Tem gente que se espanta com casamento real interracial. Eu me espanto que ainda exista rei e rainha…

Tem gente que se espanta com casamento real interracial.

Eu me espanto que ainda exista rei e rainha, príncipe e princesa, casamento “real”, e gente comentando essas coisas tão bregas, caretas, superficiais, corruptas que ficaram no século 19… Os vestidos, trajes, banquetes e detalhes de duas convenções e instituições ultrapassadas: casamento e monarquia. Só se contenta com luxo quem é pobre de espírito. Os ricos de espírito acham o luxo muito pouco e querem algo mais.

Aqui, ainda temos uma “família real” lá no Rio de Janeiro, conservadora, inerte e dispensável, achando-se importante, sem nunca ter feito nada por este país. E os viúvos do império e da monarquia sempre vêm com números estatísticos mentirosos e comparações absurdas, pois o Brasil, até o século 19, não tinha a dimensão que tem hoje, era praticamente só o Rio de Janeiro (a corte, e a única cidade civilizada) e algumas poucas outras cidades no litoral. O resto não existia ou era província…

As descentralizações brasileiras são conquistadas lentamente e a duras penas durante esses mais de 5 séculos para que figuras como nós, maioritárias, que venham realmente do povo, aprendam sobre política e governem bem, para que figuras como Sarney e Temer e muitos outros (como a bancada BBB do Congresso) não continuem hegemonicamente. Todo o dinamismo da república civil é uma bruta conquista humana. Numa monarquia, o peso do status quo é três vezes mais estabelecido, com a diferença de que na Inglaterra a Rainha clonada e seu esposo moribundo já não decidem mais nada de fato: cinematografia antiga, decoração, bibelôs, pinturas… Deixam o primeiro ministro e os partidos decidirem, enquanto a família faz atos simbólicos, e os príncipes (apesar de casados) fazem a farra!

“Mas e a poesia da coisa, Fernando?!” “Abandonar a monarquia, com toda sua simbologia e arquitetura, é sair da poesia!” É verdade, essa atmosfera antiga, apesar de embolorada e boring, traz consigo ideias de estética e beleza, em oposição ao pragmatismo republicano. Espadas ao invés de revólveres, cavalos ao invés de carros! Eu mesmo, tenho a utopia duma aristocracia geral! Mas a poesia não se resume ao classicismo e existe sempre e de todos os jeitos imagináveis, independentemente da coisa: pérpetua. A Arte contempla o Palácio de Buckingham e a Catedral de Brasília…

Muitos achavam que a poesia tinha morrido quando a república foi instaurada em diversos países, inclusive aqui, já que a ordem do dia seria falar sobre economia e política. As crônicas de Machado de Assis, testemunha ocular, nos anos finais do século 19 comprovam tal preocupação. Tenho as lido diariamente para escrever um romance que se passa naquela época. Qual é o zeitgeist? Capitalismo brasileiro engatinhando, câmbio, taxas, bancos, corporativismo, porcentagens, finanças: tudo muito antipoético!

É o progresso, é a revolução industrial, é o mundo moderno: fascinante e terrível!…

Ora, mas e o despotismo da escravidão, mas e a figura indolente de Pedro II? Mas e a miséria e o atraso, mas e os grandes fazendeiros e ruralistas, mas e… A lista de descalabros é enorme, em todas as épocas e governos. Nem por isso a Poesia e a Arte foram menores. Ao contrário, tantas vezes contestatórias!…

Não é verdade, portanto. A poesia e a arte nunca morrem, encontram sempre novas formas. A Arte provavelmente encontra seu momento mais florido e potente justamente quando se livra ou quer se livrar de pesos. Foi assim também com o romantismo no próprio século 19. Não, pensar daquela forma (“sair da monarquia é sair da poesia”) seria renegar toda a arte inovadora do século 20! Seria negar a Semana de 22 e toda sua emancipação! Toda a poesia vanguardista do século 20, sem império, czares e monarquia, é fascinante, no mundo todo – não raro, dependendo da poesia e do poeta e do artista, mais fascinante do que tudo o que fora produzido anteriormente na história da humanidade! Não tem nem como discutir isso. Poesia existe em todo canto! Aliás, esse foi um dos ensinamentos máximos do Rilke: não culpar a realidade ou a vida pela falta de motivos poéticos ou pela falta de inspiração, mas a si mesmo. Tem poesia em todo canto. Basta lembrar, por exemplo – e, infelizmente, não posso me alongar nos incontáveis exemplos -, de Maiakóvski, essencialmente revolucionário, ou Whitman, imenso democrata espinosista num país essencialmente republicano.

Ainda assim, esses signos todos mexem com minha cabeça… Gosto, não gosto. Esses dias vi Paul McCartney reverenciando a rainha numa cerimônia. É mais ou menos tão patético quanto os ritos da Academia Brasileira de Letras – instituição careta da época imperial que nunca promoveu o novo, e que mereceu boas críticas de Augusto de Campos. Lennon, mais instigante, jamais faria aquilo que McCartney fez. Ele falaria sobre os Paradise Papers instead…

Pergunto então ao meu amigo inglês, Mark, “beautiful and sexy boy”, que conheci em São Paulo e que agora está na Índia, por que não se livram logo desses enfeites, desses avatares descolados do tempo e do espaço, já que a política real fica nas mãos de um primeiro-ministro. Pergunto de forma curiosa, tentando entender a cultura e a tradição, sem partidarismo, porque sei da carga de beleza e simbologia naquele sistema.

Ele me responde: “E o dinheiro pro turismo?…”

Nossa! Mas e a beleza da coisa?!

Well, meu caro Machado, tu mesmo deves ter percebido no teu tempo, com Tiradentes e depois com Canudos: no fundo, é tudo quase a mesma coisa, e a poesia e a arte continuam apesar disso, and the rest can’t be silence…

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