Resposta a um colega artista plástico que “curte” o mito da monarquia e que se incomodou com minhas críticas recentes

Não há nada mais careta do que monarquia. Tanto que o personagem mais rico e fascinante de Shakespeare é o anti-trono, o anti-corte: Hamlet, em tudo o que há nele de tristeza, sarcasmo e ironia… Ou melhor: todos seus personagens mais fascinantes, para o bem ou para o mal – Macbeth, Ricardo III, Lear, os bobos e palhaços – são justamente aqueles que sacodem a poeira do teatro ao revelar a decadência do poder representado ali numa forma essencialmente monárquica.

Entendo a carga simbólica e estética duma monarquia, mas as famílias reais do mundo contemporâneo não me convencem e não me tocam de nenhum modo. Muitas delas me provocam verdadeira ânsia de vômito. Hoje mesmo, assistindo uma cerimônia do Prêmio Nobel de Literatura, onde os monarcas suecos estão sempre presentes, reforcei minha impressão.

Prefiro as figuras revolucionárias! Prefiro os desviantes, os desajustados, os que recodificam ou decodificam normas, morais, convenções! Há maior mito do que eles?!

Mesmo Pedro I foi uma figura libertária: instaurou, junto com outros, inclusive com meu conterrâneo José Bonifácio, a independência do Brasil, importantíssima, apesar dela acabar sendo um movimento conservador, e, quando foi embora, implantou junto com outros o liberalismo em Portugal, contra o despotismo. Uma figura fascinante do ponto de vista histórico! (Ignoremos o fato de ter abandonado este país em má economia – apesar de alguns dizeram que sua intenção era retornar – “nas mãos” do filho de cinco anos – piada bem brasileira! -, Pedro II, este, sim, indolente e desprezível em muitos aspectos, signo da direita, conivente com toda a elite escravista, que faliu o projeto de industrialização de Mauá…)

Considero as críticas sobre o pragmatismo da República, mas o “poder do mito” que você preconiza não depende daquela forma de governo. Prova disso é que há também mitos na República, aqui e pelo mundo afora – a vitória de Lula, a vitória de Obama, a candidatura de certas pessoas para o senado, para a câmara, para o Planalto significaram e significam fortes semióticas coletivas que extrapolam até mesmo o lado pessoal criticável.

Você fala entusiasmado do povo holandês – “em comunhão, unidos em torno do rei” – como muitos colegas estrangeiros meus falam não só de carnaval e futebol, mas também de Olinda, de Salvador, etc. Portanto, não tem nada a ver com monarquia. Não consigo idolatrar essa gente. Aliás, busquemos nos livros dos antropólogos ou empiricamente em certas regiões do Brasil fenômenos e ritos parecidos, ou até mais belos, com os indígenas…

Quanto a Lula e a Rainha Elizabeth II, quando eu disse que ele fez mais pelo Brasil do que ela pela Inglaterra, é uma verdade incontestável: as políticas externas do Celso Amorim e as políticas sociais do Patrus Ananias colocaram o Brasil em posição de destaque no mundo e o tiraram do Mapa da Fome, injetando toda uma massa pobre e baixa, isto é, maioritária, de forma sem precedentes. Mas isso se esgotou e é preciso mais. Quem tem pensado bastante a respeito em termos de transformações mais profundas nesse sentido é o Mangabeira Unger. Na Inglaterra, não citaríamos a Rainha nem a família real “perpétua” e hegemônica, que se resume a atos filantrópicos e simbólicos; falaríamos de Churchill, Thatcher, David Cameron, Theresa May, nos diferentes partidos, etc.

Sejamos francamos: o homem não vive sem dinamismo e sem ideias ativas.

Falar em monarquia no Brasil é ainda mais perigoso, pois a “família real” que está lá no Rio de Janeiro é dez mil vezes mais indolente, conservadora e inútil. Basta ver as declarações recentes deles sobre o próprio casamento real inglês interracial. Sou contra essa gente com todas minhas forças, mesmo que não tenham qualquer chance de voltar, pois o Brasil cresceu e mudou muito desde o século 19! Simbolizam o atraso do atraso, tudo o que há de mais embolorado e antibrasileiro na política!

O dinamismo republicano e as suas potencialidades de descentralizações de poder é uma conquista humana, pulsante, e criativa, muito mais significativa hoje em dia em termos de mito do que monarquia. Vide Walt Whitman, com sua poesia democrática espinosista, e outros.

Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *