Escrever poesia é coisa séria e difícil…

Escrever poesia é coisa séria e difícil. Muito difícil. Tenho lido poemas muito ruins na rede social. Como se fosse fácil! Sem autocritério. Não. Percebe-se de cara que esses “poetas” não têm o hábito constante de ler poesia e de comprar livros de poesia, seja para não chover no molhado, seja para escrever mesmo melhor, seja para ampliar o próprio repertório linguístico, existencial, poético e estético. Em Julho de 2016, lancei duas perguntas (“Por que ninguém compra livros de poesia? Por que poesia não vende?”) que eu mesmo quis ir estudar e responder: http://fernandograca.xyz/2016/07/30/por-que-ninguem-compra-livros-de-poesia-por-que-poesia-nao-vende/ Outro grande crime: desconsiderar o ritmo. Poesia pode ter ou não ter métrica, pode ter ou não ter verso, mas é ritmo. É difícil… É preciso sagrar, respeitar a página em branco… É preciso ter o horror primitivo e mallarmaico da página em branco… É preciso, num tempo tecnocrata, pequeno, mercadológico, consumista, ter a falta de aptidão para a vida prática de certos poetas russos revolucionários, que só viviam para a Poesia… É preciso atravessar parágrafos bem mais longos do que este que ora escrevo… Basta ver que existem grandes escritores, romancistas e contistas mestres na arte de escrever, mas que nunca escreveram poemas, tamanha particularidade da Poesia, frequentemente mais condizente com a música e com as artes plásticas do que com a Literatura. Autoexigente, vocês não sabem o quanto eu tenho vergonha de sair mostrando meus versos e não-versos por aí, apesar deles serem divulgados aqui, como aquele conjunto de poemas que publiquei em duas edições da Revista Germina: a) http://www.germinaliteratura.com.br/2016/fernando_graca.htm e b) http://www.germinaliteratura.com.br/2018/naberlinda_fernandograca_mar18.htm… Dou minha cara a tapa. Poesia não é mero relato autobiográfico, íntimo, pessoal, desabafo: basta ir por este caminho para matar a poesia, para fazer poemas ruins. Você não usa a Poesia, é ela que te usa para um fim poético. Onde suas questões viram arte, em tudo que possa haver de intensidade, onde você torna-se todos os poetas (olha a responsabilidade!) e todos os homens. Poesia é construção artística. É um pensamento em cápsula que só se dissolve na boca de quem sententende… Por exemplo: “Sobre a velha Ouro Preto o ouro dos astros chove” (versorgasmo de Bilac que o mais-que-concretista e grande poeta Décio Pignatari repetia para exemplificar o verbal rumo ao não-verbal…) Poesia é aquilo que é “entendido antes de ser explicado” (Eliot)… É uma construção linguística, sonora e visual… A poesia pode ser simples, mas a simplicidade é muito difícil de ser atingida — João Cabral, por exemplo, é simples, mas não se chega a tal simplicidade, estilística PRÓPRIA e ritmo logo de cara, é preciso muito trabalho, muita lapidação, não se contentar com inspiração, deixar de lado por um tempo, retomar depois, silenciar, refletir, perlaborar, ler, ler, reler, viver, sofrer e ter prazer, procurar inovar, decorar sonetos e versos livres e experimentais (para mim, não é poeta aquele que não sabe alguns bons poemas de cor), considerar quem está hoje no amanhã, ou seja, quem é o poeta mais jovem do nosso tempo (Augusto de Campos, octogenário), selecionar bem o Drummond e a si mesmo, procurar quem escreveu aquilo melhor do que você, se autosuperar, amar e odiar a língua materna a ponto de interferir na sintaxe (isto não só na poesia, mas em qualquer Literatura), e, mais do que isto tudo, ter a Vocação e ser assombrado, maravilhado e perturbado por ela (como Rilke exigiu).

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