Pequena resenha do disco Elis, de 1977

A partir de 1976 com Falso Brilhante, como se não bastasse ser frequentemente considerada a maior cantora do Brasil por levar ao máximo técnica e emoção, fez discos e espetáculos conceituais e inovadores como se nunca fez antes. Bastava cantar, como fazem as grandes cantoras, mas não, escolhia a dedo repertório, concebia todo o espetáculo e disco através de um tema em comum. Este, por exemplo, que acabou virando o show Transversal do Tempo, é o álbum “triste” da Elis, ou extremamente sério, político, sem nenhuma canção de amor (em “Sentimental Eu fico”, ela afirma AMAR NÃO ME COMPETE e na canção final insinua, numa rima duvidosa, que o amor é a ausência de engarrafamento). Esse disco tem atmosfera de repressão, opressão, tristeza, esperança, revolta, reação, mas sobretudo de grande obra de arte realizada num tempo de sistema militar/político em geral que já demonstrava seus descalabros sociais, suas consequências e – quem sabe, pelo menos a título de esperança – seus estertores. A capa também é signo importante, traz uma imagem sóbria e amadurecida da cantora que antes animava multidões com sorrisos televisivos. Aqui, estava grávida de Maria Rita (por isso no vídeo com Milton Nascimento aparece sentada.) Considero esse álbum conceitual, com colagens, retratos e personagens da ditadura e do Brasil em geral: o empregado explorado que sonha em ter a “vida boa” do patrão para cantar e jogar livremente como os escravos de Jó (Caxangá), a crítica irônica ao alienado, ao que finge não querer ver a situação política e “coro” pacífico (personificado solitariamente pela bela voz de Elis) à espera de “algum descuido” contra o mal na esperança explícita que o regime militar acabe logo (Colagem), narrativa do imenso contraste social entre o pobre e o rico, o citadino e o bucólico, o campo e o urbano (Morro Velho), um discurso direto, mas ambíguo/hermético (provavelmente para driblar a censura) pela liberdade que virá ou pela prisão vigente (Qualquer Dia – “logo quem me julgava morta, me esquecendo a todo custo, vai morrer de medo e susto quando abrir a porta”), a simplicidade e a fé do caipira (Romaria), a prostituta e todas as características do seu submundo dentro de uma época terrível (A Dama do Apocalipse), o medo e a insegurança que logo transformam-se em hino de certeza absoluta e mística do fim do regime militar/de qualquer regime opressor (Cartomante), a perplexidade e a impotência do cidadão consciente/do artista (Sentimental eu Fico), e por fim, mas não menos importante, a artista que está no meio disso tudo e se sensibiliza (Transversal do Tempo). É claro que Elis foi bombardeada de ambos os lados, só queria cantar, independentemente da patrulha ideológica e dos militares (só logrou essa liberdade com seu show derradeiro, Trem Azul, coincidindo com a abertura política no começo dos anos 80), mas seu material engajado é importante, não só em termos de letra, de registro fônico, mas também em termos musicais (mérito dos compositores e músicos), de arranjo (mérito de César Camargo Mariano) e de canto (mérito de Elis Regina)… Disco lindo, visceral, absolutamente lendário, histórico! Ouça com fone de ouvido ou num bom aparelho sonoro.

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