A Literatura me salva: estilos literários

A literatura me salva. Clarice, naquela famosa entrevista tão tensa e cheia de arestas e vazios, diz que escreve simples, que não enfeita. Clarice é sempre flutuação, paira no ar, flutua, “O Ovo e a Galinha” e “A Hora da Estrela” colocam questões sem colocar, bailarina em salto congelado, espírito sem muito corpo; Hilda é movimento contrário, é terra, tanto na prosa quanto na poesia (apesar de serem formas semioticamente tão diferentes), terra e carne, espírito derretendo-se em corpo, numa escrita de personalidade esquiva onde vozes convergem, lutam, se separam e se fundem: “Rútilo Nada” arrepia, representa sua máxima potência literária. As duas se encontram no silencioso nada, onde Beckett (peças e prosas) se sente em casa, numa linguagem própria, estranhamente hesitante, imóvel, parada, e ao mesmo tempo imensurável. O Thomas Mann de Morte em Veneza: que escritura madura e linda, Escritor com E maiúsculo!… Graciliano Ramos conserva o estilo contido em seus melhores livros, “seco”, para fazer analogia com o título do seu mais lido, nos outros é mais gorduroso. O estilo particular tão protocolar de Kafka! Traduzido por Borges, vira outra coisa, pois Borges era um grande estilista da língua e do fraseado: decorei várias de suas expressões e manias, não só as enumerações caóticas e enciclopédicas, que poderiam se estender infinitamente num livro igualmente infinito, mas também expressões de alto impacto, e contos com um fim sempre decisivo. Guimarães Rosa e sua prosa poética, a multiplicidade linguística (não só temática) dum Grande Sertão, passeando pelo popular e pelo erudito, começa coloquial, regionalista (“Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”), mas, logo no segundo parágrafo, choque entre signos, tomamos um susto: “Não gloso.”, e mesmo o experimentalismo fonético do Meu Tio O Iauretê, quase ilegível, surpreendente e que tanto agradou os concretistas paulistas. Grande respeito: Os Sertões, de Euclida da Cunha, inovação, aula (faculdade!) de alta linguagem jornalística (como o jornalismo deveria realmente ser), de alta linguagem científica (não só geográfica, mas antropológica), alta linguagem humanista, e pitadas de poética. Mas nenhum estilista é um conservador da sintaxe – pensemos num poeta como o Cummings; a grande linguagem é carregada de sentidos (como quis Pound), aproxima-se da música (como vaticinou Deleuze), mas também do próprio pensamento mesmo: nossa cabeça é como o capítulo final do Ulisses de James Joyce. O Finnegans Wake representa o beco sem saída da linguagem, a extremidade, a fímbria sobre a qual nenhum outro escritor conseguiu avançar, ou talvez o “cruel” e genialmente louco Artaud comesse suas páginas com desdém e dissesse que aquela construção não passa de superfície, como fez com o nonsense de Lewis Carroll. No século 21, para o século 21, me vem imediatamente na cabeça a linguagem elástica, intermidiática, digital, antenada do Augusto de Campos, o poeta mais jovem do mundo, octogenário.

A literatura brasileira – creio que já escrevi sobre isso de forma mais aprofundada neste blog – tem três escolas principais, básicas: o estilo despojado, citadino de um Machado de Assis, de um Oswald de Andrade; o estilo barroco do Padre António Vieira, desdobrado depois num neobarroco dum Rosa, e um estilo que se pode chamar de “geométrico”, presente num João Cabral, um dos maiores poetas de todos os tempos e que forjou a própria linguagem como poucos.

Narrar essas coisas de alguma forma me alimenta. Trago comigo, fundido em mim, todas essas referências formativas, quando escrevo e vivo, e diversas outras mais (passaria uma semana para citar todas e seus meandros), mas paremos por aqui, outra hora escrevo mais.

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