A musicalidade e o violão de João Gilberto, Baden Powell e Gilberto Gil

Dentre os diversos impactos trazidos pela bossa nova, está a maravilhosa tradição do músico solitário com apenas sua voz e seu violão. Já existia antes no mundo sertanejo e do folk, mas foi disseminada no Brasil cosmopolita e urbano, de modo muito diferente, pela bossa nova. Esse tipo de atitude, minimalista e despojada, é capaz de autenticar o talento vocal e musical do sujeito. Seria ele capaz de se sustentar sozinho? Seria ele capaz de dominar ritmo, melodia, harmonia, voz, técnica? Como um pintor sozinho diante de sua tela. Sem dançarinos, sem acompanhamentos, sem luzes, sem pirotecnias? Nu. O músico-cantor brasileiro teve de aprender a fazer isso. Esse emblema então tornou-se cátedro no mundo todo. Dois grandes expoentes desse estilo que podemos citar imediatamente: João Gilberto e Baden Powell, titãs dos mais influentes, criadores de estilos próprios, reconhecidos por toda parte do planeta.

João Gilberto

João Gilberto

Em qualquer arte, o signo novo reconfigura o que havia antes e possibilita novos caminhos que virão depois. Com a música popular brasileira não foi diferente. Influenciados por aspectos antigos e modernos do jazz americano e da música brasileira clássica e popular, Powell concentrou-se naquilo que ficou conhecido como afro samba, com técnica absurda e swingada, tocando rítmicas pouco exploradas além do tempo-contratempo, redecodificando a tradição popular e erudita do violão brasileiro, resolvendo essas barreiras, enquanto Gilberto, além de inventar uma nova forma de cantar – que possibilitou toda uma nova geração imprescindível pós-bossa nova explodida na era dos festivais, porque, até então, cantor brasileiro teria de ter a genialidade vocal operística de um enorme Orlando Silva, apesar de Noel e Mário Reis terem sido precursores, mas só levados a sério tempos depois -, é mais cerebral e meticuloso em seus tratos harmônicos e insuportavelmente contidos. Muito já se escreveu que ele redimensiona o violão, introduz harmonia seminal na canção brasileira através dos acordes dissonantes.

Baden Powell

Baden Powell

Já Baden Powell, segundo Guinga, é responsável pelo surgimento de um Yamandu Costa, de um Raphael Rabello, de um Hélio Delmiro e até mesmo de Guinga ele mesmo. Nessa entrevista para o Violão Ibérico, diz: “É um gênio. Não sei explicar. Deus deu tudo a ele. Aquilo ali nasce de 200 em 200 anos. […] Foi meu cliente, tratou de dente comigo, tocava num violão que eu tinha lá na clínica, pequenininho, todo sujo, ele chegava e tocava naquele violão, mas na mão do Baden ficava lindo. Ele era um predestinado.” Essa história lembra as histórias dos neófitos do jazz americano implicados com seus saxofones defeituosos e desafinados que viram poderosas armas de virtuose quando oferecidas aos saxofonistas veteranos… Foi assim entre Steve Coleman e Sonny Stitt, entre Phil Woods e Charlie Parker.

Engraçado comparar a influência exercida a partir de Baden e João. O primeiro, em músicos de vertente fortemente instrumental, entre o popular e o erudito: Yamandu, Rabello, Delmiro, Guinga, etc. O segundo, em cantores-violonistas (a lista é igualmente imensa). Isso tem alguma explicação? Talvez o fato da emissão de notas na voz de João e o seu impacto no panorama vocal do Brasil, que eu já escrevi no começo. Afinal, o que interessa em João são as canções. Baden sabia de suas limitações enquanto cantor, apesar de ter sido enorme melodista e compositor, e aqueles que se aproximam de sua música o fazem sobretudo por sua capacidade instrumental e sonora absurdas. Já os cantores, sobretudo os cantores-violonistas, todos beberam e bebem na fonte de João Gilberto, que deu aval para toda uma nova geração de cantores e músicos populares no Brasil (e no mundo) saírem tocando e cantando depois de o terem escutado nos rádios e vitrolas.

Gilberto Gil

Gilberto Gil

Entre esses, está Gilberto Gil, um dos “filhos” dos dois, dono de um violão de musicalidade ímpar e demasiadamente brasileira, que começou a tocar o instrumento aos 18 anos depois de ouvir “Chegar de Saudade”, deixando o acordeon em segundo plano. Ao citar Gilberto Gil, o senso comum, acostumado com uma ou outra música de letra e sonoridade bonitinha, não pensa da mesma forma que os músicos que o admiram; os músicos que o admiram sabem o real motivo pelo qual o coloco neste ensaio. Sim, Gilberto Gil ainda é um tanto quanto subestimado. Recentemente, por exemplo, numa conversa com Caetano Veloso (cuja influência de João Gilberto lhe é uma fascinação, uma prisão e uma libertação) e Tom Zé (que, apesar de entortar tudo de forma sublime, também sofreu como todos a influência joãogilbertiana), este último disse que tem enorme medo de Gil. Caetano então citou a musicalidade nata do parceiro, da qual inveja, e que acaba sendo demonstrada no seu jeito de tocar violão. E, antes disso, Tom Zé usou o termo “violão sinfônico”. Apropriado termo. Interessante notar essa mesma admiração mútua que Tom Zé e Caetano Veloso, cada um a seu modo, exprimem diante de Gilberto Gil, ambos reconhecendo que não possuem o mesmo poder de musicalidade que ele, nesta mesma conversa, chama de “vontade”.

