Fazer Filosofia é lidar com problemas e criar conceitos

Dias atrás, publiquei no meu blog, e divulguei aqui, texto que deu o que falar, criticando Leandro Karnal, Mário Sérgio Cortella, Márcia Tiburi, Luiz Felipe Pondé, Olavo de Carvalho e afins.

Recomendo que leiam ou releiam aquele texto tão sincero, para alguns violento, mas senti necessidade de me aprofundar na questão.

Primeiro, gostaria de repetir que nem todo professor de filosofia é filósofo: o professor de filosofia, em toda a dignidade e importância de sua profissão e missão, expõe diversos sistemas de pensamento, geralmente ao longo da história, e expõe os problemas e conceitos filosóficos alheios.

Um autor famoso, cujo nome lembrarei daqui a pouco (americano?), sabia disso, e escreveu algo a respeito que um aluno meu me enviou dia desses, mais ou menos assim: “No futuro teremos só professores de filosofia, ao invés de filósofos.” Nenhum demérito desta digna profissão da qual defendo sempre, aliás, há grandes filósofos que são também professores, mas tal distinção importa bastante, pois se confunde muito por aí.

Qual é a diferença básica? Como diria Deleuze no Abecedário e no livro O Que é a Filosofia, escrito com Félix Guattari, ser filósofo e fazer filosofia é tarefa difícil, porque demanda dupla atividade sempre interconectada: lidar com problemas, criar conceitos. Todo filósofo de verdade lidou com problemas, criou conceitos. Considera questões e problemas, conceitua, com estilo e método próprio. Ou seja, além de tratar, e muitas vezes expor os sistemas de pensamento como um professor, ele também cria novos conceitos, lança mundos no mundo.

Um conceito novo, diga-se de passagem, às vezes demanda nova terminologia ou reapropriação (infelizmente terei que ser breve nos exemplos e limitá-los, apenas para entenderem: “begriff” em Kant ou Hegel, “Dasain”, “Ser aí” e “Sein-zum-Tode” heideggerianos, “tempos líquidos”, “modernidade líquida” em Bauman, “biopolítica”, “micropoderes” em Foucault, “rizoma”, “desterritorialização”, “máquinas desejantes”, em Deleuze/Guattari, o “übermensch” nietzschiano), ou às vezes se refere aos grandes conceitos já mais ou menos estabelecidos na língua e no senso de todos, àquelas palavrinhas tão conhecidas, e o que possa haver de novo nelas, amor, Deus, desejo, vida, homem, etc: há, por exemplo, um conceito de desejo em Platão, muito diferente do conceito de desejo em Espinosa – só para citar bem poucos exemplos dentro de área tão ampla e construtivista como a Filosofia… Talvez o grande conceito sem precedentes de um pensador como Marx, por exemplo, tenha sido o de materialismo histórico, além de suas análises sobre sociedade e capitalismo.

Aqueles que eu citei, no entanto, não têm conceitos originais, são achistas — retirando Karnal, que é professor de história e provavelmente não tenha este compromisso, embora minha crítica tenha sido a de que, como Cortella e Pondé, ele também é mercantilista, ou seja, vive de aplausos e de palestras dinheiristas, com frases fáceis, superficiais, que sempre vão cercear qualquer pensamento mais corajoso, onde a última coisa que fruimos é filosofia. Cortella, repito, era melhor como mediador do Diálogos Impertinentes; hoje, escreve livros fracos que disputam os mais vendidos com os de autoajuda e “motivação” (palavra linda, mas prostituída pela mediocridade)… Pondé é achista, como a Tiburi, e insuportavelmente insuportável, oco, perda de tempo. Nenhum desses tem obra filosófica de peso — lembremos, só para meus colegas esquerdistas ficarem menos desolados, que Marilena Chauí, como vários outros intelectuais de esquerda no Brasil, tem! Olavo de Carvalho, conforme escrevi em longuíssimo parágrafo naquele texto, tem pseudoconceitos: é um farsante, um charlatão. (Não vou repetir minha crítica contundente e minuciosa em relação a este youtuber sênior: mas pretendo lançar um vídeo no meu canal sobre seus pseudoconceitos, suas falácias e farsas, contra todo o conservadorismo preconceituoso de seus seguidores. Um dos olavetes, inclusive, que me acompanha respeitosamente e com interesse, tem cobrado com entusiasmo este vídeo.)

O que eu quero aprofundar neste breve comentário é que a Filosofia, ao lidar com problemas e criar conceitos, não se resume a achismos, a opiniões, pois achismo e opinião matam a Filosofia e o pensamento. Qualquer um pode achar tudo, ter opiniões sobre tudo. Isso não interessa. Basta achar e ter opinião para acabar com a discussão, com o diálogo e cada um virar as costas. O que interessa, para o pensamento e para a Filosofia, é quais problemas e questões levantar e quais conceitos criar e lançar no mundo.

Darei um outro exemplo concreto. Entre os vários conceitos de Leibniz, o conceito da mônada merece destaque. Ele não criou este conceito do nada. Nenhum filósofo cria do nada: parte sempre de uma necessidade intelectual, espiritual, física, vital! Todo conceito nasce de um problema. Qual é o problema por trás do conceito da mônada? É preciso investigar. O próprio Deleuze o fez, no livro A Dobra: a mônada pode ser um sujeito num espaço reduzido que contém em si a infinitude do universo. Este conceito advém das dobras no barroco, que tanto perturbou Leibniz e outros: a vida está dobrada, tudo é dobra da dobra, ao infinito, até sentimentos, pensamentos, sensações. Como um ponto matemático atravessado por infinitas linhas, caótico como um quadro de Pollock. Mas, neste caos, ou no infinito (vide o triângulo de Pascal), existe algo de único, existo algo de mônada: é o ponto de vista. Este é o barato da filosofia, o insight, a “ficha que cai”, o eureka, a iluminação! Borges, leibniziano, usou esta ideia em vários contos, notavelmente n’O Aleph…

Outro exemplo. Nietzsche, sobre o qual me debruço sempre, tem uma enxurrada de conceitos. Subitamente me lembro do camelo (“tu deves”), leão (“eu quero”) e criança no Zaratustra. São conceitos, e, aliás, conceitos que se misturam na ficção e na poesia (perceptos), porque Nietzsche, além de filósofo, foi grande poeta. Há também em sua filosofia o conceito de suprahomem, já citado, de vontade de potência (que ele pega de Schopenhauer, mas o lança para outra direção totalmente diferente e contrária), de padre judaico-cristão (é um conceito filosófico, pois ele viu antes dos etnólogos), de romântico e dionisíaco, de apolíneo e dionisíaco, de devir, de eterno retorno, de moral e moralismo (que ele destrói o tempo todo), conceitos sobre a fisiologia da arte (estética inovadora sobra a qual escreverei um livro), sobre o corpo, sobre uma “transmutação total dos valores”, sobre Deus (“…está morto”, e por que está morto, e o que fazer por estar morto), enfim, a lista é longa, mas, para resumir, através do problema dominante da transcendência, Nietzsche, como Espinosa o fez de forma mais sublime e menos iconoclasta séculos antes, aposta em argumentações e conceitos de imanência.

E os cientistas? Derivo de Deleuze: no Abecedário, diz que, assim como filósofos lidam e criam conceitos, cientistas, matemáticos, físicos, biólogos e afins criam ou procedem “funções” (talvez haja algum termo melhor do que este por aí?), enquanto que na arte afloram os perceptos.

Os grandes artistas, poetas e escritores, embora não sejam necessariamente filósofos, criam perceptos, obras, personagens, ideias que quase esbarram nos conceitos. Há diferenças semióticas, às vezes tênues demais. São perceptos: conjuntos de percepções e sensações que vão além daqueles que a sentem. Guimarães Rosa, por exemplo, provavelmente o escritor mais sábio do mundo. Machado de Assis estudou muita filosofia no seu tempo e isto é explícito em suas obras: há até a criação duma “nova filosofia” em Quincas Borba, carregada de ironia, sarcasmo e paródia, além daquele interessante percepto-conceito de “alma exterior” em um de seus contos. Fernando Pessoa: certos versos, certos heterônimos são personagens-perceptos-conceitos puros! Burroughs tem um livro chamado “sociedade de controle”, que Deleuze se apropriou para criar este conceito, fazendo uma linha, uma costura com as análises de Foucault a respeito da sociedade de soberania e sociedade disciplinar. Artaud e o seu corpo sem órgãos: percepto, conceito prático!

Eu mesmo, me dividindo entre os dois pólos, arte e filosofia, preciso constantemente me debruçar nestas questões, e é semioticamente óbvio para mim suas características específicas, apesar dos encontros possíveis e tão enriquecedores. Ao mesmo tempo, enquanto filósofo, e diferentemente daqueles supracitados, busco lidar com problemas e CRIAR conceitos.

Ao contrário do que se possa pensar com este meu texto, conceitos não são sistemas de pensamento meramente abstratos e intelectuais. Se são criados a partir de problemas e questões que nos atormentam, só podem ter a força concreta de um fogo ou de um oxigênio! Quem há de negar o poder específico da Filosofia, assim como há poder também na Arte e na Ciência? Há conceitos tão poderosos que são capazes de pôr em xeque ou até mesmo destruir qualquer formação social, qualquer estrutura dominante, qualquer mecanismo de poder! São um patamar existencial sobre o qual o filósofo chega e sem o qual não pode viver. Há filósofos (e leitores) que morreram ou enlouqueceram por causa de um conceito! Todo filósofo vive substancialmente por causa de um ou mais conceitos e é transformado por eles.

Quem dera haver um dia um elencar quantitativo dos filósofos, com uma relação de quantos conceitos cada um criou e quais problemas envolvidos! Seria infinitamente fascinante!

É isso. Por enquanto.

Comments

  • O Karnal é professor de História,mas suas palestras tem ”caráter filosófico”,ao menos são vistas assim.Quanto ao professor de filosofia dizer que é filósofo equivale a um professor de literatura dizer que é escritor.

    Ademar Amancio 22 de setembro de 2018

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