Os assassinatos fazem parte da vida

Gente! Vejam só o que é a Natureza, ou “isto” que chamamos genericamente de natureza!

Mais de 100 kgs de corais ‘assassinos’ são retirados da Laje de Santos, SP, conforme mostram os noticiários (https://g1.globo.com/google/amp/g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/mais-de-100-kgs-de-corais-assassinos-sao-retirados-da-laje-de-santos-sp.ghtml). “Espécie invasora coloca em risco o equilíbrio da biodiversidade do santuário. Pesquisadores e monitores retiram os corais com martelos.”

Ora! Não fossem os pesquisadores e monitores, isto é, não fôssemos nós, humanos, quais seriam as consequências?! E por que evitá-las?! Com martelos, pois nenhum dos corais cogitou um tratado de paz, uma trégua…

Meus caros! Nada de poluição, fumaça, química, lixo no oceano: a própria Natureza dá cabo de si mesma, ela própria se come, e vai nos comer – sim, porque engana-se quem pensa – muitos vegetarianos e ecologistas e, claro, industrialistas e capitalistas, pensam assim – que estamos no topo da pirâmide e da evolução: os vírus são os nossos grandes predadores, sucumbimos diante deles, sem falar das doenças mortais causadas por outros seres vivos, sem falar dos meteoros e outras coisas que destruíram até os dinossauros, sim, os dinossauros!…

Mas como é mesmo aquele ditado do Lavoisier que aprendemos na escola desde pequenos? Minha adorada professora de Biologia Helena Maria repetia tanto que decorei pra sempre: “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Até a cabeça de Lavoisier rolando da guilhotina…

O que tudo isto quer dizer?! Por que, assim como ocorreu com Voltaire e os iluministas diante daquele terremoto de Lisboa de 1755, matando homens, mulheres e crianças “inocentes”, um “microfato” como este me suscita tantas filosofias e reviravoltas internas?! Não foi só o fato do evento ocorrer perto da minha Santos, naquela ilha importante que, mais do que servir para o mergulho, serve também para a biodiversidade… (Bom, diante da fotografia de Carl Sagan, do pálido ponto azul chamado Terra, guerras, protestos e revoluções e atos monumentais também são “micros”… O perspectivismo, leibniziano ou não, é sempre mesmo fantástico…) Revelo o motivo: tenho me debruçado nestas questões ultimamente; é porque certas páginas de Nietzsche, tão amoral, tão afirmador da realidade e da vida, me deixaram de cabelo em pé: a rejeição das igualdades, a aceitação do escravismo e da exploração… Angustiado, procurei alternativas para refutá-lo ou, melhor, encontrar brechas e alternativas neste pensamento.

Outras dúvidas inúteis surgem: e os monitores e pesquisadores com seus martelos foram menos “assassinos”? É óbvio que agiram com boa fé e com a melhor das intenções, para proteger aquele patrimônio todo, mas isto na perspectiva dos invadidos, não dos invasores…

Não é fascinante? Quem reivindica o fim da invasão, o fim do assassinato só pode estar louco, quer inventar um mundo impossível, ainda que seja possível evitá-los e procurar melhores alternativas. E me estranha escrever isto, logo eu que, desde pequeno, nunca quis matar insetos que invadissem minha casa – ainda hoje não mato lagartixas nem mariposas, ainda hoje me indigno e me arrepio diante de um assassinato como o do menino Marcus ocorrido esses dias… Não, não quero ser omisso nem conivente nem conformado, são casos que podem ser evitados! Mas os dos corais também podem, como puderam.

Não há desumanidade, é tudo humano, maravilha e horror – é tudo “natural”? Isto não arrisco afirmar.

Nem arrisco a dizer que o assassinato é “natural”, que faz parte da “natureza humana” (conceito que dá pano pra manga e faz lembrar o famigerado debate entre Foucault e Chomsky), nem mesmo arrisco a legitimar a Natureza, já que a noção moderna de contrato social e de construções sociais – como as ações e os problemas são construídos culturalmente – jamais deve ser deixada de lado: “o que leva uma pessoa a assassinar outra?” é sempre mais sensato perguntar, diante do desespero, da psicologia, da miséria, da pobreza, da sociedade, do capitalismo selvagem, da pressão, do crime, do Estado policialesco, do contexto da violência, que podem ser erradicados, resolvidos, enfim, do que dizer (como iria supor Nietzsche) que a lógica é a mesma de um coral – ou talvez seja… (É que a cosmovisão deleuziana, que adotei há meses, supõe que diante da tirania ou de uma pungência, só nos resta o devir revolucionário, não há outra saída: provavelmente não havia outra saída para aqueles corais…)

A notícia me lembrou três outras coisas. Primeiro, a história da humanidade. Segundo, uma foto no Instagram do NatGeo que vi hoje mais cedo de um leão raivoso no Parque Nacional de Zakouma, em Chade, centro-norte do continente africano, protegendo o veado morto que ele matou, para não compartilhar com outro leão ou leoa. Epítome da ganância aquele leão! Feroz! Selvagem! A fotografia congelou seu bocão rugindo. Não conhece Marx, não leu nenhum socialista, desprezou a toga do direito e a farda da polícia. O Estado era ele. Assim como os humanos naufragados em ilhas e selvas, virando canibais… A figura morta do bicho me encheu de compaixão; e esta compaixão, é “natural”, é “construída”? E o nível dos afetos, da percepção?… Por fim, me fez lembrar a cena que entreolhei uma vez da minha janela do banheiro de um bem-te-vi gordo machucando outro mais fraco, caído, com bicadas, e eu me desesperei, perdi a fé na vida, nos homens e nos animais, quis odiar Darwin em um momento, quando, de repente, um “anjo”, um outro bem-te-vi, chegou do céu e separou os dois e cada um seguiu seu caminho.

Entretanto, diante da notícia dos corais “assassinos” e “invasores”, notícia tão instigante, que é análoga a todas as invasões, roubos e assassinatos pelos quais impérios, cidades e a humanidade inteira já passou, um pouco de amoralidade nietzschiana, uma amoralidade que afirme a realidade e a vida, não faz mal: os assassinatos fazem parte da vida…

Neste momento uma pulga pacifista e humanista detrás da minha orelha me obriga a escrever também: “Olho por olho e o mundo acabará cego.” Ah, claro, esta frase é do grande Gandhi, assassinado em 30 de janeiro de 1948.

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