ELOGIO DA PREGUIÇA / Não tenho carro, não sei andar de bike…

Não tenho carro, não sei andar de bike. Adoro a liberdade de pegar carona numa moto, mas me previno de ter uma. Amo cavalos desde criança, por isso tive inveja das fotos que me chegaram pelas redes sociais dos entregadores de comida (horseboys) de áreas rurais em cima de equinos, todos felizes, como se a gasolina e o diesel pudessem ser extintos hoje mesmo que a humanidade continuaria, desfilando, porém, numa espécie de atraso, me fazendo recordar a frase irônica, ácida, crítica do Rei da Vela do Oswald, de 1929 (tem peça mais atual?!): “Estamos ficando um país modesto: de carroça e vela!” Sim, amo cavalos, seria uma alternativa até mais romântica, sustentável, eu abandonaria meu velho sonho de ter um fusca vermelho por um enorme cavalo viril, eu correria em cima dele pela minha praia de Santos diante do mar, faria alguma revolução seminal perto de São Paulo, às margens do Ipiranga, aliás, seria muito condizente com a minha altura de praticante de pólo e hipismo, mas moro em apartamento, área urbana, litoral e capital, e, além disso, tenho medo de cavalgar e cair e ficar bobo. Impotente como um Nietzsche, cuidado (junto com suas obras) por uma irmã nazista (embora a minha não seja), antes tão visceral, nos escritos filosóficos e poéticos, nas longas caminhadas italianas ensolaradas… Aliás, diz a lenda que o estopim do seu colapso mental foi ver um cavalo sendo espancado em Turim. O problema é ficar bobo! Ficar tetraplégico ou sem poder andar como o Superman (não o do Nietzsche, mas o daquele ator de cadeira de rodas, que o interpretou e que caiu dum cavalo) não é uma grande tragédia para quem, como eu, é preguiçoso e tem rica subjetividade. Os tetraplégicos também têm libido, gozam, muitos até mesmo gozam pela mente, pela alma, tesão sublime que se prolonga e não morre simplesmente numa ejaculação; orgasmo cósmico. Stephen Hawking manteve-se lúcido até o fim. Não se horrorizem. É que eu sofro de clinomania, adoro uma cama! Livros espalhados por perto, meus escritos, minha gata dormindo aos meus pés, uma boa companhia ou só… Nem por isso viajo ou me locomovo pouco; tem gente por aí que viaja “muito”, mas é como se não viajasse, apenas passam por momentos sucessivos, muitas vezes descartáveis, sem grandes espessuras, há corpos aparentemente mais ativos do que o meu, porém são maquinais e sem vida como aquele dos tempos modernos do Chaplin, tem gente (milhões) que parecem fazer muitas coisas, se locomover muito, mas na verdade estão alienados pelo cotidiano e pela rotina; aqui entramos na discussão entre a quantidade e a qualidade das coisas; a questão da intensidade; ah, quantas vidas sou capaz de viver num só dia, ah, o turbilhão que é a minha mente e os meus desejos e projetos todos, sou um furacão, uma fábrica, uma represa, máquina deleuziana incessante, nômade e cigano dos pensamentos e sentimentos, da minha casa e do meu ser; existe, portanto, toda uma cartografia variada e enriquecedora em meus dias, existe uma geografia da solidão – este será o título de um dos meus livros! A psique tem uma zona considerável que extrapola e independe de tempo e espaço. Não foi Artaud quem gritou em sua peça radiofônica: “Podem me prender, atem-me se quiser, porque não há nada mais inútil do que um órgão!”? Rimbaud abandonou a poesia e se deslocou numa longa jornada de anos, cheia de aventuras e sofrimentos, que envolveu muitas cidades europeias e explorações pelo continente africano, até terminar amputado e imóvel; Van Gogh não viajou menos pintando seus quadros ou no asilo de loucos. As danças do Kazuo Ohno costumavam sagrar cada mínimo gesto de forma demorada, os filmes do Tarkovski são tidos como lentos, mas é porque atuam no tempo real da vida e de kairós, os personagens de Beckett são como eu, se movem pouco ou não se movem e fazem longas viagens…

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