Diferença entre lazer e ócio e a Renda Básica Universal

Lazer: seja num sistema comunista ou capitalista, é a recompensa de quem produz. Descanso. Hedonismo de captura, promessas mefistofélicas, prazer que preenche uma falta, uma apropriação do desejo platônico. Se você trabalha, tem direito a lazer. Distração. Banalidade. Um dos elementos chaves da mediocrização da vida pós-moderna: quem trabalhou a semana toda não quer pensar muito, quer Faustão, músicas ruins, redes sociais e suas besteiras, piscinas e praias, relações superficiais à lá Bauman, ou, se quer algo mais intelectual e espirituoso, sabe que infelizmente não poderá curtir muito, não vai poder se aprofundar, tem que pagar as contas, sobreviver. Inevitavelmente, tem um tempo cronometrado (o happy hour da sexta feira? o sábado e o domingo? férias? feriados?), sustentado por uma ilusória sensação de ócio, mas logo depois a pessoa volta ao trabalho obrigatório e maquinal, numa espécie de ciclo chamado rotina que Heidegger chamou de alienação. Se você não trabalha, não tem direito. O lazer pode propiciar a prepotência do “cidadão de bem”, de uma sociedade que privilegia o emprego ao invés da vocação, pode propiciar o fascismo da propriedade individual, favorece o setor privado com seus muros e barreiras, o modo de perceção focado no próprio umbigo.

Ócio: remete automaticamente aos gregos antigos, portanto, a um sistema aristocrático, onde existe quem produz e quem pensa. Os intelectuais, os filósofos, os artistas, a mente e o espírito (e o corpo físico-subjetivo) encabeçam a sociedade helênica; o corpo físico físico, os escravos estão logo abaixo, fazem o trabalho sujo, mas sem estes não há os primeiros. Todo ócio é criativo, porque não é um simples descanso. No ócio, a barriga está bem alimentada numa sensação de ad aeternum, a fome insaciável é intelectual e das coisas do espírito, a sobrevivência garantida. No ócio, existe tempo livre de fato, tempo de Kairós, não o tempo de Cronos, profundidade, autonomia, não há ciclo obrigatório a ser retomado: existe vocação. No capitalismo, o ocioso é visto como vagabundo, inútil, “não faz nada”; no comunismo também, você é o lúmpen, atrapalha a revolução, ou “se acha burguês”.

A solução para as barbáries sociais, humanas, implícitas e explícitas de ambos: Anarquismo? No nível prático, jurisprudência e política pública: David Graeber, Eduardo Suplicy e outros, ou seja, Renda Básica Universal e Incondicional (Basic Income), salário para cada um surprir as necessidades básicas, teto, comida, etc. sem, de um lado, precisar entrar na lógica mercantilista e obrigatória, sem, do outro, escravizar ou explorar, para se ter o básico de dignidade e sobrevivência humana. Permitir que os Kafkas de hoje não se debatam na cama, querendo escrever e se demitir do escritório opressor toda manhã, permitir que os van Goghs de hoje não dependam apenas do dinheiro dos Théos que os sustentam, permitir que a pensão previdenciária de Nietzsche seja uma realidade para os grandes homens se dedicarem à viagem, ao estudo e à sua vocação.

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