Aborto é questão urgente de saúde pública…

Aborto é questão urgente de saúde pública e, proibido ou não, é uma realidade incontornável. Os dados são alarmantes – defender a legalização e o acompanhamento de qualidade do aborto hoje em dia não é apenas defender o direito das mulheres e o direito individual, é defender também a vida de milhares delas à mercê das clínicas clandestinas. Só a mulher e a família podem decidir se têm condições e motivos socioeconômicos ou, mesmo os tendo, de qualquer outra ordem particular para ter um filho. Não interessa se é estupro ou não. Cientificamente falando, bebê: entre o segundo e décimo oitavo mês, recém nascido; criança: dos dezoito meses (1 ano e seis meses) até os doze anos de idade. Portando, na questão do aborto, até determinada semana da gravidez, estamos tratando de fetos anencéfalos ou nem isso. Quem quer demonstrar comiseração humana, filantropia cristã, defender a vida e outros valores, seja menos inculto e menos hipócrita, dirija-se aos milhares de orfanatos ou mesmo nas ruas do país e do mundo para formalizar uma adoção. “Ah, não tenho condições.” E quer obrigar quem também não tem ou não quer ter? Além de hipócrita, é machista. Filosoficamente falando, o corpo está alienado, até mesmo na linguística; dizer “o corpo é da mulher” pode ser também um equívoco, é alienar o corpo e permitir que legislem sobre ele: o corpo é a mulher, você é o seu corpo. Não cabe ao Estado legislar em nossas vidas neste e em todos os outros assuntos: teocracia e fundamentalismo da bancada da Bíblia não têm esse poder prático sobre os sujeitos, nem mesmo é legítimo, deve ser desmantelado, contestado e decidido popularmente. A hipocrisia do status quo: proibido ou não, continuará sendo feito, as pobres vão em clínicas clandestinas, correndo risco de vida, as ricas vão em clínicas particulares especializadas. Por tudo isso, esta é uma questão sobretudo de patriarcado estrutural (se a gravidez e a concepção estivessem biologicamente nos homens, talvez a história fosse outra) e flagrantemente uma questão de classe. Não é isso o que eu quero pro meu país. Rejeitar qualquer moralismo ou dogma extrínseco ou metafísica que feche os olhos para a realidade, que simplesmente queira vigiar, julgar e punir ao invés de resolver as urgências. Obrigação do Estado diante de uma gravidez indesejada: garantir uma saúde pública de qualidade, que envolva, inclusive, acompanhamento psicológico, para todos.

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