Comentário sobre Nietzsche, Marx e Freud (citando rapidamente Espinosa, Gramsci e outros)

Nietzsche, Marx e Freud são cronologicamente a aurora da modernidade, mas este primeiro deve ocupar posição de destaque.

Os códigos sociais estabelecidos foram mais ou menos desmontados pelas ideias de Marx e Freud, são as burocracias “fundamentais”, voltaram a normalizar vida pública e privada. Mas, contra formações sociais várias, regimes, mecanismos de poder, mentalidades tiranas, “cultura burguesa”, da qual o pensamento marxista inclusive faz parte,1 é preciso se utilizar de aspectos consistentes da filosofia nietzschiana, estudando, praticando e resgatando, por exemplo, seu recurso linguístico e filosófico do aforismo, sua iconoclastia, seu antiplatonismo, antimoralismo, seu perspectivismo, seus conceitos de devir e vontade de potência, sua propedêutica à superação do homem em relação a si mesmo, sua precocidade e inovação ao preconizar e insistir no corpo e na sensualidade, como instrumentos de resistência, transgressão e luta. (Não há equívocos neste aspecto, porque o próprio Nietzsche fez balanço bem ponderado de sua filosofia e obra na visão retrospectiva Ecce Homo.)

Enquanto Freud e Marx operavam apenas em recodificações, Nietzsche vai mais fundo, operou em decodificação absoluta, como bem entendeu Deleuze, sendo o único a permitir um discurso de máximas intensidades, como bem entendeu Lyotard.2 Hoje, sem desconsiderar suas revoluções específicas em quase todos os campos humanos e as mudanças concretas na sociedade e no modo de pensar que suas obras permitiram, identificamos também elementos de falta, ressentimento, limitações, dose de impotência e interpretações de juízo em Freud e Marx, formas e métodos de se organizar. Nietzsche (como Espinosa) subverte tais capturas.

Quando unimos Nietzsche com Espinosa, por exemplo, que alquimia explosiva!, que junção libertária!, encontramos modos de fuga (esquivas conscientes, movimentação lúcida, não escapismo alienado, mas defesa livre, destoar) de tudo o que nos captura e nos rebaixa, reivindicação da imanência essencial, onde o poder é posto entre aspas e a política não se resume apenas às instituições que o tomaram inteiramente para si — costumeiramente tão apequenadas –, constituindo, assim, de filosofias práticas onde desejo, liberdade e afins estão ativos, concretamente pondo em xeque toda e qualquer estrutura alheia e extrínseca que esteja descolada do que se pode no agora… Neles toda forma semiótica e ideológica é questionada, remanejada ou até mesmo destruída, para que no seu lugar surja a própria linha real do acontecimento e do acontecer. São, sem medo de errar, os dois filósofos que foram até as fímbrias do pensamento, até os limites máximos do espírito e do pensar, o segundo tendo de enfrentar perseguição, excomunhão, censura na própria pele. Mistura potente, duo com efeito de bomba, “subjetividade resistente”, para usar um termo de Foucault, mas que escorre para o terreno dos acontecimentos e atos.

Há numerosos marxistas heterodoxos que merecem ser considerados. Os ortodoxos são bitolados, muitas vezes parecem ter perdido o bonde da História… Inumeráveis, no mundo todo. Muitos deles espinosianos, aliás: Marilena Chauí, tão identificada com a esquerda e seus exageros, sumidade em Espinosa no Brasil,3 Antonio Negri,4 e outros. Os mais modernos, substituindo, entre outros elementos, moral pela Ética, transcendência por imanência e materialidade, deus judaico-cristão por panteísmo. No entanto, Gramsci, marxista heterodoxo mais antigo, me vem na memória agora, sobretudo por reivindicar uma revolução sem armas, formativa, educacional, revolução que fosse cultural e que encontrou adeptos práticos aqui no Brasil, como o famigerado Paulo Freire e sua pedagogia crítica…

Freud, por sua vez, apesar do seu “chute” inicial sem precedentes, foi encontrando cada vez mais ex-discípulos e dissidentes, vários deles sendo redescobertos ao longo das décadas – Jung é o mais famoso, aliás, estudioso e leitor assíduo de Nietzsche,5 mas a verdade é que, além dele, há uma enxurrada impossível de ser enumerada agora, e que só tem crescido… Os freudianos atuais totalmente fiéis resumem-se a psicanalistas clínicos tradicionais, já ultrapassados, em minha opinião, contestados em uma série de aspectos filosóficos e psicanalíticos por Deleuze e Guattari em “O Anti-Épido” e “Mil Platôs”, onde inclusive empreendem releituras constantes de Nietzsche e Espinosa.

E os nietzschianos, igualmente inumeráveis, sem sombra de dúvidas compostos por uma grande parcela não só de filósofos, mas também de artistas, parecem atuar a cada nova década, desde a revitalização de sua obra a partir dos anos 60, numa instigante e corrosiva contracultura criativa e produtiva, provando aquilo que ele próprio escreveu: “Alguns homens já nascem póstumos”…

1. Wolfgang Müller-Lauter, “Doutrina Da Vontade de Poder Em Nietzsche”, p.30. Annablume, 1997.

2. Idem, p.29.

3. “Nervura do Real”, “Espinosa, uma Filosofia da Liberdade”…

4. “Espinosa subversivo e outros escritos”.

5. V. “O Zaratustra de Nietzsche” e “Memórias, Sonhos e Reflexões.”

PARA ESTUDAR NIETZSCHE X MARX MAIS A FUNDO:

Devem existir outras considerações mais cavadas, aprofundadas por aí, mas o texto de Augusto Buonicore será sempre pertinente como introdução: http://www.vermelho.org.br/noticia/267343-10

PARA ESTUDAR NIETZSCHE X FREUD MAIS A FUNDO:

http://psicoativo.com/2016/06/influencia-de-nietzsche-sobre-psicanalise-de-freud.html

http://www.ipub.ufrj.br/portal/ensino-e-pesquisa/ensino/residencia-medica/blog/item/171-os-instintos-contrapondo-nietzsche-a-freud-i

http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S1657-89532015000200013&script=sci_abstract&tlng=pt

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