“Mas, Fernando, esquerda e direita são a mesma coisa”, ou: “Esquerda e direita não existem”…

Tais afirmações vêm sempre com um ar de cansaço, desencanto ou com uma boa dose de cinismo. Ora, para mim essa dicotomia nunca fez tanto sentido! Comecei a escrever muitos livros. Um deles se chama justamente “O que é ser esquerda?”, onde desenvolvo a cosmovisão deleuziana do assunto.

Primeiro, não é uma questão necessariamente de governo, instituições, partidos ou política stricto senso, mas a priori é uma questão sobretudo de percepção de mundo: não ser de esquerda é começar por si mesmo, por seu endereço postal, e só depois vem todo o resto, enquanto que ser de esquerda é o oposto, começar pelo extremo, pela linha do globo, depois os continentes, o continente inteiro, o país inteiro, os estados, o estado, as cidades, a cidade, o bairro, minha rua, eu, é um nível de percepção e de afetos, nada a ver com “moral” (que é construída socialmente e usada tantas vezes pela própria direita de forma coercisa), mas, claro, sempre sabendo da Ética envolvida nisso, no que diz respeito ao fato de que uma força colocada no(s) outro(s) repercutirá em mim, como um papel que se dobra; depois, é uma questão de devir minoritário, com todas as particularidades e potências do devir minoritário no que diz respeito a cor de pele, etnia, biotipo, gênero, conduta, sexualidade, comportamento, etc. em contraposição a um modelo dominante, opressor e vazio.

Nos meus livros, vídeos e textos do blog trato também de considerar que, em relação ao modo de percepção, ao campo de percepção, um outro elemento determinante da diferença entre esquerda e direita aparece: o fato de que a esquerda considera as causas, procura as causas, quer resolver as causas, enquanto que a direita – quanto mais bruta e inculta for – ignora as causas e quer tratar das consequências. Isto é explícito, visível, flagrante; pegue qualquer questão – tráfico de drogas, violência, aborto, Estado, capitalismo, etc. etc. etc. – e é sempre isso o que se apresenta nos discursos.

A partir disso, podemos discutir agenciamentos, políticas e micropolíticas, poder (no meu livro contrasto o poder em Marx e em Foucault), jurisprudências, direitos, ações, reformas, etc.

Eis os meus conceitos filosóficos e políticos do que é ser de esquerda.

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