Duas fotos de família

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Que foto! Eu, indefeso e rodeado por três gerações de mulheres: vovó, irmã e mamãe. Um personagem felliniano, mimado, mas com base sólida. Sou a prova viva de que a sociedade brasileira a partir do século XX foi se tornando cada vez mais matriarcal. Mais tarde, aproximando aos poucos do meu pai (apesar de ter cumprido excelentemente seu papel de Macho Alfa, afinal, teve 6 filhos), descobri um homem extremamente sedutor, terno, afetuoso e emotivo, ou seja, com a força feminina junguiana mais desenvolvida do que a masculina.

Com tanto feminino ao meu redor, sem contar professoras e parentes mais velhas que também forjaram meu caráter e educação, ao contrário de um Kafka, nunca conheci a figura do tirano: não fui preparado para a vida. Meu pai sempre me incentivou, me presentava com livros e só começou a se preocupar com meu futuro quando já era tarde demais: seu caçula já estava predestinado às coisas do espírito. Não lembro então quando me aconteceu o primeiro choque entre o sonho, a imaginação, a escritura das coisas (que me dão força) e o mundo de fora, prático e cruel, a dizer que não passo de um solipsista, de um escapista, a mostrar que o jovem Hamlet é fraco demais para o trono, não é homem o suficiente para vencer na vida, mas isso se tornou cada vez mais constante a partir da morte do meu pai quando eu tinha apenas 18 anos, porque perdi minha referência masculina principal na vida, fui empurrado para o mundo dos adultos e minha responsabilidade sobre mim mesmo aumentou.

Penso que essas querelas trágicas, íntimas e dramáticas devem ser usadas e transmutadas como fonte de energia através da arte. As mulheres me ensinaram isso através de suas emancipações sociais. Os artistas também. Ser artista tem sido exercitar meu feminino desenvolvido e meu masculino amedrontado. Concluí recentemente que a pessoa que não se sentir assim na vida, como um outsider, à margem, não tem gabarito para ser chamada de artista: o artista nasce ao se dar conta que é uma potência desajustada que só se realiza e vence na arte.

Essa foto, além de ter sua importância familiar, sociológica, histórica, é também simbólica, pessoal e coletiva, explica por que – como todos os artistas que só se realizam e vencem na arte – sinto-me indefeso em relação ao mundo exterior: mais ainda, explica de onde (e de quem) vem minha força e por que sou poeta e artista!

Vovó Nazareth.

Vovó Nazareth.

Reluto muito em ver fotografias da minha vovó materna, pois sempre acabo chorando. Foi a primeira grande morte da minha vida. Mas, de repente, o choro se mistura à sensação do mais sincero amor. Sempre amei essa vó! Eu fui uma espécie de anjo em seus últimos anos. Aqui ela ainda estava boa. Mas quando eu me tornei criança, ela não saía da cama e já não falava mais. Eu ficava sempre por perto, fazia ela rir, brincava com ela, cantava, contava histórias e fazia ela se sentir melhor, assim como ela me fez nessa foto: basta ver o modo como me sinto confortável em seus braços, esboçando um leve sorriso. Nunca chegamos a conversar, mas nos entendíamos pelo nível do afeto. Numa manhã, minha mãe abriu a janela do quarto para entrar luz. Ela não costumava fazer isso logo cedo. Foi pra vovó passar. Naquele mesmo dia ela se foi. A primeira pessoa que eu quero encontrar quando eu morrer, se isso possível for, se as equações matemáticas e quânticas permitirem, se os projetos cósmicos forem mesmo grandiosos, se a consciência realmente não depender da matéria nem do tempo nem do espaço para existir, é ela, Vovó Nazareth. E meu pai.

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