Violência urbana e desigualdade socioeconômica: tratar as causas

O “Atlas da Violência” de 2018, amplamente divulgado pela imprensa, mostrou essa semana que cidades brasileiras mais violentas têm 9 VEZES
(!) mais pessoas na extrema pobreza do que as menos.

O que isso significa, de forma socialmente FLAGRANTE, numericamente VISÍVEL? Que é preciso armar as pessoas, os “cidadãos de bem”, que é preciso investir ainda mais num Estado policialesco, investir numa segurança pública intrinsecamente violenta, truculenta, militar, investir nas mesmas táticas e estratégias de sempre contra o tráfico e superlotando prisões, enfim, que é preciso cuidar das consequências, como sempre querem a direita e a extrema direita do senso comum medíocre e da bancada da bala no Congresso e da indústria da violência, incentivados por programas de fim de tarde privilegiadores da notícia criminosa e disseminando a sensação de medo geral? É isso o que nós queremos pro nosso país e pro mundo? Que é preciso, então, instaurar a barbárie contra a barbárie, chover no molhado e se proteger trancado em casa? Que é preciso, enfim, tratar das consequências e ignorar as causas, fechar os olhos para as causas?

Não. Significa o que sempre escrevi aqui e o que estou escrevendo no meu livro “O que é ser de esquerda?”. Os dados comprovam que é preciso tratar não apenas das consequências, mas sobretudo das causas – sempre ignoradas pela direita -, isto é, tratar do atraso, da miséria e da pobreza, com políticas públicas que invistam na renda (Renda Básica Universal, por exemplo) e na oportunidade do exercício da vocação, na concretude dos sonhos, no desenvolvimento cultural e educacional e social, na jurisprudência construtivista enquanto aplicação de leis que ponham em prática os direitos da vida, em reformas que descentralizem poder e riqueza, que democratizem o espaço urbano-centro-periferia, e que resolvam consideravelmente a desigualdade, numa espécie de agenciamento amplo ou “plano diretor” nacional urgente a longo, curto e médio prazo.

Filosoficamente falando, diante da nervura pungente do dia dia, diante da tirania do cotidiano, da falta total de condições de sobrevivência, diante de um Estado historicamente afastado, desleixado, de um capitalismo e setor privado bairristas, centralizados, descompromissados, diante da falta de comida, de teto, de roupa, de afeto, de justiça, muitos não acham outra saída senão o devir revolucionário ou, neste caso, o devir criminoso. De nenhum modo fazer apologia ao roubo, ao assalto e muito menos ao assassinato; mas a fome, a desigualdade abismal, a precariedade material da existência, tudo isso também não é crime, tudo isso também não é violência? Um crime incessante, uma violência constante. A questão da índole inata é complexa, talvez insondável, suspeita até, do ponto de vista das construções sociais; a instrução, ao contrário, é um projeto possível: é preciso criar cidadãos, garantir a criação de gerações de brasileiros ativos com necessidades e dignidades básicas supridas.

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