O fim do capitalismo e o momento atual do Brasil e do mundo

Estava aqui pensando com meus botões… (Que o Universo, Júpiter, o Sol, Xangô, São Jerônimo, poetas iluminados e o diabo a quatro queiram que eu esteja errado!) Mas o governo ilegítimo e usurpador tem 2 anos. E se depois desses 2 anos nossos ilustríssimos governantes decidissem simplesmente que nós ainda não estamos preparados para votar?! Que o país não tem qualquer condição de novas eleições? Simples. Colocarão qualquer outro ou continuarão com Temer (se o velho não morrer até lá). E ponto final, sem discussão.

A imagem usada para essa página é obra do artista plástico Wesley Duke Lee.

A imagem usada para essa página é obra do artista plástico Wesley Duke Lee.

Afinal, o candidato populista com maior chance de ganhar em 2018 (Lula) está quase sendo preso, salvadores da pátria reacionária estão surgindo mas a Marina, por exemplo, é um enigma completo, e todos estamos cansados, a esquerda, quando não se corrompe com a política tradicional, briga entre si e não consegue se estruturar nem formar um sistema satisfatório, a polícia continuará reprimindo nossas manifestações, os políticos dificilmente abdicarão de seus privilégios em favor de uma reforma política que beneficie a democracia antes de qualquer coisa: assim, 2 anos é tempo suficiente para todos se alienarem, se acomodarem com a sensação de ufa coletivo de um país recém incendiado pela mídia e pelos marqueteiros. É tempo suficiente para todos seguirem com suas vidas. “Agora vem o belo”, dizia o “grande” Mussolini para o povão italiano fanático ao prometer resgatar a grandeza e as coisas boas do Império Romano para a Itália; uma frase que virou paródia e motivo de escárnio naquele país, por tudo o que realmente veio depois do fascismo…

E agora, neste momento? O sistema político atual do mundo está falido e ultrapassado, nossas democracias ocidentais são controladas por bancos mundiais, FMIs, cúpulas internas, conforme já dizia Saramago, e os bons não tem a força suficiente para substituí-lo. Eles fazem o que podem, a sociedade avança aqui e ali, acredita erroneamente ter plenos poderes dos seus direitos. Além disso, uma sociedade como a nossa que gira em torno da ordem e do progresso (sobretudo com as desformas educacionais e trabalhistas do governo Temer) não vai estar nem aí se vota ou não pra presidente, o importante é poder consumir, ter seu emprego, ganhar dinheiro, saber que a economia vai bem, etc. O voto que se dane. Assim nascem as ditaduras. Ou já nasceu, sei lá… Batam nas madeiras?

Não quero achar que seria triste, desolador: gosto sempre de pensar na reação, porque ela sempre vem à altura. Aliás, a Europa e os Estados Unidos se encaminham para situações semelhantes: oligarquias autoritárias, reacionárias, conservadoras, uma nova vertente de fascismo, algo semelhante à União Soviética. Não sou apenas eu quem digo isso; foi Günter Grass, Nobel de Literatura, numa entrevista um pouco antes de sua morte, quem declarou, ao dizer o que viria depois do fim do capitalismo, já que ele se encontra capenga, sugado pelos bancos, causador de sucessivas crises e insatisfações pessoais e coletivas. Peguem seus livros de história; todo rebuliço acaba gerando convulsão social, depois o medo e logo depois a ditadura para garantir a “segurança total” e restringir direitos. O pretexto muda conforme a região; lá fora, terrorismo e estrangeirismo. Aqui, “comunismo”/”socialismo”/”esquerdismo”. A direita, de fato, tirou suas máscaras, mostrou sua face, está escancarada. A que ponto isso é bom ou ruim?

Fiquei perturbado com essa entrevista do escritor alemão, com meu próprio futuro neste mundo doido; depois, mais recentemente, encontrei uma palestra do Brian Eno muito positiva, falando que o pós-capitalismo vai trazer uma era de abundância para todos, fim dos empregos, onde cada ser humano teria um salário para trabalhar no que bem quisesse. Fiquei entusiasmado e feliz. Logo pensei: isso sim é século XXI! Afinal, ainda estamos presos aos dois séculos passados… Baseado em autores como Paul Mason (Post Capitalism) e David Graber, Eno faz um discurso a favor de programas sociais de Basic Income que lembrou-me Bolsa Família, Renda Mínima Cidadã (ecoando Suplicy…), enfim, programas que precisam ser aperfeiçoados, mas pelos quais o Brasil é pioneiro no mundo todo. Será mesmo que caminhamos para isso? Ironicamente, ele é inglês e a palestra foi meses antes da Grã Besteira ter saído da União Européia, num gesto também conservador e reacionário…

E se por acaso o fim do capitalismo apontar para ambos os caminhos, o da tirania e o da abundância, um pouco de cada? Costumo pensar assim.

Todos os meus projetos artísticos atuais, de uma forma ou de outra, esbarram nessa questão, no que surgirá depois do capitalismo. Não outra coisa senão a arte atinge o senso de perfeição perene, porque a História mesmo tem seus ciclos, repete seus eventos, e vivemos numa era onde a regra é a metamorfose e não a estabilidade. Todo cuidado é pouco. Escrevi outra vez e nunca é demais reescrever: a democracia não é uma conquista consolidada, precisa ser constantemente defendida com unhas e dentes. E este seria um novo cenário fascinante e instigante para a ação individual e coletiva mundial. Um momento de virada triunfante. Ou não.

PS. Meu próximo ensaio – muito mais estruturado do que este e menos informal/improvisado também – será um estudo aprofundado dos pensamentos de Günter Grass e de Brian Eno sobre o pós-capitalismo. Espero que gostem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *