Os budistas…

No ocidente temos Espinosa, Nietzsche, Deleuze, que nos alertam sobre as formas socrático-platônicas e nos provocam para uma filosofia prática, mais próxima de nós, mas os orientais têm (e nos trouxeram) os budistas! Antes desses filósofos, na adolescência e pré-adolescência eu já tinha me aprofundado em certas tradições budistas, sobretudo a Therevada, que é a mais antiga, e o Zen, tradição japonesa. Sonhava até em virar monge. Por isso agora ligo os pontos.

Deleuze/Guattari, resgatando Artaud e juntando-o com Espinosa e Nietzsche, investem no corpo sem órgãos. Os budistas, há não sei quantos séculos atrás, “denunciavam” e praticavam o vazio das formas… Se nos primeiros se fala que não há nada mais inútil do que os órgãos, para os budistas a postura é mais ou menos semelhante, na medida em que Buda, não sei em qual discurso que não sai da minha cabeça, alerta sobre os “cinco agregados”, audição, visão, e os outros sentidos.

Afinal, o que é o zazen ou a meditação budista senão uma constante conscientização e desencanto das formas extrínsicas e dos objetos transcendentais para se alcançar zonas mais profundas? Mas não basta simplesmente zerar o desejo, como supôs o pessimista Schopenhauer, que se interessava pelos budistas. Para ele, todo sofrimento humano deveria ser curado com uma erradicação do eu ou da identidade, que os budistas chamariam de ego; Nietzsche, por outro lado, falaria que os sofrimentos que não matam, fortalecem, impulsionam, afirmam, motivam para a potência de si; os budistas têm diversos termos para suas alegrias potentes e práticas, como os satoris.

Os budistas têm o Nirvana, estado aparentemente transcendente como todas as religiões, objetivo imaterial, mas muitos deles unem dois termos supostamente díspares, opostos, contrários e dizem: Samsara é Nirvana… (Você dificilmente verá um cristão ou um monoteísta agindo assim, dizendo que inferno é ceu ou então que esse nosso mundo é o paraíso.) Quer dizer, trazem o que haveria atrás das promessas da forma para o próprio agora e para o seu aparente oposto, um sendo chance prática e constante para o outro. Ou então: Se encontrar Buda no caminho, mate-o… A iluminação, o despertar, o estado buda é, portanto, uma prática constante, onde até mesmo o suposto estado “ideal” a ser alcançado deve ser questionado a todo momento, colocado como um signo que na maior parte das vezes não passa de uma armadilha da forma.

Nessa costura cautelosa, cria-se uma espécie de atividade mental super-intensiva, e no próprio cotidiano se busca essa plena intensidade, onde o praticante, com aquilo que eles chamam de plena atenção, sagra cada instante.

Há, aliás, uma imanência no próprio Nirvana, na medida em que é uma experiência, uma vivência.

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