Trecho de “Loucura e Literatura”, texto inédito de Michel Foucault em português, traduzido por Fernando Graça

MESES ATRÁS, COMECEI A TRADUZIR TEXTO INÉDITO DE MICHEL FOUCAULT EM PORTUGUÊS, CHAMADO “LOUCURA E LITERATURA”. NÃO RECORDO SE É UM TEXTO DE PRÓPRIO PUNHO OU TRANSCRIÇÃO DE UMA DE SUAS AULAS ORAIS. INFELIZMENTE, POR DIVERSOS MOTIVOS, DEIXEI A EMPREITADA DE LADO. TALVEZ RETORNE À TAREFA OUTRA HORA. COMPARTILHO, ABAIXO, O QUE TRADUZI ATÉ AGORA, ENCONTRADO HOJE NUM BLOCO DE NOTAS DO MEU COMPUTADOR:

Não há sociedade sem loucura. Não é que a loucura seja inevitável ou seja uma necessidade natural, mas não há cultura sem divisão. Quero dizer que uma cultura não se diferencia unicamente em comparação com as outras (frente a elas), mas também no interior de seu espaço, de seu próprio domínio: toda cultura estabelece limites.

Não penso apenas no permitido e no proibido, no bem e no mal, no sagrado e no profano. Penso nesse limite escuro, incerto, mas constante que transita entre os loucos e aqueles que não o são.

Agora, esse limite passa por onde e concerne a quem?

Os sociólogos e etnólogos oferecem resposta simples e óbvia: os loucos são os desajustados, os desviados, aqueles que não agem como todos os outros. Esta resposta é cômoda demais, pena que seja profundamente insuficiente e que não dê conta do caráter sempre singular e diferente das medidas pelas quais uma cultura define a loucura.

Se a resposta dos sociólogos fosse verdadeira, a loucura seria uma variante mais ou menos atenuada, mais ou menos estranha, do crime.

Na verdade, é certo que a loucura é muitas vezes associada a condutas de culpabilidade e culpabilização.

Mas não há sociedade, por mais primitiva que seja, que não distingua cuidadosamente os loucos dos criminosos. A designação dos loucos cumpre sempre uma fução social específica.

Essa função é exercida a partir da linguagem. A loucura é percebida através de uma linguagem e sobre o fundo da linguagem.

Houve uma grande crise na consciência européia da loucura: foi ao redor de 1820-1830, quando se descobriu a loucura sem linguagem, sem delírio, a loucura muda dos gestos e do comportamento. Crise surpreendente onde a distinção dos crimes e da loucura se embaça repentinamente, desafiando a maioria das práticas penais, introduzindo usos penitenciários nos asilos.

Na verdade, a psicanálise restabeleceu o conceito tradicional de loucura, mostrando que é sempre mais ou menos uma linguagem, e que o que se oculta abaixo dos transtornos da conduta segue sendo um transtorno expressivo. Em seguida, se descobre um fato velado até então para os sociólogos: que a linguagem, no interior de uma sociedade, é um espaço de proibições privilegiadas e particulares, um domínio no qual se estabelecem partições singulares.

O mesmo se sucede na linguagem e na sexualidade: como não existem sociedades em que todos os comportamentos sexuais são permitidos, e em todas elas há transgressões, também não há culturas onde toda a linguagem seja permitida, e em todas elas há transgressões na linguagem. E a loucura é, sem dúvida, uma delas.

A loucura é uma outra língua.

No entanto, devemos notar várias coisas:

A primeira é que a loucura exerce fascinação estranha sobre toda a linguagem: há literaturas sem amor, sem trabalho, sem miséria, algumas inclusive sem guerra, mas não há nenhuma sem loucura e morte. Como se a literatura estivesse vinculada, no geral, ao que constitui insanidade e morte.

A segunda é que esta ligação é curiosamente um vínculo de imitação e repetição. É estranho constatar a afinidade temática na literatura, nas lendas, folclores, entre a loucura e o espelho:

nos tornamos loucos porque nos olhamos num espelho
passe um tempo diante do seu espelho e verás o diabo
a forma típica da loucura consiste em se ver ao lado de si mesmo
(Dostoiévski, “O Duplo”)
ou ainda, o louco é como um espelho que, ao passar diante das coisas e pessoas, [expõe] sua verdade (“O Idiota”, os loucos no teatro de Shakespeare)
ou também (embora não seja uma variante do mesmo tema), o louco é aquele que perdeu sua imagem (Maupassant)5, aquele que se desdobrou (Dr. Jekyll)6.

A loucura é algo que tem a ver com o duplo, o mesmo, a dualidade partida, o analogon, a distância intransponível do espelho, enquanto que nas sociedades é a diferença absoluta, a outra linguagem no interior da linguagem, representada como a mesma coisa, verdade refletida, filme desdobrado.

O “Elogio da Loucura”7 é a verdade representada pelos homens.

Cervantes8 é a literatura mesma dentro da literatura.

O sobrinho de Rameau9 é a imitação universal (imita o músico, o filósofo, imita a dança, a natureza).

E, ao contrário, nestes loucos, nossa cultura busca uma imagem de sua linguagem. Na loucura de Hölderlin ou na de Roussel está, definitivamente, toda nossa literatura, tudo o que lemos.

Devemos lançar luz sobre essas estranhas relações de espelho e diferença, de limite e identidade entre loucura, linguagem e literatura. Talvez tenha marcado as cartas. Para tratar, não de resolver este problema, mas sim de avançar nele, escolhi dois exemplos que pertencem ao mundo do reflexo e do duplo, ou seja, ao teatro, e isso implica o risco de complicar o problema (multiplicando os espelhos) e também de simplificá-lo, prescindindo dos elementos estranhos.

(continua?…)

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