tempo todo: do século 19 para o 20, era a figura do flaneur, do Carlitos, do vagabundo, e mesmo do gatuno, do ladrão, do morador de rua, que a paisagem capitalista e da Revolução Industrial não eliminou, ao contrário, dependendo da crise, do momento do capitalismo e do governo, apenas dissemina mais e mais. O perigo da perniciosa sociedade de controle (Foucault, Burroughs, Deleuze) está na explosão dos guetos e das favelas!… A axiomática do capitalismo cria devires revolucionários o tempo todo, mesmo devires criminosos, permite anticapitalismos e oxigênios a toda hora, criatividades, potências contra o mercado e sua censura econômica. E junto com eles todos os devires minoritários, e os drogados, os artistas (na acepção mais profunda e total da palavra artista), os alternativos, etc.

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