Nos despedimos numa das esquinas de Niterói…

Nos despedimos numa das esquinas de Niterói.

Tínhamos acordado juntos em meu quarto de hotel no centro do Rio, fomos pedalar juntos na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde tiramos uma bela foto, e você quis me mostrar o Museu de Arte Contemporânea projetado pelo Niemeyer na sua cidade natal. Nada me impressionou muito. Tive o desdém de quem naturalmente nasceu e cresceu noutro litoral – e, ainda por cima, paulista, em Santos, cujo extremo geográfico também tem uma obra em curvas ao mar: da Tomie Ohtake…

Fiz questão de te acompanhar até a rua da sua tia. Longa caminhada. Quase mudos. Na esquina derradeira, nos beijamos; nossos paus ficaram duros e você fez um rosto de moça envergonhada. Chamou — meu celular estava sem bateria — o carro que me pegaria e que comigo atravessaria de volta a Ponte Rio-Niterói, levando-me de volta ao meu hotel no centro do Rio, onde, mais tarde, eu deixaria a cidade para retornar para minha kitnet em São Paulo, bem no Largo de Santa Cecília.

Te dei um beijo final, querendo você mais do que nunca, e esperei que me perguntasse quando nos veríamos de novo. Você perguntou. Devo ter feito um ar falso de indiferente, devo ter deixado uma dúvida no ar. Corri até o carro, que tinha se perdido a alguns metros. Antes de entrar, olhei para trás e acenei com a mão e enviei um beijo para você, que me olhava parado ao longe. Não lembro se me acenou de volta.

Não nos vimos mais desde então. Passamos um mês sem qualquer mensagem ou ligação. Muitos pensamentos e memórias que tivemos também no labirinto de São Paulo, dos dois dias no Rio e das horas em Niterói. Na minha espera impaciente de uma resposta tua, me perguntava se você também esperava impacientemente uma resposta minha. Tive saudade, depois raiva, depois orgulho próprio, depois recidiva da paixão, depois desespero. Tomei a iniciativa de ligar e terminamos de forma patética por telefone, por ciúmes seu, quando cometeu a burrada de perguntar se, nesse um mês de separação e ausência, eu teria ficado com outro ou com outra, e eu cometi a burrada (sincera) de dizer que sim (para suprir tua ausência), e você cometeu a burrada de desligar, e eu cometi a burrada de não me desapaixonar.

Pedro: aqui mesmo ou noutro tempo-espaço algum dia reataremos — na esquina, na kitnet, no quarto de hotel de qual cidade? — nosso beijo e nos perguntaremos se alguma vez, numa cidade que se perdia no litoral ou no planalto, fomos Fernando e Pedro: Fedro…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *