Homem e Natureza (anotações pessoais)

Imagens do pós-furação na América do Norte mostram surto de jacarés nas ruas da cidade praticamente deserta, veados pelos escombros das casas e residências, peixes nadando nos asfaltos inundados, nas canaletas, nas avenidas movimentadas de Miami. Como aqueles filósofos, incluindo Voltaire, diante daquele horroroso terremeto que aconteceu em Liboa há 3 séculos, comecei a filosofar…

Nascido na ilha de Santos, sempre fiquei fascinado em pensar no mar e na natureza engolindo nossa civilização, como se toda nossa cultura, história, sentidos, filosofias, religiões, não passassem de um imenso vazio, de um imensurável nada. Somos sempre tão cheios de certezas, egocêntricos, vivendo nossos papéis efêmeros! Não, nossa espécie não é o centro do universo. A Natureza não está nem aí. Mesmo nas cidades urbanas, afastadas do litoral, uma pequena movimentação na terra pode mudar tudo, poluições, impactos ambientais e atmosfera prejudicam a vida, e plantas, ervas daninhas e matos crescem entre o progresso dos carros, dos edifícios e das construções… Ondas, plantas, ervas, parecem esboçar, ensaiar lentamente seus botes derradeiros.

Ora, há poucos meses, Stephen Hawking, crítico com os rumos inconsequentes do capitalismo desnorteado, como tantos outros homens lúcidos, foi bem claro ao dizer que não temos mais do que 100 anos, que devemos desde já a começar a imigrar para outros planetas. (Inevitável imaginação de ficção científica: só a elite será capaz dessa jornada, porque só ela tem dinheiro para isso, e nos deixará aqui, ou os nossos filhos e netos, num regime escravocata, enquanto destroem o resto da Via Láctea. Nos anos finais do século passado, já na queda total da União Soviética, Heiner Muller, dramaturgo da extinta Alemanha oriental, numa rápida passagem pelo Brasil, foi quem insinuou isso.)

Tudo isso só me faz lembrar da frase arrepiante do Lévi-Strauss: “Meu único desejo é um pouco mais de respeito pelo mundo, porque ele começou sem o homem e acabará sem ele.”

O cineasta Herzog é mestre em retratar essa relação do Homem e da Natureza, que, aliás, toma vigor no Romantismo, na segunda metade do século 18 e no século 19 (a imagem que ilustra esse texto é justamente daquele zeitgeist, pintura romântica de Caspar David Friedrich, intitulada Caminhante Sobre Mar de Nuvens). Mesmo antes, na época dos Descobrimentos e da Renascença, essa relação entre Homem e Natureza se intensificou de forma sem precedentes na nossa história, mas até então o Homem se sentia superior diante da Natureza, desbravando-na, ainda sem grandes traumas globais como esses que acumulamos durante os séculos, a não ser tempestades em alto mar. Citei Herzog. Recentemente fez um documentário – que meu ex quis que eu visse, embora terminássemos fazendo outra coisa (ah, a força da natureza, do instinto!) – com imagens impressionantes sobre a relação de uma tribo que mora próxima de um enorme e perigoso vulcão com suas lavas e fumaças. E quem ainda não assistiu Fitzcarraldo, sobre um típico europeu civilizado tentando explorar e dominar a Amazônia? Riqueza semiótica, choque de signos, aquela cena em que o protagonista, interpretado pelo megalomaníaco Klaus Kinski, liga uma vitrola tocando a voz operística de Caruso em meio à selva brasileira…

Brian Eno, num álbum fantástico e inovador que me entusiasmou, lançado ano passado, The Ship – que grande experiência sonora! -, investiga esse signo através do caso do Titanic: construído como um grande feito do Homem diante da Natureza, como o mais perfeito navio de até então, como a maior invenção do Homem diante da Natureza, destruído de forma patética por ela.

