Manifesto Perspectivista, ou Anotações sobre o perspectivismo escritas num papel de bar…

1. Sou perspectivista.

1a. Sou perspectivista, porque o infinito, ou melhor, a vertigem do infinito — espacial, matemático, filosófico — me enlouqueceria…

2. O infinito, manifesto, por exemplo, no triângulo de Pascal (já dei uma ou duas aulas em que desenhei apenas um trecho deste lindo — e infinito — triângulo na lousa, para o tédio de alguns, para o maravilhamento de outros) e sobretudo nos desdobramentos do barroco também aturdiram e quase (creio eu) enlouqueceram Leibniz, que, a partir deste problema, cria o conceito de mônada: sujeito, ponto de vista dentro do caos, ponto matemático atravessado por infinitas linhas, algo resplandescendo autonomia em Jackson Pollock…

3. O argentino e universal Jorge Luis Borges, um dos meus “deuses” prediletos, livros dele esparramados no chão e na cama, era leibniziano em muitos sentidos: afinal, o que é o Aleph borgeano senão uma mônada em meio do caos?! Tomei contato com Borges no início da adolescência; agora, no início da fase adulta, ou já mais avançado nela, começo a criar analogias e ligar os pontos…

4. Há perspectivismo na teoria da relatividade de Einstein (“de absoluto, só a relatividade”) e na louca dança de um elétron, logo há perspectivismo também em diversas vanguardas artísticas, por exemplo, no cubismo: um mesmo objeto visto de diferentes ângulos!

5. Há perspectivismo na atitude crítica do pós-modernismo, pois o modernismo (diria Adorno), com seu nacionalismo e utopias e apostas em verdades absolutas, levou ao fascismo e a Auschwitz…

6. Sempre declarei que sou pós-moderno (o termo “transmoderno” soa mais novo e apropriado), no sentido da atitude crítica que este termo traz – nada a ver com o conceito difundido por Bauman de superficialidade, consumismo, liquidez, ainda que isso tudo também exista… Falo do pós-modernismo cultural, perspectivista, plural, que veste uma roupa e logo depois fica nu para se vestir com outra completamente diferente (*roupa = metáfora), não raro em dialética, em contraposição e contrargumentação constantes, escapadiço feito Macunaíma, herói incaracterizável, aliás, sou mesmo brasileiro, miscegenado, sincrético, antropofágico: perspectivista, portanto…

7. Sou perspectivista. Talvez sempre tenha sido, sem saber, dentro das minhas fases totais, vitais, letais, seletivas, devires revolucionários ou anarquismo à moda de Spencer ou socialismo democrático ou defesa da República Civil…

8. Sou perspectivista num mundo com muitos sistemas de pensar e existir, num mundo com uma assombrosa e reluzente biodiversidade, num mundo com não sei quantas galáxias, num mundo onde (dizem os físicos) o universo é infinito e em expansão… Num mundo labiríntico… Num corpo labiríntico, numa mente labiríntica, numa vida labiríntica… Tudo fractal, tudo labiríntico, tudo muito… Sou mônada… Somos…

9. Críticas fáceis, apressadas em relação ao perspectivismo dada por seus detratores ou preconceituosos: “relativista”, “infindável”, “infecundo”… Duvidar até mesmo do “em cima do muro”, reagir, reagir, relativismo, sim, ou relativismo nenhum, algum relativismo nenhum ou nenhum relativismo algum, desde que não haja apatia; onde e como e quando ser total, tiranamente total; mônada, repito, mônada e ponto de vista: onde é que está o infindável?! só se for no entorno, nas adjacências, justamente no que não é perspectivista; fugir da captura dos regimes e mecanismos de poder, das formações sociais, de platonismos e hedonismos: o perspectivismo esbarra no CORPO SEM ÓRGÃOS, desejar solto e intensivo; ora, perspectivismo também pressupõe movimentação constante, não necessariamente aparente e física, mas qualitativa e precisa, ergo não tem nada de infecundo; considerar planejamentos e modos de atuação de diversos pontos diferentes, surpreendendo no ataque. Só por isso vale a pena: ampliação da sensibilidade e da potência… Mais do que isto, o fato das coisas serem contingentes umas às outras não exclui de modo algum o valor da experiência em si.

10. Ah, o perspectivismo ameríndio, o perspectivismo ameríndio, o perspectivismo ameríndio: Claude Lévi Strauss, Eduardo Viveiros de Castro, TODOS OS ÍNDIOS AMERÍNDIOS… Jamais se esquecer do futuro que já é agora, que é quântico (perspectivista, portanto) e do panteísmo de Espinosa e do devir e da iconoclastia de Nietzsche.

— Garçom, mais uma cerveja, pois não tenho sede.

20 de abril de 2018.

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