Hoje conheci dois moradores de rua geniais…

Hoje, ao caminhar até os confins da praia para gravar diante do mar partes do meu curso Corpo sem Órgãos e História da Filosofia do Desejo, conheci dois moradores de rua geniais, um roteirista, com vários cadernos com roteiros de webséries, longas e curtas, e outro que disse ter sido iluminador de alguns grupos de teatro em São Paulo.

Fora isso, arranjam dinheiro num serviço aqui ou ali, consertando móveis, ou em obras de construção ou catando latinha. Como Álvaro de Campos naquele poema, simpatizaram comigo e eu simpatizei com eles…

O roteirista, com quase 40 ou mais de 40 anos, veio do Rio, passou por São Paulo e não sei como veio parar no litoral paulista. Tinha aquilo que eu muitas vezes tenho e que acabou me levando justamente a começar uma carreira acadêmica como professor: uma necessidade vital de interlocução. Não qualquer interlocução, não a conversa cotidiana, rotineira, mas uma conversa imprescindível sobre vocação e propósito de vida. Não parava de falar. Para nós, seres humanos, e sobretudo os criativos, isto é tão necessário quanto comer ou beber. Fui todo ouvidos.

(Interessante como os pontos deleuzianos se ligam na vida, são explícitos, concretos, reais. Desejo, desejar, máquinas desejantes, o construtivismo sem fim e incessante do desejo e do inconsciente, que é uma fábrica produtiva e não um teatro representativo como supunha a psicanálise, confluência de desejos, agenciamentos coletivos, em grupos, interesses em comum nos encontros, com outras pessoas…)

Veio falar comigo porque viu minha câmera. Atrapalhou minha gravação contando quase a vida toda, que não passou de um acúmulo de fracassos — sobretudo em relação às suas ambições cinematográficas — que, no entanto, jamais o intimidaram ou o fizeram desistir. Fiquei impressionado com as suas inspirações constantes: “Enquanto você estava aí, eu estava dormindo ali e sonhei com duas ideias de filmes. Sempre que durmo, sonho com uma ideia. Só preciso arranjar um celular novo ou uma câmera igual a sua (neste momento segurei firme minha câmera) pra continuar a gravar. Eu já tenho uns vídeos no YouTube que fizeram sucesso.” De fato, o outro confirmou que várias pessoas na rua conhecem ele por causa de uns vídeos que ele fez. Prefiro não citar aqui o seu apelido nem os bordões que ele usava.

Dei meu número e anotei o número do chip dele. “Quero fazer alguma coisa, um filme ou série ou curta, qualquer coisa, ideias não me faltam, vamos trocar figurinha.” Estendi minha mão para se despedir e senti um incômodo da parte dele, em me cumprimentar, como se um abismo separasse nossos mundos, eu, o limpo, descolado, mas vestido quase como um playboy (embora eu não o seja) e ele, o sujo. Na verdade, refletindo melhor depois, concluí que deve ter sido simplesmente porque este contato e abertura que eu dei a eles, seres humanos como qualquer outro, não é nem um pouco comum na condição em que estão.

Quando estava indo embora pensei que poderia ter gravado alguma coisa com ele, que não apenas escreve, mas também quer atuar, dirigir, etc. Quem sabe outro dia, quando eu voltar por lá.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *