DOIS AMERICANOS E UM INGLÊS QUE NÃO SAI DA MINHA CABEÇA…

Mark. Tinha uma felicidade praticamente física, corporal, saudável. Os dois americanos dos quais me envolvi talvez não valessem de modo geral, sem pensar nas particularidades, como esse único inglês. Os americanos não eram felizes; seus sorrisos não eram sinceros; não estavam no aqui e no agora, não estavam realmente comigo. (Pelo visto, não seguiam a cartilha de felicidade panteísta que se encontra na obra do compatriota deles, o influente poeta Walt Whitman, que Álvaro de Campos, nas mãos de Fernando Pessoa, e outros não se cansam de citar…) Eram melancólicos, quase apáticos, depressivos: faltavam-lhes ânimo, alma. “Ah, eis o sonho americano, e os frutos do capitalismo absoluto”, eu concluía. Caetano Veloso fala-canta: “Americanos não são americanos,/São velhos homens humanos,/Chegando, passando, atravessando./São tipicamente americanos./Americanos sentem que algo se perdeu,/Algo se quebrou, está se quebrando.” Que precisão!

Uma coisa é certa — eram mais instigantes na forma de se vestir e contestar na questão de gênero e sociedade. Isso sempre é grande tesão para mim. Preciso confessar, eram mais cultos também — um veio estudar o judaísmo no Brasil num programa de pós-graduação pela Unicamp, se não me falha a memória, e sabia muito de teoria queer (“gênero é uma constructo social”, era o seu bordão, em português mesmo, que ele falava bem); o outro, apenas de passagem, me mostrava vídeos do Slavoj Zizek e também se interessava por estudos de gênero, tanto que esnobou quando citei Chomsky, por este ignorar as questões sexuais. Ambos se preocupavam com a desigualdade flagrante, explícita de São Paulo — um deu toda a sua comida do almoço para uma mulher na rua e o outro comentou comigo, triste, sobre a quantidade de moradores de rua que tinha visto, sobretudo homossexuais, debaixo da ponte, próximo do hotel onde ele se hospedava — alarmante para eles, natural e cotidiano para nós, brasileiros, e que não, não deveria ser… “Ah, fruto do capitalismo americano externo e do capitalismo brasileiro interno, e do Estado brasileiro que acumula equívocos históricos”, concluía eu.

Mark, por sua vez, era bem mais simples e mais alheio, e se hospedou num bairro nobre, numa torre de marfim: do trabalho para casa, da casa para o trabalho, com uma ou outra saída para beber; pareceu não saber interpretar um poema do seu compatriota Lord Byron que se encontra no filme Into the Wild, que ele me deu para assistir numa tarde de domingo no seu notebook (acho que o protagonista fazia ele se lembrar de mim, jovem, poeta, underground, outsider). Disse que os versos de Byron não tinham nada a ver com o filme; respondi, talvez arrogantemente, que tinham tudo a ver. Não replicou. Fiquei chateado, como sempre fico, diante da ignorância ou da preguiça intelectual.

O inglês, mesmo com toda a sua suposta caretice e explícito elitismo, era mais atrativo, no entanto: com as mãos me tocava mais do que os americanos, até mesmo enquanto conversava. Impossível não notar a cortesia típica. Eu me sentia constrangido — não estava na minha época mais feliz — quando ele me recebia com sua disposição e alegria tiranas, absolutamente naturais, ao abrir a porta. Eu não estava preparado ou acostumado. Não era um exagero ibérico, “italiano”, era completamente contido e, repito, natural. Alegria ingênua, “de criança”; boa disposição. Uma receptividade imensurável, uma atenção… (Mesmo nas mensagens diárias, educadas, e cheias de desculpas…) Olhos brilhando diante do latino… Creio que estivesse mesmo apaixonado por mim… Um sorriso branco, muito largo… Era mil vezes mais carinhoso; os americanos, mais pervertidos.

