A ditadura militar foi burra em todos os aspectos

Exemplo entre inúmeros outros de como a ditadura, posta a partir de 64 e que durou 21 anos, até a segunda metade dos anos 80, foi burra e estimulou a burrice educacional: certa feita, conforme conta Antônio Abujamra em mais de uma entrevista, agentes da repressão chegaram no ensaio ou no dia da estreia de uma peça de Eurípedes, sendo montada em São Paulo, dizendo: “Onde está o autor?! Viemos prender o autor!” Kafka puro! Os restos de Eurípedes se remexeram no túmulo. É ridículo, no nível do cômico mesmo, do absurdo, deve ser ridicularizado, mas também muito sério, porque essa gente tem um certo poder, ainda que seja apenas físico e institucional. Quer dizer, além de institucionalizar a tortura, o assassinato, a prisão arbitrária, a repressão de todo tipo (que os “líderes máximos”, tipo Figueiredo e Geisel e os outros não só sabiam como permitiam, conforme documentos oficiais da CIA têm revelado nos últimos anos), além da censura, da cassação de direitos, do entreguismo dos patrimônios nacionais para o governo americano e para as multinacionais, o regime militar, a ditadura foi tiranicamente provinciana, inculta, intelectualmente estreita, educacionalmente alienada, culturalmente burra, apoiada por uma camada da sociedade brasileira também caracterizada por tudo isto. Eis a origem, um dos germes possíveis para a estupidez dos Bolsonaros e dos bolsominions, sujeitos estúpidos que se acham poderosos simplesmente porque acreditam mais na força militar do que na força da educação, da arte, da cultura e do pensamento. E que tremem de medo ao testemunhar qualquer sinal que prove a força e a potência subversivas delas.

Chamar essas pessoas de conservadoras é uma afronta, uma difamação do conservadorismo, não só a nível do intelecto, mas também porque defendem atrocidades e tiranias. São radicais, extremistas, mais do que simplesmente conservadores. E, no caso brasileiro, não são radicais nacionalistas, conforme a maioria deles pensa que é, vestindo camiseta da seleção, e como aqueles que defendem tipos como o Reagan (Chomsky mesmo diz em certa entrevista que os apoiadores de Reagan não são simplesmente conservadores, são radicais nacionalistas, porque Reagan defendia a força militar acima de tudo, apoiou o aparthaid da África do Sul, as atrocidades israeli no Líbano, e vários outros conflitos diretos que mataram milhares de pessoas). Aqui no Brasil, são, ao contrário, radicais entreguistas, capazes de bater continência para a bandeira dos Estados Unidos e permitir qualquer abuso do governo americano em terras nacionais, como a que houve a partir de 64.

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