SEXO

(Que estranho colocar escritos íntimos aqui, mas vou morrer um dia, meu espólio será devassado do mesmo jeito.) Porra! Que puta descoberta eu tive! Que insight madrugada adentro! Vai ver Freud tinha mesmo razão… E eu, que sempre preferi Jung, estou começando a reconsiderar e concordar… Eis a verdade – não consigo viver sem sexo. Mais do que isso – é a causa e solução de muitos problemas meus, amorosos inclusive. Até então eu não tinha percebido. É crucial para minha vida, para minha obra, para minha criatividade, para minha arte e pensamento. Como também era para Picasso, o gênio cubista que, conta a lenda, de fato tinha um picasso e sofreu horrores quando, já velho, fez cirurgia da próstata e ficou impotente, logo infeliz e depressivo. Inacreditável pensar que meu xará, aquele que mais releio, o Pessoa, poeta sem precedentes na Literatura, por desejos homossexuais, bissexuais reprimidos, morreu virgem, como tantos outros gênios. (Numa carta, ele, mais ou menos familiarizado com Freud, chega a insinuar que sua arte era fruto da sua parcela feminina em contato com a parte masculina mental, ambas – analiso eu – com certeza contidas, castradas, logo despejadas e canalizadas ao máximo na obra, não na cama: não à toa ele foi prolífico, quase infinito; chegou a se proclamar “histero-neurastênico”, e, como muitos sabem, a histeria, lá naqueles primeiros e inovadores estudos freudianos, está relacionada à repressão sexual.) E eu? Ninfomaníaco ou não, essa é a verdade: sentimental, emotivo, sensível, claro, mas sexo é fundamental, e melhor ainda quando envolve tudo isso, o sentimento. Não, não com qualquer um. Seletivo até nisso. Mas me custa caro, se estou num relacionamento e a pessoa não entende. “Vênus em Gêmeos é mulherengo, homerengo” – me basta uma só pessoa, amante minha, mas tem de haver certa frequência, constância, e serei todo fiel. Ou, então, termino como um Don Juan sem rumo ou, como Picasso, entro em depressão. Ter um relacionamento é central para mim dentro da minha vida. Sexo é central para mim dentro de um relacionamento. Talvez tenha sido esse, só esse, o problema de alguns relacionamentos meus. Discussões, brigas, mágoas, tudo em vão, quando (começo a desconfiar) o problema era a falta de sexo com quem sinto atração e gosto e amo. E há inúmeros obstáculos contra o sexo. Ao mesmo tempo, ele pode resolver todos. Porque, nos ensina Valéry, o mais profundo é a pele, e no sexo está implícito ou explícito o toque, o contato mais íntimo com o amor, e o deus Orgasmo. O Prazer, meu Deus, no bom sexo está o Prazer, foda-se o resto! Que alívio entender isso!… Provavelmente 24 anos (minha idade) de terapia não me revelariam tanto – vantagens da escrita… Tantos desentendimentos bobos! E uma única solução, simples. É como a última palavra da última cena do último filme do Kubrick, em que Nicole Kidman caminha ao lado do marido Tom Cruise, ambos numa puta crise por conta de desconfianças, ciúmes, desejos extraconjugais, puladas de cerca, e o incômodo deles é visível, torna-se presente na gente, a filhinha ingênua de um lado pro outro na loja de brinquedos, alheia àquela dor desconfortável, quando, depois de ambos mutuamente concordarem que se amam e que querem continuar juntos, de repente ela, a Nicole, maravilhosa e sábia, rompe o silêncio e (genial partir de uma personagem mulher) diz para ele: “Sabe, existe uma coisa que precisamos fazer que não fazemos há muito tempo…” Ele, tonto, pergunta: “O que?!”
E ela: “Foder.” Fim.

Comments

  • Eu cheguei a pensar que você fosse assexuado,você era bem fechado sobre o assunto,deve ser pela pouca idade,com o tempo a gente vai se abrindo.Eu já fui viciado em voyeurismo e masturbação,hoje eu tento me controlar.

    Ademar Amancio 15 de agosto de 2017
    • Assexuado, eu? Sou promíscuo.

      Fernando Graça 15 de agosto de 2017

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