Geografia (interna e externa) da homossexualidade? Sobre dois contos meus.

Hoje, um colega meu, residente do interior, leu dois contos meus (de autoficção, diga-se de passagem) que publiquei recentemente nesta rede social – “O Ator” e “A Autobiografia Impossível”. Procurem e (re)leiam. Amou, elogiou, mas fez a seguinte observação:

– Sugiro que, por ser comum a abordagem homossexual em seus escritos, elabore algum conto ou crônica ou poema que problematize a dúvida sobre o desejo sexual do outro, aquele outro aparentemente hétero, seja casado ou não, evangélico ou católico, pedreiro ou cabeleireiro. Algo que aborde o sofrimento de milhões de homossexuais masculinos e femininos no armário, os quais sequer possuem coragem de admitir que leem algo sobre seus próprios e naturais desejos. A dificuldade de relacionamento destes seres clandestinos, os amores impossíveis, especialmente quando caem no azar de amar alguém que não é homossexual ou que talvez até seja, mas que, igualmente, não pode se revelar. Em “O Ator”, em que pese toda a sua beleza, é tão natural, tão fácil a maneira pela qual dois rapazes se aproximam, como se fossem um homem e uma mulher, mas não… são dois homens numa sociedade absurdamente severa, intolerante. Em “A Autobiografia Impossível”, trata-se de um casal, de maneira naturalíssima, sem dúvidas ou preocupações, onde a temática poética, existencial, universal extrapola o problema específico de ser homossexual diante da sociedade – o aspecto homossexual é levado apenas à identificação intimista ou espiritual de um mesmo eu no outro. Seus personagens homoeróticos se aproximam ou estão juntos de forma fácil demais. É bonito, é lindo, é muito corajoso, mas isso não condiz com a realidade…

Não pude responder outra coisa senão:

– Você já morou em São Paulo?! Ou já foi ao Rio de Janeiro?!

E continuei:

– No metrô… Na Paulista… Na Augusta… Gay Caneca… Mãos dadas na praia – na barraca específica ou não… Parque Trianon ou mesmo no Parque Buenos Aires… Não à toa, são estes os locais dos dois contos referidos e de outros… Vivemos em ambientes muito diferentes. Não que seja o paraíso, não que não haja preconceito e ataque e sofrimento e omissão, mas me interessa o microcosmo enriquecedor e espirituoso propiciado nas megalópoles e em alguns litorais urbanos, para além do tabu da paixão atrapalhada, diabólica de Riobaldo e Diadorim lá no sertãozão patriarcal. Vivo, felizmente, num tempo bem diferente ao do Mário de Andrade e do Fernando Pessoa, e quero cada vez mais aprofundar este “tempo diferente” na minha vida e obra… Quero fortalecer, não a “naturalidade”, mas o que existe de assumido conscientemente, em extraordinária profundidade e maturidade. Acho que, assim, acabo chocando muito mais, do que se fizesse denúncias – embora elas sejam importantes e eu as tenha em mente para outros escritos. Porém, as gerações mais velhas, e mesmo as atuais que encontram-se ainda presas num certo tipo de mentalidade inculta, começam a estranhar os signos que apresento ali, porque eles se desviam das expectativas delas do que é ser homossexual. Aliás, apresento, muitas vezes, narrativas, situações, cenas mil vezes mais poéticas e estéticas do que se fossem heterossexuais, que perderiam o sentido e a razão se assim fossem – nos dois contos referidos, me interessou muito mais representar o que extrapola os tipos sociais, algo próximo da fímbria da existência e da arte, pois, para mim, o homoerótico é isto também, é esta bela e trágica margem extrema, como São Sebastião, flechado, mas de pé e lindo… Não estou fugindo da suposta realidade, estou fazendo frente aos esteriótipos, aos rótulos e clichês da mesma, onde, pelo menos nesses dois contos, tudo isso já parece superado – não necessariamente para a sociedade, mas para os próprios personagens, que assumem uma postura absolutamente madura em relação ao outro e a si próprios. Enfim, é como se isso já não importasse mais, como se o que importasse agora para eles fossem outras questões maiores, mais pertinentes, mais fundas, além da superfície. Nos dois contos referidos, os personagens, apesar de serem inspirados autobiograficamente, são, mais que tudo, símbolos. Quero fortalecer isso, essa coragem existencial e artística! Dentro da minha prática e bandeira bissexual, faço questão de me autointitular também homoerótico, porque, para mim, isto representa até uma certa sofisticação e superioridade intelectual e existencial contra padrões, regras e tipos dominantes, e de ter raiva contra tudo o que se diz sigiloso, tudo o que é escondido, camuflado, medroso: esta atmosfera de um homossexual se apaixonar por um “hétero”, de um “hétero” casado ter relações com homossexuais, a atmosfera dos sigilosos e afins, tudo isso me irrita e me causa sentimentos de profundo ódio, como sinto contra tudo o que é convencional, moralista e hipócrita. Não faz parte do meu convívio, tenho repulsa e ojeriza a toda essa atmosfera hipócrita, covarde, conivente. Contribuo muito mais para a dissolução deste “mundo” decadente apresentando e fortalecendo “outro” mundo, também existente e real: a forma como os homoeróticos querem viver e se ver. Meus personagens são artistas ou filósofos: transitam, portanto, em meios abertos e cultos, acima do senso comum rasteiro – além da geografia externa, isto também explica muito. Pode me chamar de encastelado, mas o armário já está completamente ultrapassado, mesmo que persista em regiões provincianas e tradicionalistas, onde há maior carga discriminatória; sim, apesar de persistir em certas regiões mais do que em outras, e, mesmo que sua persistência dependa também de certo meio social e familiar punitivos, já acabou, já foi destruído faz um tempo; hoje, observe que o que conta mesmo – com o auxílio, de um lado, das cooptações liberais e do mercado capitalista, propagando que ser gay é cool, são descolados, porque, afinal, os LGBTs têm renda, e, do outro, da consciência política progressista mais sincera na consolidação de direitos – nas novas gerações o que conta mesmo é “bancar-se” já estando completamente fora dele, num caminho sem volta, correndo todos os riscos, consequências e responsabilidades de se assumir, criando, até mesmo, máquinas de guerra e de desejo (pretendo escrever mais narrativas neste sentido – leia, por enquanto, meu escrito filosófico “Potência e Ética dos devires minoritários” disponível na rede e no blog), e, no caso de alguns dos meus contos (adiantados no tempo e na vanguarda da alma Humana), quando não ataco também num erotismo ou mesmo pornografia bissexuais escancarados, provocadores, inovadores, sem precedências na literatura brasileira e quiçá mundial, a suprema aceitação e o que há de basilar, de profundo depois dela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *