O fim do capitalismo segundo Günter Grass e Brian Eno: o que virá depois?

I

“O capitalismo vai acabar?”, pergunta-me um amigo. Respondo imediatamente com outra pergunta: “Acaso os antigos romanos achavam que o Império Romano acabaria um dia?!” Completei: “Não, e no entanto acabou, como tudo na vida.”

II

“E o que virá depois?”, tenho perguntado a mim mesmo esses meses todos. Não fiquei satisfeito com a resposta que dei para meu amigo, fui estudar por conta própria e hoje todos meus projetos artísticos esbarram nessa questão. Cansa os clichês da esquerda sobre os prejuízos do capitalismo; cansa os clichês da direita ou dos neoliberais a respeito das vantagens do capitalismo. Ambos os caminhos são preguiçosos, acomodados, já não servem para nada quando se sabe sobre eles. Pensar o futuro. Na perlaboração cerebral do que virá depois, do que já está surgindo de novo neste século. É isso o que falta!

Leio na capa da Revista da Cultura de março/abril na minha escrivaninha: “Frente à crise atual do universo do trabalho e ao colapso engendrado pela concorrência desmedida, a criatividade e a busca do prazer tentam sobreviver ao automatismo da cadeia produtiva.”

Capa recente da Time desse ano tem mostrado como o capitalismo vem causando sucessivas crises e insatisfações pessoais e coletivas no mundo inteiro, é um sistema instável, injusto, aprisionador, desvalidando a famigerada tese disseminada pelo nipo-americano Francis Fukuyama de que o triunfo do capitalismo e o fim do comunismo e das marchas das utopias no mundo pós-Muro de Berlim representaria o fim da História. É uma ideia polêmica, muito disseminada e atraente, mas sempre desvalidada, porque Fukuyama ignora as movimentações que constantemente surgem na história, ignora até mesmo a teoria de ciclos históricos que se repetem; aqui ou em Manhattan haverão povos protestando, sistemas sendo quebrados, contestados e substituídos. Sempre foi assim.

E assim se intensifica em momentos de crise. Não há modos de continuarmos vivendo num sistema urgido pelos dois séculos passados. A regra de nossa era é a metamorfose, não a estabilidade. Todos sabem que o capitalismo está mancando e que o sistema mundial que engloba economia e política parece estar em seus estertores. Hoje, o grande inimigo da cultura é o mercado.

Querendo ou não, por mais aperfeiçoado que o capitalismo tenha se tornado através das conquistas socialistas do século XX – pois o capitalismo do século XIX da época de Marx era completamente desumano e nesse aspecto o socialismo mudou a relação do trabalhador com o patrão, garantido todos seus direitos – o século atual tem buscado novos valores em trabalhos informais, freelancers, autônomos, bolsas de estudo. Mas a maior parte das pessoas do mundo ainda vive condicionada em modelos e estilos de vida do século XIX ou do século XX e isso precisa mudar, é preciso finalmente entrar no Terceiro Milênio.

Fim do capitalismo? Mas então? O que virá?

III

Foi quando encontrei uma entrevista de 2013 com o escritor alemão Günter Grass, Nobel de Literatura, dois anos antes de sua morte ano passado.

Günter Grass. Fim do capitalismo.

Günter Grass. Fim do capitalismo.

Afirma, sem titubear, que não tem dúvidas do que virá depois do fim do capitalismo: os bancos estão sugando o capitalismo de forma descontrolada sem que os oponentes possam fazer qualquer coisa a respeito, os esquerdistas, ainda segundo o próprio Grass, brigam entre si ou se corrompem com a política tradicional, e não possuem competência suficiente para sugerir um sistema de governo funcional que possa substituir tudo isso, então, embora o escritor alemão diga que o fim do capitalismo não represente uma grande perda, não tem nenhuma dúvida de que o que virá depois será uma oligarquia autoritária, de tendência direitista, muito semelhante à da época da União Soviética, mas numa nova vertente de fascismo, e chega mesmo a dizer que será uma atrocidade incomparável.

Grass dá exemplos da restrição de direitos sociais e civis: leis são criadas para “proteger” os cidadãos do terrorismo, do estrangeirismo ou de qualquer outra ameaça. E então, como que um guru iluminado e sábio, diz que a democracia não é uma conquista estável, mas algo a ser defendido constantemente. Inclusive pelos próprios artistas, pois, embora estes sejam sempre egoístas, a arte, diz Grass, é um sistema coletivo, e os artistas não precisam estar ao lado dos vencedores. Usei esta fala para escrever meu ensaio, meu manifesto, meu texto, enfim, intitulado Arte e política: proteger a democracia.

A visão de Grass sobre o mundo pós-capitalista é pessimista, mas completamente acertada, porque quando é que ocidente e oriente não foram governados por oligarquias reacionárias e conservadoras? Não é de hoje que a lógica sociopolítica mundial é baseada no controle, na usura, no poder de meia dúzia. Outro Nobel da Literatura, dessa vez mais próximo de nós, José Saramago, já alertava há quase dez anos atrás que não se pode chamar de democracia um sistema cujas grandes decisões não são tomadas pelos governos eleitos, mas ditadas pelos bancos mundiais, pelas grandes organizações financeiras internacionais, FMIs, cúpulas internas, ou seja, setores que não foram eleitos diretamente.

Se a fala de Saramago nos impele a questionar e a sermos críticos, a contundente visão de Grass nos deixa atônitos. Perturbou-me por dias. Que futuro é esse? Que presente é esse? Devo dizer que também me animou pela fato de anunciar um cenário amedrontador, instigante, potente? Pois sempre preferi ver os contextos não como tristes ou desoladores, mas como provocadores de alguma reação à altura deles.

IV

Foi quando encontrei uma palestra do músico inglês Brian Eno em 2015 para a BBC, cuja visão destoa da anterior. (Percebe-se meu ecletismo: passeio da literatura para a arte pop tranquilamente.)

Baseado no livro Post Capitalism de Paul Mason, nos livros de David Graeber e outros, Eno acredita piamente que estamos nos encaminhando para uma era de abundância. E se sente entusiasmado pela possibilidade do Basic Income. Chega mesmo a dizer que pensa num futuro sem empregos, onde todo e qualquer ser humano possa ter um salário incondicional para suprir suas necessidades básicas e trabalhar no que quiser.

Brian Eno. Fim do Capitalismo.

Brian Eno. Fim do Capitalismo.

A maior parte da população mundial está metida em empregos porque precisa ter dinheiro, sobreviver, comer. Gastam todas suas vidas em trabalhos que não lhes dão prazer nem contribuição efetiva e criativa para a vida social. Portanto, nessa visão otimista, se nós suprirmos nossas carências mais básicas de forma gratuita e livre dos empregos, podemos usar todo o tempo em atividades onde nosso talento e nossa potência sejam exercidos em pleno vigor, de forma produtiva e criativa para nós e para o meio.

O Brasil, de certa forma, está mais ou menos antenado com os programas sociais de Basic Income como o Bolsa Família – que precisa ser aperfeiçoada e virar programa de Estado, como eu já escrevi noutro ensaio – e principalmente com o programa que o Eduardo Suplicy tem há anos de Renda Mínima Cidadã, ou Renda Básica Cidadã. Será necessário dizer que essa renda não é um benefício, mas um direito humano?

Eno teoriza que somente políticas sociais e culturais de inclusão são capazes de fortalecer toda uma comunidade e beneficiar indivíduos talentosos. Revela que, por estar determinado a ser artista e fugir desesperadamente dos empregos, passou um tempo com o auxílio básico britânico (o “dole”, semelhante ao nosso seguro-desemprego), até que teve a sorte de encontrar a Roxy Music. Se não houvesse esse auxílio, provavelmente entraria num emprego para nunca mais sair, comprometendo todos seus projetos. (Quantas pessoas no mundo de hoje não tiveram seus talentos tolidos por conta disso?) Cita uma época da arte russa moderna – provavelmente anterior ou durante a revolução, antes da ascensão de Stálin – onde existia um número incalculável de grandes artistas. Isso só foi possível porque o contexto era favorável para que essas pessoas pudessem gastar seu tempo de forma decisiva e seminal. Numa sociedade faminta, sem dinheiro, qualquer tentativa ou esforço desse tipo é dilacerado e impedido.

Nesta perspectiva pós-capitalismo, os governos acabarão de uma vez por todas com as carências básicas de um ser humano, as pessoas terão o direito incontestável de suprir suas necessidades básicas para não mais trabalhar para meia dúzia de trilhardários que continuam colonizando e dominando o mundo. Repensaremos a distribuição injusta num mundo onde uma criança morre de fome enquanto um empresário ganha bilhões por minuto. Os empregos virarão opção. As atividades serão mais prazerosas, saudáveis e produtivas. Descobriremos quão úteis podemos ser para o mundo. Finalmente entraremos no Terceiro Milênio.

V

Duas propostas. Dois caminhos. Duas constatações. Não interessa mais criticar o capitalismo ou elogiar o capitalismo. Interessa saber seu fim, sua transformação, interessa o pós-capitalismo. De um lado, o predomínio de oligarquias autoritárias e do outro, projetos sociais e de estado que talvez possibilitem uma reconfiguração profunda a respeito do papel do cidadão e do trabalho no mundo de hoje.

Termino afirmando que, de maneira irônica, seja lá o que possa vir ou que já esteja sendo instaurado – de forma rápida ou em passos de tartaruga – o fato é que ambas as visões já começam a ser concretizadas no mundo contemporâneo. Aqui e ali, costumeiramente encontramos indivíduos que vivem estilos de vida independentes e diferentes de todo o resto; aqui e ali, encontramos os tiranos restringindo direitos.

PS.: Assustador constatar que, apesar deste estudo se concentrar nas falas de dois artistas estrangeiros, e principalmente em autores que têm escrito livros sobre o tema, o Brasil atual pode ser usado como exemplo inovador de ambas as visões, seja no recente impeachment de Dilma, que serviu para colocar no poder um governo ilegítimo e beneficiar a classe política reacionária, mostrando uma vez mais que neste país a regra é o golpe e não a democracia, seja nas conquistas sociais e nos projetos progressistas das últimas décadas.

Comments

  • Muito bom! Meus aplausos. Desejo que Brian esteja certo me identifiquei com a visão otimista dele .A arte sempre a melhor resposta. Obrigada por esse texto !

    claudia Morett 25 de setembro de 2016
  • Muito bom! Meus aplausos. Desejo que Brian esteja certo me identifiquei com a visão otimista dele .A arte sempre tem a melhor resposta. Obrigada por esse texto !

    claudia Morett 25 de setembro de 2016
  • Nunca tinha pensado num mundo pós-capitalismo.Boa reflexão.

    Ademar Amancio 12 de outubro de 2016

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