Essa é a coisa mais importante que eu tenho a dizer para o presente e para o futuro

Quero escrever algo muito importante, talvez a coisa mais importante que eu possa escrever para o presente e para o futuro, para mim mesmo e para os outros.

Fernando Graça, início de 2016.

Fernando Graça, início de 2016.

Hoje, tendo atravessado a madrugada sem dormir, sentei na cadeira, olhei para a bagunça onde vivo, lembrei de conhecidos da moda que reclamam que o mercado está matando os estilistas e os gênios criadores, olhei pela janela e para as multidões em suas marchas logo cedo, lembrei de conhecidos que têm abandonado seus projetos artísticos para poder sobreviver, olhei para meus próprios projetos, sonhos e talentos, lembrei das mesmas reclamações financeiras de colegas artistas, olhei para os diários de Kafka, para os diários de Van Gogh, olhei, enfim, para o meu próprio futuro e para mim mesmo, e pensei: o sistema que matou Van Gogh no século 19 e Kafka no século 20 ainda existe e pode me matar, está matando a arte e/ou os artistas do século 21. Que porra de mundo é esse que não evoluiu em três séculos?!

Sim, em três séculos tivemos melhorias, direitos, emancipações, mas quero mais, mais, sempre mais! Prefiro não lançar a pergunta se realmente mudamos ou se estamos na mesma merda. É melhor não. Basta abrir um pouquinho os olhos, deixar de ser provinciano, para se dar conta que, em suma, o sistema financeiro, social, político, histórico, ainda continua sendo em essência a mesma koisa.

Tudo o que eu criar será no sentido estético de lutar para que estejamos nos estertores desse sistema… As sucessivas crises e insatisfações pessoais e coletivas apontam para alguma revolução.

Nunca fui rico nem pobre, tive apenas o básico para viver, minha mãe me criou sozinha em Santos com dinheiro do meu pai, tive incentivo da família que me dava livros e das professoras das escolas públicas em que estudei, tive o privilégio de na pré-adolescência e na adolescência poder me trancar no meu quarto para ler e escrever, mas tudo isso para de repente crescer e ser negado por um mundo governado por oligarquias imbecis com as quais somos obrigados a nos relacionar para sobreviver… Não sou uma exceção, sou a representação de um indivíduo que necessita de circunstâncias e contextos para poder aflorar e ser estimulado. Enquanto isso não ocorre, cabe ao ser humano se levantar e agir, concluir seus propósitos, insistir em suas lutas.

Um sujeito é, além de sua própria individualidade, da qual constrói por si próprio, é também sua cidadania e seu corpo participativo na sociedade. Não adianta em nada ter individualidade e potência corpórea se não tiver cidadania… Mas é através da existência desses dois outros elementos que ele luta por sua cidadania.

Hoje em dia, procuro não focar mais nos detalhes políticos que são instáveis e passageiros, nos pormenores, nas notícias mesquinhas, interesses mesquinhos, brigas mesquinhas, pequenas, partidárias, nos avatares políticos, que todo mundo gosta de reagir pelas redes sociais, pois vejo que tudo isto não corresponde à essência, pois tenho uma ambição que nenhuma esquerda nenhuma direita me dá de verdade. Estou além dessa merda toda, mesmo que grite aos quatro ventos SOU SOCIALISTA DEMOCRÁTICO ANTISTALINISTA, ABSOLUTAMENTE ANTI-REACIONÁRIO, A FAVOR DAS LIBERDADES SEXUAIS, DOS DIREITOS SOCIAIS.

Porque todos meus interesses políticos atuais resumem-se e concentram-se num único tema: que cada ser humano tenha um salário para sobreviver materialmente e que os empregos tornem-se opcionais.

Pronto. Cheguei no ponto que queria.

Não sou o único a defender isto, a pensar nisto, não sou nenhum louco. Já escrevi um texto aqui traduzindo exatamente essa mesma certeza intelectual de Brian Eno. Apesar de toda mentalidade internacional do Basic Income, apesar do Bolsa Família (que, como já escrevi neste ensaio aqui, precisa virar programa de Estado), apesar do indispensável projeto (sempre ignorado e pouco comentado) de Renda Mínima Cidadã do Suplicy (que já está velho e espero que tenha seguidores NA POLÍTICA e não apenas no Facebook), isso tudo ainda é tão distante, então o sistema faz parecer romântico, louco, piegas, ilusório, delirante, utópico.

Sim, o sistema quer que tais propostas concretas e revolucionárias pareçam tudo isto. Sim, porque um mundo assim significaria o fim total de todo escravismo, de toda subserviência, a derrubada de grandes instituições e oligarquias, de todos os sistemas predatórios e controladores, de todo crime de ordem socioeconômica, seria o fim total de toda pobreza e miséria que, de certa forma, esquerda e direita sustentam. Seria o Renascimento.

Ah! Já estou cansado de tantos discursos esquerdistas, direitistas, centristas, tudo inútil! Vejam só que Noam Chomsky, o maior intelectual norte-americano vivo, fez 81 anos recentemente, e disse de maneira acertada que o sistema de dois partidos dos Estados Unidos serve senão ao corporativismo.

Enquanto isso, dentro desse sistema global, quantas almas vivendo sem sentido ou significado, vivendo por viver, para simplesmente sobreviver, quantas gerações educadas na lógica da técnica e do funcional, quantas almas ceifadas, talentos ceifados, impedidos de desabrochar, de ter seu tempo de ócio criativo, seu tempo de profundo existir… Não. Sem coitadismos. Menos. Não sejamos ressentidos.

Pergunta simples: acham mesmo que agradaria à esquerda e à direita tal proposta radical?! Duvido, pois uma sociedade onde cada um receba dinheiro e os empregos sejam opcionais seria uma conjetura que não serviria à lógica do trabalhismo, que norteia ambas as esferas políticas… Esquerda e direita, no mundo todo, atuam a favor desse grande sistema, ambas falam em garantir mais empregos, acabar com o desemprego, etc., mesmo os governos mais saudáveis e progressistas precisam se relacionar com a ordem e com o progresso… Não é isso que quero. Defendo algo absolutamente radical. Arre, que náusea! Quero ver tais propostas supracitadas crescendo, sendo discutidas, por isso insisto em escrever tais koisas! Algo completamente diferente, que tem começado a ser discutido em âmbito internacional pelo viés da Renda Básica e de Basic Income.

Seria o começo de uma era de abundância, produção criativa e de terreno fértil para a cultura e para a arte. Mais do que isso, seria o desabrochar da verdadeira singularidade existencial de cada um de nós. Na Revista Galileu, mostraram-me, por conta de todas essas minhas preocupações, uma matéria sobre uma cidade sem políticos e sem classes sociais, onde cada um justamente recebe um salário para trabalhar no que bem quiser. Como se vê, ter dinheiro nunca foi problema; o problema sempre foi a falta dele e – sobretudo – a busca desesperada por ele, a ponto de nos vendermos e nos sujeitarmos sob a pena de morrermos.

Que sociedade absurda vivemos! Todos estão cansados!

É certo que o marxismo e as lutas socialistas do século 20 deram um passo fundamental que permitiu o aperfeiçoamento do capitalismo, dos direitos trabalhistas, e que mudou para sempre a relação trabalhador x empregado. Precisamos, agora, de uma nova revolução, de uma outra transformação, que mude a relação cidadão x sistema mundial para finalmente fincarmos os pés no século 21.

A ideia é essa. Se tenho algo de importante a escrever para o presente e para o futuro, é isso, um novo mundo para um novo homem. Toda minha arte tem se concentrado nisso.

Enquanto as perspectivas dessa era não chega… Não se pode sentar no vitimismo, coitadismo ou esperar qualquer coisa que seja do governo. Tal ação é típica dos ressentidos, dos fracos. Não dos fortes.

O forte não é aquele que necessariamente vence. Pelo menos não é aquele que vence conforme achamos que vence. A História tem mostrado que os fortes, ao contrário, costumeiramente não estão ao lado dos vencedores. Kafka. Van Gogh. Uma enxurrada de poetas. São tantos, brasileiros e universais, que ensinam sobre a potência singular do indivíduo, que continuaram em frente apesar de toda sua miséria material, de toda situação degradante ao seu redor, e que nos educam ao mostrar que – na tirania ou na democracia, não importa – vencer é fazer, terminar, concluir, agir, propor, lutar por profundas transformações sociopolíticas, insistir ao invés de reclamar, pois toda tragédia pessoal e coletiva deve ser transmutada em Fonte de Energia através da Vocação.

vocAÇÃO.

PS.: Não quero que meu texto desperte qualquer tipo de pessimismo nas pessoas. Sem ressentimentos! Mais ações! Identifico nossos sintomas e tragédias, mas deixo claro minhas propostas sociais e meu crédito na potência singular de cada um independentemente dos governos e sistemas.

Leia também: O fim do capitalismo segundo Günter Grass e Brian Eno: o que virá depois?

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