SOBRE A INTERVENÇÃO MILITAR NO RIO DE JANEIRO

1. Quando se fere o centro institucional de um país calcado numa conquista democrática, todo o resto fica desgovernado. Isto está sendo dito por vários, não só por mim. A cada semana testemunhamos abusos de poder e de autoridade em todos os setores e poderes deste país: executivo, legislativo e judiciário, se estendendo aos micropoderes.

2. É preciso desconfiar de toda e qualquer movimentação de bandidos, corruptos e oportunistas impunes que se arvoraram no poder pós-farsa do impeachment. Agem com despotismo e antidemocracia escancaradas, de costas para nós, a portas fechadas, sem consulta, referendo, plebiscito, voto, participação: são tantos atos neste sentido, praticamente semanais, denunciados até mesmo por estadistas íntegros que observam tudo de Brasília!

3. O caminho norteador para resolver problemas de segurança pública jamais será o autoritarismo militar ou a indústria da violência policial, que não passam de uma tentativa demagógica e cega de corrigir as consequências, não a causa: para se resolver problemas urbanos deste tipo é preciso criar projetos diversos entre governo estadual, municipal e federal, com o intuito convergente de resolver problemas socioeconômicas básicos, combater de vez a desigualdade com um plano diretor realmente eficaz, garantir instrução educacional de qualidade para todos. Investir e conhecer e resgatar as camadas marginalizadas do país com uma equipe competente, não só de militares, mas de educadores e empresários e empreendedores solidários. Se necessário, estudar planejamentos maduros e grandiosos de psicopolítica, reintegração e economia. Tratar da renda de cada cidadão — neste ponto, sou a favor de uma boa Renda Básica Universal — e da democratização do espaço urbano. Enfim, a “coisa” é muito mais difícil, gradual e muito mais embaixo! Mesmo com as consequências críticas sanadas, as causas continuarão produzindo danos se o modo de atuação não for totalmente modernizado e reformulado.

4. O autoritarismo, além de ser um velho modo de atuação destinado ao fracasso por tratar tão somente das consequências aparentes e superficiais, não passa também dum show de espetáculo, inclusive midiático, para enganar incautos conservadores, e de uma cortina de fumaça típico da direita, para desviar o foco; neste caso específico, desviar o foco da desforma da previdência do desgoverno Temer, praticamente fracassada, e do perigo lastimável de um possível cancelamento pelos três poderes, sobretudo pelo Congresso, das eleições diretas de outubro, garantindo desde já alguma força militar consistente contra qualquer resistência, já que a decisão da intervenção vale até o dia 31 de Dezembro.

5. Há quem ache esta última hipótese um delírio: sinceramente, é o que eu mesmo desejo, que não seja verdade esta tragédia! Mas se esquecem que a partir de agora tudo é possível para esta gente oligárquica, hegemônica que não quer arredar o pé do poder. É preciso defender com unhas e dentes toda descentralização de poder e qualquer participação direta da sociedade nas instituições políticas.

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