SER, DEVIR, IDENTIDADE, ÉTICA, O OUTRO, EU, DIREITOS, “MINORIAS”, ETC.

Desconfio desse papo de que “não sou bi”, “não sou gay”, “não sou mulher”, “não sou negro”, “não sou trans”, “sou gente”, que muitos repetem hoje em dia.

Como filósofo preocupado em refutar (ou mesmo destruir) a transcendência e aprofundar a imanência, devo dizer: isto é uma falácia. Nem preciso dizer que na nossa sociedade você é tratado – positivamente ou negativamente – sempre de acordo com suas características e dados específicos, portanto, essa bandeira, essa reivindicação não encontra respaldo na realidade. Mas a questão é ainda mais embaixo do que a noção sociológica, e para isto serve a Filosofia e este texto.

A negação é uma das armas mais poderosas da resistência, dizer “não”, mas, neste caso em particular, afirmar e se conhecer é que é resistir, afirmar a própria realidade em todas suas composições, como elementos de força, de política, de potência. Diz Félix Guattari: antes do Ser, há a Política… Resistência como afirmação, dizer sim (e negação de outras coisas, por exemplo, de um modelo opressivo dominante), como transformação de um status (social, histórico, econômico, político), de uma situação indesejada, e também como alternativa, linha de fuga, experimentação de si.

Não estamos nunca amorfos, informes numa massa “gente”, “humana” no sentido que andam empregando. “Gente”, “humanos”, etc. são sistemas mais ou menos neutros, incompletos, mais ou menos vazios, míopes diante da biodiversidade. Precisam ser conhecidos, preenchidos, construídos por cada um de nós, sozinhos e em comunhão, de forma até cartográfica. Parece que não andam usando tais termos para tratar da impessoalidade – exercício budista necessário. Quando empregados em torno de uma multiplicidade, de uma composição com suas minúcias, aí parece fazer mais sentido, mas não basta isto: é preciso mergulhar nessas minúcias, em suas potências, se conhecer.

O contrário tampouco é inteiramente verdadeiro, primeiro porque as pessoas não são apenas gay, apenas mulher, apenas negro, apenas miscigenado, etc. etc. etc. (porque podem ser, ou melhor, devir também várias outras coisas além dessas e porque todas essas não estão chapadas, apontam para vários outros seres e devires e profundidades) e segundo porque, conforme tenho escrito em vários textos e ensinado, o próprio verbo ser – “eu sou isto”, “você é isto”, “ele é isto” – é uma construção que não se nota em todos os idiomas, sociedades, culturas: por exemplo, há idiomas em que o sujeito é sempre oculto (russo, árabe e outros) ou simplesmente não existe verbo ser (tupi, japonês, hebraico e outros). O que ocorre então, por trás de tantos constructos, máscaras, rótulos? Não se saber exatamente quem se é ou quem não se é, estar aberto, experimentar, de repente virar. Ocorre o fenômeno do devir.

“Gente”, “ser gente” – forma ou noção completamente vazia, como tudo o que pretende ser dominante e universal. “Somos todos humanos, fazemos parte da raça humana” é um humanismo bem intencionado, um pacifismo muitas vezes necessário, sobretudo em épocas de guerra e/ou intolerância onde se urge uma direção comunitária nacional ou global, mas completamente falso. Diz o desconstrucionista Derrida num vídeo, com outras palavras que agora adapto de memória: “Não existe ‘animal’ pura e simplesmente. Unir, admitir nesta mesma palavra extremos enormes como moscas e ursos, gatos e golfinhos é sinal de equívoco e um dos grandes motivos da ignorância e violência contra os ‘animais’.”

Não nos relacionamos com “gente”, com “raça humana”, etc. Além desses valores serem vazios (e são vazios justamente por não terem devir – tal qual o “Ulisses”, o “hetero, macho, adulto, branco, monoteísta, etc.”, modelo dominante, supostamente majoritário, vazio, sem devir), são noções absurdas e incomensuráveis, no sentido pejorativo que este belo adjetivo possa ter, quando estamos diante de um sujeito. A própria palavra “raça” me causa aflição e incômodo; prefiro etnia, com todos seus processos e fluxos, acréscimos e composições, com toda sua riqueza e percurso histórico.

