Voltar a escrever à mão e à luz de velas (ou abajur)?

No capítulo 2 do A Morte em Veneza, Thomas Mann escreve que seu personagem Aschenbach, também escritor, “começava bem cedo seu dia, com jatos de água fria no peito e nas costas, para depois, com um par de velas altas em castiçais de prata à cabeceira do manuscrito, sacrificar à arte, em duas ou três horas de fervorosa consciência, as forças reunidas durante o sono.” A imagem é típica do início do século 20 pra trás, mas não deixa de ser fascinante a cinematografia ou pintura que evoca: “par de velas altas em castiças de prata”. Todo um percepto, todo um clima. Mano a mano. Mais nada; nenhuma distração, nenhum aplicativo ou mensagem inoportuna, nenhuma aba ou link. Nem mesmo TV. A sociedade atual criou muitos ruídos, tem se acostumado com eles; a própria Literatura os absorve ou os repele, para a sua própria sobrevivência.

Escrevo isso porque, para citar outro alemão – que sempre fora uma fonte para o próprio Mann e para cada um de nós que se encontra acima da mediocridade, seja no erudito ou no popular -, Nietzsche, “o meio, a ferramenta com que escrevemos altera a forma de escrever”, mais ou menos assim ele escreveu numa carta que, há tempos, li traduzida em inglês, em relação ao seu experimento com máquinas de escrever, uma inovação para os finais do século 19.

Parece que Nietzsche não curtiu muito. E eu ando também me cansando de teclados e telas, sem contar a quantidade de fios, e ter que carregar, tudo muito ultrapassado, e meu pulso tem doído muito de tanto escrever mensagens para os outros no celular, principalmente de gente do Brasil inteiro que vê meus vídeos filosóficos pela internet e quer mais e mais explicações. Tablets – sinceramente, escrever comporta dedinhos?! Meio clinomaníaco, não tenho tido “saco” de sentar para escrever no notebook, e agora mesmo estou com ele no peito, deitado. Aquela frase deixa em segredo se Aschenbach escrevia sentado ou deitado, já que as velas estavam na cabeceira. Parece que Joyce escreveu assim, deitado, grande parte do Ulisses ou do Finnegans Wake, com lápis de cor e papelão… Fitzgerald tinha uma receita que me entusiasma muito, mas que ando com preguiça de testar pra valer: escrever em pé! Quase como um boxeador.

É sempre uma luta – “lutar com palavras é a luta mais vã”… Não se luta apenas com palavras, Drummond, mas também com teclados, telas, lápis ou caneta, papel, se luta com o próprio corpo e com os corpos extrínsecos. Luta-se com o mundo inteiro, interior e exterior, quando se escreve; pulsações, fluxos, contrastes entre prazer e incômodo. Rosa – assim conta Haroldo de Campos – rolava nu com o demo no chão quando escrevia.

Enfim, cansado de teclados e telas, sinto-me tentado a fazer manuscritos, com abajur ou vela mesmo. A atmosfera e o clima com que escrevemos altera a escrita. Uma vez, escrevi uma peça inteira à mão, como se o teclado e a tela fossem pedregulhos e obstáculos chatos; todo mundo deveria saber que o Word não é nenhuma inovação, que apenas virtualiza o papel. Escrever nele, imprimir, corrigir com a mão, ou escrever à mão e passar para o computador: dança, charme, só cuidado para não criar uma neurose interminável, uma obra infinita…

A luta é também com a Obra – ou ela vence ou você vence, porque fazer Arte tem a ver com lidar com a entropia, tentar abraçar as ondas, esculpir algo no caótico universo, já que – diz Borges – ninguém escreve um livro, apenas lança para se livrar dele. Só os idiotas acham que lançam livros.

O único incômodo – a mão no papel não acompanha o ritmo do pensamento.

Talvez isso tudo, e este próprio texto, não passe de uma autossabotagem ou de uma desculpa, apenas para me distrair, fingir resolver minha angústia de criar, minhas faltas de inspiração… Há tempos não vejo o mar de Santos, o meu mar de Santos, o mar da infância e adolescência e fase adulta: amanhã eu vou!… Singularidades existem, mas o Tempo repete seus signos e scripts: onde estás, Tadzio, meu Tadzio?…

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