A questão do dinheiro (Renda Básica Universal, de novo)

Tirando o consumismo, a mercantilização da vida e das relações, o aperto brasileiro cotidiano e a luta subserviente por sobrevivência que ele tem representado, dinheiro é bom e eu gosto, sobretudo quando entro numa livraria.

É bem possível que exista uma energia intrínseca ao dinheiro, mesmo que isto não passe de invenção e/ou construção social, ou uma qualidade de valorização e desvalorização do dinheiro, na medida em que ele muda ao longo dos tempos, com a passagem dos rótulos (libra, euro, réis, real). Parece que o matemático ganhador do Nobel, John Nash, estudava isto de forma mais aprofundada no fim de sua vida.

Sim, mas sou adepto da seguinte filosofia: ou todo mundo tem ou se abole o dinheiro. Como esta segunda hipótese (que tantos poetas e artistas e anarquistas sonhadores vislumbraram) é improvável de acontecer diante da axiomática financeira global e do capitalismo, reivindico, estudo, divulgo, sou entusiasta de algo provável, benéfico, viável: Renda Básica Universal: todo mundo tem direito a um salário incondicional para o básico: nutrição, moradia, se vestir, se manter sem precisar obrigatoriamente de um emprego.

Paul Mason e David Graeber, em seus livros, acham que este é o futuro do pós-capitalismo. Brian Eno crê numa “era de abundância”. Diante da inteligência artificial e dos atrasos óbvios do capitalismo, os governantes do mundo inteiro já começam a discuti-la e a testá-la. Eduardo Suplicy já escreveu 2 livros a respeito, tenta há anos articular no Senado e internacionalmente, e este será seu grande legado político – pena que, além dele, não conheço nenhum outro político brasileiro falando sobre isto. Há vários outros nomes pelo mundo que eu poderia citar, sobretudo diante de um futuro incerto e cada vez mais robótico. Holanda, Suécia, Noruega e outros países testam de forma cautelosa. A própria palavra usada lá fora, Basic Income, abrange até mesmo programas como o Bolsa Família, estudado no mundo todo.

Sei que agrada gregos e troianos: economistas neoliberais acham benéfico, pois é um fluxo de capital que não morre, que gira na sociedade; economistas solidários sabem que este projeto representa o fim da fome, da miséria e da pobreza. Consecutivamente, por tabela, vários outros problemas sociais urgentes são resolvidos: sabemos, pelo Atlas da Violência de 2018, que as cidades mais violentas são 9 vezes (9 vezes!) mais pobres que as menos; claro, diante do desleixo, da desigualdade, do abandono público histórico, da tirania cotidiana, da pobreza, da falta de dinheiro, da violência pungente do sistema, diante do status quo do atraso, o indivíduo muitas vezes não encontra outra saída senão devir criminoso. A direita fala em armar as pessoas, em investir num Estado cada vez mais violento, policialesco e militar, o que agrava ainda mais o assunto, o que gera ainda mais barbárie e caos, quando, na realidade, devemos tratar da causa, não das consequências.

Sabemos que dinheiro não falta, em impostos, recursos e outras fontes para que o projeto funcione em larga escala.

Eu vou além: isto significa uma mudança total de paradigmas e valores. A própria noção de homem muda. Hoje estamos capturados como numa ditadura. A menos que você seja privilegiado. Não que os empregos acabarão – as pessoas vão querer complementar a renda ou trabalhar num emprego que goste -, mas entrará de vez no projeto de uma vida humana a palavra Vocação. Com o básico suprido, você pode estudar e se dedicar ao que realmente faz sentido para você. Há, de imediato, uma sofisticação humana sem precedentes. Muda também a noção do trabalho e do trabalhar. Mesmo a noção de tempo muda – Marx (sobre a produção capitalista) e Bauman (sobre a vida no geral) e outros estudaram bem a noção de tempo e a noção de valor no capitalismo; estas noções mudam drasticamente, algo menos Cronos, mais Kairós.

SÓ RENDA NÃO FUNCIONA

1. Seria ingênuo pensar que o Basic Income, que a Renda Básica Universal, que o salário incondicional (como gosto de chamar) resolveriam todos os problemas sociais atuais. No caso do Brasil e de outros países, só renda não funciona: é preciso – entre diversas outras coisas! – uma democratização e remodelação, com ou sem Plano Diretor, do espaço urbano, rural, municipal, estadual, nacional, continental, global, para que bens, moradias e serviços estejam acessíveis às pessoas de todos os pólos: urbano, rural, centro, periferia. É preciso, também, repensar e insistir a questão da reforma política e agrária. Outra questão pertinente – até que ponto a Renda Básica Universal, mesmo resolvendo a pobreza e a fome, não altera o status quo díspar de concentração de poder e de riqueza em escalas nacionais e globais, com as multinacionais, com os monopólios, oligopólios e oligarquias. Quais políticas criativas resolvem isto? Hoje em dia, os presidenciáveis falam em taxar os super ricos e as grandes fortunas de forma mais honesta… A complexa questão dos meios de produção e do consumo. A questão também das grandes decisões globais e transnacionais serem tomadas por setores financeiros anti-democráticos: bancos mundiais, organizações mundiais de comércio, FMI e afins, e como resolver isto. É certo que uma implantação inteligente da Renda vai mexer automaticamente com todas estas questões, mas é preciso novos manejos em cada área e reformas específicas.

2. Também seria ingênuo pensar que resolveria todos os problemas humanos. Ainda que a Renda Básica Universal represente concretização de Dignidade e Liberdade, precisamos encarar alguns fatores filosóficos mais aprofundados. Este aspecto toca “mais embaixo” da questão, talvez este ponto, este parágrafo seja desnecessário, mas lá vai, só para não dizerem que sou utópico ou idealista sem pés no chão, sonhando com uma noção de “perfeição” e de “paraíso”… Na verdade, independentemente do sistema, a problemática do modo de existir não muda e, com ou sem um salário incondicional, é preciso investir na própria potência, numa vida intensiva e em devir. Com o básico suprido, não desaparece a outra miséria, a mais difícil de resolver, aquela que não depende de bens materiais, que, ao contrário, muitas vezes é causada justamente por eles, a depressão, a apatia, o tédio, a impotência, a falta de propósito, aquela miséria existencial que leva à morte em vida ou mesmo a suicídios em grandes mansões e vidas abastadas… (E, em relação às taxas de suicídio, os dados e índices mostram que países ricos e estáveis da Europa e mesmo os EUA não estão muito longe dos países pobres da África e Ásia. Mesmo o Brasil, sendo a sétima economia do mundo, tem altas taxas de depressão e distúrbios já na população jovem.) É algo a se ter em mente – um investimento filosófico e pedagógico para a vida e para as pessoas, além de renda (além de uma educação financeira). Não quero me aprofundar neste aspecto, até porque, saber se a vida vale a pena ser vivida nos levaria a Camus e, diante da axiomática atual (onde, na nossa sociedade global atual, riqueza e poder são sinônimos e ambos estão centralizados – “Socialismo para os ricos, Capitalismo para os pobres”, frase que sempre cito, conforme declarou Noam Chomsky numa entrevista que li meses atrás), faz mais sentido no momento reivindicar Renda Básica Universal contra crises e sintomas tangentes e diários e ser a favor de sofisticação humana e de Vocação do que exclusivamente filosofar sobre o modo de existir.

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