Este foi o grande erro das religiões, da moral, de várias ideologias (tanto de direita quanto de esquerda), de toda transcendência com suas formulações extrínsecas e universais, dos “Direitos Humanos” e até da psicanálise: também não nos relacionamos com “pai” e “mãe” simplesmente, como se essas denominações existissem por si só, pairando no ar, como se não fossem papéis cheios de agenciamentos, aglutinações, composições, ligações, como se não fossem bem mais complexos.

Deleuze e Guattari deram o recado seminal, que já começa a ser assimilado neste século: só nos relacionamos com nosso papai e nossa mamãe e todos os outros familiares numa situação sociohistórica ou mesmo geopolítica, desde cedo comparando-os com as condições e conjeturas específicas e minuciosas de seus patrões ou empregados, com as classes, modos culturais e comportamentos dos outros pais e mães, dos nossos avós, tios, etc. O modo como essa gente toda – sem contar a sociedade inteira, os amigos, colegas, inimigos, “superiores”, “inferiores”, desconhecidos – se relaciona conosco também é numa relação imbuída de cultura, história, geopolíticas específicas, complexas, profundas ou em superfície; o modo como reagimos a isto igualmente. A mesma coisa com as outras denominações autoidentitárias que citei no início.

Não deve se tratar, porém, duma mentalidade marxista sufocante, como se tolhesse nossa autonomia, como se estivéssemos presos e fossemos pouco criativos diante das condições materiais dadas antes de nascermos; na verdade, a noção de “autonomia”, ou o instinto (que esbarra num conceito duvidoso de “natureza humana”), ou mesmo a rebeldia, ou a revolução, ou a exceção numa linha de regularidade, são veios produzidos pelos próprios buracos do sistema, com suas discrepâncias e contrariedades (a axiomática do capitalismo, por exemplo, gera devires revolucionários, alternativas e devires criminosos o tempo todo), por onde talvez entramos no processo de individuação, para usar termo junguiano… Aliás, em Jung, a individuação “não exclui a pessoa do mundo, mas aproxima o mundo dela.” (On the Nature of the Psyche, CW 8, p. 432.)

Não estamos apenas marcados por nossa cor de pele, classe social, sexualidade, conduta: estamos experimentando o tempo todo dentro e fora disso… O sujeito que não experimenta – o másculo estreito e mal resolvido, o déspota, o machista, o fundamentalista, o preconceituoso, o moralista, o “pai de família”, o “cidadão de bem” – não tem uma personalidade completa, é manco. É também, em termos de Espinosa, triste, por impedir a própria potência e querer impedir a potência alheia. A alegria é o efeito do preenchimento de uma potência. (Todos esses experimentam às escondidas ou subjetivamente, ainda que se autocensurem e censurem os outros com noções de “pecado”, “culpa”, “má consciência” – hipócritas!…)

Repito: ninguém é “gente” e “pronto, acabou” – a não ser que se queira gritar, reivindicar, defender uma noção de lei coletiva, universal em casos onde não há outra saída, onde a questão é basilar, é de sobrevivência, é de afeto, onde, portanto, tudo o que é vida se equipara: “Gente é pra brilhar,/ Não pra morrer de fome.” (Caetano Veloso). Somos, com acréscimo disso, todos biodiversos, segmentados, específicos em questão física, intelectual, política, sexual, social, econômica, étnica, etc. etc. etc. Não é fascinante?! Há toda uma potência específica e uma profundidade minuciosa nesses devires: devir mulher, devir negro, devir miscigenado, devir homossexual, etc. É muito importante, portanto, existir um amadurecimento das identidades todas, porque este é o passo rumo à conscientização.