Eu mesmo fiquei pasmo esses dias. Em dois curtos vídeos caseiros disponibilizados recentemente em sua página no Facebook, e possivelmente gravados por sua esposa Flora ou por algum(a) assessor(a) próximo(a), Gil, um pouco inchado, recém saído dos hospitais da vida, toca seu violão e canta. Espetáculo de simplicidade, maestria e beleza aquele negro de voz doce, sempre doce, que aquece a alma, a mostrar que certas utopias brasileiras já são vencedoras. O violão é, de fato, sinfônico. Ao ouvir o violão de Gilberto Gil, não só nessa mas em qualquer outra oportunidade, parece que estamos ouvindo mais de um instrumento. É impossível todas aquelas notas e harmonias saírem de um único violão! É som demais para apenas duas mãos, para apenas dez dedos. E, no entanto, é isso mesmo, a mágica se faz através do seu domínio musical absurdo do ritmo, melodia e harmonia. Cachos de som no ar. Toca com a maior facilidade. (E tudo isso sem falar sobre suas letras incríveis e seus discos conceituais de enorme importância, pois o assunto aqui é música música.) Ele se basta sozinho, como um João Gilberto e um Baden Powell. (Mesmo Caetano Veloso, em seus momentos solitários, assim como a maioria dos cantores-violonistas, precisa depender sobretudo de sua voz, da letra que está cantando e de suas intenções puramente intelectuais, muito mais do que de sua musicalidade, que em Gil é extremamente incrível e natural como em Baden e João. Em outras entrevistas, Caetano Veloso disse que Gil o influenciou enormemente, pois ele o assistia pela TV baiana.)

Num vídeo de anos atrás, ao ensinar em detalhes como se toca a canção “Esotérico”, Gil explica que utiliza uma técnica própria que imita ao mesmo tempo a martelada de um piano, as notas de um baixo e a melodia para a música. Tudo isso com apenas um violão. Neste mesmo vídeo, conta que Quincy Jones, depois de um show que o brasileiro fez nos Estados Unidos, foi lhe dizer como estava maravilhado com aquela música, perplexo em como aquele único violão poderia fazer tantas coisas ao mesmo tempo, tantos sons agrupados e emaranhados. Gil, modestamente, disse: “Pois é, Quincy, você foi um dos quais eu aprendi isso tudo…”

Baden Powell, Gilberto Gil e João Gilberto.

Baden Powell, Gilberto Gil e João Gilberto.

De fato, o jazz forneceu muito para a bossa nova – em termos de arranjo, harmonia e melodia – que, em contrapartida, também passou a influenciar o jazz. Augusto de Campos, em seus escritos dos anos 60 sobre música brasileira, especialmente no livro Balanço da Bossa (1968), registra a coragem da bossa nova em atualizar a música nacional com as conquistas do jazz, logo depois dando a virada triunfal na música brasileira para então tornar-se influenciadora dele. O poeta então cita João Gilberto como o grande ícone dessa influência, afinal, ele e Tom Jobim e outros foram aos Estados Unidos gravar. Powell também, concentrando-se sobretudo na Europa. Hoje em dia, João Gilberto e Baden Powell são símbolos mundiais de música de qualidade. Hoje em dia, qualquer Songbook americano tem música de Tom Jobim e João Gilberto. Hoje em dia, qualquer baterista de jazz precisa saber tocar a batida sincopada da bossa nova, atribuída por Jobim a Milton Banana.

Embora Gilberto Gil esteja além da bossa nova, assim como Baden Powell, ambos seguindo por caminhos onde a definição “samba” é mais apropriada, ele bebeu de ambas as fontes para construir o que se pode chamar, com todas as deficiências e amplitudes do termo, de música popular brasileira. Seja como for, o jazz, através da disseminação de consumo propiciada pela era Juscelino Kubitschek, com este país finalmente saindo de uma ditadura e entrando numa democracia (a propiciar intercâmbio cultural, embora logo viesse outro golpe para castrar e censurar a arte), o jazz passou a frequentar as casas brasileiras, a influenciar Pixinguinha, Cartola, João Gilberto, Baden, aquele pessoal todo que logo então serviu de inspiração para o jazz, justo no momento em que o gênero entrava em crise por causa do rock do final dos anos 50 e início dos 60…

Termino dizendo então que, por tudo isso, o violão tornou-se instrumento nobre na música brasileira e que existe em Baden, em João, em Gil e em todos esses outros excepcionais violonistas certa força criativa e inovadora a nos atestar que não poderiam ter nascido noutro lugar senão aqui, pelas complexidades enriquecedoras e particulares da história dessa nação, e a nos dizer em alto e bom som que o Brasil é lindo, poderoso e genial.

PS. Preciso estudar e ouvir mais Paulinho Nogueira e Garoto, dois violonistas influentes que prometo não esquecer – este último, inclusive, tendo influenciado os três que tratei neste ensaio, tanto João quanto Baden e Gil. Mas há muitos outros mais para discorrer: citei Yamandu, Rabello, Delmiro e não escrevi sobre eles. São tantos nesse imenso Brasil… Sorte a nossa!

Comments

  • Lindo texto.Infelizmente eu não tenho ouvido de músico,apenas aprecio a massa sonora dos arranjos.

    Ademar Amancio 10 de outubro de 2016

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