Uma vez, deitando-se em cima de mim para me beijar, seu rosto me lembrou o do ator do Bergman, Max von Sydon, ou o do Peter O’Toole; pela posição do corpo e pela luz baixa, seu rosto branco, glabro, quase efebo, de olhos azuis e cabelo castanho claro quase loiro (cabelo como o do David Bowie versão 1999), parecia o rosto de um vampiro ou de um aristocrata sombrio do século XIX prestes a chupar meu sangue. Só um inglês é capaz de, num piscar de olhos, ser anjo e ser bizarro. Nesse momento, depois de um ou outro beijo, ria amavelmente… “Why are you laughing, Mark? You’re laughing…” E com o sotaque (sussurrado) que sempre me pareceu mais entendível do que o americano, com o típico ar bobo e ao mesmo tempo fofo dos europeus, respondia: “Yes, but in a good way…” Naquela noite, ele me chupou outra coisa.

Não posso deixar de anotar outro episódio, quando o levei até o banco para ajudá-lo no caixa eletrônico, pois ele não sabia nada de português — provavelmente só “caipirinha”. Havia uma confiança impensável. Nenhum amigo brasileiro — talvez nem mesmo um parente! — deixaria eu ficar cara a cara com o valor disponível na sua conta bancária — e não era pouco. Aquilo me marcou. “Conheço-o há tão pouco tempo e há essa confiança!…” Questões culturais…

A confiança era tanta, aliás, que uma ou duas noites acabei dormindo com ele e, na manhã seguinte, tendo que ir trabalhar, me acordou da forma mais tranquila possível, dizendo que ia sair, e que eu podia continuar dormindo sozinho em seu flat até a hora que quisesse, contanto que deixasse a chave com o porteiro. Não recordo disso ter me ocorrido com outro.

Dava aula no ensino fundamental para uma escola britânica, bilinguie em São Paulo, onde, inclusive, estuda(va) o netinho do Maluf — segundo ele, “the most cute thing in the world”, apesar dos comentários dos seus colegas professores dirigidos odiosamente (e com razão) contra o avô.

Falamos de política, sempre entro propositalmente no assunto, pois estávamos em momento crítico no Brasil, e já escrevi sobre isso aqui no blog — “os velhos assistem na televisão que os imigrantes estão roubando os nossos empregos e apostam nos conservadores”, ele me disse com rara indignação, e me senti um pouco melhor ao constatar mais uma vez que a ignorância não é exclusividade nossa, ao ver que a humanidade pode ser uma merda em qualquer lugar. Se não me engano, contou também que em Londres os jovens votaram em sua maioria para o Reino Unido não sair da União Européia, contra o Brexit e qualquer fascismo. “Hillary tem que ganhar”, também me disse noutra ocasião. Talvez não fosse tão culto o meu inglês, mas era bem informado e esclarecido. Mas não assistimos essas porcarias da mídia brasileira ou inglesa, muito menos da americana; ele era viciado em partidas de tênis, sempre estava assistindo, e até sabia o nome de alguns tenistas brasileiros.

Ah, o aluguel do flat, aliás, assim como várias despesas de sua estadia, eram pagos pelo governo britânico. GOD SAVE THE QUEEN!

Tudo isso aconteceu há mais ou menos 1 ano.

Por que escrevo tudo isso, memórias íntimas?… Sem inspiração para meus livros?… Porque gosto de escrever, claro, impulso de escritor, mas principalmente porque agora, nessa madrugada de chuva, sinto saudades do meu príncipe inglês sexy. Miss you, Mark…

“We’ll meet again, / Don’t know where, / Don’t know when, / But I know we’ll meet again / Some sunny day…”, diz a música da Segunda Guerra cantada pela britânica Vera Lynn (ainda viva hoje!), usada pelo Kubrick no Dr. Strangelove e que depois o Pink Floyd relembrou: “Does anybody here remember Vera Lynn?/Remember how she said that/We would meet again/Some sunny day?…”

“Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,/Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!”, escreve Álvaro de Campos em “Passagem das Horas”…

Durou pouco, mas foi mais do que interessante. Era o rapaz perfeito para se casar — como os ingleses no geral parecem ser. Os americanos exageravam os meus próprios atributos: tortos demais, angustiados demais. O inglês era o ideal mesmo. Eu, no entanto, devia ser oblíquo demais para o seu reto costume. Artista…

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