Hamlet e Quixote e Pessoa e Eu

no ato I, cena V, movido por vingança e senso de justiça, num castelo tenebroso de frente para o mar revolto e em terras frias, diz Hamlet, com palavras melhores, num lamento: “o mundo está em caos, maldita sorte a minha, por que nasci para colocá-lo em ordem?!”

no capítulo XIX, movido pelo tédio, em terras secas e pedregosas, diz Quixote, seu contemporâneo de zeitgeist renascentista, noutras palavras, não sei se desatinado ou patético: “meu dever é andar pelo mundo endireitando tortos e desfazendo agravos.”

símbolos sociais, antagônicos e convergentes, recados implícitos do bardo inglês e do literato castelhano. por enquanto, contento-me em não mudar nem a mim mesmo… e, conforme escreveu meu xará lusitano na obra de um dos seus heterônimos, “venha o que vier: nada será maior que a minha Alma.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *