LIVROS QUE EU ESTOU ESCREVENDO

Livros que eu estou escrevendo :

(Faulkner, citado por Bergman num vídeo que eu vi por aí, diz que não se deve nunca contar, revelar os livros que se está escrevendo, caso contrário não serão escritos. Subverto esta superstição…)

1. TERRA E FLUTUAÇÃO: BRASÍLIA. Romance intrincado, matematicamente borgiano do ponto de vista composicional, bifurcado, e que precisa ser lançado ainda este ano, antes das eleições!… É o que está mais adiantado nesta lista. Num capítulo, a política é institucional, retrato escancarado, cômico (dantesco) e incisivo do povo, das classes, dos setores, das figuras e do que se tem feito neste país, com propostas práticas, progressistas que me surgem para o protagonista; noutro capítulo, a política é potência imanente. Brasília enquanto terra, aspectos sócio-históricos, e Brasília enquanto flutuação. Num capítulo, o protagonista é um revolucionário ativo; noutro, é um ativista; noutro, é um poeta, um performer, um dançarino. Há um sonho ou uma concretude, um delírio ou uma constatação com uma Brasília apocalíptica e renascente no primeiro capítulo; os capítulos posteriores são regressivos, possíveis passados e causas nos dias anteriores deste sonho ou deste fato. Estou achando minha escrita bastante rigorosa. Às vezes considero este livro grandioso e infinito demais para mim.

2. ESCREVER COM CORPO SEM ÓRGÃOS. CsO é uma prática, um exercício, um experimento, portanto pode ser aplicado na escrita. Dar uma oficina, um curso, orientar um grupo de estudos a respeito disto (minha intenção para este ano) requer que se escreva um livro sobre isto. Eu já tinha esquematizado cada capítulo do livro, mas perdi o papel na minha bagunça de Santos e de São Paulo. Se não estou enganado, absorvo a recomendação de Deleuze e Guattari para evitar processos de psicanálise clássica, como o da interpretação; não interpretar, mas experimentar, vivenciar. Escrever com corpo sem órgãos, começo escrevendo no livro, é como se masturbar sem ejacular – mas não de qualquer forma: como no tao ou no tantra, de forma intensiva. Se CsO é o campo de imanência do desejo e é desejar com intensidade, quais são os campos platônicos e hedonistas da Literatura dos quais podemos fugir ou subverter para criar um corpo sem órgãos da escrita? Superação da crise de inspiração (falta), esquecimento de recompensas literárias (hedonismo). É neste meio onde brota a intensidade, o desejo como fábrica, o aspecto construtivista do desejo; logo, da escrita. Exemplos literários que considero interessantes nesta temática toda: a escrita esquizofrênica-genial de Artaud (o aspecto físico da linguagem, a linguagem como modo de se liberar), um texto de proesia de Décio Pignatari chamado “Noosfera” — construção sofisticada e inovadora que destrói ou mistura forma tradicional de prosa e poesia (depois de eu explicar através da Semiótica as diferenças bastante delineadas entre poesia e prosa) –, “Descrição de uma Imagem”, texto dramatúrgico em fluxo e inovador de Heiner Müller para o teatro, e exemplos passageiros, como o do francês Péguy, que fazia a frase crescer pelo meio: escrever de modo original é evitar ser um conservador da sintaxe, mas criar uma língua estrangeira dentro da língua-mãe. Por isto, há no meu livro este capítulo, o amor e o ódio pela língua nativa, amor e ódio que permitem também a criação deste corpo sem órgãos para a escrita. Agenciamento: arranjar um lugar para escrever.

