…”Mas a lua furando nosso zinco…”?!

“Furando nosso zinco”?!

Sempre fiquei intrigado com este pedaço da letra de “Chão de Estrelas” (Orestes Barbosa/Silvio Caldas), cantada por todos os nossos grandes cantores, e provavelmente a mais linda seresta (ou samba-canção?) da música popular brasileira: “A porta do barraco era sem trinco,/Mas a lua furando nosso zinco/Salpicava de estrelas nosso chão…” Manuel Bandeira achava lindo o verso seguinte, declarou escolher ele como o mais belo verso em língua portuguesa: “Tu pisavas nos astros distraída…” “Chão de estrelas”, “estrelas no chão”, tudo isso é fácil de assimilar: basta descer ou subir um morro ou a serra e olhar lá embaixo as luzes da cidade, mas a palavra “zinco” sempre me intrigou, sempre me foi uma incógnita. “Zinco” é palavra de pouca poesia lírica, remete automaticamente ao elemento químico, sobretudo para um camarada como eu, que não nasceu no morro. Por um tempo julguei que era mero efeito para rimar com “trinco”. Caetano Veloso a usou – e isso é típico dele, para homenagear seus ídolos e reverenciar ou mesmo contribuir criticamente para a tradição do cancioneiro popular brasileiro – na música “Como 2 e 2”: “…a mesma porta sem trinco, o mesmo teto e a mesma lua a furar nosso zinco…” Mas esta referência intertextual não ajuda em nada a desvendar o enigma. A chave está noutra famosa e belíssima canção. Um dia, cantarolando – sei essas músicas de cor, herança do meu pai – outra grande canção, “Ave Maria do Morro” (Herivelto Martins), dei com a resposta: “Barracão de zinco, sem telhado, sem pintura, lá no morro, barracão é bangalô…” Sim, imaginamos um barraco construído com este material, o zinco, evocando a cinematografia das “nossas roupas comuns dependuras na corda qual bandeiras agitadas, parecia um estranho festival” e toda a atmosfera de ter o “cantar alegre de um viveiro” (a passarada que ali canta, a algaravia da felicidade!), furado pela luz da lua que deixa cair em todos seus buracos e imperfeições os astros aos pés da amada, “pomba-rola que voou”…

Comments

  • A música do Caetano,eu achei que fosses citar(livro)Tropeçavas nos astros desastrada(nada a ver com zinco),e a segunda,achei que fosse citar aquela que Elizeth Cardoso consagrou,Vai barracão,barracão de zinco.Como se vê,uma música vai puxando a outra.

    Ademar Amancio 23 de setembro de 2018

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