Exemplo concreto – vejamos as atrocidades recentes contra trans, que nos ferem a sensibilidade e os afetos… Mas por que me parece estranho que trans “brancos” e LGBTs “brancos” ou, melhor dizendo (já que brasileiro é intrinsecamente miscigenado e não branco branco – com raríssimas exceções dos descendentes diretos de europeus, embora a própria Europa já esteja em processo de miscigenação), “com cor de pele mais clara”, digam que são todos iguais? Sim, de fato, possuem encontros possíveis entre si, dentro da composição lésbica, gay, trans – que, como toda composição, não é monolítica. Por que acho estranho, não a sua indignação, que também é a minha, mas a afirmação de que “somos todos iguais”, “parem de nos matar”? Porque o fator “cor de pele” conta talvez como nenhum outro neste país e mesmo no resto do mundo. Assim, além do fator trans, estão morrendo trans negros, ou mulatos, ou miscigenados, pobres, periféricos, enfim, todo um conjunto que compõe o sujeito além do fator trans, e que portanto o faz ainda mais aprofundado no devir minoritário do que os de cor de pele mais clara, mais incluídos ou mais ricos, etc., toda uma camada minoritária preponderante para o preconceito, o estigma, a violência, a morte. É urgente saber isso – para o próprio autoconhecimento, consciência de si e do coletivo, para encontrar as causas dos problemas, sobretudo saber e notar isto para mudar, transformar o status, a situação, a sociedade nos seus meandros.

Deleuze, numa Carta a um crítico severo, surgida em 1973, escreve: “…nenhuma bicha jamais poderá dizer com certeza “eu sou bicha”.” E isto não por dúvida em relação à própria sexualidade, mas porque trata-se de uma espécie de devir que surte efeitos, mesmo análogos para quem se deixa experimentar, ainda que diga: “não sou bicha”. E, depois, porque “ser bicha” corresponde a ter ligações com muitos outros modos de se viver em si, tudo formando uma rede composta, múltipla, plural, rica – o feminino, o andrógino, o queer, a classe, o lugar, enfim, toda uma constelação semiótica e semiológica que cabe a cada um descobrir e construir. Existem zonas de intensidade no corpo de cada um de nós, zonas próprias com suas populações, grupos e espécies que nos habitam.

Eis a imanência na prática, em si, em contraposição a toda “transcendência”, a um modelo (que sempre nos borra, nos aliena de nós mesmos, que sempre quer nos capturar e nos controlar, que nos projeta para fora, extrínseco) “universal”, “humano”, “geral”, “dominante”, “majoritário”, “humano”, “moral”, “regra”, etc.

É preciso construir este si em si constantemente. Agora, sabemos que isto não basta por si só, sobretudo porque vivemos em sociedade, ainda que, conforme escrevi anteriormente, ela própria crie brechas que nos permitem sermos a exceção, a alternativa, a subversão; porém, em matéria de leis e políticas em relação às “identidades”, é o que aprofundarei no meu livro “O que é ser de esquerda?”: rejeitar o caráter meramente simbólico e discursivo dos Direitos Humanos – vejam como, novamente, estamos diante de um sistema e discurso abstrato, universal que, por mais bem intencionado que seja, é infecundo, meramente platônico, idealização: basta ver que instituições como a ONU não movem um dedo para resolver de fato os problemas pelo mundo. Não existem direitos humanos (valor de transcendência, de moral, etc.) Penso que existem direitos da vida (valor de imanência, de concretude, de especificidade, de ética): direitos pelos quais é possível viver; agenciamentos possíveis e jurisprudência em constante interpretação e aplicação das leis (o Direito é isso), onde o que se chama de “direitos LGBTs”, “direitos dos negros”, “direitos das mulheres”, etc. tragam ideias práticas e criativas de funcionamento social, político, econômico, cultural, educacional, etc., enfim, de vida, de viver!

Muitas pessoas, tanto os reacionários e fóbicos quanto os progressistas e liberais, vêem um perigo na diferença – acontece que, em termos de ética, quanto mais eu afirmo minha diferença, mais eu fortaleço o comum, porque a “minha” diferença geralmente não passa de um devir (minoritário) que o outro também vira frequentemente, ou é capaz de virar, experimentar, e eu a dele, zona onde somos capazes de gerar encontros verdadeiros, ainda que esta diferença em mim seja explícita, física, condição biológica própria e não geral, modo de viver prático, público, e a dele “subjetiva”, apesar de concreta: “Sou um bicho, um negro” (Rimbaud), Chico Buarque e suas mulheres todas. O sujeito que já entendeu isto, que é capaz de abranger o “outro” dentro do seu próprio campo de percepção, que experimenta, que sabe que todo caráter conservador do absoluto e do fixo não passa de uma farsa, de uma hipocrisia, que sente que somos metamorfoses ambulantes, que somos plurais, inclusive em relação a nós mesmos, é automaticamente capaz de amar, respeitar, aceitar, tolerar as pessoas nas plenitudes próprias delas mesmas.

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