Ahhhhhhhh!…

Desconfie daqueles que, rebaixando o teu presente, matando o teu agora, te vendem promessas e esperanças no futuro, no depois, no transcendente, atrelados a regras, ideais e recompensas. Padres, pastores, capitalistas, esquerdistas, liberais, socialistas, conservadores, juízes, homens da lei, boa parte dos psicanalistas e psicólogos, psiquiatras, boa parte dos educadores, políticos, empresários, moralistas, direitistas, fascistas, “democráticos”, publicitários, fundamentalistas, famílias, pais, todos os mecanismos de poder e todas as formações sociais, por mais bem intencionadas que sejam, e todas as instituições, umas mais sutis e outras mais autoritárias, umas mais inconscientes e outras propositalmente, fazem isso — coloco todos eles no mesmo balaio melancólico e limitador –, porque também estão descolados da própria potência real de acontecer e presos em modelos e formas exteriores socrático-platônicas para onde projetam seus desejos, suas forças, suas potências, suas energias, com medo das consequências, das condenações que inventaram, das faltas que criaram, introjetaram, engendraram, dos fracassos e exclusões que investem, e buscando as recompensas que nos escravizam e nos tornam dependentes, como se, para se concretizar, o desejo pleno e imanente que há em nós tivesse que passar obrigatoriamente pelo filtro de seus objetos externos montados, suas esferas superiores abstratas — por mais imagéticas, institucionais e concretas que possam parecer –, seus sistemas estreitos, seus dogmas cerceadores, seus modelos pré-concebidos, suas regras e ideais. Tudo ficção. Todos eles nos capturam, nos rebaixam, nos sequestram, nos obrigam, nos demandam, nos moldam, nos projetam, nos iludem, nos chantageiam, nos aprisionam, nos prometem, nos alienam de nós mesmos, nos tornam funções e utilidades, nos tornam rebanho ou “certinhos”, nos querem “melhorar”, curar e nos estratificar, nos tiram do cultivo de nós mesmos, colocam a forma extrínsica no lugar da potência intrínseca. Oferecem paraísos, perfeições, status, prestígios, bens, mundos e fundos, apenas se formos assim ou assado, se fizermos isso ou aquilo, em termos econômicos, financeiros, jurídicos, políticos, trabalhistas, moralistas, religiosos, sociais, e a maioria, entre a falta inventada e o objeto exteriorizado que vai matar o desejo ao invés de intensificá-lo, entre o medo da culpa, da exclusão, do fracasso fictícios, e a esperança e a recompensa subservientes, morde a isca, comprometendo a própria autonomia, comprometendo a própria criação real de um presente e de uma vida… Não, não, não! Tudo ficção. Tudo ficção. Os deprimidos, os cansados, os niilistas, os pessimistas e os melancólicos, desencantados dos signos externos e com acúmulo de consecutivos fracassos de preenchimento interno, corporal e existencial, já notaram isso, mas não são bons exemplos, porque se ressentiram, tornaram-se passivos e impotentes, zeraram o desejo e ainda não perceberam que o desejo ou a força ou a energia ou a potência ou a realização existencial independe de signo externo e pode ser intensa, intensiva em si. Aqui, no devir… Quem frui Espinosa e Nietsche, Artaud e Deleuze, dá um chega pra lá e cria um contrargumento, um agon, uma resistência, uma transvalorização, uma transmutação total e constante disso tudo, intensa, ativa, criadora, transcriadora, destruidora, recriadora, criativa, potente, libertária, alegre. Revolucionária, se quiser… A prática de si tem o efeito de uma bomba e não raro põe em xeque toda uma estrutura social… Não para substituir ou prometer de novo o que seria ideal ou matar o desejo ou entrar nos mesmos jogos e armadilhas, mas para ampliar a existência e intensificar o desejo… Anarquizar tudo… Volto para mim, lentamente, minhas dores e sofrimentos são sempre um tempero a mais, muito excitante, que me fortalecem e impulsionam, e aqui está minha potência, minha força, minha energia e meu desejo, aqui está a minha colossal política, a minha diferenciação, a minha singularidade, a minha alegria, o meu contentamento, aqui está o tempo de Kairós onde jogo o sentido da minha existência não no objeto ideal, mas para o acontecer, para a produção de grandes acontecimentos e para a prática de mim… Eu não apenas como identidade ou indivíduo, mas frequentemente mais do que isso, sim, frequentemente mais do que isso, a própria potência em si produzindo mais potência, transformando instantes em momentos criativos, eu (d)obra do espaço-tempo efetuador, se efetuando… Não me tirem do meu acontecer, da minha experimentação infinita!… Dêem o nome que for melhor para cada um de vocês e seus sistemas – diabo, pecado, crime, perigo, perdição, loucura, vagabundagem, caos: tudo máscara de contenção que soltei e derrubei para escancarar e encarar nada mais nada menos do que o rosto verdadeiro da força, da vontade e da potência. Subversivo… Me basta a ética e a estética e a poética… Já começo a me entender… Já começo a me sentir inteiro… Volto a ser criança… Sou livre… Ovo… Desabou a semiótica.

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