O QUE É UM ENCONTRO?

1. Cada vez mais eu me “encontro” cada vez menos com as pessoas. Será? Por quê? Deve ser porque sou seletivo… Deve ser porque começo a entender o que é um encontro…

2. Durante os dias, meses e anos, nos “encontramos” com uma porção de pessoas. Mas não se trata de encontros verdadeiros. Apenas estatística difusa. Essa época de fim de ano mostra bem isso… Será que há de fato encontros “familiares”? Eu suspeito. Talvez por isso eu fique arredio; se houvesse uma tertúlia diante de um tema proposto, acho que a situação de fim de ano (e mesmo de quaisquer festas comemorativas) começaria a me animar mais, porque já os vivi demais na minha infância e adolescência e agora minha alma pede constantemente encontros estéticos, elevados e sobretudo encontros reais, de ser para ser… Nessa época, os encontros verdadeiros são raros, mínimos e, muitas vezes, nulos. Tinha alguma graça quando eu era criança, meu pai era vivo, e família era uma massa fantasiosa, não muito clara. “E as comidas? E as comidas?”, diz minha mãe, tentando me ganhar pela barriga, e quase me convenceu, mas, além de tudo, posso emagrecer…

3. No meu pequeno parágrafo intitulado Geografia da Solidão (título para um livro futuro), deixo claro que movimentações externas e aparentes não significam necessariamente movimentações intensas, significativas, transformadoras. Que há uma geografia da solidão; da mesma forma, há uma geografia do encontro, que pode ser externa, com um local, mas é também interna, subjetiva (subjetividade, diga-se de passagem, não é necessariamente uma zona abstrata, tem potencial de ser concreta também, não raro somatizada fisicamente); ambas as geografias são reais. Como os islandeses, passarei o Natal lendo; ao contrário deles, passarei sozinho. Faria de tudo para passar a dois — amo encontros a dois –, mas estou solteiro.

4. O que é um encontro? Aquilo que te toca. Objetivamente, não parece — nem precisa — ser mais do que isto. Um quadro numa exposição – não todos – uma música. Alguém? Você estava à espreita, talvez até mesmo passivo, ou simplesmente aberto, logo é atingido; surge então a sua capacidade construtivista: zona onde você é capaz de fazer um agenciamento ativo de desejos. Zona onde realmente ocorre uma relação, uma ligação, uma troca. Onde não há necessariamente identidades nem essa mácula incômoda que é “ser” uma “pessoa”. De fato, quando isto que chamamos de “pessoa” tomba, frequentemente é aí mesmo onde há encontros significativos, sem muros e ruídos para atrapalhar. A alma está muito além disso… É a alma, o coração, e só depois a mente, que se encontra. O que é uma presença? Você está mesmo aqui? Você realmente esteve lá? É como se eu não estivesse… Eu estava noutro lugar… (E o corpo? O corpo é claro, distinto, mas o corpo também é obscuro: sem alma o corpo não se encontra, está só: dois corpos vazios, tão próximos um do outro, tão desencontrados – há tantos namoros e casamentos assim…)

5. Pensar o encontro como uma zona, como um lugar, como uma atmosfera, é um corredor ou um palácio ou um traço ou a fímbria, e essa zona tem a potência da virtualidade por onde corre desejo, pensamento, inteligência, sentimento. Estar à espreita deste lugar: antessala do encontro…

6. Na Teoria da Informação, identificamos os ruídos entre significado e significante, entre emissor e receptor, identificamos elementos de previsibilidade e de redundância. A tarefa do artista é trabalhar sua obra para eliminar redundâncias e previsibilidades; o grande artista é um criador, cria algo de novo, de inédito, inova, surpreende, cria novos signos dentro dos signos da sua arte. Em todas as áreas é assim, mesmo na filosofia ou na ciência. Para isso é preciso um elevado repertório, ou, noutras palavras, uma bagagem, e também temperamento próprio. Bagagem, repertório = múltiplos encontros “acumulados”, extremamente significativos a ponto de você tornar-se seletivo; ou redundantes, a ponto de você se tornar apático, cansado, alienado, anestesiado, até que — espera-se — queira oxigênio desesperadamente, queira algo de novo…. De qualquer forma, nós todos ansiamos por este novo que nos enriqueça, ansiamos pelas surpresas em nossas próprias vidas. O “mais do mesmo”, a “mesmice”, o que é previsível e redundante não levam a encontros de qualidade.

7. Podemos fazer encontros mesmo nunca tendo visto de fato a pessoa. Por carta, e-mail, comentário, inbox… “Gosto das coisas que você escreve, Fernando: tenho algunas coisas para conversar a respeito…” E assim ocorre um encontro. Pode-se estabelecer relações valiosas assim; enquanto que o “encontro” “real”, isto é, pessoal, de carne e osso, pode ser pobre, pode ser uma verdadeira decepção para ambos… Por que isso? Talvez porque mate um desejo ao invés de intensificá-lo?… Ou a resposta talvez seja a mesma sobre o amor: você ama, quer, deseja 1) Quem ou 2) o Que? Noutras palavras, isso que chamamos de “pessoa” significa Algo ou significa Alguém para você?… Alguma característica em particular ou a própria pessoa em sua totalidade?… É possível essa totalidade?… Esse algo é um intermédio, um ponto em comum entre duas (d)obras de espaço-tempo, isto é, entre dois “seres”?…

8. Uma pessoa “sociável”, que lida com vasto público, ou que num dia se “encontrou” com muitas pessoas, não fez necessariamente vários encontros. No fim do dia, pode sentir como se não tivesse encontrado ninguém, apenas um acúmulo que não preencheu seus cantos existenciais mais profundos, apenas uma quantidade… “Eu não lembro de nenhum rosto que vi na minha vida”, diz num momento de crise e de forma impressionante a personagem da Ingrid Bergman no filme do Bergman, Sonata de Outono. O artista volta para o hotel e se mata: mas haviam milhares de pessoas o aplaudindo, o adorando no show!… Não importa — o que conta é o estado psíquico. “Sabe, Fernando, depois de uma palestra, ou de uma aula, ou depois de dizer meus poemas na frente de um público, na Casa das Rosas, em algum centro cultural, em qualquer lugar, eu me sinto tão só!”, me disse certa vez um colega… Alguém está na cama. Escrevendo, lendo, conversa com pessoas que fazem sentido para ela (sobre coisas que a fazem sentido) através do celular e do computador. Estabelece contatos com pessoas que estão longe ou somente com autores mortos… Imóvel, mas intensa. Quem garante que esta última não teve mais encontros do que as outras?!… Um único encontro “de carne e osso” às vezes vale mais do que todos os outros de uma vida. Quão raros, quão maravilhosos são os encontros “de carne e osso” verdadeiros!

9. Toda essa minha mentalidade, fora do senso comum, fora das nossas tradições sociais e das nossas aparências, fora do modo de pensar no qual fomos ensinados, obviamente está na percepção do tempo de Kairós, não de Cronos. E em Kairós está implícita (ou explícita) a marca da qualidade; uma marca profunda, assentada, que subverte o sistema consumista, capitalista, “político”, macroeconômico; o mais de Kairós não é quantitativo, é sempre qualificativo, em todos os setores humanos; a qualidade dos encontros; enquanto que em Cronos influi a quantidade: uma pseudo-marca com momentos sucessivos e banais que não são grandes o suficiente para criarem espessura, estrutura, estofo, densidade. Repare que 1 + 1 = 1 maior.

10. Partindo deste princípio, cada vez mais eu me encontro cada vez mais com as pessoas… (Não com todas, porque sou seletivo, porque começo a entender o que é um encontro…)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *