ENQUANTO ESCREVO MEU LIVRO…

Ninguém pode imaginar o prazer inestimável, a angústia e a sensação de impossibilidade que tem sido escrever meu livro Terra e Flutuação: Brasília. (Ao citá-lo, já vou lançando involuntariamente o título — horroroso? bom? — no Google…) Ninguém senão outros escritores de verdade. Ai das olheiras, das noites em claro, das manias, viva as férias acadêmicas e uma farta tradução que fiz que me garantiu um bom dinheiro para folgar dois ou três meses!…

1. Chega o momento em que acho o livro maior do que eu mesmo e do que a minha própria vida, o momento em que penso ser impossível continuar, apesar de já ter planejado metodicamente (e simetricamente também) os trechos. (A ideia inicial de escrever um livro de 500 páginas, com o Grande Sertão ao lado do meu travesseiro, já foi descartada: desvario laborioso, desnecessário também, pura vaidade megalomaníaca. Como aquele, existem trechos em prosa poética, porém o livro será bem mais conciso, e, em termos de estrutura geral, mais intrincado e perspicaz, porque não se trata simplesmente dum monólogo inteiro — não posso revelar muito, mas, para isso, me sirvo, dentre outros, de alguns livros “ramificados” que Jorge Luis Borges inventou, detalhou, mas não escreveu.)

2. Chega o momento da angústia, por causa da temática nacional, retratando e tocando de forma escancarada e explícita — às vezes com crueldade, às vezes com ironia — aspectos muito difíceis (e necessários) deste país e do Homem em geral, visto que ambas as coisas me tocam profundamente; e há uma outra angústia, da técnica, de como escrever, de amadurecer o estilo, a angústia da página em branco ou de continuar costurando o texto, do ponto onde parei, ou de qualquer outro ponto do arquivo caótico…

3. Há também o momento de escrever com extremo gozo estético, é o momento do prazer inestimável, como eu disse, provavelmente quando encontro soluções, entradas e saídas, quando tenho insights, quando testemunho que a escrita e a Literatura são minhas principais vocações, e principalmente quando consigo resolver a complicada dicotomia discurso intelectual x ficção literária, que — não raro — bloqueia a nossa inspiração e o fluxo natural e compromete a obra.

Enfim, todos esses momentos, que se misturam, são, na verdade, armadilhas que impedem o término do livro. Aqui, o processo não pode ser sempre mais importante do que o resultado, porque o processo pode virar infinito e o que faz uma obra de arte ser uma obra de arte é exatamente o seu trato com a entropia. Seja qual for a sensação, se eu me perder nela, não acabarei nunca. Psicólogos e psicanalistas dirão que escrevo este relato justamente como forma de identificá-las e organizá-las para eu não me perder, para ficar em alerta…

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