3. desprosas, descontos, destinos: depois do capitalismo. “Contos” curtos que fazem uma espécie de apanhado histórico dentro de mais ou menos 1 século de capitalismo, cujos protagonistas são indivíduos que destoam do sistema: tipos como Kafka, van Gogh, brasileiros, poetas, artistas, fictícios e reais, eu… Atingidos pelo financismo, mas criadores de espaços próprios, de microsistemas estéticos e potentes dentro de suas próprias vidas. O que me impede de terminar este livro é o seu último conto, “Depois do Capitalismo”, onde considero e apresento múltiplas possibilidades reais do fim do capitalismo e deixo em aberto, incerto, se o seu fim será mesmo “bom”: mais do que a morte do capitalismo, o que importa também é o que virá depois…

4. CRÍTICA DO CONSERVADORISMO. Onde afirmo, com Espinosa e Nietzsche, que o conservador, assim como poderosos, padres, juízes e tiranos, é um impotente triste, tentando sempre impedir o livre exercício da potência de si e dos outros. Também faço uma rápida crítica dos elementos extrínsecos e platônicos do conservadorismo, como a moral, a norma, a regra, o cristianismo tradicional, que não passam de um deslocamento da própria potência desvirtuada por regimes semióticos de controle, cerceamento e captura — serei justo e identificarei isto até mesmo nas promessas e esperanças da esquerda. Superficialmente, critico também modelos políticos e econômicos conservadores, típicos de governos austeros, que enxugam gastos, flertam com o despotismo e a antidemocracia, e centralizam riqueza e poder. Aqui entra também o fascismo dos governantes brasileiros, as intervenções militares, a indústria da violência policial, que não resolvem os problemas de desigualdade e violência do país — insiro propostas e sugestões práticas e transformadoras contra estas velhas práticas demagógicas, que tratam das consequências, não das causas. Neste livro entrará automaticamente crítica contundente contra a bancada BBB do Congresso e a direita xucra (quem sabe até mesmo registrando os seus comentários absurdos e ignorantes, machistas, burros, preconceituosos, homofóbicos, fundamentalistas, truculentos, medíocres que recebo ou observo na internet).

5. POESIAGORA. Livro só de poemas. Até então tenho me sentido satisfeito em publicar poemas meus em revistas e jornais de Literatura…

6. GEOGRAFIA DA SOLIDÃO. Misturando prosa poética autobiográfica e análise filosófica, livro bastante íntimo, pessoal, mas também geral, onde defendo os espaços e as zonas internas e subjetivas como sendo tão importantes quanto — e muitas vezes até mais — do que as exteriores, físicas, claras, aparentes. Tratarei do Corpo — o corpo consciente e inconsciente, físico e psíquico, sujetivo e aparente. As melhores representações do Corpo são as fractais; o Corpo é fractal. Este livro provavavelmente terá uma série de desenhos fractais meus, representando geometricamente uma geografia possível da solidão — seu aspecto tenebroso, seu aspecto maravilhoso, seus espaços, planos, camadas, zonas, movimentações, topografias e atopografias. Às vezes é um corredor estreito, uma via tortuosa, às vezes é o espaço oculto depois de se ter virado uma curva, às vezes é um palácio ou um estádio. Há a necessidade da solidão, das ideias, da criação, seus estupores, satoris e insights, seu contentamento íntimo, há seu exílio, desespero e dor. Sem interlocução filosófica e artística eu morro. O que é um encontro? O que é uma companhia? Como os aplicativos de relacionamento e as redes sociais mudaram as coisas neste século? Insulamento, dependendo do indivíduo, principalmente em se tratando dum esteta seletivo, é como uma teia de aranha onde por vezes ele prende e traz para si e para o seu círculo as suas presas bem selecionadas… Célebres solitários fictícios e reais. Se não me engano, anotei em algum lugar algumas referências: como o capítulo em que Blanchot — recluso exemplar — escreve sobre a solidão do escritor no seu “Espaço da Literatura”.

7. ZONA DEMONÍACA E POTÊNCIA EM SI. Ainda não escrevi nada deste. Aprofundamento deste conceito filosófico que criei de zona demoníaca, e que está presente de forma implícita ou explícita numa miríade incontável de fatos, livros, pensamentos, etc. Aprofundamento daquele vídeo no meu canal do YouTube justamente intitulado “Zona demoníaca e potência em si.”

Há vários outros na minha vontade e no meu pensamento — um sobre Renda Básica Universal, considerando o que já se escreveu a respeito, outro sobre o debate complexo (muitas vezes vão) de autonomia da arte, outro sobre um estudo da Poesia, outro sobre…

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