Quando contei pra minha mãe, ainda pequeno, que queria ser escritor…

Quando contei pra minha mãe, ainda pequeno, que queria ser escritor, ela respondeu na hora, com a crueldade que só as mãos sabem usar: “Tá, mas trate de arranjar outro emprego paralelo, senão vai morrer de fome.” Magoei, não entendi, me achei injustiçado, incompreendido. E se eu tivesse dito que, ainda por cima, era poeta? Porque escritor pode se tornar best-seller, mas poetas não, são sempre pest-sellers… Quando então ela contou para o meu pai, numa de suas visitas em casa, que eu gostava de ler e de escrever, que eu queria ser escritor, ele começou a me dar livros e mais livros. Queria que eu estudasse. Lembro do longo dia em que ele me levou num sebo de livros no centro velho de Santos. Mas nas semanas finais de sua vida, já doente, parecia ter se arrependido, quis recuperar o tempo perdido desesperadamente, como se antevisse meu futuro. Começou a insistir para que eu, que sonhava com a vida dele de funcionário público aposentado do litoral, trabalhasse. Chegou até mesmo a dizer para um colega, dos vários com o qual jogava bola na praia, que me arranjasse qualquer coisa, nem que fosse limpar chão. Tarde demais. Tadinho…

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