UMA DEFESA E UMA CRÍTICA DA ARTE CONTEMPORÂNEA

1. A DEFESA: Não adianta dizer simplesmente que é feia, estranha, solipsista, masturbatória, não entendível. Tudo isto revela mais do próprio espectador, incapaz de fruir, do que do artista e sua obra… É a própria imanência conquistada, a imanência dos processos. Uma conquista sem precedentes na história da arte. Deixou de lado ou pulverizou as estéticas, trouxe as poéticas. A última transcendência foi a do modernismo e das muitas vanguardas modernistas com seus propósitos ainda de sonhos, promessas e apostas formais, organizados até a metade do século 20. Capaz de suicidar a dialética com a própria dialética, a arte contemporânea, seja pós-moderna ou não, abandonou o platonismo renitente do Ocidente e conquistou a própria imanência do processo artístico, trazendo novos signos à tona.

2. A CRÍTICA: Os signos de uma obra não estão “soltos no ar”, pairando no ar “do nada”, como se ela fosse vazia e só fosse possível preenchê-la ou torná-la arte tão somente por causa de uma interpretação qualquer solta na cabeça da gente. Além do mais, uma obra de arte tem de ser uma obra de arte em qualquer espaço. O que há de mônada, o que há de fixo resistindo no infinito e nos desdobramentos, lidando com o próprio sentido da entropia, é arte, mesmo obra aberta. Desconfie, portanto, da arte contemporânea que só vira arte dentro de museu ou espaços afins. Eis a crítica do próprio Duchamp… Não é o espaço que dá aval ou critério a respeito de um poema, uma peça, uma música, uma escrita, um filme, qualquer arte, ainda que, dependendo da obra, o espaço seja imprescindível. Não é qualquer instituição que venha antes da própria arte. A própria arte tem seu aspecto de autonomia independentemente (ou interdependentemente) do contexto, do lugar, do espaço, dos elementos adjacentes a ela: na rua, no semáforo, dentro de um carro, no museu ou no beco, numa página, numa parede ou no chão, antinstitucional ou não, será obra, será arte. (O teatro, por exemplo, fez e faz isto quando quebrou/quebra com o palco italiano, vai às ruas, às arenas, às garagens… Um grande filme continuará sendo o filme que é seja exibido em praça pública ou no ótimo CineSesc…) Muito do oportunismo, corrupção, superficialidade, falta de talento, charlatanismo e má qualidade da arte contemporânea está atrelada a esta discrepância.

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