DIÁLOGO COM UM VENEZUELANO

Tive vários casos com estrangeiros. Esses casos – com americanos, com inglês, italiano, francês – que tenho contado vez ou outra neste blog extrapolam o teor pessoal da fofoca; para mim, atingem sempre um nível geopolítico, mesmo histórico e coletivo, e ainda servem para o gênero literário da crônica, tão genuinamente brasileiro…

Numa madrugada fria do ano passado tive com um venezuelano. Já escrevi isto aqui no dia seguinte ao ocorrido ou no mesmo dia, mas reescrevo com outras palavras pelo valor antes histórico do que íntimo, e desenterro sobretudo em face das perguntas mal intencionadas sobre a Venezuela que andam sendo feitas por esses jornalistas-fantoches da direita diante dos presidenciáveis de esquerda, tudo para movimentar espectadores, telespectadores, ouvintes incautos que não se aprofundam nas questões externas.

Um pouco mais velho do que eu, médico, morando em Santos há um ou dois meses. Abril de 2017. Foi dentro do seu carro – carro de alto padrão, aliás -, ele em cima de mim, que eu quis ouvir da boca de um próprio venezuelano a situação do país. Diversos outros textos e vídeos por aí – os justos, não os manipuladores – darão conta da parte teórica e minuciosa. Meu texto é mais direto e fiel.

– Você não é da Espanha, conforme me contou no aplicativo…

– Não.

– Nem da Argentina.

– Minha mãe mora na Isla Margarita.

– Onde fica isso?

Notei que a resistência em se dizer da Venezuela só poderia vir de uma vergonha. Não sei até que ponto esta era uma vergonha tipicamente latino-americana (complexo de inferioridade dos países subdesenvolvidos da América do Sul diante dos desenvolvidos, Estados Unidos e da Europa, a mesma vergonha de ser brasileiro da síndrome de vira-lata – vergonha esta que talvez só os orgulhosos argentinos não têm) ou se era uma vergonha do momento, do zeitgeist venezuelano: caos social, atraso, falta do básico para de viver no dia a dia, diáspora, despotismo, etc. (Machado de Assis, em crônicas de finais do século 19 que valem a pena serem lidas, sobretudo aquelas recolhidas para a Gazeta de Notícias, conta que a Venezuela já vivia questões pungentes naquela época…)

– Pode me dizer o que está acontecendo de fato na Venezuela? – perguntei.

– Quieres la mentira o la verdad? – ele perguntou, e esta é a única vez que registrarei sua fala em espanhol, pois uma frase cinematográfica dessas perde todo o sabor quando dita em português; um bordão, enfim, equivalente ao “Hasta la vista, baby!”…

– A verdade, sempre a verdade! – respondi, e nos entendíamos cada um na sua língua-mãe, provavelmente ele mais do que eu, pois tinha aquela estranha mania dos falantes de espanhol de falar muito rápido.

– Porque a mentira é o que conta a televisão.

– Sei bem. Ainda bem que você sabe disso.

– A verdade é que os Estados Unidos estão numa guerra pelo petróleo.

Antes dele continuar, pensei em fazer uma brincadeira maldosa mas pertinente que vi no filme “Elogio ao Amor” do Godard; a personagem francesa pergunta para o americano: “Você é americano? De qual país?” “Dos Estados Unidos.” “Sim, mas o México também se chama assim, Estados Unidos do México, e são chamados de mexicanos. Brasil e Canadá também são americanos, mas são chamados de brasileiros e canadenses, respectivamente. Vê?! Os cidadãos do teu país não têm nome! Por isso roubam os dos outros, assim como roubam as histórias dos outros, porque não têm História.” Roubam também petróleo, como vinha dizendo o meu venezuelano:

– A verdade é que os Estados Unidos estão numa guerra pelo petróleo. Chaves fez um ótimo governo, não se rendeu à lógica dos Estados Unidos e do elitismo, fortaleceu o país, e antes de morrer disse para a população que Maduro era seu sucessor, que deveríamos votar em Maduro se quiséssemos alguém que lutasse por nossa gente e não roubasse. (De fato, procurei mais tarde, há este vídeo disponível no YouTube e afins.) Mas Maduro não tem a mesma competência que Chaves, está longe de ter. (Pensei logo em Lula e Dilma, apesar das diferenças, mas em matéria de competência e traquejo…) Além disso, o imperialismo americano tem boicotado economicamente a Venezuela e suas negociações, de propósito, como sempre aqueles filhos da puta fazem, de olho no nosso patrimônio, gerando caos social e escassez de produtos, pois são eles que praticamente dominam a economia e decretam as grandes decisões econômicas. (Tudo igual, apenas diferenças de proporções…)

Ouvi atentamente. Sem nada poder dizer ou fazer, comentei:

– Aqui também estamos num mal momento. Farsa do impeachment, cobiça internacional pelo pré-sal, bancos de olho no gasto público brasileiro, classe média raivosa, seletiva e manipulada por uma mídia corrompida, corrupção e impunidade de políticos e capitalistas assaltando o poder…

– Sim, e vocês não fazem nada! Um velho abusando de uma moça!

Havia dupla indignação e escárnio na sua fala, como se fosse para não se sentir por baixo.

– Ela não é nenhuma coitada, é outra indolente interesseira! E fazemos, sim, há protestos…

– Não vejo grandes indignações!

– Há denúncias também, mas ele tem barganhado grande parte do Congresso. Quando sair, as denúncias continuam valendo.

– Mas como a família brasileira aceita aquilo, um velho corrupto com uma puta?!

– Como assim, a família?! Ela foi vendida como “bela, recatada e do lar”! Eles representam toda a hipocrisia da família brasileira, com seus valores espúrios de tradição, de decência, de conservadorismo! E não comece a falar mal do meu país, esses elitistas, bandidos, psicopatas não têm nada a ver com meu país, esta quadrilha, e, aliás, estamos melhores do que vocês, infelizmente, mas não fosse assim você não estaria aqui, trabalhando.

Creio que não nos aprofundamos. Havia um mal estar mútuo, não entre nós dois, pois, no final das contas, estávamos do mesmo lado, mas o mal estar tão comum a este século, que notei sobretudo (e de forma ainda mais irreversível do que em mim e no venezuelano) nos meus garotos americanos: o mal estar da impotência e da melancolia, como se um nó difícil de desatar emperrasse nosso destino potente, que era o destino da própria América Latina.

Ele tomou o volante e partimos para seu pequeno apartamento perto do mar. Engana-se quem pensa que foi só isso; este diálogo específico não durou muito, na verdade. O resto foi amor de uma noite só, onde Brasil, Venezuela, América Latina, Estados Unidos, planeta, política, economia, caos, família, destino não tiveram vez.

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