Amargurado, impotente, o protagonista do último filme de Tarkovski, O Sacrifício, despeja um monólogo sobre guerras, corrupções e violências para o filhinho pequeno, e chega a citar Hamlet: words, words, words, e nenhuma ação. Quando descobre que seu filho sumiu na floresta, começa a chamar seu nome. O filho então o pega de surpresa, pelas costas, e o pai, dez vezes mais alto que a criança, dá um soco nela, por impulso inconsequente do susto. O nariz do filho começa a sangrar. O pai despenca, tonto, quando cai a ficha do que fez. A cena insinua qual seria a Natureza do Homem, por sua própria preservação? Há de fato uma “natureza humana”? Diante daquele famigerado debate entre Foucault e Chomsky disponível hoje em dia no YouTube, há quem dê risada de questões como essa.

Há pelo menos 1 ano, já estudando o assunto, me deparei com dois ganhadores do Prêmio Nobel que nos oferecem estofo formidável a respeito desse tema.

Teólogos e filósofos da Europa ficaram perturbados com o terremoto de Lisboa que citei acima. Começaram a se perguntar se Deus realmente era bom (quando a questão primordial é saber se ele existe mesmo), já que tantas crianças e mulheres e homens indefesos morreram covardemente. (O que eles diriam daquele tsunami na Indonésia, nos anos iniciais deste século 21?!…) Acho que foi Voltaire quem escreveu, visivelmente abalado (palavras da minha memória): “Por algum acaso Lisboa tem maiores vícios e pecados que Paris?! Por que lá e não aqui?!”

Pois bem. Mais ou menos na mesma esteira e corrente de pensamento atônito diante da Natureza, Prigogine e Monod, ambos químicos ganhadores do Nobel, assumiram posturas díspares em relação ao mundo, à natureza, ao inconcebível universo, para além de conclusões metafísicas, religiosas ou de fé que não nos permitem cavar mais fundo.

No seu livro O Acaso e a Necessidade, Monod argumenta que a aliança que o Homem tem com a Natureza, desde o período neolítico até o marxismo, não passa de projeção animista da natureza e que, na realidade, o Homem nada tem a ver com o Universo, surdo-cego-mudo em relação a seus anseios, prazeres, paixões e até mesmo em relação a seus crimes. O Homem precisa se conformar que é um cigano cósmico sem contrapartidas na Natureza. Precisa se conformar com sua radical solitude. Monod, assim, nega as alianças que todas as religiões, primitivas e modernas, e, posteriormente, que todas as ideologias, quiseram fazer entre Homem e Natureza. Isolados, ciganos, errantes, resta a nós, Homens, fazermos da nossa razão e do nosso conhecimento científico a medida de nossa ética.

Prigogine discorda diretamente de Monod. Num livro justamente intitulado A Nova Aliança, diz que o Homem não é um cigano cósmico, como o outro afirmou pessimisticamente, porque podemos fazer escuta poética do universo, já que o fenômeno da vida não é raro na Natureza, mas frequente, seja nas estruturas dissipatórias onde há suspensão da entropia ou em constantes fenômenos semelhantes ao da vida. Assim, conclui Prigogine, o Homem não é solitário: é participante, ele tem uma condição participatótia em relação à Natureza. Daí a sua Nova Aliança.

Como de costume, a simples existência dos extremos ou de dois pontos de vista antagônicos me fascinam, como se o grande barato fosse passear pelos dois vez ou outra.

Termino ecoando a frase arrepiante do Strauss, de novo: tenhamos cuidado com o mundo, porque ele começou sem nós e é bem capaz de também terminar sem nós.

PS.: Esse texto, irregular, defeituoso e sem revisão, foi escrito às pressas (PELO CELULAR, AINDA POR CIMA, CONTRA O TRADUTOREVISOR AUTOMÁTICO E COM TECLINHAS PEQUENAS INSUPORTÁVEIS), apenas como uma forma de anotação pessoal, um despejar ansioso a respeito dessa temática que tem me inquietado de forma íntimartistíca, porque estou escrevendo um filme e dois livros de ficção a respeito, com todas essas referências…

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